Por Que Eu Não Gosto de Cinema em 3D

Nesta semana, finalmente assisti Gravidade – em 3D, numa sessão de quinta-feira, não muito vazia e em um shopping bem movimentado da capital paulista. Confesso que resisti um pouco no começo – mas como as críticas eram favoráveis (tanto ao filme quanto à atuação da Bullock, por quem eu não morro de paixões…), decidi ceder e conferir a produção de Alfonso Cuarón. Surpresa: gostei por completo. Mas mesmo assim, tenho que confessar: assistir Gravidade só me fez ter mais certeza de que eu realmente não curto cinema em 3D.

Bom, vou refazer minha frase: eu não sou fã de filme em 3D ou qualquer outro tipo que use muita tecnologia para recriar uma história. Confesso que isso é uma questão pessoal. Eu sou uma pessoa chata, não costumo gostar das coisas que a maioria das pessoas gosta e tenho certa predileção por tudo aquilo que é estranho. Fujo dos blockbusters norte-americanos e caio de amores pelos dramalhões europeus. Logo, não seria muita surpresa se eu saísse do cinema soltando os cachorros. Já saí de sessões no meio de produções de sucesso por não suportar as imagens e todo o resto. Mas se você está pensando que eu sou um intelectual metido a besta, vou dar aqui minhas razões.

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Cinema é uma arte visual? Sim, mas não apenas isso. É um conjunto, é uniforme. Aí reside o problema em longas com muitos efeitos especiais: a atenção fica voltada – muitas vezes – simplesmente a esses aspectos técnicos e elementos essenciais de um bom filme (roteiro, desenvolvimento de personagens, diálogos) acabam sendo deixados de lado. Ou seja, se gasta muito tempo – e dinheiro – em efeitos especiais mirabolantes e o filme em si, cadê? Uso sempre o exemplo de Jurassic Park. Na época, Spielberg gastou milhões de dólares em computação gráfica – para criar pouco mais de quinze minutos de dinossauro na tela. Solte o cronômetro e confira. Quinze minutos! E para ver apenas quinze minutos de répteis, o espectador é obrigado a engolir quase 2 horas de um produto bem mediano.

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Efeitos e computação gráfica não compensam boas histórias e tramas. Talvez seja clichê falar isso, mas é realidade. O filme pode ter técnica apurada – mas não é apenas isso que faz uma grande produção. Não é só de imagem que o cinema sobrevive, mas sim de seu conteúdo. Gravidade mesmo: enche os olhos dos espectadores com belas imagens, mas eu saí do cinema com aquela sensação de “okay, entendi, mas… e aí?”. E quando a película é rodada em 3D eu fico ainda mais irritado. A grande massa não sabe diferenciar conceitos. Pegue o sucesso Os Vingadores. Milhões arrecadados ao redor do mundo – “a melhor adaptação de heróis no cinema”, alguns diziam. Mas os milhões arrecadados se devem, não podemos esquecer, às milhares de sessões em 3D – cujo ingresso custa, em média, duas vezes mais do que as sessões convencionais. Os Vingadores é ruim? Não, mas são duas horas de lutas e mais lutas, vilões, mocinhos, explosões… tudo o que agrada aos olhos, mas e o coração? Alice no País das Maravilhas, de Tim Burton, é outro exemplo: uma das maiores bilheterias mundiais e ao mesmo tempo um dos filmes com menor avaliação da carreira do cineasta.

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“Você é um chato mesmo!”, vão dizer alguns. “Imagem é tudo e é a base da arte do cinema.”, vão dizer outros. Eu concordo. Mas o conjunto é importante. O roteiro tem que estar amarrado, o elenco em sintonia, o som condizente com a imagem, tudo tem que estar alinhadinho – e não apenas computação gráfica. As duas coisas precisam caminhar ali, lado a lado. É possível? Sim. Ficaria aqui dando vários exemplos de produções bem sucedidas nesse aspecto. A trilogia Batman de Nolan é um caso bem atual. A saga O Senhor dos Anéis é outra que consegue unir bem esses dois conceitos. E o nosso velho Cameron com Titanic e Avatar? Tem como não amar?

Sou a favor do uso de tecnologia no cinema. Só penso que ela não pode se sobrepor a aquilo que realmente é a essência dessa arte. Se usada de forma correta, ela contribui muito dentro da obra. Do contrário, pode até atrapalhar. Compare os efeitos especiais da primeira trilogia Star Wars com a segunda. Quero ver quem é macho suficiente para dizer que prefere os primeiros episódios ao invés dos clássicos de George Lucas. Em Episodio II – O Ataque dos Clones, o uso de CG é tão pífio que dói nos olhos. Em uma determinada cena, Anakin e Amidala estão tendo momentos românticos em um campo aberto, em uma cena totalmente externa – que destoa de todo o restante da fita. Juro que quando assisti pela primeira vez, eu interrompi a projeção e fui beber água porque não aguentei ver aquilo. Era uma única cena “bonita”, “natural”, dentro de um filme recheado de computação gráfica.

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Até as atuações costumam ser ofuscadas. Eu admiro os atores que fazem esse tipo de filme porque deve ser uma agonia. Eu sou incapaz de demonstrar sentimentos em minhas relações, daí fico imaginando como deve ser atuar diante de uma tela verde. E tem gente que até consegue se sair bem. Olha aí a Sandra Bullock – provavelmente vai receber indicação ao Oscar no ano que vem. Lembra da Helena Bonham Carter como a Rainha Vermelha no país das maravilhas de Burton? Como não rir com seus gritos e suas caras tresloucadas (apesar que estamos falando da Helena, que é um caso a parte…)? E os rostos inocentes das crianças que Scorsese escolheu para protagonizar A Invenção de Hugo Cabret (que aliás, ganhou 5 Oscars – praticamente em todos as categorias técnicas)?

Apenas quero dizer com este texto que cinema é arte para os olhos, ouvidos e coração. Usar tecnologia é essencial – e ela está aí para ser usada mesmo. E o bacana é saber que a cada dia a coisa vai ficando mais sofisticada e as técnicas vão melhorando, contribuindo ainda mais para que os artistas mais geniais possam reconstruir o universo que tem em mente e só o cinema é capaz de reproduzir. O que não pode acontecer – e isso é triste, pois percebemos que Hollywood cada vez mais investe nisso – é deixar que a tecnologia seja mais importante no filme do que os próprios conceitos que fazem do cinema essa arte tão apreciada. É bacana ver uma explosão em 3D? É legal ver heróis combatendo as forças do mal com seus poderes fenomenais? É excitante ver uma perseguição de carros em uma avenida repleta de pedestres? Sim, tudo isso é legal. Mas tem que ter conteúdo. Imagem por imagem, desculpe, eu fico com a vida real. É muito mais empolgante.

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Um pensamento sobre “Por Que Eu Não Gosto de Cinema em 3D

  1. Pingback: “Gravidade” é Tudo Isso Mesmo? | Davi Gonçalves

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