Haja Coragem Para Assistir “Valente”

É desnecessário dizer que a Pixar nos deixou mal acostumados. Afinal, ao longo dos anos, a qualidade inegável de seus filmes só produziu aquela sensação de que sempre podemos esperar um pouco mais do estúdio. Entretanto, há pouco mais de 5 anos, a Pixar juntou forças com a Disney – e Valente, que chegou aos cinemas brasileiros essa semana, mostra os primeiros (e preocupantes) sinais dessa junção que está desencadeando uma grande crise de criatividade na empresa.

Valente, de longe, lembra muito mais um daqueles clássicos dos estúdios Disney. Tem tudo ali: princesas, bruxas, poções mágicas, animais antropomorfizados, trilha sonora com músicas pegajosas, lição moralista, etc. Daí alguém pode perguntar “mas não foi justamente isso que criou todo o sucesso da Disney?” e eu respondo que sim, afinal, estamos falando da empresa que revolucionou a animação no cinema e criou clássicos como Branca de Neve e os Sete Anões, Pinóquio, Alice no País das Maravilhas, A Bela e a Fera, O Rei Leão, só para citar alguns. O problema com Valente reside justamente no currículo da Pixar e as expectativas que temos sobre ela.

Família ainda permanece como um dos temas centrais das obras Pixar.

Quem imaginaria que um robô futurista apaixonado, um peixe palhaço, um boneco caubói com sentimentos ou mesmo um rato com dotes culinários poderiam, em algum momento, ser protagonistas de uma animação? A marca registrada da Pixar durante quase 2 décadas de existência foi criar personagens nada convencionais, apostando em histórias incomuns e sempre (sempre mesmo) nos surpreendendo. Exatamente por isso, Valente, para os amantes dos filmes do estúdio, parece muito mais um conto da carrochinha do que um produto Pixar.

O roteiro, baseado em lendas escocesas, tem como pano de fundo a cultura bretã e narra a trajetória de Merida, uma jovem princesa que, para fugir de um casamento arranjado, recorre à uma bruxa que transforma sua mãe em um urso. Ao longo da história, Merida tenta desfazer o feitiço e recuperar sua mãe, ao mesmo tempo em que deve restabelecer os laços com sua progenitora.

Alguns traços inerentes às obras da Pixar, até então, estão presentes ali. O primeiro está no conceito de família, aqui representado pelo relacionamento entre pais e filhos. Merida está mais próxima, espiritualmente falando, à figura paterna (guerreiro, destemido, valente) do que à sua mãe (educada, sensata, acolhedora). É como se a garota estivesse entre a cruz e a espada, estando mais propensa à liberdade (representada pelo pai) do que à tradição (espelhada na mãe). Aqui, a princesa também luta por seu final feliz – mas, diferente do que acontece nos contos de fadas tradicionais, este final feliz não inclui o casamento com o príncipe encantado. Para Merida, seu happy ending é sua liberdade para fazer o que quiser ou mesmo para amar a quem desejar. É o primeiro longa da Pixar a ter como protagonista uma “mulher”. Entretanto, Merida age muito mais como um garoto de oito anos do que uma princesa tradicional dos estúdios Disney. Talvez tenha sido estratégia para não afastar completamente os garotos e também para fugir das comparações com o fiasco A Princesa e o Sapo.

E o destino que tanto foi pregado no inicio do longa? Cadê?

O problema no roteiro se mostra em um filme que mesmo curto (cerca de 1 hora e meia) se torna cansativo. Tudo é muito clichê e coincidente e falta uma boa dose de humor. Assisti a uma sessão com a sala recheada de crianças e pais e pude contar as poucas risadas que ouvi. Para ser honesto, teve apenas uma única sequência em que eu realmente ri – e não lembro qual foi, o que quer dizer que não foi uma cena tão marcante. As únicos instantes cômicos da trama se revelavam na figura dos irmãos trigêmeos de Merida e na tentativa de sua mãe em se adaptar às suas próprias convenções no corpo de um urso.

Okay, nem tudo em Valente é ruim. Como sempre, a Pixar dá uma aula nos cenários – que são de tirar o fôlego. As belas paisagens escocesas foram retratadas com perfeição e aproximam ainda mais as animações dos filmes em live action. Bom, o melhor exemplo disto é o cabelo excepcional de Merida: vermelho, desalinhado, jogado ao vento (representando muito bem o espírito da jovem e contrastando com o penteado contido e alinhado da mãe) e que tomou quase 1/3 de toda a produção, que durou 6 anos. O 3D, também, apesar de não ter muito exagero, também me impressionou. Geralmente, efeitos 3D são usados em cenas com objetos sendo arremessados ou caindo de grandes alturas, esbanjando falta de criatividade. Aqui, os efeitos nos deixavam praticamente dentro da história, quase sentindo a brisa das árvores ou a água da cachoeira no rosto.

Rebeldia adolescente. Então…

Há também uma ou outra sequência que até divirta ou mesmo mereça atenção, como a inicial, quando o pai de Merida enfrenta um urso gigante, ou mesmo o duelo de arco e flecha quando, para disputar sua própria mão e não ser obrigada a casar, Merida com dificuldades para atirar, rasga seu vestido colado, revelando suas formas – numa cena até certo ponto sensual, assim como sua mãe nua (okay, coberta) após ser liberta do feitiço. Ah, e obviamente, destaque também para o belíssimo curta La Luna, exibido antes do filme, que é uma verdadeira preciosidade. Vale a pena você chegar antes para ver esse espetáculo.

“La Luna”, já considerado a obra-prima dos curtas da Pixar, é o que mais vale o ingresso.

Valente já rendeu, apenas nos EUA, mais de US$ 200 milhões, o que não é ruim se a animação fosse feita por qualquer outro estúdio, menos a Pixar, acostumada a gerar blockbusters. Se ajustarmos a inflação, Valente é a segunda pior bilheteria do estúdio, perdendo apenas para Carros 2 (que, até agora, foi o único longa da Pixar sem nenhuma indicação ao Oscar). Além disso, Valente é a terceira animação da Pixar a ficar abaixo dos 90% de críticas positivas, faturando míseros 76% de aprovação (o que é alto, mas não para a empresa que criou Wall-e, Up Altas Aventuras e Toy Story), perdendo também para os dois filmes da franquia Carros.

Mas tudo bem Carros e Carros 2 não irem muito bem. Afinal, essa franquia, claramente, é uma tentativa da Disney de vender brinquedinhos e faturar alto com produtos. Certo? Mas Valente não tem esse perfil. E se Carros consegue faturar alto com a venda de sua linha é porque, ainda que fraco, os personagens tem algum tipo de potencial. Não é o que acontece com Valente, cujos personagens individualmente não tem grande representatividade, a começar por sua protagonista, que durante todo o filme é apenas uma mera espectadora de todos os acontecimentos e não faz jus ao título.

“Carros”: estratégia para aumentar faturamento ou deslize da Pixar?

Ao que parece, a Pixar está se rendendo à Disney. Prova disso é a produção de continuações ao invés de apostar em novas personagens. Além de Carros 2, já foram anunciadas as continuações de Monstros S.A. e Procurando Nemo. Ou seja, limita-se a criatividade da empresa para apostar em tipos já conhecidos, numa tentativa explícita de se faturar um pouco mais do público. Valente é um filme mediano. Tem um visual deslumbrante (mesmo, sem exageros), mas pouco estimula o público, seja crianças ou os pais delas. Apostou numa fórmula certeira da Disney, os contos de fadas com lição de moral, mas decepcionou os espectadores acostumados aos personagens pouco convencionais e ortodoxos. Valente é um bom desenho para os padrões Disney, mas muito abaixo do padrão inovador e criativo da Pixar.

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