Desplechin Revela Novos Talentos do Cinema Francês em “Três Lembranças da Minha Juventude”

O título Três Lembranças da Minha Juventude já entrega muito sobre o filme. De fato, o drama de Arnaud Desplechin é, antes de tudo, um apanhado de memórias do personagem principal Paul Dédalus, que relembra ao longo da projeção seus anos de formação – e possibilita ao espectador acompanhar, de forma bastante intimista, a transformação de um menino em homem.

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Paul é um antropólogo que está retornando à França após trabalhar durante anos para o governo francês na Rússia. A partir daí, o filme é dividido em três episódios: o primeiro deles (“Infância”) é, provavelmente, o período mais difícil da vida do protagonista. Sofrendo com a ausência do pai e os problemas mentais da mãe, Paul acaba por morar com uma tia lésbica que vive com a companheira. No segundo capítulo (“Rússia”), Paul é detido no aeroporto após seu “duplo” ser encontrado como residente em outro país. É quando descobrimos que, quando adolescente, Paul viajara para a então União Soviética para ajudar uma família judia a desertar, cedendo seu passaporte a um rapaz de sua idade. Na última parte (“Esther”) e a que toma o maior tempo da fita, observamos a tórrida relação de Paul com a jovem e ambígua Esther.

Segmentado assim, dá-se a impressão de que, na verdade, Desplechin fez dois curtas e um média-metragem e os juntou, formando uma película única. Não é o caso, sabemos, mas essa sensação fica mais latente por conta da irregularidade do filme: “Infância” passa rápido, como se o protagonista (que é o narrador da história) não quisesse se estender muito nela. “Rússia” já apresenta um ritmo mais rápido, praticamente uma pequena obra de aventura, mas que não chega a ser de todo envolvente. “Esther”, por sua vez, é onde se concentra mais oscilações: caindo no drama, há sequências excessivamente arrastadas e outras que parecem meio atropeladas. Essa inconstância está longe de prejudicar o filme, talvez até crie um “charme” com o desenrolar das ações, mas é fato que pode cansar um expectador menos acostumado.

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O bom roteiro de Desplechin e Julie Peyr é, então, ideal para as atuações dos estreantes Quentin Dolmaire e Lou Roy Lecollinet. Ambos estão muito bem em cena. Dolmaire, apesar da visível timidez em alguns momentos, é encantador e se sai muito bem no primeiro título de sua filmografia. Com ótima presença, o garoto lembra, vagamente, Louis Garrel quando mais jovem – até aparece nu, então já começamos bem. Já Lecollinet é quem realmente brilha com seu tipo manipulador e sedutor, mas totalmente ambíguo. Seguindo a tradição das grandes damas do cinema francês, a bela é um nome a ser observado de perto nos próximos anos (arriscaria dizer que ela pode tomar o posto que hoje é de Léa Seydoux).

Com uma primorosa direção de arte (elogiada em grandes premiações, inclusive) e uma trilha sonora pontual, Três Lembranças da Minha Juventude não dá para passar despercebido. Embora não seja inteiramente “redondo” (apesar de a narrativa fluir em alguns instantes de maneira elíptica), o longa de Desplechin é intimista, repleto de lirismo e com um tom memorialístico ainda mais pulsante por conta da narração em primeira pessoa de Paul – que impede que o público conheça o ponto de vista dos demais personagens e coloca em cheque sua confiabilidade. Certamente, um trabalho que revela dois grandes talentos do cinema na França atual e, ainda assim, tem seus méritos próprios como obra individual.

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