“Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge”: O Desfecho Ideal Para a Trilogia de Nolan

Eu tinha todos os motivos para não gostar de Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge. Primeiro: nunca fui fã de filmes e histórias de heróis. Segundo: tenho um certo receio com filmes que abusam de efeitos especiais, pois na maioria das vezes esses efeitos estão ali apenas para encobrir um roteiro ruim. Terceiro: depois de A Origem, fiquei meio perturbado com Christopher Nolan. Suas tramas complexas me deixavam com cara de dúvida e desespero, apesar de reconhecer seu talento para criar roteiros superiores aos blockbusters hollywoodianos. Mas depois de assistir o desfecho da trilogia de Nolan para o Homem-Morcego, tive que me render à obra do diretor e confessar, com um pouco de angústia, que sentirei falta de seu personagem.


Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge
não pode ser encarado apenas como um filme individual. Como filme avulso, é de tirar o fôlego do início ao fim. Como desfecho de uma trilogia de sucesso (iniciada em 2005 com Batman Begins e seguida de Batman – O Cavaleiro das Trevas, de 2008), este filme se firma como uma verdadeira obra-prima e, se não supera, no mínimo mantém o mesmo nível de qualidade dos dois filmes anteriores – afinal, Batman Begins foi considerado por muitos como o “melhor de todos”, daí veio o segundo filme da trilogia, com sua trama genial, e todos achavam que nada poderia superar sua história. Agora, é de se pensar: qual seria o melhor?

Se em Batman Begins somos apresentados às reais origens do herói mascarado e em Batman – O Cavaleiro das Trevas o vemos lutando contra o crime em Gotham City, em Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge Bruce Wayne volta à ativa após 8 anos dos acontecimentos do filme anterior, quando Batman assume os crimes cometidos por Harvey Dent (o Duas-Caras) e vive, desde então, recluso em sua residência. Aqui, Bruce (que ainda sofre com a perda de Rachel Dawes, seu único amor) retoma seu lugar de herói para lutar contra Bane, um mercenário terrorista cujo único objetivo é acabar com o Homem-Morcego antes de destruir Gotham (agora, vivendo em uma aparente paz devido às duras leis contra os criminosos), cumprindo o legado de Ra’s Al Ghul.

Confronto final entre Batman (Cristian Bale) e Bane (Tom Hardy).

Após o desastre que foi o desfecho da trilogia Homem-Aranha, muitos acreditavam que Nolan trilharia o mesmo caminho que Sam Raimi e que seria difícil para ele criar um terceiro filme à altura de sua obra. Mas Nolan conseguiu, com excelente maestria, desenvolver uma história que encerra grandiosamente sua franquia. Tudo contribui para que o filme seja um dos melhores de 2012 (um ano em que houveram várias decepções cinematográficas, como Sombras da Noite, Valente, Prometheus e outros) e, talvez, a maior realização de Nolan. O roteiro é muito bem trabalhado e, embora até possa ser absorvido individualmente, ele é diretamente “costurado” aos antecessores da série, o que enriquece ainda mais a franquia. Certamente, as melhores definições para o que move cada um dos filmes da série são, respectivamente, medo, caos e guerra.


Os efeitos do filme são grandiosos. Grandiosos não apenas porque são competentes mas, principalmente, porque foram usados corretamente. Em nenhum momento a trama é ofuscada por conta dos efeitos – que estão lá, presentes, mas servem apenas para embelezar ainda mais o filme. O melhor exemplo é a sequencia em que Bane detona um estádio: primeiro, aparece um garoto cantando o hino nacional norte-americano, seguido de diversas explosões que acabam com o campo de jogo. É, de longe, a cena mais arrepiante do filme e forte candidata às cenas clássicas do cinema. Só esta cena já vale cada centavo empregado no filme. Tecnicamente, som, fotografia e edição também se mostram competentes. Aliás, toda a técnica de Nolan não é utilizada em benefício próprio, para se engrandecer, mas sim em prol de um roteiro que não deixa a desejar em nenhum momento, escrito sob a maior qualidade. É um filme de ação mas que, sobretudo, tem idéias e é desse casamento entre ação e idéias que Nolan consegue extrair toda a força de sua trilogia.

Set de filmagem de “Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge”.

Se o roteiro foi bem trabalhado, podemos dizer que ele também foi bem representado por um elenco inspirado – o que já é comum aos filmes de Christopher Nolan. Cristian Bale, Morgan Freeman, Michael Caine e Gary Oldman continuam desempenhando muito bem seus papéis, mas sem dúvida os grandes destaques do filme ficam por conta de Anne Hathaway (que rouba a cena a cada aparição como Selina Kyle – uma habilidosa ladra de jóias e não uma inexplicável Mulher-Gato) e, a maior surpresa do elenco, Joseph Gordon-Levitt (que vive o policial Blake, de longe o maior reflexo de humanidade em todo o filme). Contribui também a trilha do veterano Hans Zimmer, que continua impressionante, assim como nos outros filmes da série, caindo como uma luva às sequencias de ação.

A grande surpresa do filme, Joseph Gordon-Levitt, que cresceu, engrossou a voz e já é aposta para filmes de ação.

Defeitos? Ora, qualquer filme, mesmo o maior clássico que possa um dia existir, tem. Alguns erros de edição foram notados (como numa cena em que está dia e, inesperadamente, escurece) e, principalmente, o número expressivo de personagens (que criou subtramas irrelevantes) dividiu as opiniões dos críticos. Faltou também uma dose daquele humor contido dos quadrinhos e um pouco do desajuste caótico dos vilões da trama – que tem um final, digamos, não tanto explosivo. Para muitos, é um filme que, tecnicamente, atingiu o auge da trilogia, mas recuou na sofisticação da trama para criar subtramas mais simplistas – diferente do que ocorre no segundo filme da série.

COMPARAR? PRA QUÊ?

O maior erro que os fãs da obra de Christopher Nolan podem cometer é comparar sua trilogia a outros filmes do herói, especialmente aos também cultuados Batman e Batman – O Retorno, de Tim Burton. Algumas diferenças são explícitas, saltando aos olhos de qualquer espectador atento e derrubando por terra a pergunta “Quem fez a melhor adaptação? Burton ou Nolan?”.

A cena clássica de “Batman – o Retorno”: Mulher-Gato e Batman, juntos.

Primeiro, as adaptações possuem visões diferentes. Reflexo, naturalmente, de seus diretores. Tim Burton é um excêntrico visionário, conhecido por suas produções bizarras e malucas, sem sentido e inusitadas, trabalhadas com uma arte impecável, sombria e fria, apresentando um roteiro muito mais próximo aos quadrinhos do que a obra de Nolan, transformando sua franquia em um produto direcionado, sobretudo, aos fãs da série. Já Nolan aposta em uma abordagem atual, transformando o roteiro não apenas em uma história de herói, mas também um estudo sobre moral, caos, anarquia e guerra. É um roteiro muito mais real e adulto do que Burton fez em seus filmes e que tende a agradar tanto os fãs do herói quanto os alucinados por filmes de ação convencional.

Bruce Wayne: Cristian Bale ou Michael Keaton?

Essas características dos diretores ecoam em vários pontos dos filmes. O Bruce Wayne de Burton, por exemplo, é um protagonista tipicamente burtoniano, com uma personalidade ambígua e dividida. É tão desequilibrado como qualquer um de seus vilões. Já o Batman de Bale é motivado muito mais por um sentimento de medo e justiça, que lhe permite, por exemplo, assumir a culpa dos crimes de um dos vilões em nome da paz na cidade. Michelle Pfeiffer é excepcional em sua performance como Mulher-Gato, criando cenas antológicas no segundo filme de Burton. É vagamente desequilibada, fruto das constantes humilhações que Selina Kyle sofreu dos homens (sim, uma personagem feminista). Já Anne Hathaway, apesar de fazer uma de suas melhores atuações, é apenas Selina Kyle, uma ladra de jóias que em nenhum momento é a Mulher-Gato e entrou na história contribuindo quase tão pouco à trama que poderia sair a qualquer momento sem ser percebida.

Mulher-Gato: Michelle Pfeiffer ou Anne Hathaway?

E o que dizer dos Coringas de Jack Nicholson e Heath Ledger? Ambos são os grandes e, talvez, maiores destaques das duas séries, mas há nítidas diferenças entre eles. O Coringa de Nicholson, aclamado pela crítica, era Jack Napier, chefe de máfia de Gotham. É um vilão debochado e cômico, assassino dos pais de Wayne e psicologicamente desestabilizado. Já Heath também tem um desempenho marcante, criando um vilão dramático, agressivo e violento, movido não por dinheiro, mas por uma alucinação expressiva e visivelmente propensa ao caos. Gotham City também é recriada de forma diferente por cada um dos diretores. Burton cria um cenário frio, melancólico, em uma Gotham com certos aspectos londrinos. Já Nolan, faz de Gotham City uma verdade Nova York, com arranha-céus, metrôs e pontes gigantescas. O roteiro de Nolan também dá muito mais espaço a personagens como Comissário Gordon, Harvey Dent e Alfred, tornando-os tão heróis como o homem mascarado.

Coringa: Jack Nicholson ou Heath Ledger?

Ao fim de Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge, é impossível sair da sala sem a triste sensação de “acabou?”. Não nos despedimos ali apenas de Bruce Wayne, mas damos adeus a Harvey Dent, Gordon, Coringa, à Gotham City. Quando se iniciaram os créditos iniciais, ouvia-se palmas e gritos histéricos por todos os lados. Apesar do final do filme em si não ser deveras apoteótico (até certo ponto, é bem simplista, recorrendo a temas comuns, como uma espécie de bomba-relógio prestes a explodir ou reviravoltas inesperadas), o filme como um todo encerra magnificamente a obra de Nolan. Ao menos, pode-se haver uma esperança: a Warner Bros já manifestou o interesse em, futuramente, filmar uma nova série, recriando Bruce Wayne em seu período mais jovem (como o fizeram recentemente com Peter Park). Mesmo a revelação (para mim surpreendente) final do personagem Black dá uma sensação de que uma nova franquia pode se formar (o que seria uma boa, visto que Joseph faz o melhor antagonista da trama, na minha opinião). Seja como for, Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge é um filme pra ficar registrado e um presente tanto para fãs de quadrinhos quanto para amantes do cinema.

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2 pensamentos sobre ““Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge”: O Desfecho Ideal Para a Trilogia de Nolan

  1. Amigo, vc ja leu alguma HQ do Batman para dizer que os filmes de Tim Burton são próximos ao original? Faça uma procurar no Google e verá que esses é um dos motivos de Burton ter sido trocado, ele nunca entendeu a real motivação de Batman, diferente de Nolan, que adapta, mas procurando manter o conceitos dos personagens. Burton só fazia as adaptações para funcionarem na sua visão do que seria o herói.

    • Valeu pelo comentário, Jakec
      O que eu quis dizer com “próximo” se refere ao personagem como a maioria das pessoas conhece, o “desenho”, o “personagem animado”, e não necessariamente à obra HQ.
      Quis dizer que o Burton trouxe um Batman mais “desenhão” e menos real, como Nolan o fez.
      Apareça sempre,
      Davi

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