O Mundo (Não Tão) Fantástico da Srta. Peregrine e Suas Crianças Peculiares

Confesso que minha curiosidade em relação a O Orfanato da Srta. Peregrine Para Crianças Peculiares surgiu após os rumores de que o cineasta Tim Burton estaria cogitando adaptar a história em seu próximo filme. Fã assumido do diretor, não hesitei em procurar a obra nas livrarias locais – busca essa que se tornou mais ávida à medida que colhia mais informações sobre o livro e sobre todo o universo criado pelo estreante Ransom Riggs.

01Narrado em primeira pessoa, O Orfanato da Srta. Peregrine Para Crianças Peculiares acompanha Jacob, um adolescente de família rica, que desde cedo foi criado ouvindo as histórias fantásticas contadas por seu avô, um herói de guerra saudosista e cheio de mistérios. Essas histórias envolviam crianças com poderes especiais (daí a alcunha de “peculiares”) e um orfanato onde esses seres viviam sob os cuidados da tal senhorita Alma Peregrine, que dedicava seu tempo a proteger essas crianças e mantê-las dentro de uma determinada fenda de tempo, já que o convívio com os humanos e o mundo futuro era, sob certo aspecto, perigoso. Após a morte inusitada do avô, Jacob embarca em uma aventura ao País de Gales, especificamente em uma pequena ilha onde deseja descobrir as verdades sobre o orfanato e os contos do avô – e assim, reconstruir sua imagem.

Longe de ser uma verdadeira obra prima, O Orfanato da Srta. Peregrine Para Crianças Peculiares é um livro apenas bom. Superestimado, devo admitir que se trata de uma literatura superior a outras do gênero (apesar do tom “sombrio” da trama, trata-se de uma obra infanto-juvenil), especialmente se levarmos em conta o fato de que é o trabalho de estréia de Riggs (blogueiro e autor de alguns curtas-metragens). A ideia realmente é ótima – e ficaria ainda melhor se ela estivesse presente nas páginas e não apenas em sua sinopse. As crianças peculiares do título, por exemplo, são escassamente exploradas – assim como suas origens e seus poderes, o que poderia criar um drama com muito mais suspense, mistério e terror (e não simplesmente uma versão burtoniana de Percy Jackson e seus amigos, ou uma abordagem teen de X-Men).

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Seria Helena, inevitavelmente, nossa Srta. Peregrine?

Outro ponto que deve ser mencionado é a falta de estabilidade da narrativa. O livro oscila entre momentos ótimos e outros excessivamente ruins. Há trechos que fazem você devorar a leitura e outros que são tão cansativos que chegam a incomodar o leitor. O início, por exemplo, apresenta de forma encantadora o personagem Jacob – um jovem aparentemente normal, como tantos outros, cuja existência consiste apenas em… existir. Mas depois disso são tantas reviravoltas e a história se perde entre tramas previsíveis, sequências de ação demasiadamente cansativas, mistérios fracos e um didatismo sem fundamento. Todo o bom material que o autor tinha nas mãos é desperdiçado na criação de uma mitologia que não funciona e, em alguns instantes, é tão bizarra que o leitor se questiona “o que é isso?”. Todo o mundo fantástico que Riggs criou (e que é digno de louvor, diga-se de passagem) serve apenas de cenário para acontecimentos não muito estilizados, que tornam o livro um emaranhado de trechos oscilando entre o real e o imaginário.

Vale também ressaltar aqui que, como mencionei, as crianças peculiares do título são mal exploradas, assim como suas histórias. Não há um personagem tão bem desenvolvido que enterneça o público – com exceção de Jacob, o garoto comum que é o retrato de uma juventude que é a cada dia mais cética. Jacob fica dividido entre os contos do avô e a probabilidade de sua veracidade, reconstruindo aos poucos a memória afetada do parente que ainda é mais destruída pelo restante da família capitalista do garoto. Mesmo o romance entre ele e Emma Bloom, uma peculiar que mantivera um caso com o avô de Jacob anos atrás, é retratado de forma tão superficial que é impossível sentir-se cativado pelo casal. Mesmo as tão faladas e assustadoras fotografias do livro (retiradas de acervos pessoais) não funcionam também como terror, fazendo com que as imagens sejam apenas uma espécie de ilustrações que complementam a narrativa – e nada alem disso.

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Ao ler as páginas iniciais, foi impossível não associar a obra de Riggs a Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas, filme burtoniano de 2003 – onde um filho tenta reconstruir a memória do pai através de suas histórias fantásticas. Também é impossível ler o livro e não enxerga-lo como um produto típico do universo burtoniano (ou mesmo enxergar Helena Bonham Carter como a provável senhorita Peregrine, caso realmente essa adaptação se confirme). O Orfanato da Srta. Peregrine Para Crianças Peculiares é uma boa obra, com um material não bem utilizado e com um final que, ao que tudo indica, abre margens para uma história muito mais interessante – tornando-a um prólogo para uma sequencia que pode ainda nos surpreender. Como produto literário final, o livro é um material agradável – mas com altos e baixos que colocam em dúvida sua qualidade.

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Um pensamento sobre “O Mundo (Não Tão) Fantástico da Srta. Peregrine e Suas Crianças Peculiares

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