Kill Bill – Vol. 1 e 2

Quando estreou com Cães de Aluguel, em 1992, Quentin Tarantino foi recebido com entusiasmo pela crítica. Na época, o jovem diretor de 28 anos, viciado em vídeos e cultura pop, escrevia o roteiro daquele se tornou um dos grandes clássicos dos anos 90. Uma década depois, Tarantino trazia às telas a saga Kill Bill, menos envolvente e underground que seus filmes anteriores, mas que mostrou ao mundo que Tarantino era um dos cineastas mais maduros de sua geração.

Kill-Bill-Foto-2Concebido como uma história contínua, mas dividida em dois volumes, Kill Bill narra a trajetória de Beatrix Kiddo, conhecida simplesmente durante quase toda a sequencia como “A Noiva”, e sua incansável luta por vingança. Narrada em capítulos, recheados de flashbacks e com um roteiro não linear (constante nas produções de Quentin), Kill Bill conta como Beatrix é atacada por Bill (o próprio do título, interpretado pelo já falecido David Carradine), seu antigo mentor, no dia de seu casamento. Após passar quatro anos em coma, Beatrix desperta do sono e só pensa em vingança. Contando assim, é de se imaginar, à primeira vista, que o filme seja um clichê hollywoodiano – até mesmo porque o tema, vingança, é clichê. Mas quando falamos de Quentin Tarantino, a ideia é um pouco diferente.

kill-bill-vol-1-2003-tou-5-g-1A princípio, uma observação é importante aqui: é impossível assistir apenas a um dos volumes da saga. Ainda que conte com inúmeros méritos que tornem ambos os volumes deliciosamente divertidos de se assistir individualmente, é imprescindível assistir a sequencia para se entender a genialidade da obra (como mencionado, a proposta do filme era ser uma história contínua), até mesmo porque boa parte das respostas já esperadas são apenas reveladas no último volume. Inspirado em longas de artes marciais da década de 70 e nos westerns (especialmente os italianos da década de 60), Tarantino consegue criar um filme que concentra sua essência em cenas de lutas estratosféricas que, muito mais do que excelentes sequencias de ação, foram cuidadosamente coreografadas e bem executadas. A sequencia em que a Noiva derrota o grupo de O-Ren dentro de um clube, por exemplo, é uma daquelas coisas que não te deixam desgrudar os olhos da tela, mesmo se você quisesse.

kill-bill-bar-5601Além das inúmeras cenas de luta, há ali o humor tarantinesco impregnado por todos os lados – aquele humor sutil, quase imperceptível, basicamente inserido em diálogos muito bem escritos. A comparação entre Clark Kent e Beatrix Kiddo, feita por Bill nos últimos minutos da sequencia, faz com que você caia de amores pelo roteiro de Tarantino – sim, ele dirige e escreve seus filmes, veja você! São diálogos simples que ajudam a construir cada uma das personagens, ainda que nem todas sejam devidamente desenvolvidas. A sequencia do treinamento de Beatrix pelo mestre Pai Mei, por exemplo (de longe, um dos meus personagens preferidos na trama), tem cenas e diálogos simples, mas com uma força surpreendente.

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Também é nos aspectos técnicos que Kill Bill se destaca. Além das belas coreografias, as câmeras de Tarantino percorrem um cenário exuberante – simples até, mas talvez por isso exuberante, como na cena do combate entre O-Ren e Kiddo. Outro destaque técnico é a edição de som e, falando de Tarantino, a trilha sonora eclética e impecável. É a trilha sonora que ajuda a conduzir tão bem os personagens da saga que, sob a direção de Tarantino, são brilhantemente caracterizados por seus intérpretes. Obviamente, o destaque fica por conta de Uma Thurman (ah, Uma, por que tão esplêndida?), no papel que certamente salvou sua carreira. Musa de Tarantino desde sua Mia Wallace em Pulp Fiction, Uma (que também ajudou a roteirizar o filme) se empenhou em criar uma personagem cuja sede de vingança é plenamente justificável.

kill-bill-vol-1Há quem torça o nariz para Kill Bill, assim como para os demais projetos de Tarantino, acusando-o de ser um diretor exibicionista, abusando de cenas com violência excessiva e propensas ao apelativo. De fato, violência excessiva é praxe na obra tarantinesca (e não adianta dizer o contrário). O que difere Tarantino dos demais diretores é a estética implacável de sua filmografia. As cenas são tão bem montadas e arquitetadas que por mais sanguinolentas que sejam não há como não admira-las. Além disso, os filmes de Quentin são repletos de referencias a outras obras cinematograficas e à cultura pop em geral. Logo, um telespectador qualquer pode não se sentir muito à vontade com o excesso de detalhes que são a base de suas histórias.

KillBillVol2_1Embora o final seja deveras artificial e morno (afinal, ao longo das quatro horas de história, são tantas sequencias incríveis que o mínimo que se esperava do confronto final entre a Noiva e Bill fosse o ápice da saga), Kill Bill se firma como um dos maiores triunfos do cinema atual. É um típico filme de Tarantino, recheado de referências cinematográficas (mostrando o profundo conhecimento de Quentin sobre o tema), diálogos memoráveis, personagens frios e calculistas e visual de tirar o fôlego, o que torna Kill Bill um dos filmes mais queridos de seu diretor. Rolam-se boatos de uma provável continuação. Não que seja necessário, afinal a história parece que já foi devidamente contada. Mas nunca se sabe o que pode sair da mente brilhante de Tarantino.

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