Jô Soares e Suas Esganadas

Há quem diga que 2011 não foi o melhor ano para o Programa do Jô que, ao longo dos últimos doze meses, sofreu inúmeras críticas da imprensa e do público. De fato, Jô parecia não se sentir muito à vontade em suas entrevistas – e ainda rolou-se boatos de que o programa poderia sair da grade da emissora carioca. Entretanto, se nas telinhas Jô parece não ter ido muito bem, o mesmo não podemos dizer nas livrarias: com seu último livro, As Esganadas, Jô consolida seu talento também como escritor, apresentando uma obra digna de grandes mestres.

As Esganadas foi recebido sem muita empolgação. Mas o romance, desde seu lançamento, se tornou um dos mais vendidos nas livrarias em todo o país. Surpresa? Nem tanto. Jô, desde sua estréia na literatura com O Xangô de Baker Street, em 1995, agradou ao público com suas histórias de humor recheadas de cultura geral – quase inaugurando um novo estilo. E As Esganadas, quarto livro do autor, parece não ter ficado muito atrás.

Um dos elementos mais comuns nos livros de Jô é o serial-killer. Em As Esganadas não é diferente. A narrativa acompanha os horríveis crimes cometidos por Caronte, proprietário de uma funerária, que obcecado pela figura materna, segue matando todas as gordas que encontra. Sim, é inusitado, mas é isso mesmo: o serial-killer em questão é obcecado por gordas.

Diferente, entretanto, do que acontece nas histórias policiais tradicionais (e que acompanhou Jô em suas obras anteriores), o serial-killer aqui é revelado logo no início. Sabendo quem é o meliante logo no início, muitos podem imaginar que a trama pode cansar ou não despertar muito interesse. Entretanto, o mistério agora consiste em saber como Caronte será descoberto – e até aí, o livro nos surpreende com boas cenas de humor (típico de Jô Soares – aliás, em muitos trechos é possível imaginar o autor fazendo as piadas em seu programa), tendo como pano de fundo um Rio de Janeiro da década de 30 que Jô demonstra conhecer bem. Os detalhes que o artista apresenta – em uma narrativa muito convincente – demonstram também a boa pesquisa que o autor fez sobre uma época bastante peculiar no país.

Aliás, esta é mais uma características do trabalho de Jô: o autor consegue nos fazer voltar ao passado – e o faz muito bem. Ao longo do livro, ele mistura personagens reais e fictícios; mas até mesmo os personagens reais caminham em planos fictícios, costurando uma história muito bem elaborada. Ou seja, Jô usa e abusa de características que são marcantes em sua obra mas ainda assim consegue criar uma leitura original e única.

Se por um lado o leitor pode se aborrecer com o fato do serial-killer ser revelado logo no início, ele não se cansa com o livro. Do contrário: as situações vividas pelo grupo policial em busca do assassino das gordas são hilárias. Aliás, os tipos criados por Jô são excelentes: um policial rabugento, um assistente medroso, uma repórter moderno, um ex-detetive português, além de outras figuras que recheiam a trama e deixam a história muito mais rica.

Seria inevitável As Esganadas não alcançar o sucesso que alcançou. Assistindo ao Jô Soares na televisão, você percebe claramente que sua narrativa é reflexo de seu humor inteligente e sarcástico. Tambem pudera: uma das figuras mais influentes do país, Jô ainda pode se dar ao luxo de escrever sobre o que quer e como quer. Portanto, leitor, não se acanhe: o livro é excelente leitura. Só, por favor, cuidado para não se esganar com a leitura (trocadilho óbvio).

As Esganadas –
Jô Soares
Companhia das Letras, 2011, 260 páginas.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s