A Gravata Suja, o Debate e as Eleições 2014

Alguns aqui nas redes sociais devem saber que eu trabalho na área comercial de um banco do segmento privado. Uma peça fundamental do meu vestuário é a gravata, item que uso diariamente. Há poucas semanas, após tomar café da manhã na minha agência, fui ao banheiro escovar os dentes e sujei minha gravata com creme dental. Precisei ir até uma loja próxima e comprar uma nova peça. Para minha surpresa, os modelos ali não me agradaram, eram de péssima qualidade e pouco combinavam com os demais itens. Mas como precisava de uma gravata, acabei comprando um modelo “apresentável”.

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Ontem, ao assistir ao último debate entre os candidatos à presidência da república brasileira, tive a mesma sensação descrita acima. Eu sou um cidadão que voto desde os 16 anos – por opção própria, porque acho que o voto é um exercício pleno de cidadania. Mas em todos os anos, nunca tive tanta dificuldade para escolher um nome. A eleição de 2014 será para mim a mais difícil. Apesar de já ter em mente quais serão os meus candidatos, sinto admitir que, ao menos para os principais cargos, estou votando naquele que para mim é o “menos pior”. Até agora, não vi nenhum candidato (salvo algumas raras exceções em alguns determinados – e tendenciosos – assuntos) apresentar propostas concretas e minimamente coerente para minimizar os problemas de nosso país.

Seja honesto com você mesmo: em quem votar? Pare e reflita com seriedade. Quem merece seu voto para presidente ou governador, por exemplo?

Veja o caso de nós, paulistanos: elegeremos por mais quatro anos o mesmo partido e as mesmas ideias que nos perseguem há décadas (e que tanto reclamamos) apenas porque não temos opção. É a pura verdade: não temos nenhuma opção melhor. Mesmo em meio à crise que estamos enfrentando no estado (nossa água já tem dia para acabar, velho!), elegeremos o mesmo responsável direto por este caos simplesmente para não corrermos o risco abominável de colocar o PT no poder. Não há candidato que valha a pena.

No âmbito presidencial, o problema vai mais alem. Por mais quatro anos, seremos obrigados a aturar dona Dilma gaguejando e servindo de vergonha alheia simplesmente porque nenhum dos demais candidatos são, no mínimo, “suficientes”. Mesmo após os inúmeros casos de corrupção e o índice de reprovação de seu governo lá embaixo, Dilma fatalmente se reelegerá – e ninguém parece se importar com isso. O brasileiro parece que esqueceu tudo o que aconteceu nos últimos anos. As manifestações ocorridas há pouco mais de um ano atrás não serviram para nada a não ser atrasar a minha ida à universidade com o trânsito infernal de algumas avenidas.

O debate de ontem só serviu para me dar a certeza de que ninguém ali é apto para o cargo. Reflita: em quem votar? No religioso católico que prega seu discurso homofóbico? Na candidata à reeleição que mal sabe nossa língua portuguesa? Na crente fervorosa que muda seu plano de governo cada vez que o líder de sua igreja esbraveja suas asneiras no Twitter? No pastor perdido que não sabe onde está e para que veio (imagine esse cara pregando em uma igreja, imagine…)? No barbudo “boa praça” que, certamente, seria uma ótima companhia de barzinho? Na “super cool” que promete cuidar dos direitos das minorias (aliás, fica a dica: é bonitinho, mas posta foto com número de partido ou é militante fervoroso que não sabe nem o papel de um deputado? Estou fora)? No candidato supostamente “sério” que tem um passado duvidoso?

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Não, não, não! Desculpe, mas ninguém ali mereceria meu voto verdadeiramente.

Cadê os candidatos que querem realmente resolver os problemas do Brasil? Se você acompanhou o debate ontem, pode perceber que todos estavam mais preocupados em “causar”, “criar atrito”, “atacar seu oponente” do que em discutir problemas, propostas e soluções. O nome nem deveria ser “debate” mas “combate” porque a coisa ficou blasé e chata. Era algo mais ou menos assim:

PERGUNTA: “Qual sua proposta para o problema da jaca no Brasil?”

RESPOSTA: (com longas pausas, estendendo o tempo) “Eu acredito que a questão da jaca no Brasil é de suma importância e será um dos pilares do meu governo. A situação merece uma atenção, porque a jaca não recebeu o devido tratamento na atual gestão. Em meu governo, a jaca será prioridade.”

Okay, mas qual é a sua proposta para a jaca, candidato? E essa era a mesma resposta para a jaca, a melancia, o abacaxi e todas as demais frutas da banca. Mesmo.

Quando cheguei em casa, tirei a gravata nova, desfiz o nó e joguei-a na minha gaveta com as demais. De lá para cá, fui utilizando outras e ela já deve estar lá no fundo, escondida. Dificilmente ela será utilizada novamente. Tenho uma gravata vermelha linda que sempre uso com aquela minha camisa branca que minha mãe passa impecavelmente e fica excelente. Esta é a minha gravata preferida. Não tenho um candidato preferido, infelizmente. Tenho em quem votar, mas não é o ideal. Votar em branco? Sei lá. Até pode ser. Ao menos aqui eu posso – diferente do banco, onde eu não posso ir sem gravata.

Muito menos suja.

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Um pensamento sobre “A Gravata Suja, o Debate e as Eleições 2014

  1. Belíssimo texto! Tive as mesmas sensações que você ao assistir o debate, embora tenha um candidato a quem votar.

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