Amores Imaginários

Talvez por sua pouca idade, nada é tão marcante na filmografia do cineasta canadense Xavier Dolan do que o apelo emocional a qual o artista recorre em sua obra. Em sua estreia na direção, em Eu Matei Minha Mãe (J’ai Tué Ma Mère, 2009), o jovem explorava as relações familiares – especificamente as brigas entre um adolescente homossexual e sua mãe. Já em Amores Imaginários (Les Amours Imaginaires, 2010) seu segundo longa, o diretor permanece tendo como ponto de partida a expressão dos sentimentos – mas aqui, Dolan mergulha de cabeça no conturbado mundo das paixões e de seus conflitos decorrentes.

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A trama de Amores Imaginários é relativamente simples: trata-se da paixão platônica de dois amigos por uma mesma pessoa. No caso, Francis e Marie – companheiros inseparáveis e que convivem harmoniosamente até a chegada de Nicolas, um charmoso rapaz do interior que se muda para Montreal. Entre encontros e desencontros, o trio se torna cada vez mais próximo, enquanto Nicolas vira objeto de desejo dos antigos amigos. Sem nenhuma pista sobre a sexualidade do interiorano (que ora flerta com o rapaz, ora flerta com a moça), cresce a rivalidade entre Francis e Marie, ainda que não propriamente declarada.

O título de Amores Imaginários retrata bem o tipo de sentimento que Francis e Marie nutrem por Nicolas: trata-se, sim, de um amor “imaginário”, “platônico”. Tanto um quanto o outro enxergam em Nicolas uma figura muito alem do rapaz alto, loiro, sedutor; para eles, Nicolas se mostra uma figura fascinante, totalmente passível de admiração: inteligente, livre, mente aberta, ausente de defeitos – ainda que, entre si, eles não assumam tal admiração (chegam, até mesmo, a desdenhar do rapaz com frases do tipo “Ele não faz o meu tipo”).

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Mas é uma verdade: a paixão reduz nossa visão, quase nos cega e quanto mais intensamente vivemos esse sentimento, mais o mundo gira em torno do nosso objeto de desejo. Ambos os amigos, por exemplo, ignoram o fato de que Nicolas claramente se aproveita da bajulação dos dois. Não que Nicolas não seja uma pessoa apaixonante: de fato, o rapaz é interessantíssimo – mas com a visão reduzida, nem Marie e muito menos Francis (que risca na parede do banheiro o número de “foras” que já levou na vida e visivelmente é o mais “sentimental” do grupo) conseguem entender o qual fundo estão indo, apostando e idealizando uma paixão que não tem futuro. Essa concepção quase adolescente – afinal, é cedo que sofremos nossas pequenas desilusões amorosas e que, fatalmente, nos ensinarão muito no futuro – é reflexo da própria visão jovial que Dolan tem dos relacionamentos – algo que já havia demonstrado em seu debut. Mas Amores Imaginários vai muito mais alem: inseguros, seus personagens criam essa idealização porque estão, antes de tudo, carentes de um “amor” – e mesmo quando o encanto acaba, lá estão eles para começar tudo outra vez.

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Visivelmente pretensioso, o cineasta reúne diversas referências artísticas, como artes plásticas, literatura, música e, claro, cinema (especialmente o do francês Jean-Luc Godard). Percebe que o diretor deseja mostrar que seu filme é um “filme de arte” – o que, definitivamente, não é. Tentando elevar sua obra a um status cult, Dolan constrói um universo exageradamente “plastificado”, cheio de cores, câmeras lentas, figurino vintage e uma trilha não convencional – que passa do cover italiano de Dalida para Bang Bang (repetida a exaustão) a Sting. No entanto, apesar deste excesso demonstrar uma evidente ousadia do jovem cineasta, pode causar certo desconforto na plateia ou mesmo cansar o espectador com a forma absurda com a qual Dolan exprime seus delírios. Há cenas e momentos até mesmo desnecessários – como uma sequencia em que Francis e Marie estão tomando chá, enquanto folheiam um livro de Bauhaus, que o garoto depois posiciona estrategicamente em destaque na janela diretamente para o público. Pergunta: você conhece a obra de Bauhaus? O único alívio, para aqueles que se incomodarem, são os depoimentos que Dolan estrategicamente intercala no decorrer da narrativa, onde pessoas comuns falam sobre suas paixões avassaladoras.

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Exageros à parte, o diretor foi capaz de extrair boas atuações, especialmente de Monia Chokri, ótima em cena e que conseguiu demonstrar muito bem a obsessão de Marie em todos os momentos da trama. Niels Schneider é irresistivelmente encantador na pele de Nicolas: apesar de alguns pequenos deslizes (por conta do exagero na atuação ou a forma como os amigos o enxergam ou a maneira como Dolan obcecadamente filma seu rosto em closes), Niels consegue passar a sensualidade e ambiguidade exigidas para sua personagem (Niels com a ponta do óculos na boca ou contando enquanto brinca de “esconder” é puro erotismo). Com menor destaque, o próprio Xavier Dolan atua como Francis – com muito menos trejeitos, esquisitices, caras e bocas do que seu Hubert de Eu Matei Minha Mãe (o que ajuda a expressar o jeito tímido e inseguro do garoto apaixonado). Há ainda as pequenas participações de Anne Dorval (interpretando a mãe “cool” de Nicolas) e o ator fetiche francês Louis Garrel – e o ciclo recomeça…

Amores Imaginários, de longe, é muito mais estilizado e pretensioso do que Eu Matei Minha Mãe, apesar dos exageros. Para quem já está habituado com a pequena filmografia do artista, provavelmente estes exageros não irritarão tanto – na verdade, vão até mesmo abrilhantar o estilo de Xavier e tornar o filme muito mais “admirável”. Dolan mostra aqui que tem grande talento, porém ainda falta o amadurecimento que só o tempo será capaz de trazer (mas que já podemos perceber em seus últimos trabalhos). No entanto, com toda sua plasticidade, o grande mérito de Amores Imaginários é abordar a paixão sob o olhar ingênuo de uma juventude muito próxima – o que faz com que o público possa se identificar com a história. Afinal, quem nunca sentiu a dor e o prazer de viver uma grande paixão, ainda que idealizada?

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