Perdas, Dramas e Superações em “Uma Nova Chance Para Amar”

O mundo de Nikki vira do avesso quando ocorre uma inesperada tragédia: seu esposo (e também seu único amor) morre afogado durante uma viagem do casal ao México. Inconformada e devastada com a morte repentina do homem que tanto amou, desde então sua vida nunca mais foi a mesma – apesar do constante apoio que recebe da família e amigos. Cinco anos mais tarde, durante uma visita a um museu, Nikki conhece o professor de artes Tom, absurdamente parecido com seu falecido esposo. Os dois se apaixonam e um novo ciclo na vida dos dois amantes se inicia.

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Uma Nova Chance Para Amar é um título genérico e soa batido de início (o original, The Face of Love, justificaria muito melhor o final – que não comentarei aqui). Mas é isso que Nikki e Tom mais procuram ao longo da fita: uma chance para amar e serem amados. A entrega um ao outro é total, mesmo que para isso eles tenham que iniciar seu relacionamento com o mais perigoso dos erros: a mentira. Nikki em nenhum momento confessa a Tom sua semelhança com o esposo, enquanto ele tampouco revela que sofre de uma doença terminal. Um não conhece ao outro por completo – mas se arriscam nesta nova paixão sem medo, pois sabem que realmente estão recebendo da vida uma nova oportunidade para recomeçar.

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Outro erro comum decorrente de relações inesperadamente interrompidas: as comparações. Ou talvez pior do que elas: a projeção. Sempre espelhamos o antigo no atual. Nikki, que ainda não superou a perda do esposo, projeta em Tom tudo aquilo que via no primeiro amor. Certa vez ouvi uma frase que dizia que “nos apegamos não às pessoas, mas às lembranças dos momentos que tivemos com elas”. Nikki exemplificaria bem isso: ela procura, por exemplo, frequentar com Tom os mesmos lugares de outrora – inclusive o mesmo local onde ocorreu o fatídico acontecimento do passado. É quando Tom descobre toda a verdade, nos levando a um falso clímax na narrativa que, particularmente, me agradou bastante devido a pouca expectativa do desfecho da trama.

03A direção de Arie Posin (que divide os créditos do roteiro com Matthew McDuffie) se mostra firme nas sequências mais dramáticas – aliás, Uma Nova Chance Para Amar é um puro romance dramático, onde há muita probabilidade do  público sair do cinema aos prantos. Posin peca somente na escolha da trilha sonora, que se mostra previsível diversas vezes (como se o cineasta dissesse “Agora é hora de chorar. Subam as cordas! Agora, a flauta!”). A fotografia se mostra competente, assim como as boas locações e o ótimo trabalho de iluminação, que favorece muito o cenário. O roteiro escorrega ligeiramente (especialmente no início da projeção) em algumas sequências de flashbacks, que se misturam aleatoriamente devido a falha na edição e podem confundir um olhar menos atento.

Mas quem brilha, inevitavelmente, é o casal de protagonistas vividos Annette Bening e Ed Harris. A química entre os dois contribui muito com o desenrolar da história e a apatia que eles criam com o público ajudam a aproximar seus traumas dos nossos. Individualmente, Annette e Harris também se mostram muito a vontade em cena e o diretor consegue extrair ótimas atuações dos atores. Com menos destaque, no entanto, há ainda a participação de Robin Williams, em um de seus últimos papéis no cinema – antes de ser encontrado morto em sua residência, em agosto deste ano. Apesar de seu modo “automático” (quase desinteressado, convenhamos), sua personagem é fundamental para a criação de uma espécie de “triângulo amoroso”, que nunca se forma definitivamente, mas fica nas entrelinhas como uma espécie de “coringa” para o diretor.

Uma Nova Chance Para Amar é muito bem arquitetado visualmente, alem de um drama inspirado que não nos mostra apenas as consequências da perda de alguém, mas também como caminhamos dentro do longo e dolorido processo de superação (quando ele existe). O filme até soa clichê em alguns momentos ao longo de sua pouco mais de uma hora e meia de duração. Uma Nova Chance Para Amar, longe de ser um drama perfeito, acerta também ao abordar a meia idade: os anos passam e, inevitavelmente, todos envelhecemos – e isso pode assustar, pois a juventude não dura para sempre. Enfim, o grande mérito de Uma Nova Chance Para Amar (apesar de não ser um cinema grandioso) é falar de forma sensível sobre histórias que podem afetar a todos – o que o torna muito próximo a nós mesmos.

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