Monotomia, Tédio e Repressão em “Felix e Meira”

Felix é um homem comum entre tantos outros, que está de luto pela morte de seu pai distante. Vive sozinho, em um apartamento sem muito luxo, apesar de claramente pertencer a uma família abastada. Meira, por sua vez, é uma mulher pertencente à comunidade judaica ortodoxa. Presa a um casamento infeliz, sua crença limita sua liberdade, apesar da jovem ainda tentar se rebelar (seja ao escutar músicas seculares, no uso de anticoncepcionais ou no desprezo que mantém em relação ao esposo devotado). Ambos moram em um mesmo bairro de Montreal – mas apesar da proximidade, são separados pela vastidão de seus mundos tão distintos. É quando o inesperado acontece: surge uma paixão entre os dois.

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Como duas pessoas pertencentes a realidades tão diferentes podem se completar de forma tão absoluta? Essa é uma das perguntas que Maxime Giroux procura responder em seu novo trabalho, Felix e Meira, ainda sem previsão de estreia no país. No entanto, a resposta não é justificada – e tudo o que temos é uma sucessão de cenas difíceis de serem digeridas e que cansam o espectador ao longo da projeção. Felix e Meira é um filme irritantemente silencioso, daqueles que incomodam e não produz nenhum tipo de reação senão o tédio. O único sopro de alívio acontece em sua segunda metade, quando nossos protagonistas decidem seguir em frente com seu romance. Mas nada que dure mais do que alguns minutos: a fita retorna à sua monotonia e o espectador volta a seu estado de profunda inanidade diante dela. O final estendido também incomoda pois dá aquela sensação de que algo ainda vai acontecer – mas nunca acontece. É impossível segurar a insatisfação e aquele “affff” com tanta enrolação desnecessária.

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Alem de uma extensão imprópria, o roteiro trata suas personagens com bastante superficialidade – o que dificulta a tarefa do público de acreditar na história de “amor” entre eles. Meira, por exemplo, é uma judia sem o menor atrativo, assim como Felix, um homem de quase meia-idade que não tem nada a oferecer a ela exceto um bom sexo (que custa a acontecer). Diante disso, é quase um desrespeito do cineasta exigir que a plateia torça pelo relacionamento de duas pessoas tão fora de realidade. Não dá pra acreditar em paixão, clima de romance no ar! A impressão que se dá (ou talvez foi exatamente isso que o cineasta quis passar) é a de que Meira se aceita aproximar de Felix não pela atração, mas apenas por enxergar nele uma liberdade fora do seu mundo cruel e machista. Se fosse qualquer outro que aparecesse, a situação seria a mesma. E, se assistirmos com atenção, não creio que a culpa disso seja do elenco, uma vez que o casal Martin Dubreuil e Hadas Yaron até são competentes em suas atuações (esta última, por exemplo, empresta uma docilidade no olhar que me lembra, vagamente, uma mistura das brasileiras Letícia Sabatella e Fernanda Vasconcelos). O problema aqui é a estrutura do roteiro que preza por uma narrativa lenta e sem profundidade, com um falso ar cult que acaba atrapalhando o produto final.

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Se a narrativa é demasiadamente cansativa, há de se mencionar que a fotografia também pode ter contribuído para isso. O uso de cores frias e a iluminação criam ambientes intimistas, mas isso traz uma carga dramática ao longa que é quase desnecessária. Os momentos mais “coloridos”, por exemplo, quase chegam a parecer artificiais. Felix e Meira não é a grande obra que demonstra ser – e o fato de não ser uma produção com grande apelo popular não é fator que determina o quão bom é um filme. Portanto, Felix e Meira não é totalmente descartável, pois, sob certo aspecto, critica o papel da mulher na sociedade judaica e a privação que uma religião pode causar, colocando em conflitos a existência de seus seguidores. Mas, cá entre nós: podia fazer crítica de forma mais animadinha, né? Tédio e monotonia o mundo já não aguenta mais…

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