Jack White e a Inércia Inteligente de “Lazaretto”

Ah, Jack White… O que se esperar de um cara que já foi considerado o 70º melhor guitarrista de todos os tempos (o que, em tempos atuais, é uma posição invejável)? Lá em 2012, quando lançou o ótimo – mas questionado – Blunderbuss, deixando de lado seus inúmeros projetos paralelos (as bandas The Raconteurs, The Dead Weather e a extinta White Stripes), Jack carimbava seu status de grande astro do rock. Não à toa, Blunderbuss, apesar de não trazer nada novo, era um álbum que no conjunto agradava ao público sedento de boa música. Lazaretto, segundo registro de White, tem o mesmo defeito de seu anterior: não inova, mas agrada o suficiente por se manter na média dos trabalhos de White e, sendo assim, cumprir as expectativas que se tenham sobre ele.

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De cara, somos surpreendidos com a ótima Three Women, que abre a produção com muita empolgação, marcada pelo excelente instrumental com ótimos breaks de piano e contrabaixo e um solo final de guitarra que é um dos melhores momentos do álbum. Faixa título, Lazaretto é precisa no entrosamento entre os instrumentos. Com elementos que remetem diretamente ao estilo White Stripes, a faixa tem uma guitarra poderosa e, para fechar, um precioso solo de violino – que nos pega de surpresa. Aliás, Lazaretto foi a primeira música de divulgação e já ganhou um clipe (ótimo, diga-se de passagem).

O violino permanece na folk/country Temporary Ground, quebrando o ritmo alucinante das duas primeiras faixas. Não bastasse o som do violino que praticamente fala no seu ouvido, Jack ainda nos presenteia formando um belo dueto com um backing vocal feminino – um charme para quem curte este estilo. Com uma introdução sombria, chega o dark blues Would You Fight For My Love?, uma das mais gratas surpresas do disco. Com uma batida tão forte e sugestiva quanto seu nome, à primeira audição é a música que mais se destaca das demais. Para fechar aquilo que eu chamo de “lado A” de Lazaretto, temos a instrumental High Ball Stepper onde Jack, para variar, mostra o que devemos esperar de um guitarrista como ele. Alem de alguns arranjos divertidos com o piano, o solo de guitarra e a sincronia perfeita com a percussão quase nos fazem esquecer que estamos ouvindo um disco cantado, deixando um gostinho de “quero mais” quando chega ao final de seus quase quatro minutos.

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Just One Drink é uma divertida canção de “bar”, perfeita para uma cena de briga em algum filme de Scorsese. Misturando música de saloon com rock de garagem, Jack questiona inúmeras vezes “Eu te amo mas, querida, por que você não me ama?” – em suma, uma música deliciosa. Em seguida, Alone in My Home quebra um pouco o ritmo com essa faixa onde o piano é claro destaque, assim como a sucessora Entitlement, mais lenta e arrastada e que lembra rapidamente I Guess I Should Go To Sleep, presente em Blunderbuss. Com uma batida meio reggae, That Black Bat Licorice fica em cima do muro: não é agitada, não é parada, mas é carregada com uma base de guitarra incrível. Apesar de não ser uma excelente música, é a faixa que claramente reacende o disco junto com I Think I Found The Culprit, com seu bom instrumental. Encerrando Lazaretto, White diminui totalmente o ritmo e segura os impulsos na serena (mas muito boa) Want and Able, outra faixa em dueto na medida certa e um piano base encantador.

Lazaretto foi feio meio que às pressas. Sequer era algo muito esperado – isto justificado pelas dúvidas em relação a Blunderbuss. Mas daí Jack surpreendeu e trouxe um registro bem conciso em relação à sua proposta – muito mais do que Blunderbuss, um álbum que alem de não inovar em nada, era meio que atirado em várias direções e sem nenhum alvo estabelecido. Como produto final, Lazaretto é um bom trabalho de um artista já consagrado, mas que após tanto tempo na estrada, está visivelmente mais pé no chão. Produção redonda e muito bem feita, é um disco muito menos psicótico do que as outras aventuras de Jack por aí, onde mais uma vez o guitarrista e intérprete não quer “reinventar a roda”, mas sim fazer bem aquilo que sabe, absorvendo de vez toda sua influência da música sulista norte-americana, flertando com o rock de garagem, o country, o folk (marcado pelo piano de White que parece ter saído de algum faroeste antigo) e o blues – elementos dos quais Jack se apoderou para criar sua identidade. Lazaretto é muito mais focado que seu anterior, pecando talvez apenas por sua curta duração. Para alguns, Lazaretto é um claro desperdício da genialidade de Jack White – que, sabemos disso, pode oferecer muito mais. Para outros, a inércia de Lazaretto é sabiamente empregada para manter seu artista em evidência sem colocar em risco sua carreira – e, principalmente, sua identidade.

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