Ampliação do Caos em “Uma Noite de Crime: Anarquia”

Apesar das péssimas críticas, Uma Noite de Crime, lançado em 2013, obteve um desempenho relativamente bom nas bilheterias. Talvez por esta razão, a Universal Pictures deu carta branca ao diretor James DeMonaco para a continuação de sua história – e, assim, chega aos cinemas brasileiros Uma Noite de Crime: Anarquia, que parte da mesma premissa de seu antecessor, mas se tornando uma obra timidamente superior.

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Assim como o filme anterior, a trama de Uma Noite de Crime: Anarquia se passa em um futuro próximo, em um estado norte-americano marcado pela diminuição drástica dos níveis de violência e pobreza no país. Essa queda nas estatísticas é, aparentemente, resultado da criação do mais novo (e aguardado) “evento” nacional: o Expurgo, um período de 12 horas, que ocorre uma única vez no ano, onde todo e qualquer tipo de crime ou atividade ilegal pode ser cometido sem a interveniência do sistema judiciário.

Enquanto Uma Noite de Crime centralizava sua narrativa apenas no drama de uma família rica que tenta se proteger de estranhos que querem invadir sua mansão (e também suas expectativas morais diante daquele evento), Uma Noite de Crime: Anarquia apresenta três histórias distintas: um casal em crise que fica exposto nas ruas em meio aos perigos da cidade; mãe e filha (pobres e negras) que são atacadas por uma gangue; e um desconhecido que aguarda esta noite para vingar a morte do filho. Em determinado momento da película, as tramas de todos estes personagens se cruzam em meio ao caos local – e a partir daí, começa uma corrida frenética pela sobrevivência.

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Tecnicamente, Uma Noite de Crime: Anarquia é levemente superior ao primeiro. Muito bem trabalhado visualmente, a fita nos proporciona ótimos momentos gráficos de violência, através de sua boa montagem e um roteiro que apresenta seus protagonistas de forma bastante direta, sem muitos rodeios. Já de cara é possível traçar o perfil de cada uma das personagens – o que para alguns pode soar até meio “cômodo”, mas não deixa de ser algo até aceitável em filmes com este teor. Os tipos até estão ali e são facilmente identificados – e exatamente por isso haja uma proximidade do público com eles. Talvez o único “pecado” tenha sido a maneira como o roteiro mostrou a classe “dominante” da história – que é visivelmente caricata e torna a ação pouco crível.

03A trilha sonora, que retumba um tanto angustiante em alguns momentos, ajuda a estender o suspense, mas sem soar clichê, assim como o cuidadoso exercício de edição de som – contribuindo muito para a fotografia da fita, que utiliza sua paleta de cores de forma equilibrada e condizente com cada situação. A direção de James DeMonaco (que parecia perdida e apressada no primeiro filme e que foi a responsável por boa parte das críticas desfavoráveis, diga-se de passagem) é muito mais segura – o que faz com que Anarquia, apesar de não ser brilhante, amplie muito mais o caos do primeiro longa.

Mas o caos também é ampliado porque Uma Noite de Crime: Anarquia, para citar uma grande pensadora moderna, troca o tiro, porrada e bomba por uma abordagem mais social, mostrando o papel do governo diante dessa situação e as consequências inevitáveis de um evento deste porte em uma sociedade como a nossa. Se na primeira fita havia uma acanhada proposta de se analisar o indivíduo e as motivações que o levavam a “libertar a fera” assim como os instintos naturais de sobrevivência do ser humano, aqui percebe-se uma clara tentativa de criticar o abuso do governo e a péssima distribuição de renda das comunidades atuais, que criam uma diferença cada vez maior entre as classes sociais. Quem tem dinheiro, pode se proteger em suas fortalezas; quem tem dinheiro, pode comprar outro ser humano para se “purificar”; quem tem dinheiro, controla tudo – e este contexto político, muito mais aprofundado do que no filme anterior, aprimora esta sequência, deixando ponta para mais continuações. Uma Noite de Crime: Anarquia pode não ser uma obra-prima de um gênero, mas merece elogios por sua evidente superação em relação ao material da película anterior e por abrir caminho para mais noites de “expurgos”.

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