A Bela Junie

Christophe Honoré é um dos cineastas franceses mais cultuados dessa nova geração. Com uma filmografia cheia de altos e baixos, Honoré busca no romance La Princesse de Clèves (de Mme. de La Fayette, século XVII) a inspiração para seu A Bela Junie, um filme mediano na carreira do diretor, mas nem por isso uma obra completamente descartável.

01A história segue Junie, uma garota de 16 anos que, após a morte trágica da mãe, vai morar com a família de seu primo. Ela passa a frequentar o mesmo colégio do parente e, como nova integrante do grupo de amigos do garoto, Junie desperta as emoções dos adolescentes românticos do local, entre eles, o sensível Otto, com quem acaba namorando. Enquanto Otto tenta entender o comportamento da namorada, Junie acaba se apaixonando por seu professor de italiano – paixão esta correspondida pelo docente.

Honoré adapta o romance de La Fayette para os dias atuais, em um mundo contemporâneo onde não há muitos interditos. Tema frequente na obra de Honoré, aqui as paixões da juventude são vividas de forma muito mais intensa do que em seus filmes anteriores – ainda que idealizadas. O deslumbre do professor quando enxerga Junie pela primeira vez – em uma cena quase operística – é uma ode à paixão romântica. No entanto, enquanto diversas histórias são desenvolvidas por outros personagens, é Junie a personagem mais racional do longa: o amor não é algo eterno. Esse distanciamento do amor (e do relacionamento) é acentuado pela atuação quase inexpressiva de Léa Seydoux, o suficiente para despertar o interesse e a curiosidade de qualquer homem que a observe.

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Diferente do que acontece nas tramas comuns, em A Bela Junie é a mulher quem “foge” do relacionamento tradicional, enquanto o homem é quem está entregue ao poder de sedução da mocinha. São cenas entre Léa e Louis Garrel (sim, o ator fetiche francês está aqui) que distanciam A Bela Junie dos contos convencionais, onde a mulher sofre pelo desprezo. Garrel faz o tipo sedutor que pode ter toda e qualquer mulher, mas cai em desespero ao ver que a única mulher que realmente deseja não está ao seu alcance. Mesmo o personagem de Grégoire Leprince-Ringuet (encantador, no auge de sua beleza) , o namorado de Junie, é tão obcecado por nossa protagonista (e cada vez mais confuso sobre as atitudes e mudanças bruscas da mulher que ama) que é sempre atordoante vê-lo em cena, tamanho desespero de sua persona (que trará um desfecho triste, porém interessante ao longa). OBS.: Grégoire é, provavelmente, a mais grata surpresa no filme.

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Com ares de nouvelle vagueA Bela Junie foi feito para a TV francesa, mas logo ganhou o público, apesar de não apresentar muitas novidades. Com uma delicada movimentação de câmera e uma trilha encantadora (ainda que simples), Honoré consegue extrair o melhor do ambiente, criando uma bela fotografia, ainda que os lugares sejam ordinários. A Bela Junie não é a melhor obra do cineasta e tão pouco apresenta uma evolução latente em relação aos trabalhos anteriores de Honoré. É um filme que fala sobre desilusões amorosas e as reviravoltas que ocorrem nos corações dos apaixonados, porém com pouca ousadia e inovação – e talvez esse seja seu único pecado, mas o suficiente para não torna-lo um filme inesquecível. Sincero e contido, A Bela Junie é um longa para aqueles que apreciam as produções francesas de outrora. Do contrário, pode ser um inevitável fardo.

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