Quebrando a Cabeça com “O Homem Duplicado”

O que você faria se descobrisse ao acaso que existe uma pessoa em algum lugar do mundo fisicamente idêntica a você? Tal situação pode parecer, de fato, estranha. Mas qual seria sua reação ao enxergar a si mesmo no corpo de outro ser? Muito mais do que simples aspectos físicos, há questões comportamentais e psicológicas que fatalmente seriam discutidas – e são essas últimas que o canadense Denis Villeneuve tenta conduzir em seu filme O Homem Duplicado.

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Baseado no livro homônimo do português José Saramago, O Homem Duplicado (título brasileiro para Enemy) nos apresenta a Adam, um professor de história com evidente propensão à depressão que descobre, ao assistir a um filme indicado por um amigo, que existe outro homem, não muito distante, fisicamente idêntico a si mesmo. Atordoado com a situação, ele procura seu suposto sósia – um ator com temperamento e personalidade bastante opostos ao de Adam. Aos poucos, se desenvolve uma relação obsessiva de perseguição entre os dois homens, com um querendo roubar a vida do outro e, principalmente, tentando achar uma resposta ou significado para todo este enredo.

Com um início que causa certo estranhamento, O Homem Duplicado tem um clima sufocante. Talvez o mérito por isso seja da excelente trilha sonora, que ajuda a acentuar a atmosfera de suspense do longa. É como se a qualquer momento alguma coisa fosse acontecer – e isso faz com que o espectador não desgrude os olhos da tela. Ponto também para a boa direção de Villeneuve, que valoriza o tema proposto por Saramago e conduz bem a narrativa, de forma que o público a todo momento tem a sensação de que tudo não passa de um suspense comum – quando na verdade, a proposta é muito mais subjetiva.

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A atuação de Jake Gyllenhaal também favorece muito o andamento da narrativa. Vivendo os dois personagens principais do filme, Jake consegue desenvolver ambas as personagens com nuanças sutis que fazem com que os dois homens sejam bem diferentes. Jake oscila com total controle de cena as diferenças psicológicas, comportamentais e emocionais de Adam e Anthony (o segundo homem) – o que é uma surpresa boa, vindo de um artista até hoje mediano. Nitidamente, vemos o amadurecimento do artista – que acompanhado de boas escolhas, certamente o tornarão um bom ator no futuro. A francesa Mélanie Laurent também tem uma atuação concisa, assim como Sarah Gandon, com quem forma praticamente o núcleo feminino da produção.

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Finalmente, mas não menos importante, há de se dizer que O Homem Duplicado não é fácil. A história é intrigante, mas suas inúmeras teorias, referências e críticas implícitas fazem com que, ao final de seus noventa minutos, o espectador fique com a sensação de que não entendeu absolutamente nada – sendo indispensável uma segunda sessão de cinema ou uma visita a fóruns na Internet para se pesquisar a respeito. O cineasta claramente nos despeja um monte de informações, sem nenhum significado para o público ou mesmo para seu protagonista e, apesar da cena improvável, caminha para um final obscuro e surreal, assim como seu início. Não que isso atrapalhe o produto final. Na verdade, O Homem Duplicado é uma daquelas histórias que não fazem questionamentos e onde tudo é metafórico – o que abre margens para diversas interpretações. Ou talvez, como alguns possam alegar, tudo não passa de alegoria do cineasta que acabou sendo mal explicada e prejudicando o filme. De qualquer forma, para os menos “intelectuais”, O Homem Duplicado vale como suspense. Para os que curtem quebrar a cabeça, vale levantar as milhares de hipóteses que o filme proporciona – ainda que você nunca vá saber qual o sentido de todas elas.

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