Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas

Meus amigos mais próximos sabem que sou avesso aos blockbusters norte-americanos. Mesmo quem me acompanha através das redes sociais percebe claramente que eu torço o nariz para longas que abusam de efeitos especiais miraculosos. Portanto, não seria de imaginar que um dos meus cineastas favoritos fosse o excêntrico Tim Burton. Não que ele não utilize efeitos especiais ou não crie filmes com grandes bilheterias (está aí Alice no País das Maravilhas para comprovar), mas ele é um dos poucos diretores cuja obra é identificada facilmente à primeira vista. E Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas, lançado em 2003, é uma espécie de cartão de visita para quem quer entender a obra burtoniana.

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Peixe Grande de Burton é a adaptação do delicado livro de Daniel Wallace (tive a oportunidade de ler a versão original em inglês) e apresenta um roteiro previsivelmente clichê: um filho que tem a oportunidade de reconstruir a imagem paterna enquanto seu pai, um inveterado contador de história, está com uma doença terminal. Nada muito novo – tanto que outros diretores, como Spielberg ou Stephen Daldry foram cotados para estar à frente do projeto. Entretanto, a própria personalidade de Burton foi determinante para sua escolha. Quando criança, Burton foi problemático. Seu relacionamento com os pais nunca foi bom – Burton ficou durante anos sem manter contato com o pai, até sua morte, no início da década passada, justamente na época em que recebeu o roteiro. Talvez por estar tão ligado a essa memória recente, Burton tenha se empenhado tão fervorosamente neste filme.

Will Bloom passou a vida inteira ouvindo as histórias do pai. Entretanto, à medida que envelhece, os contos fantasiosos do velho se tornam absurdos para a mente antiquada e ressentida de Will. É com este ressentimento que Will retorna ao lar, após anos sem falar com seu progenitor, para tentar aos poucos recriar a identidade do pai e separar o homem do mito, a realidade da ficção. E é essa mistura de dois mundos que tornam Peixe Grande um filme tão encantador quanto o universo de seu diretor.

bigfish1É impossível ficar indiferente ao mundo fantasioso que Burton cria para contar a história de Edward. Narrada em flashbacks, cada cena ajuda a compor e a mitificar o personagem central da trama, brilhantemente interpretado por Ewan McGregor quando jovem e um Albert Finney inspirado na fase final da vida. Mais uma vez, como em qualquer um de seus trabalhos, Burton dá uma aula (não estou exagerando por ser fã pessoal do diretor) de como fazer uma fotografia impecável, marcada por cenários exuberantes. Mesmo os menores e mais simples, externos ou internos, são recriados com detalhes simples que só realçam a pureza e leveza do longa. Este aspecto técnico se torna ainda mais evidente nas cenas mais emocionantes do filme, como quando Edward conhece sua esposa – e depois quando a pede em casamento, em uma rua recheada de narcisos – , na cidade de Espectro ou no banho de banheira (de longe, a cena que mais me faz chorar na história).

bigfishSurpreendendo por dirigir um dos melhores roteiros de sua carreira (uma constante nos filmes burtonianos são os roteiros esburacados), a história reveza momentos reais e imaginários. No plano real, temos um Will seco, distante, que acusa e censura o pai doente a todo momento. As únicas figuras mágicas neste universo são as personagens femininas: Sandra, a esposa de Edward, interpretada por Jessica Lange – tão radiante, tão sensível quanto um anjo – e Josephine, a romântica esposa de Will. O plano imaginário, por sua vez, é repleto de personagens encantadores: o poeta, o gigante, o dono do circo, as gêmeas – todos tão belos quanto o próprio universo em que estão inseridos, mesmo que alguns não tenham sido devidamente explorados.

As situações presentes em Peixe Grande são bizarras, mas nada soa ridículo – mesmo a ideia de ser um “peixe grande dentro de um lago” é levada ao ápice, com a expressão retratada no filme à risca. A sensação que se tem ali é de que estamos inseridos dentro de um livro de fantasia, repleto de personagens surreais, mas que estão instintivamente ligados à nossa realidade. Além disso, a grandeza do personagem principal (com a certeza de que não morreria antes do tempo – o que lhe dá a coragem necessária para enfrentar qualquer desafio), que diferente dos outros filmes de Burton não é uma criança mas sim seu pai, torna Edward tão cativante quanto o outro Edward que conhecemos há alguns anos atrás, também pelas mãos de Burton.

bigfish4Burton vinha de um fiasco comercial, sua insossa versão para Planeta dos Macacos – e mesmo seus trabalhos anteriores não foram grandes sucessos de bilheteria. Com um orçamento estimado de cerca de 70 milhões de dólares, Peixe Grande foi recebido como a redenção de Tim, apesar de também não ser sua maior bilheteria. Entretanto, Peixe Grande foi o filme mais… “filme” de Tim Burton. De longe, é o que carrega a maior carga de emoção – talvez pelas próprias condições humanas de Burton. Tem ainda quem acredita que esta foi a única (e maior) esperança de Burton de conseguir um Oscar – em um ano de produções bem razoáveis. Pois é, Hollywood não o quis. Definitivamente, Burton é um peixe muito grande para a indústria cinematográfica atual. Mas, bem, deixemos que ele nade neste lago. Como a própria trama sugere, um homem conta tantas vezes sua história que acaba sobrevivendo a elas e assim se torna um mito. Esta foi a maior conquista de Burton até então.

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