Novas Apostas na Teledramaturgia Brasileira

Quem tem o olhar mais atento, já deve ter notado que, nos últimos anos, a quantidade de novos autores de novelas e minisséries que nos são apresentados tem aumentado consideravelmente. A Rede Globo, definitivamente a mãe da teledramaturgia no país, por exemplo, tem apostado explicitamente em novas caras nos seus folhetins. Para se ter uma idéia, há um mês atrás todas as principais faixas teledramatúrgicas da emissora eram ocupadas por autores relativamente novos (que assinam, no máximo, sua terceira obra).

Motivo? Bom, há alguns. A começar, os autores da “velha guarda” (como são conhecidos os veteranos Benedito Ruy Barbosa, Manoel Carlos, Gilberto Braga, Aguinaldo Silva ou Silvio de Abreu, por exemplo) há muito tempo já demonstram certo desgaste em suas tramas. Isso é reflexo de vários fatores e um deles é a exaustiva carga horária de trabalho a qual são submetidos. Escrever uma novela é uma tarefa árdua que demanda, no mínimo, 10 horas por dia. Ou seja, uma mente mais jovem tende a trabalhar com muito mais facilidade.

Da esquerda para direita, de cima para baixo, os teledramaturgos Manoel Carlos, Gilberto Braga, Aguinaldo Silva, Silvio de Abreu e Benedito Ruy Barbosa: simplesmente os maiores nomes globais em atividade.

Além disso, essa nova geração, boa parte das vezes, traz idéias e soluções mais próximas ao público – que convenhamos, não é o mesmo que assistia, há algumas décadas atrás, os clássicos Escrava Isaura, Vale Tudo ou Mulheres de Areia. O público mudou – e, consequentemente, a forma como a arte teledramatúrgica é vista também mudou. Antigamente, um autor de novela tinha apenas o trabalho de escrever um folhetim para prender a atenção do telespectador, numa época em que a TV era a única opção de entretenimento para a maioria das famílias. Hoje, ele tem a missão de levar o telespectador à televisão, chamar sua atenção e aí sim prende-la, numa época em que as opções de programação são infinitamente maiores e mais acessíveis. Isso é algo que poucos autores dessa velha safra conseguem fazer com maestria (e aqui não é apenas questão de talento).

Glória Pires, como as gêmeas Rute e Raquel, no remake “Mulheres de Areia”, de Ivani Ribeiro.

Duvida disso? Então, vamos a algumas perguntas rápidas: qual foi a última grande novela de sucesso de Gilberto Braga? Você se recorda do último trabalho de Benedito Ruy Barbosa? E qual foi a última Helena memorável de Manoel Carlos? Demorou para responder, certo? Pensou bastante? Não que esses autores estejam ultrapassados ou não sejam bons. Seria uma desonra falar isso de nomes que mudaram a cara da teledramaturgia brasileira e tornaram o Brasil o país com as melhores produções mundiais deste tipo de arte. Mas o fato é que as coisas mudaram e estão cada vez mais rápidas. A cena de um assalto em um novela do Manoel Carlos, por exemplo, pode durar cerca de 4 ou 5 capítulos (taí um autor que sabe escrever drama como ninguém), enquanto a mesma cena contada por um autor como João Emanuel Carneiro (a grande descoberta global na última década) pode durar menos de um quadro. Se você levantar para beber água, perde todo o enredo.

Essa renovação no quadro de autores globais não é nova. Entre as décadas de 1980 e 2000, a emissora foi apostando, aos poucos, em alguns profissionais que, se não são os grandes nomes da casa, tem rendido boas produções, como Carlos Lombardi (rei dos pastelões, como Uga Uga, Quatro por Quatro e Bebê a Bordo e recentemente contratado pela Record), Glória Perez (das saudosas Barriga de Aluguel, De Corpo e Alma e O Clone) Miguel Falabella (que oscila entre fiascos e sucessos) ou Antonio Calmon (de Vamp ou O Beijo do Vampiro).

Da esquerda para a direita: os teledramaturgos Carlos Lombardi, Glória Perez, Miguel Falabella e Antonio Calmon.

Atualmente, os novos nomes estão à solta por aí. Dois excelentes exemplos são Walcyr Carrasco e João Emanuel Carneiro. Walcyr Carrasco conheceu o sucesso com a polêmica novela Xica da Silva, na extinta Rede Manchete, e mais tarde com Fascinação, no SBT. Depois que se mudou para a Globo, em 2000, quando escreveu O Cravo e a Rosa, foi sucesso atrás de sucesso: Chocolate com Pimenta, Alma Gêmea e, recentemente, o remake de Gabriela. Em 2013, Walcyr passará a fazer parte do restrito time de autores do horário nobre da Globo, substituindo (dizem as más línguas) o veterano Manoel Carlos, que vai se dedicar a trabalhos mais curtos (como a provável próxima minissérie da casa).

E o que dizer de João Emanuel Carneiro? O autor conseguiu, com suas duas primeiras tramas próprias, criar as duas novelas com as maiores audiências da década no horário das 19 horas, Da Cor do Pecado e Cobras e Lagartos. Este sucesso inesperado foi o trampolim que levou o autor ao horário nobre em seu terceiro trabalho, A Favorita, grande sucesso de público e crítica. Recentemente, ele entrega à Rede Globo o megasucesso Avenida Brasil, que chega à sua reta final com uma das maiores audiências do horário.

Há outros autores que tem garantido a supremacia global em teledramaturgia. A novela A Vida da Gente, sucesso no horário das seis em 2011, revelou Lícia Manzo como a provável sucessora do estilo “Maneco” de fazer novela (tomara que siga os passos do mestre). Cordel Encantado, exibida em 2011, foi um marco do horário das seis ao apostar na temática da literatura de cordel, ganhando diversos prêmios e colocando os holofotes nos autores Duca Rachid e Thelma Guedes. Filipe Miguez e Izabel de Oliveira criaram a elogiada Cheias de Charme, novela atualíssima que abusou dos recursos mais distintos para agradar ao público, como cultura pop, internet ou o culto às celebridades.

As “empreguetes” Isabelle Drummond, Leandra Leal e Taís Araújo em “Cheias de Charme”.

Não se pode dizer aqui que estes novos autores serão, no futuro, nomes como foram Janete Clair, Dias Gomes, Ivani Ribeiro, Cassiano Gabus Mendes e outros, que com suas obras inovadoras criaram um novo padrão de teledramaturgia no país. Tampouco podemos afirmar que eles não poderão sofrer o gosto amargo de uma trama de pouco sucesso. Muito menos podemos dizer que os mais veteranos não são capazes de criar novos e grandes sucessos (taí Manoel Carlos com sua Laços de Família, Silvio de Abreu com sua Belíssima ou Aguinaldo Silva com seu clássico Senhora do Destino). Entretanto, uma coisa é certa: o brasileiro reclama e fala mal dizendo que novela é tudo igual, mas o maior produto televisivo do país ainda são nossos folhetins. E enquanto tiver público para isso, o que não vai faltar é autor talentoso para escrever boas tramas. Ou não…

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