Macho (Quase) Man

Comentei, em outros textos, que faltam boas atrações de humor na TV aberta brasileira. Já não se faz um casal tão divertido quanto o de Os Normais ou sátiras realmente boas como as do Casseta e Planeta Urgente dos primeiros anos (estes que, inclusive, perceberam que perderam sua força e, sabiamente, penduraram as chuteiras). Mesmo os programas que poderiam se destacar, como CQC ou Legendários, que mesclam humor com jornalismo – ou pelo menos, tentam – acabaram se perdendo ao longo do tempo e não tem o mesmo potencial. E é nesse marasmo que estreou na última sexta-feira (8) o humorístico Macho Man, mais uma tentativa da Globo de alavancar um gênero em constante queda. E ao que tudo indica vai continuar assim.

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O roteiro do programa conta as peripécias do homossexual Nelson, que após uma pancada na cabeça, descobre que deixou de ser gay e passa a se interessar por mulheres. Acompanhado por sua amiga ex-gorda Valéria, ele passa por algumas situações do mundo heterossexual que são novas para o ex-gay, agora atormentado por perder a personalidade que o acompanhava desde criança.

A trama, em si, já é meio duvidosa, pois levanta uma questão: existe ex-gay? Bom, se há ou não, não é este o ponto que quero discutir aqui. Mas o acidente que teria transformado Nelson em heterossexual foi, no mínimo, bizarro – afinal, levar uma botada no meio da boate, mesmo GLS, não é algo muito comum. Mas se o roteiro é meio furado, o elenco não é diferente.

Jorge Fernando se sai melhor como diretor. Fato. Pode até ser que ele tenha criado esse tipo tendo em vista que se trata de um humorístico, mas Nelson não é uma criação magnífica. Primeiro porque Jorge tem as mesmas caras e bocas de todas suas personagens (e também do seu próprio jeito alegre e descontraído). Depois, e pior do que isso, mais uma vez somos apresentados a uma personagem estereotipada. Pois é, a Globo faz isso como ninguém.

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Todos os tipos do universo GLS que o programa apresentou são estereotipados. Do protagonista até o segurança da boate, todos possuem as mesmas características – que muitas vezes não correspondem à realidade deste mundo. Se a tentativa dos roteiristas ao criar Nelson era estabelecer as diferenças entre heterossexuais e homossexuais, eles falharam porque além de criar um homossexual estereotipado, criaram um Nelson heterossexual com características semelhantes à sua personalidade anterior – com a única diferença de que, agora, ele sente atração por mulheres. Não sei se isso foi proposital para levantar o debate sobre a sexualidade do personagem central ou simplesmente falta de talento de Jorge Fernando, mas pra qualquer hipótese, o tiro saiu pela culatra.

Se houve algo que salvou a atração foi a impagável Marisa Orth que, como sempre, mostra que tem humor na veia. Ah, a abertura da equipe de Hans Donner também é divertida e muito criativa. Mas apenas isso. As cenas beiravam a catástrofe, como no momento em que Nelson tem uma ereção ao ver uma revista pornográfica e grita aos céus: “Por que, meu Deus?”. O mesmo se pode dizer da cena em que Valéria é forçada a ficar nua para que Nelson se certifique de que é um ex-gay. Patética.

Fernanda Young e Alexandre Machado, os roteiristas, são experts em trazer programas com personagens em situações atuais e irreverentes. Mas a pegada da dupla não está tão boa como na época de Os Normais – a obra-prima do humor de sexta à noite. Depois da tentativa frustrada de Separação!, acho que a Globo poderia dar férias ao casal e apostar em um abordagem menos apelativa e mais inteligente.

O programa é engraçado? Sim. Mas não é o suficiente. Como foi o primeiro episódio (e, geralmente, o primeiro episódio serve pra apresentar as personagens ao público), podemos até pensar que as coisas podem melhorar daqui em diante. Com Macho Man, a Globo garantiu sua liderança no horário, com aproximadamente 17 pontos no Ibope (o que se deve muito à sua propaganda). Resta saber se o humorístico agradou ao público ou vai se tornar mais um descartável que a Globo vai lançar em DVD daqui uns tempos.

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