Marnie, Confissões de Uma Ladra

01Há certa unanimidade da crítica ao afirmar que a fase áurea da filmografia de Alfred Hitchcock corresponde ao início dos anos 50 até os primeiros anos da década seguinte – período no qual o cineasta dirigiu suas mais elogiadas obras, como Pacto Sinistro (1951), Janela Indiscreta e Disque M Para Matar (1954), Um Corpo Que Cai (1958), Psicose (1960) e Os Pássaros (1963), citando apenas alguns. Outro ponto em que também há uma concordância é que os últimos trabalhos hitchcockianos são os mais “questionáveis” de sua carreira (com exceção de Frenesi, penúltimo filme do diretor). Marnie, Confissões de uma Ladra, lançado em 1964, é um de seus melhores registros, porém sofreu com a incômoda posição entre esses dois períodos – o que divide a opinião dos fãs, que se questionam se Marnie é mais uma das obras-primas do mestre do suspense ou se marca o início de sua série de filmes dispersos, insólitos e de qualidade duvidosa.

A jovem Marnie vive de pequenos golpes nas empresas onde trabalha, assumindo em cada uma delas uma nova identidade. A bela age de forma simples: ganha a confiança de seus superiores e, tempos depois, foge do local com uma pequena fortuna, sem deixar pistas. O problema é que em uma dessas empresas, ela é descoberta por seu chefe Mark, que acaba se apaixonando pela funcionária. Acuada, Marnie só tem duas escolhas: casar-se com Mark ou ser entregue à polícia – e, obviamente, opta pela primeira delas. Apesar de concordar com o casamento de fachada, o esposo devotado tenta desvendar de todas as formas o mistério de sua amada e as causas de todo seu comportamento psicologicamente abalado.

Marnie, Confissões de uma Ladra não é um clássico suspense de Hitchcock, tampouco se percebe tanta entrega do diretor nesse projeto. Isto fica muito evidente no ritmo da narrativa, que apesar de começar muito bem, aos poucos perde um pouco o fôlego – o que, consequentemente, faz com que o público perca também o interesse. O roteiro é visivelmente um pouco perdido e algumas coisas parecem não se encaixar, deixando inúmeras pontas que só serão entrelaçadas ao final das mais de duas horas de projeção. Alem disso, há sequências onde o excesso de informação ajuda a diminuir a ação, mas sem contribuir para uma construção mais sólida da fita. Em alguns momentos, por exemplo, é possível até esboçar uns bocejos pois parece que nada significativamente importante ameaça acontecer.

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Outro “pecado” de Marnie é o desenvolvimento raso e superficial de boa parte dos personagens. Mark é um tipo que, apesar do charme, não possui conflitos suficientes para se aproximar do público (mesmo com todo o carisma de Sean Connery, antes de virar um dos James Bond mais sensacionais da história do cinema). Lil Mainwaring (a belíssima e morena Diane Barker) é outra que, apesar do incrível potencial, não consegue sair da superficialidade pois jamais conseguimos entender o que ela é dentro da trama (afinal, Lil é uma mocinha apaixonada pelo bonitão ou uma vilã interessada no dinheiro do milionário?). Talvez pela falta de antagonistas mais fortes, Marnie se torna um filme de um único personagem: a própria Marnie, intensamente vivida por Tippi Hedren – em um tipo muito mais atraente do que o vivido pela atriz em Os Pássaros. Tippi tem o tom exato entre a docilidade e a frieza e essa dualidade no caráter da personagem ajuda muito a enriquecer a trama e construir a personalidade complexa de Marnie. Hitchcock sabiamente explora ao máximo a sua personagem para criar os eventos do filme e volta em busca de respostas e razões no passado que justifiquem (ou, ao menos, ajudem a compreender) o comportamento de Marnie.

Comprovando a excelência técnica dos filmes de Alfred, há um esmero em pequenos detalhes. Com muita sofisticação, os figurinos, maquiagem e cenários são impecáveis e deixam muito abaixo até títulos mais cultuados do diretor. Marnie pode possuir suas deficiências, mas ainda assim é um ponto interessantíssimo da obra de Hitchcock. Não há características de um suspense clássico (exceto no constante medo de Marnie em ser descoberta), mas há cenas em que o cineasta demonstra total domínio da linguagem cinematográfica – como na sequência do roubo, em que a posição dos personagens e os cortes de imagens acentuam cada minuto de tensão. Alem disso, o humor sutil do diretor fica implícito em inúmeros diálogos, ao menos para os espectadores menos dispersos. Se por um lado o suspense tenha ficado em segundo plano, Hitchcock nos delicia com certa dose de psicanálise ao tentar desvendar os mistérios que envolvem Marnie (afinal, qual é a origem de seu medo? Por que a repulsa aos homens? Por que o desprezo da mãe? Qual a origem de sua cleptomania?). O problema é apenas sua falta de perfeccionismo, o que não diminui a obra, mas se tratando de um filme de Hitch, é de se ficar com a orelha em pé…

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