Relações Familiares, Ausência e Abandono no Sensível “Pássaro Branco na Nevasca”

Estamos no ano de 1988. Katrina é uma adolescente que vive com a mãe, Eve, e o pai, Brock – ela, uma dona de casa perfeita, porém infeliz; ele, um quarentão sem muita personalidade, mas exemplar pai de família. Eve, que outrora era uma bela mulher, carrega no rosto as mágoas de um casamento falido, despejando na figura do marido todas as mágoas que sente por ter de abrir mão de sua vida. Já Brock finge ser indiferente a tudo, aturando calado as crises da esposa e cuidando do lar de forma excepcional. Não é nenhuma surpresa quando Eve abandona a casa, sem deixar vestígios – tanto que a família tenta diariamente colocar sua vida em ordem, quase se acostumando com a ausência da mãe. Anos depois, Katrina irá perceber que existe uma verdade incontestável por trás do desaparecimento misterioso de Eve.

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Pássaro Branco na Nevasca, novo filme de Gregg Araki (do excelente Mistérios da Carne, de 2004), não tem data prevista para chegar ao Brasil, mas foi considerado uma das mais gratas surpresas da 38ª Mostra Internacional de Cinema (apesar de ter uma única exibição). Araki, que também produziu e roteirizou a história baseada no livro homônimo de Laura Kasischke, coloca em pauta os dramas familiares, abordando os traumas causados pela ausência de uma figura familiar tão próxima e que se ausenta subitamente. No entanto, na obra do cineasta californiano, este trauma é estendido e ampliado, pois a perda em questão é sofrida por uma garota de 17 anos, que passa pela crise frenética da adolescência e também sua descoberta sexual. Dessa forma, Pássaro Branco na Nevasca é bem mais do que uma simples obra de cinema: é um olhar crítico, quase metafórico, sobre o papel de cada um de nós na sociedade, previamente estabelecido.

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Misterioso mas leve, o filme nos proporciona uma bela experiência cinematográfica, através de uma fotografia, figurino e trilha sonora que nos levam de volta aos finais dos anos 80. Falando-se de fotografia, aliás, é imprescindível mencionar a ótima utilização da luz e de elementos com cores “gélidas”, que acentuam o tom melancólico da fita. O roteiro, por sua vez, é conciso e muito bem construído e, ao longo de sua uma hora e meia, é impossível não se prender à história, que traz a mistura exata entre drama e suspense, com reviravoltas e cenas onde a emoção fala mais alto. Somam-se a isso as atuações competentes de um elenco impecável. Shailene Woodley (do meloso A Culpa é das Estrelas) se desdobra com bastante segurança na pele da adolescente, provando que não é apenas um rosto bonito e passageiro. Christopher Meloni também se mostra à vontade como o marido complacente, quase nos causando asco devido à sua inexpressividade diante da família e da vida. O destaque, no entanto, fica por conta de Eva Green – mais uma vez Eva Green, simplesmente atordoada e protagonista das melhores sequências do filme. Apesar de um leve desconforto que eu senti ao vê-la no início (talvez pelo impacto causado em mim por Eva em seu recente Sin City: A Dama Fatal), é incrível a capacidade que a atriz tem de se tornar o centro das atenções não apenas por sua beleza incomparável, mas pelo talento inegável e doação com a qual se entrega às suas personagens.

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Pássaro Branco na Nevasca não é uma obra-prima, mas comparado com Mistérios da Carne (que lançou Joseph Gordon-Levitt ao estrelato), é um daqueles belos filmes que é capaz de marcar um espectador mais atento e sensível. Muito bem produzido e com uma carga psicológica profunda, Pássaro Branco na Nevasca é rico tanto em sua essência quanto em sua arte. Gregg Araki faz suas reflexões sob um olhar muito particular, mas nem por isso individual. Não à toa, Pássaro Branco na Nevasca se tornou um dos lançamentos cinematográficos mais elogiados do ano – e, certamente, um dos pontos altos da filmografia de seu idealizador.

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