O Estranho Mundo de Tim Burton

Ainda me lembro bem do mês de abril de 2010 quando, ansioso, enfrentei uma imensa fila na bilheteria do cinema (precisamente no dia 23) para comprar os ingressos para a estréia de Alice no País das Maravilhas. Lembro também que a tietagem em volta de Johnny Depp era grande: por toda parte, milhares de fãs histéricas aguardavam o início do filme para acompanhar o ator na pele do clássico personagem infantil. Muitos produtos do filme eram vendidos. Ao conversar com um dos lanterninhas, o rapaz me joga a frase: “Você teve sorte de encontrar ingresso. A sessão da meia-noite já estava com todas as cadeiras esgotadas desde segunda-feira e tivemos que colocar cadeiras extras – fora a galera que ficou no chão”.

Tudo isso era previsível. Afinal, além de Depp no elenco, o filme era dirigido por Tim Burton – uma das mentes mais excêntricas do cinema. Um outro funcionário do cinema me confessou: “Eu fiquei dentro da sala na hora do filme, todo mundo falou bem e eu fiquei curioso. Teve uma criança que saiu chorando. E realmente, o filme é bem ao estilo Tim Burton”. Achei aquilo um pouco de exagero. Sim, foi feita muita propaganda em cima do filme e as expectativas dos fãs de Burton e Depp era enormes. E justificáveis.

Tim Burton durante as gravações de seu último filme, ao lado da atriz Mia Wasikowska.

Se por um lado Alice no País das Maravilhas não agradou muito e foi duramente criticado, temos que admitir uma coisa: Tim Burton pode se dar ao luxo de fazer exatamente o que ele quer e como quer. Afinal, depois de clássicos como Edward Mãos de Tesoura, O Estranho Mundo de Jack e Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas (pra mim, o melhor filme da carreira de Burton), ele tem moral pra encarar qualquer projeto e fazer dele seu brinquedinho pessoal – e ainda conseguir vende-lo.

Burton já esteve a frente de projetos ambiciosos em Hollywood, como o sucesso Batman – O Filme (1989), ou a nova versão de Planeta dos Macacos (2001). Mas também já esteve comandando filmes menos badalados, como Ed Wood (1994), que era uma homenagem de Burton ao “pior diretor de cinema de todos os tempos” e lhe rendeu muitos elogios da crítica.

O reconhecimento por seus colegas de profissão, entretanto, veio tempos depois, em 2008, com o sanguinolento Sweeney Todd – O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet. Foi a partir de então que Burton passou a ser cultuado como um dos maiores diretores de sua geração. Reconhecimento tardio? Provavelmente. Isso em muito se deve ao seu desprezo quase que evidente a tudo que é padrão em Hollywood. Burton vai na contramão do que é comum na indústria cinematográfica e isso lhe confere o status de “excêntrico”. Mesmo assim, Burton é considerado “cult”, provando que há espaço para suas histórias no cinema.

De cima para baixo: Johnny Depp em "Ed Wood"; a versão de Burton para "Planeta dos Macacos"; e o clássico burtoniano "Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas".

Burton é cultuado por suas histórias, que percorrem a linha entre imaginação e medo – temas constantes em sua obra. Praticamente todos os filmes do diretor e produtor mantem esse equilibrio: por um lado, a imaginação, a fantasia, a pureza; por outro, o medo, o inesperado, o desconhecido, o horror. Perceba a sensibilidade da imaginação de Burton ao dirigir Peixe Grande e o suspense macabro do musical Sweeney Todd, por exemplo. Em ambos os temas, Burton sabe fazer isso como ninguém.

Algumas pessoas já são parte de sua equipe. Depp é uma delas. Juntos, já estiveram no comando de sete filmes (cronologicamente: Edward Mãos de Tesoura, Ed Wood, A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça, A Fantástica Fábrica de Chocolate, A Noiva Cadáver, Sweeney Todd – O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet e o já comentado Alice no País das Maravilhas). Helena Bohram Carter, esposa também maluca de Burton, também é figura frequente em seus filmes desde que se conheceram nas gravações de Planeta dos Macacos, em 2001. Danny Elfman, vocalista da extinta banda Oingo Boingo, sõ não trabalhou com Burton em dois de seus filmes (Ed Wood e Sweeney Todd).

Ao lado do amigo Johnny Depp e da esposa Helena Bonham Carter, durante homenagem recebida.

Mente brilhante? Certamente. Sua criatividade é notável. Quando criança, o parque de diversão particular de Burton era um cemitério perto de sua casa. Nunca foi bom aluno e seus pais frequentemente eram chamados ao colégio. Fã do ator Vincent Price (cuja última participação no cinema foi em Edward Mãos de Tesoura, pouco antes de falecer), passava horas do seu dia assistindo filmes B de terror e clássisos vampirescos. Talvez isso tenha sido importante para a formação de sua personalidade incomum e de sua mente insana.

O mundo de Burton é difícil de ser explorado justamente porque tudo que vem dele sempre é um mistério. Sempre somos surpreendidos por seus pensamentos absurdos, suas histórias improváveis e seu humor volúvel. Acompanhar tudo isso é complicado para a maioria das pessoas, fortemente influenciadas pelas convenções que o sistema nos impoe. Seu mundo é sempre uma nova surpresa, um novo desafio. Como dizem os rapazes da banda Plain White T’s na trilha sonora de Alice, “bem vindos ao mistério”.

Rolam diversos boatos sobre qual seria o próximo trabalho de Burton. Alguns, apostam na versão burtoniana para o clássico O Mágico de Oz; outros sugerem que, ao lado de Depp, Burton já vai iniciar as gravações da versão cinematográfica do seriado vampiresco Dark Shadows – o que seria o mais provável. Rolam também comentários de que Burton poderia refilmar A Família Adams. Dúvidas? Inúmeras. Certeza? O estranho mundo de Burton não dá limites para sua imaginação.

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Um pensamento sobre “O Estranho Mundo de Tim Burton

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