Politicamente Incorreto, Perfeitamente Eletrizante: Assim é “O Lobo de Wall Street”

Cá entre nós: com mais de 70 anos de idade, Martin Scorsese alcançou um patamar de excelência onde o cineasta já não precisaria mais provar nada a ninguém. No entanto, o diretor continua na ativa – e, felizmente, ainda consegue surpreender seu público a cada novo filme lançado. Após o excelente A Invenção de Hugo Cabret, Scorsese apresenta o politicamente incorreto O Lobo de Wall Street, seu mais novo longa, que tem gerado diversas polêmicas ao redor do mundo mas comprova o talento de uns dos mais tradicionais nomes da Nova Hollywood.

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O Lobo de Wall Street é a adaptação para o cinema da autobiografia do corretor da bolsa novaiorquina Jordan Belfort, que aos 26 anos já era uma das figuras mais ricas dos EUA. O filme mostra como Jordan ficou milionário em pouco tempo, montando uma corretora de investimentos com atividades suspeitas, até sua prisão na década de 90. Scorsese narra a história de ascensão e queda da dupla formada por Belfort e Danny Porush (melhor amigo do corretor, que abandonara seu emprego como vendedor de móveis para embarcar no ramo dos investimentos), explicitando seus escândalos, polêmicas, fraudes, corrupção (que envolvia até a máfia) e, principalmente, seus excessos.

Aliás, excesso é um termo que pode ser aplicado bem em O Lobo de Wall Street: tudo é perfeitamente exagerado. O excesso não é o limite, sempre haverá mais, a começar pelas suas longas três  horas de duração – apesar do ritmo frenético da trama (que não deixa você, espectador, se cansar em nenhum momento), temos que reconhecer que estamos diante de um filme com exatos 179 minutos de duração. Com tanto tempo disponível para se contar uma boa história, Scorsese não poupou os detalhes e fez dos excessos o maior triunfo de O Lobo de Wall Street: quando falamos que os personagens estão fazendo uma orgia, eles realmente estão fazendo uma orgia; se falar que Jordan ficou tão rico que jogava dinheiro fora, é porque ele realmente descartava dólares no lixo como lenços de papel; quando dizemos que Jordan consumia drogas demasiadamente, é porque ele praticamente só ficou sóbrio nos primeiros 15 minutos de filme (aliás, em uma das melhores e mais criativas sequências, Jordan aspira cocaína no traseiro de mulher com canudinho – cena que foi eliminada em diversos países).

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Alem da cena citada acima, alguns países se sentiram incomodados também com outras diversas sequências (especialmente, uma que envolvia uma orgia gay e outra em que um dos personagens se masturbava em público). Nos Emirados Árabes (país com a censura mais profunda até o momento), o longa teve 45 minutos a menos do que a versão original – isso sem contar que Scorsese também já havia adequado o filme ao território norte-americano para que a censura não caísse matando. Isso não foi o suficiente para que o filme não fosse repleto de cenas de sexo e palavrões (só a expressão fuck foi usada mais de 550 vezes!), o que já seria o suficiente para levantar a bandeira da censura em países mais conservadores. Houve até quem se incomodasse com uma cena em que é praticado um jogo de tiro ao alvo com anões – sugerindo que o longa faça apologia à ofensa de minorias.

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Esses detalhes deixam o filme politicamente incorreto, sim, mas simetricamente eletrizante: tudo funciona bem. Da trilha sonora (que Scorsese, para variar, escolhe muito bem) à rápida edição e fotografia iluminada, O Lobo de Wall Street ainda traz um elenco inspirado. O destaque, obviamente, fica por conta de Leonardo DiCaprio que, no papel de Jordan, tem uma das melhores atuações de sua carreira. Se DiCaprio nunca faturou um Oscar ao longo de sua carreira, essa é a hora. A cena em que sofre uma paralisia e tenta entrar em sua Ferrari faz a platéia chorar de rir com tamanha tragédia. Seu personagem promove discursos tão encorajadores que a platéia se sente motivada junto com todos seus funcionários. Somos capazes de amar Jordan, mesmo detestando sua vida abominável. Jonan Hill, que recebeu uma indicação ao prêmio de melhor coadjuvante, também está divertidíssimo, fugindo daquele estereótipo que o vem acompanhando nos últimos trabalhos e criando um Danny tresloucado. O restante do elenco mantem o nível da trama e deixam o filme muito mais divertido de se ver.

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Narrado em voice over – recurso típico de Scorsese, mas nem por isso banalizado – , O Lobo de Wall Street é um raro caso de filme que funciona bem em todos os aspectos. Não à toa, a obra recebeu cinco indicações ao Oscar deste ano (melhor filme, melhor direção, melhor ator para DiCaprio e coadjuvante para Jonan e melhor roteiro adaptado) e tem fortes chances de sair premiado em alguma categoria. Polêmico do início ao fim, O Lobo de Wall Street traz excelentes atuações dentro de um roteiro com um humor inteligente e cheio de críticas, alem de muita orgia, drogas e dinheiro. Com um ritmo eletrizante, O Lobo de Wall Street é um filme que faz jus ao nome do diretor que carrega – e a todos os elogios que vem recebendo.

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