Um Mundo Perfeito

Um Mundo Perfeito é um daqueles filmes que já é concebido para ser um sucesso. Afinal, a produção juntou dois artistas em evidência naquele momento: os oscarizados Clint Eastwood (que vinha do mega sucesso Os Imperdoáveis, que faturou os prêmios de melhor diretor e melhor filme) e Kevin Costner (com 7 Oscars pelo drama Dança com Lobos), formando a dupla a frente deste comovente drama que, apesar de não ser um campeão nas bilheterias, foi uma unanimidade pela crítica.

07Pequena obra-prima de Eastwood, Um Mundo Perfeito é o retrato honesto de uma improvável e verdadeira amizade, formada aqui pelo fugitivo Butch (Kevin Costner) e o garoto Phillip (T. J. Lowther). Phillip é sequestrado por Butch e seu comparsa quando estes invadem a casa do garoto, tornando-o refém e iniciando uma verdadeira caçada liderada pelo Texas Ranger Red (Clint Eastwood) e pela psicóloga Sally (Laura Dern). Enquanto cruzam o país em um carro roubado, bandido e vítima desenvolvem uma afeição muito forte entre si, situação inesperada que põe em dúvidas até mesmo as intenções de Butch para com Phillip.

Tratando-se de um drama cujo ponto de partida é o sequestro de uma criança, poderíamos esperar que o longa focasse sua narrativa no sofrimento e desespero da mãe de Phillip. Surpreendentemente, o drama procura, no entanto, abordar a relação que nasce a partir deste crime, entre Butch e o garoto. Assim como Butch, Phillip também é órfão de pai – o que faz com que o filme seja muito mais do que um tratado sobre amizade, mas também um estudo sobre os problemas ocasionados pela ausência de uma figura masculina (nem sempre paterna, vale ressaltar). Sugere-se também uma profunda análise sobre os traumas que somos obrigados a carregar em nossas vidas por conta do meio em que vivemos (Phillip, apesar de ser criado sob uma rígida faceta religiosa, é um garoto triste e contemplativo). Em suma, não importa se você é criado dentro de um prostíbulo ou de uma igreja: traumas sempre poderão surgir, não importa o meio.

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Contrariando o título da obra, na visão de Clint não há um mundo perfeito; por esta razão, seria praticamente impossível distinguir o “bem” do “mal”, ou o “certo” do “errado”. Em determinado momento do longa (um dos mais belos, diga-se de passagem), por exemplo, o garoto se sente feliz ao “brincar” de montanha-russa sobre o carro em movimento – um simples prazer de qualquer criança de sua idade e que lhe fora tirado por conta de sua criação protestante. Em outro momento, Butch encoraja o garoto a usar a fantasia que roubara em uma loja – algo que jamais faria dentro de sua casa (Phillip diz, em determinado trecho, que “vai para a cadeia e para o inferno” por roubar a fantasia). Para Clint, as nossas concepções sobre “bem” ou “mal” não são as mesmas, daí a injustiça de se julgar uma pessoa por suas ações (sem conhecer os reais motivos de seus atos).

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Clint sabe bem como conduzir sua narrativa, com segurança suficiente para alternar as sequencias entre Butch e Phillip e as cenas de perseguição do grupo de Red. Com a experiência de anos atrás das câmeras, Clint também consegue extrair ótimas atuações de seu elenco, começando por Kevin Costner, altamente convincente no papel do criminoso fugitivo. Impondo respeito como bandido, Kevin é suficientemente carismático para fazer com que o público se simpatize e solidarize com Butch (vivendo brilhantemente a maneira afetiva como o bandido trata a criança). A empatia do público por Costner é crucial para a criação de uma espécie de relação “pai e filho” – afinal, Butch é a figura masculina que tanta falta faz a Phillip. A relação entre os dois fica ainda mais forte com a ótima atuação de T. J. Lowther, que oscila brilhantemente a inocência de uma criança com a falta de uma figura paterna e o desejo (ainda que reprimido) de fazer as coisas que são tão comuns às crianças de sua idade. Juntos, Butch e Phillip vivem momentos que só seriam vividos (em um mundo perfeito, claro) por pai e filho.

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Tecnicamente, no entanto, deve-se mencionar que Um Mundo Perfeito está longe da perfeição. Nada ali está acima da média. No entanto, tudo é feito de forma discreta: da fotografia do filme (que explora as paisagens das estradas norte-americanas – contribuindo para belos planos) à paleta de cores não muito quentes (que realçam o tom melancólico da narrativa, mas sem exageros) e a bela ambientação dos anos 60. A trilha sonora, que oscila entre momentos melancólicos a trechos mais alegres, ajuda a refletir o estado de suas personagens, explorando bem cada sentimento exprimido, mas sem forçar a barra, cansando o espectador. Tudo isso ajuda Clint a construir belos momentos, onde fica evidenciado o talento que cineasta acumulou durante anos de carreira – e que está ali presente, ainda sem nenhum brilhantismo.

Com um final dramático (e até mesmo piegas), é praticamente impossível segurar as lágrimas ao ver o garoto abraçar seu sequestrador até, de mãos dadas a ele, partir em direção a policia. Comovente, Um Mundo Perfeito é um drama humano que não apenas recria uma amizade verdadeira entre seus protagonistas, mas também questiona a injustiça que cometemos ao julgarmos as pessoas sem compreendê-las, sem conhecermos suas razões em toda a complexidade que é o ser humano. Considerado pela crítica francesa como o melhor filme do ano em seu lançamento, Um Mundo Perfeito é um filme que emociona e cativa, em toda sua plenitude.

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