Jogos Vorazes: Quando o Filme Independe do Livro

Franquias no cinema geralmente rendem bons lucros. Adaptações também. Quando se unem esses dois elementos, o mais comum é que se tenha um grande sucesso de bilheteria – mas que nem sempre é garantia de um bom filme, cinematograficamente falando. Eis que há algumas semanas chega aos cinemas a produção Jogos Vorazes, primeira parte da adaptação de uma série de três livros da autora Suzanne Collins e, como não podia ser diferente, o filme tem tido bons (na verdade, excelentes) resultados até então. Merecidamente? Então vamos lá…

A principio, vamos à história propriamente dita: em um futuro indeterminado, surge a nação Panem, dividida em 12 distritos e uma Capital, que controla toda o país. Há décadas atrás, estes distritos se rebelaram contra o governo, mas sem sucesso. Para punir os distritos e ressaltarem seu poder e domínio, são criados os Jogos Vorazes, uma espécie de reality show transmitido para toda a nação, onde uma menina e um menino de cada um dos distritos são escolhidos e obrigados  a lutar entre si até a morte. A protagonista Katniss, moradora do distrito 12 (o mais pobre e menos favorecido) se oferece para lutar no lugar de sua irmã caçula e ali a garota tem a chance de mudar sua trajetória e a de sua família.

A heroína do filme, interpretada por Jennifer Lawrence.

Antes de tudo, vou deixar claro que não li à obra de Suzanne e, portanto, minha crítica aqui será exposta em relação à obra cinematográfica e não à produção literária. O filme tem sido vendido como potencial sucessor das franquias teens Harry Potter e Crepúsculo. Até certo ponto, isso fez bem ao filme, pois aguçou a expectativa dos fãs da obra de Suzanne e despertou a curiosidade daqueles que ainda não a conhecem (meu caso, por exemplo, que já saí do cinema querendo levar os livros da série para descobrir o que acontece com os protagonistas). Mas o grande mérito aqui é que Jogos Vorazes FILME consegue ser completamente independente de Jogos Vorazes LIVRO – o que, se tratando de adaptações, é um fato muito difícil de se conseguir.

A narrativa de Jogos Vorazes é didática e permite que qualquer alienado que tenha ido ao cinema e entrado na sala por curiosidade se interesse pela história e mantenha uma espécie de compaixão pela trama – tanto que ao longo de quase duas horas e meia de filme, o tempo passa tão rapidamete que, ao final, você sente vontade de continuar ali, sentado, esperando qualquer coisa que possa te trazer algum indício do que pode acontecer.

Teve romance? Até teve um início. Mas ao menos o Josh não precisou tirar a blusa para isso...

Tecnicamente, o filme também se destaca. O figurino (especialmente nas cenas da Capital, que contrasta visivelmente com os demais distritos) já é aposta para os indicados ao Oscar 2013. O visual da Capital também é algo impressionante, c0m ambientes luxuosos e extravagantes, mas nunca piegas. Além disso, a direção bem acabada de Gary Ross traz uma dosagem certeira nas cenas mais violentas do filme (elas estão lá, presentes, mas a maneira como Gary percorre com suas câmeras faz com que isso seja atenuado – o que, em tese, ajuda a adequar a classificação indicativa ao público alvo do filme).

Há alguns pontos que poderiam ser melhorados. A princípio, creio que o maior deles seja quanto à duração e divisão do filme. Eu, particulamente, não sou fã de filmes longos. Se for pra ser longo, o filme tem que ser envolvente na medida certa. E, ultimamente, Hollywood não tem feito boas escolhas de roteiristas. Mas o fato é que Jogos Vorazes mantem um ritmo que permite que o filme pudesse ser esticado alguns minutos e mais bem dividido. Praticamente, podemos dizer que o filme é dividido em duas partes: a primeira, quando os jovens são escolhidos e apresentados às regras do jogo e a segunda, que trata dos duelos em si. Enquanto a primeira parte é apresentada de forma didática e bastante compreensível, a segunda peca por ser deveras “rápida” demais. Minha visão é a de que se podia dar um pouco mais de ênfase nas batalhas, nos pequenos conflitos, nas formas de sobrevivência dos jogadores.

"Jogos Vorazes" impressiona visualmente - mas não apenas isto.

Outro ponto que poderia ser melhorado é a visão “romântica” (não no sentido amoroso) da heroína da história. Ela é tão boazinha (já no início do filme se oferecendo como tributo aos Jogos) e bom caráter (apesar de vencer o duelo, ela mata pouca gente) que por vezes chega a enjoar. No final, o filme mostra que a força bruta apenas não é necessária, mas também a inteligência. Tudo bem, concordo, mas essa visão tão “amigão, gente fina” da protagonista não me impressionou. Quanto às atuações, cabe dizer que todos ali cumpriram razoavelmente suas funções – mas sem nenhum grande destaque.

Outro grande mérito de Jogos Vorazes, no entanto, é conhecido pelos espectadores mais atentos ao contexto do que à história propriamente dita. Há uma crítica explícita aos reality shows que, mais do que entreter uma populaçao, controlam, manipulam seus participantes (como o sistema faz conosco?). O próprio apresentador do programa (uma espécie de Galvão Bueno, mas muito menos chato), um diretor que interfere e os estratégias de jogo dos participantes para sobreviver refletem bem a realidade dos programas atuais de televisão, levantando bandeira à esta causa (tema já abordado anteriormente no cinema, como no excelente O Show de Truman – O Show da Vida).

Não adianta fugir: romance adolescente à vista...

Jogos Vorazes FILME é infinitamente melhor do muitos outros sucessos teens. A qualidade e o cuidado com que o filme foi produzido (talvez por conta da participação direta da autora dos livros) demonstram que o filme tem potencial para agradar não apenas adolescentes virgens e pré-adolecentes chatos. Talvez o filme tenha sido vendido como tal apenas para chamar público (talvez, não – quase certeza, né? Propaganda é a alma do negócio). E conseguiu. O filme tem ido muito bem e a expectativa é que continue assim. Vendo pelo lado positivo, não há vampiros que brilham, lobisomens sem camisa, bruxinhos adolescentes… Bom, pelo menos até aqui. Vai que…

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Um pensamento sobre “Jogos Vorazes: Quando o Filme Independe do Livro

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