“Deus Não Está Morto”: Uma Proposta Tendenciosa de Propagação da Fé

A julgar pelo título e sinopse, era de se esperar que Deus Não Está Morto, que chegou aos cinemas nacionais nesta semana, tivesse como proposta central o duro (e inútil) debate que envolve cristãos e ateístas: afinal, Deus existe?

04É fato que se por um lado até hoje não foi possível comprovar cientificamente a existência deste ser supremo, por outro lado não há provas que digam o contrário. Outro fato também é que há três coisas que não se discutem: futebol, política e religião – e parece que o diretor Harold Cronk e os roteiristas Cary Solomon e Chuck Konzelman se utilizam dessa premissa para distanciar Deus Não Está Morto de um discurso filosófico contemporâneo, desperdiçando um rico material na tentativa de propagar uma fé de forma tendenciosa.

A trama gira em torno de um calouro universitário de Direito que logo no primeiro dia no campus tem sua fé confrontada: seu professor de filosofia, um ateu inveterado, exige que toda a classe escreva em um papel a declaração “Deus está morto”. Negando-se a fazer tal afirmação, o jovem aceita o desafio proposto pelo docente de provar a existência de Deus em três aulas, em uma série de debates com o professor. Se falhar nesta tentativa, o aluno corre o risco de perder o semestre letivo e, consequentemente, afundar toda sua carreira.

Mas tudo em Deus Não Está Morto parece não funcionar muito bem. Avaliando a produção como “cinema”, há inúmeros pontos que merecem ser destacados negativamente, a começar pelo roteiro que é claramente perdido. Talvez isso seja reflexo dos inúmeros personagens da história, que criam tramas paralelas irrelevantes e fracas (há a mulher abandonada pelo namorado quando descobre que está com câncer, uma jovem expulsa de casa ao assumir sua fé no Cristianismo ou o estudante que é encorajado pelo pai a crer em um mundo “racional”). Em todas essas subtramas, há uma superficialidade na narrativa, o que não permite que o público (mesmo cristãos protestantes) possam se identificar com as personagens. A pura verdade é que se Deus Não Está Morto focasse sua narrativa apenas no confronto entre o professor e o aluno, provavelmente o debate teológico seria muito mais interessante.

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Mas nem mesmo este confronto é capaz de salvar o filme. Os argumentos usados tanto pelo universitário quanto pelo docente são baseados em estudos de filósofos e cientistas famosos – e é até interessante vê-los debatendo (aliás, as melhores sequências advêm deste embate – não propriamente pela discussão, diga-se de passagem, mas também pelo confronto direto entre os personagens). O problema é que ao se aproximar do final da projeção, o diretor deixa de lado qualquer tipo de discurso para nos injetar uma tendenciosa experiência, que glorifica todo e qualquer ato protestante, ao mesmo tempo em que coloca o cristianismo como a principal resolução de todos os males do mundo. Recorre a inúmeros clichês filosóficos (e por vezes infundados) ao dizer, por exemplo, que não há moral fora do cristianismo ou que o alto intelecto é fruto de um pensamento ateísta – o que fomenta a ideia de que a ciência e a fé são rivais.

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Para completar, o filme tem cara de produção de TV barata, evidente nos cenários, figurinos, maquiagem e, principalmente, na trilha sonora, que até começa bem (logo no início da fita), mas aos poucos torna-se previsível e apelativa. A cena em que o pai expulsa a filha de casa após a descoberta de que a garota tem uma fé diferente da sua é, no mínimo, melosa – e lembra de cara qualquer clipe de Kelly Clarkson em início de carreira. A edição contribui bastante para esta sensação, que se estende ainda mais com a atuação de um elenco fraco (no mais amplo sentido da palavra), com performances caricatas – coisa que nem em seriado teen nacional vemos com tanta frequência. Mas a pior deficiência de Deus Não Está Morto não está em sua técnica ou estética – mas em sua essência. O filme tenta a todo custo propagar a fé no Cristianismo (especialmente em sua segunda parte), exaltando aqueles que acreditam nisso e vilanizando todos os demais personagens. É como se não houvesse nada de bom no mundo fora do Cristianismo – uma falsa ideia que mesmo eu (sim, leitor, este ser que vos escreve e que acredita em muitos preceitos cristãos) não compartilho.

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Mas, tudo bem… Deus Não Está Morto é claramente um filme “religioso”, portanto não podemos esperar coisa muito diferente e é até normal que haja este pensamento (veja bem, normal, mas não correto ou saudável – e não levantarei debates a respeito disso). Haverá aqueles que assistirão à fita e se emocionarão, até mesmo porque isto está intimamente ligado às suas experiências com sua religião. Isto tanto é verdade que nos EUA, Deus Não Está Morto faturou muito mais do que seu custo (estimado em míseros 2 milhões de dólares) e a perspectiva é que ocorra o mesmo no Brasil – ainda mais com a campanha massiva nas redes sociais. Talvez a única discussão que o filme possa proporcionar é o autoritarismo nas universidades mundo afora – aliás, a história foi concebida a partir dos inúmeros casos de alunos que sofrem com este tipo de perseguição intelectual nas faculdades norte-americanas – e, se isso fosse mais abordado na trama, certamente o longa seria mais apreciável. O fato é que Deus Não Está Morto, como “cinema”, deixa a desejar; como “discurso” também, pois falha em sua proposta de forma categórica. Seu único mérito é ser um bom material “cristão” – mas, dependendo do cristão, nem isso…

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