Deixa Ela Entrar

Hollywood cansa. Não sei quanto a vocês, leitores, mas Hollywood realmente me cansa. Ao longo dos anos, foram tantas obras irrelevantes que temos a singela sensação de que Hollywood não faz um clássico há tempos. Se resta dúvida, pergunto a você qual filme estreado em 2012 que entrou na sua lista de clássicos cinematográficos? Alguém pode argumentar ainda que isso se deve ao fato de que a quantidade de produções hoje é infinitamente maior do que há duas décadas, até mesmo por conta da pressão dos grandes estúdios, mas isso não é termômetro para mensurar a qualidade de qualquer longa. É com essa pequena visão da indústria cinematográfica atual que eu inicio minha crítica ao sueco Deixa Ela Entrar, de 2008 – um daqueles típicos filmes que você assiste e se lamenta tremendamente por não ter visto antes.

5Baseado no romance de John Ajvide Lindqvist (que também roteirizou o longa), Deixa Ela Entrar é um dos melhores filmes de vampiros que já assisti. Não é exagero. Na verdade, ele reúne algumas características que eu, particularmente, admiro e priorizo na hora de escolher algo para assistir. Não vou entrar aqui em questões pessoais, mas ao longo do texto vou explicar o porquê Deixa Ela Entrar é um filme que você deve assistir o quanto antes – especialmente agora que a saga Crepúsculo acabou e você terá a oportunidade de refrescar sua memória com histórias vampirescas de verdade.

Oskar (o andrógino e angelical Kåre Hedebrant) é um garoto atormentado pelos colegas de sua classe e recebe todas as investidas do grupo passivamente. É sozinho, dentro de seu quarto e munido de uma faca, que Oskar treina sua vingança. Na realidade, o menino é, à primeira vista, o perfeito físico vampiresco: louro, branco (quase albino), calado – mas com um ódio contido quase explodindo nos olhos. Quando Eli (Lina Leandersson) se muda para o prédio de Oskar, ambos se tornam confidentes, tendo como ponto de encontro o jardim coberto de neve, numa belíssima paisagem do inverno sueco. É Eli quem encoraja Oskar a se defender do grupo estudantil – mesmo que seus atos possam custar caro mais tarde.

3De longe, Deixa ela Entrar não é a clássica história de terror vampiresco, com um vampiro amaldiçoado com sede por sangue e um humano paranoico que inveja o poder deste outro. Não é um filme que fará você berrar ou levar sustos a esmo, ou tampouco tem o apelo satânico de um Drácula de Bram Stoker (clássico de Coppola). Deixa Ela Entrar é um trabalho silencioso, cujo mérito principal está em sua melancolia – e é esta melancolia que ajuda a criar um suspense que impressiona pela dor pungente de suas personagens. Essa melancolia, em boa parte, é acentuada pela paleta em branco que percorrem quase todo a projeção, recriando perfeitamente a atmosfera gélida do longa e contribuindo para o relacionamento entre Eli e Oskar (ambos com 12 anos de idade, são duas crianças que vivem a mais completa sensação de isolamento social, cada qual dentro de seu mundo em particular).

2Não espere um terror para lhe fazer tremer – mas, sim, um suspense que vai te envolver através dos dramas de suas personagens. Oskar, por exemplo, incapaz de resistir às investidas dos colegas de classe, desconta todo seu furor no tronco de árvore no quintal de seu prédio. Ele é tão enigmático quanto Eli (que, na verdade, é um garoto vampiro castrado – cena que, apesar de descrita no livro, foi abortada no cinema). Não há entre eles nenhum tipo de desejo sexual e mesmo ao descobrir que Eli é um vampiro, Oskar não se afasta – mas, pelo contrário: sente ainda maior vontade de estar ao seu lado.

O título da obra faz referência à uma tradição antiga segundo a qual os vampiros precisam ser convidados por sua vítima antes de entrar em sua casa. No início, Oskar se recusa – só faz o “convite” ao ver Eli sangrando quase até a morte, em uma das melhores cenas do filme. O diretor Tomas Alfredson está em excelente forma, construindo sequências de terror excepcionais (como na cena em que um rosto é desfigurado, ou mesmo quando um corpo é queimado).

4Como maior ponto positivo, Deixa Ela Entrar foca a relação entre Eli e Oskar e recria, dentro do ambiente de terror que é a proposta do filme, uma metáfora da adolescência reclusa. A história se passa na década de 80, quando não havia a interação massiva em redes sociais que pudesse atenuar este sentimento de isolamento – ou, de certa forma, aumenta-lo ainda mais. É um trabalho de profundo lirismo que prova, como muitos poucos, que o gênero suspense/terror pode criar obras-primas. No caso de Deixa Ela Entrar, o grande trunfo está em fazer das relações humanas a base central de sua história – mesmo que o segundo ser não seja necessariamente humano. O vampirismo aqui só serve como pano de fundo para criar o gênero, mas mesmo as questões na trama que envolvem esta temática são conflitos comuns a qualquer ser humano. Dessa forma, Deixa Ela Entrar se torna um grande filme, mesmo para aqueles que tenham asco à temática vampiresca – completamente compreensível após Edward Cullen brilhar no sol…

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