“O Diário de uma Camareira” Recria o Mesmo Material do Filme Homônimo de Luis Buñuel

Léa Seydoux, nova musa do cinema francês, é a protagonista de O Diário de Uma Camareira, novo filme de Benoît Jacquot baseado no livro de Octave Mirbeau, em 1900, e que já foi inspiração também para a produção homônima de 1964, estrelada por Jeanne Moreau e dirigida por Luis Buñuel.

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Mas engana-se quem achar que O Diário de Uma Camareira é um remake da obra de Buñuel – até mesmo porque, se o fosse, poderia facilmente entrar na extensa lista de “remakes desnecessários”, uma vez que o filme da década de 60 nunca foi um primor cinematográfico. Tinha lá suas qualidades, como a presença icônica de Moreau, mas como um todo jamais foi uma obra muito citada. Como o próprio Jacquot argumentou, seu longa é uma releitura livre da literatura que o originou e sua intensão, ao adapta-la, era fazer uma versão diferente daquela imortalizada por Buñuel. A trama se passa em 1900, quando a jovem Celestine abandona a agitada vida na capital francesa e parte para o interior, onde vai trabalhar como camareira na residência da familia Lanlaire. Enquanto foge do assédio de seu senhor e da rigorosa personalidade da dona da casa, Celestine conhece Joseph, um fiel jardineiro que se apaixona por ela.

Confesso que, particularmente, nunca me simpatizei tanto com Léa Seydoux. A atriz tem atuações eficientes, mas não sei ainda o que me incomoda nela. No entanto, devo admitir que seu desempenho é satisfatório e ela cumpre bem a difícil tarefa de reprisar o papel de Moreau. Seydoux empresta um olhar frio e seu charme indiferente a Celestine, uma mulher que é capaz de provocar o desejo de qualquer homem. Com seu temperamento de falsa submissão, Celestine percorre o mesmo caminho das empregadas domésticas da época, que serviam na cama aos patrões com esposas frígidas (despertando a ira dessas últimas). Vincent Lindon (que venceu em Cannes como melhor ator, por sua performance em La Loi du Marché), por sua vez, é bastante categórico no papel de Joseph, apostando nas sutilezas e pequenos detalhes para criar uma aura de mistério para sua personagem – deixando o público na dúvida quanto ao caráter de sua personalidade.

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Obviamente, as comparações com o filme de Buñuel são inevitáveis. Para mim, cada um, em sua época, entrega boas produções, longe de ser memoráveis mas que funcionam em suas propostas. A produção de Benoît apresenta um novo desfecho e um roteiro mais cru, retirando alguns personagens que eram irrelevantes na trama no primeiro longa e buscando desenvolver melhor sua protagonista, recorrendo até a flash-backs dos antigos lugares por onde a camareira passou. O suspense que marcava a segunda parte da fita do cineasta espanhol (quando Celestine tentava incriminar Joseph pela morte de uma garotinha) cede espaço para a construção de um romance entre a empregada e o jardineiro, que não se sabe muito bem se é fruto do amor ou mero interesse. Jacquot ainda aposta em uma bela fotografia, que é valorizada pela boa ambientação e um correto jogo de luzes, que criam uma atmosfera favorável à história. A trilha sonora (que era inexistente na primeira adaptação) acerta no tom predominantemente minimalista e com acordes que causam um certo desconforto proposital.

Impecável tecnicamente, este novo O Diário de Uma Camareira é, definitivamente, um filme bom, bem feito, com ótimas atuações mas que não recebeu até agora os méritos que poderia ganhar e foi até esnobado pela crítica. Puro despeito ou injustiça. Talvez tenha faltado apenas alguma coisa na produção que a diferencie da outra e, consequentemente, a torne melhor.

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