“Lincoln”: Sobra Didatismo, Falta Emoção

Às vésperas do Oscar, chega às salas de cinema nacional Lincoln, produção norte-americana dirigida por Steven Spielberg e que lidera o maior número de indicações ao Oscar deste ano – ao todo, são 12, incluindo melhor filme, número que Spielberg só havia alcançado 20 anos atrás com seu magnífico A Lista de Schindler. Entretanto, uma pergunta fica no ar: Lincoln é realmente tudo isso ou se trata apenas de mais um caso de patriotismo norte-americano?

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Lincoln não mostra a infância do 16º presidente norte-americano até sua chegada ao poder, tampouco foca nos dramas pessoais do político. Na verdade, o longa, baseado na biografia escrita por Doris Kearns Goodwin, concentra suas forças nos quatro últimos meses de vida de Abraham Lincoln, entre janeiro e abril de 1865, quando o ex-presidente liderava um país dividido por sua mais sangrenta Guerra Civil (que ao longo de mais de quatro anos, dizimou cerca de 600 mil vidas). Com a guerra se aproximando do fim, Lincoln tinha ainda à sua frente a difícil missão de aprovar a 13ª Emenda Constitucional, que aboliria a escravidão no país.

1Justiça seja feita: Lincoln, de longe, não recebeu as indicações à toa. Se tratando de uma obra de Steven Spielberg, Lincoln tem todos os itens indispensáveis a uma produção bem sucedida. A começar pela bela fotografia e direção de arte, que recriaram a época com maestria, abusando de cenários em cores frias que contribuíram muito bem para a caracterização do período. Vale ainda mencionar a belíssima trilha sonora de John Williams – para mim, uma das melhores de sua carreira. Entretanto, estes aspectos técnicos não permitem que Lincoln seja um filme perfeito. Na verdade, não se levarmos em conta que é um filme de Steven Spielberg. Ao longo de sua carreira, Spielberg coleciona sucessos atrás de sucessos e criou uma obra muito particular. Alguns pontos marcantes do diretor faltam ao longa e isso acaba despertando certo receio nos fãs. Obviamente, Spielberg está cada vez mais maduro – e falar disso a essa altura do campeonato, de um diretor como Steven é algo que soa estranho, mas é a pura realidade.

3Acostumado a estar à frente de produções grandiosas e premiadas, Spielberg conseguiu com Lincoln o que já se esperava: muitas indicações e altos números nas bilheterias (o filme faturou apenas nos EUA mais do que o dobro do seu orçamento). Mas apesar dos números impressionantes, Lincoln é, talvez, o longa mais intimista de seu diretor. Se você espera algo com cenas de batalha espetaculares e efeitos especiais gigantescos (dá-lhe Spielberg!), sairá desapontado do cinema. Tudo isso, marca registrada do diretor, dá lugar a negociações políticas, marcadas por diálogos complexos para quem não conhece a mecânica política norte-americana, dadas quase que às escuras – e não estou fazendo referência à fotografia do filme. O longa se concentra na difícil tarefa de Lincoln em aprovar a Emenda que aboliria a escravidão no país, mas para isso o ex-presidente cria um processo de negociações não muito diferente do que temos no cenário atual (pressões, ofertas de cargos, concessões e privilégios, etc.).

2Também não espere um filme que vá te levar aos ápices das emoções ou que tenha muita profundidade a ser discutida. Os dramas pessoais de Lincoln são pouco explorados – e é nesse ponto que surge Sally Field, caracterizando a esposa de Lincoln, que perdeu um filho de febre tifoide durante o mandato do marido e é emocionalmente instável. Este é um dos poucos momentos em que se pode enxergar a figura humana de Lincoln, mas bem superficialmente. Ainda que Daniel Day-Lewis faça um excelente trabalho de caracterização (que fatalmente trará o 3º Oscar da carreira do ator), esse aspecto dramático é pouco explorado na trama, dando lugar aos conflitos políticos que tornam o filme uma bela aula de História, mas com poucos sentimentos. Daniel conseguiu recriar bem a personagem central. Cada detalhe que o ator estudou durante cerca de um ano foi transmitido em cena: a voz marcante, o jeito de andar desengonçado ou mesmo a maneira entusiasmada como contava suas histórias.

5No final, Lincoln se torna uma obra grandiosa, sim. Levando em consideração as produções que ganharam o Oscar de melhor filme nos últimos dois anos (O Discurso do ReiO Artista, respectivamente), Lincoln tem tudo para ser o grande nome da noite. Mas peca em mostrar os dramas do ex-presidente de forma tão superficial, fazendo com que o filme seja incapaz de emocionar o espectador. Mesmo ao tratar os dilemas políticos, faltou ainda um pouco daqueles discursos inspiradíssimos do político – o que certamente traria mais emoção à trama. Ao longo de quase duas horas e meia, Lincoln funciona bem no mercado norte-americano, mas por suas deficiências faz com que a produção seja excessivamente regional. Não que isso impeça os prêmios da Academia (patriota e puritana, como sempre). Lincoln impressiona como obra cinematográfica – mas o coração nunca atinge o espectador.

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