“Sniper Americano”: Um Filme Mediano de Eastwood

01Sniper Americano, novo longa de Clint Eastwood, conquistou recentemente um feito memorável: o filme foi o maior lançamento hollywoodiano na história para o mês de janeiro – batendo um recorde que pertencia, até então, ao megalomaníaco Avatar, de James Cameron. Esse fato ilustra uma verdade: o público norte-americano é patriota e dá valor ao seu país. Sniper Americano arrecadou mais de US$ 200 milhões apenas nos EUA e 6 indicações ao Oscar 2015, incluindo o prêmio de melhor filme – mas isso não faz de Sniper Americano uma produção isenta de defeitos ou acima da média.

O filme é uma adaptação da autobiografia de Chris Kyle, um soldado de elite do exército norte-americano, considerado o atirador mais letal da história. Após anos servindo seu país, o combatente morreu em 2013 durante um exercício de tiro no Texas, quando foi assassinado por um veterano de guerra com problemas psicológicos. A narrativa acompanha Chris em suas quatro missões, período em que matou mais de cem pessoas – se tornando, assim, uma lenda viva em sua corporação.

Sniper Americano é aquele típico filme que Hollywood adora levantar a moral (concedendo-lhe inúmeros elogios) e capaz de levar milhares ao cinema – mas nem sempre cumprindo com sua proposta. Não que a fita seja ruim; a bem da verdade, há um ponto em Sniper Americano que é irrepreensível: a atuação de Bradley Cooper, que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de melhor ator. O bonitão ganhou uns quilos e músculos a mais e ficou fisicamente impecável, mostrando total entrega em sua performance. Cooper ganhou o respeito de muita gente se distanciando do belo rapaz de olhos claros que protagonizava comédias românticas estúpidas e provando que é um artista de talento. A parte esse quesito, há de se mencionar o ótimo trabalho de fotografia do longa, assim como sua edição, som e efeitos especiais, cuja qualidade ficava explícita nos momentos mais oportunos da trama.

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Entretanto, talvez dois pecados sejam bastante perceptíveis: o roteiro de Jason Hall e a direção de Clint (ou talvez, seja um ou outro e não temos como saber quem necessariamente é o culpado). Apesar de Clint se posicionar de forma competente nas cenas de ação, o cineasta perde a mão nas sequências mais dramáticas, onde as questões familiares e pessoais de Kyle foram tratadas com total superficialidade. Talvez, a ideia aqui era fazer de Chris um grande herói de guerra (como o realmente pode ter sido), mas o roteiro não foi capaz disso. Como resultado, quem vê Sniper Americano fora do olhar norte-americano não consegue se identificar com sua personagem central e chega até mesmo a achar irreal sua obsessão. Em outras palavras, a vida privada de Chris é deixada de lado – e quanto mais isso acontece, mais desumano ele se torna.

Apesar dos primores técnicos, Sniper Americano não é um filme que tende a agradar ao público fora dos EUA. Aliás, se por lá a crítica especializada já não é unanime, quem dirá fora deste contexto. Sniper Americano vem recebido uma enxurrada de comentários negativos por conta de sua propaganda de guerra – afinal, cá entre nós, louvar como herói um homem que tirou a vida de tanta gente é, no mínimo, hipocrisia (mesmo que ele tenha salvo a vida de outros tantos). Por mais que contenha algumas cenas incríveis (especialmente os créditos finais acompanhados com a trilha de Ennio Morricone, que é uma ode de amor de Clint à sua terra natal), Sniper Americano funciona muito mais como um anúncio e engrandecimento do povo norte-americano do que uma biografia elogiável – e prova, como nunca, que mesmo um filme mediano de um diretor conceituado ainda assim será mediano.

Um Mundo Perfeito

Um Mundo Perfeito é um daqueles filmes que já é concebido para ser um sucesso. Afinal, a produção juntou dois artistas em evidência naquele momento: os oscarizados Clint Eastwood (que vinha do mega sucesso Os Imperdoáveis, que faturou os prêmios de melhor diretor e melhor filme) e Kevin Costner (com 7 Oscars pelo drama Dança com Lobos), formando a dupla a frente deste comovente drama que, apesar de não ser um campeão nas bilheterias, foi uma unanimidade pela crítica.

07Pequena obra-prima de Eastwood, Um Mundo Perfeito é o retrato honesto de uma improvável e verdadeira amizade, formada aqui pelo fugitivo Butch (Kevin Costner) e o garoto Phillip (T. J. Lowther). Phillip é sequestrado por Butch e seu comparsa quando estes invadem a casa do garoto, tornando-o refém e iniciando uma verdadeira caçada liderada pelo Texas Ranger Red (Clint Eastwood) e pela psicóloga Sally (Laura Dern). Enquanto cruzam o país em um carro roubado, bandido e vítima desenvolvem uma afeição muito forte entre si, situação inesperada que põe em dúvidas até mesmo as intenções de Butch para com Phillip.

Tratando-se de um drama cujo ponto de partida é o sequestro de uma criança, poderíamos esperar que o longa focasse sua narrativa no sofrimento e desespero da mãe de Phillip. Surpreendentemente, o drama procura, no entanto, abordar a relação que nasce a partir deste crime, entre Butch e o garoto. Assim como Butch, Phillip também é órfão de pai – o que faz com que o filme seja muito mais do que um tratado sobre amizade, mas também um estudo sobre os problemas ocasionados pela ausência de uma figura masculina (nem sempre paterna, vale ressaltar). Sugere-se também uma profunda análise sobre os traumas que somos obrigados a carregar em nossas vidas por conta do meio em que vivemos (Phillip, apesar de ser criado sob uma rígida faceta religiosa, é um garoto triste e contemplativo). Em suma, não importa se você é criado dentro de um prostíbulo ou de uma igreja: traumas sempre poderão surgir, não importa o meio.

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Contrariando o título da obra, na visão de Clint não há um mundo perfeito; por esta razão, seria praticamente impossível distinguir o “bem” do “mal”, ou o “certo” do “errado”. Em determinado momento do longa (um dos mais belos, diga-se de passagem), por exemplo, o garoto se sente feliz ao “brincar” de montanha-russa sobre o carro em movimento – um simples prazer de qualquer criança de sua idade e que lhe fora tirado por conta de sua criação protestante. Em outro momento, Butch encoraja o garoto a usar a fantasia que roubara em uma loja – algo que jamais faria dentro de sua casa (Phillip diz, em determinado trecho, que “vai para a cadeia e para o inferno” por roubar a fantasia). Para Clint, as nossas concepções sobre “bem” ou “mal” não são as mesmas, daí a injustiça de se julgar uma pessoa por suas ações (sem conhecer os reais motivos de seus atos).

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Clint sabe bem como conduzir sua narrativa, com segurança suficiente para alternar as sequencias entre Butch e Phillip e as cenas de perseguição do grupo de Red. Com a experiência de anos atrás das câmeras, Clint também consegue extrair ótimas atuações de seu elenco, começando por Kevin Costner, altamente convincente no papel do criminoso fugitivo. Impondo respeito como bandido, Kevin é suficientemente carismático para fazer com que o público se simpatize e solidarize com Butch (vivendo brilhantemente a maneira afetiva como o bandido trata a criança). A empatia do público por Costner é crucial para a criação de uma espécie de relação “pai e filho” – afinal, Butch é a figura masculina que tanta falta faz a Phillip. A relação entre os dois fica ainda mais forte com a ótima atuação de T. J. Lowther, que oscila brilhantemente a inocência de uma criança com a falta de uma figura paterna e o desejo (ainda que reprimido) de fazer as coisas que são tão comuns às crianças de sua idade. Juntos, Butch e Phillip vivem momentos que só seriam vividos (em um mundo perfeito, claro) por pai e filho.

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Tecnicamente, no entanto, deve-se mencionar que Um Mundo Perfeito está longe da perfeição. Nada ali está acima da média. No entanto, tudo é feito de forma discreta: da fotografia do filme (que explora as paisagens das estradas norte-americanas – contribuindo para belos planos) à paleta de cores não muito quentes (que realçam o tom melancólico da narrativa, mas sem exageros) e a bela ambientação dos anos 60. A trilha sonora, que oscila entre momentos melancólicos a trechos mais alegres, ajuda a refletir o estado de suas personagens, explorando bem cada sentimento exprimido, mas sem forçar a barra, cansando o espectador. Tudo isso ajuda Clint a construir belos momentos, onde fica evidenciado o talento que cineasta acumulou durante anos de carreira – e que está ali presente, ainda sem nenhum brilhantismo.

Com um final dramático (e até mesmo piegas), é praticamente impossível segurar as lágrimas ao ver o garoto abraçar seu sequestrador até, de mãos dadas a ele, partir em direção a policia. Comovente, Um Mundo Perfeito é um drama humano que não apenas recria uma amizade verdadeira entre seus protagonistas, mas também questiona a injustiça que cometemos ao julgarmos as pessoas sem compreendê-las, sem conhecermos suas razões em toda a complexidade que é o ser humano. Considerado pela crítica francesa como o melhor filme do ano em seu lançamento, Um Mundo Perfeito é um filme que emociona e cativa, em toda sua plenitude.

Grandes Diretores e Seus Maiores Fiascos

Está certo que todo cinéfilo tem aquele seu diretor preferido. Todo grande cineasta tem um jeito peculiar de filmar (e que facilmente já se torna uma marca em suas produções) e, consequentemente, todo admirador da sétima arte acaba se identificando com o estilo de um ou outro artista.

Mas, por mais que se queira admitir, todo grande diretor já errou a mão uma vez na vida. Na realidade, são poucos os cineastas que conseguem ter uma obra uniforme – todos acabam, em algum momento de sua carreira, fazendo uma produção que serve de vergonha alheia para toda a comunidade cinéfila. Por isso, decidi listar abaixo dez grandes nomes hollywoodianos que já enfiaram o pé na jaca e realizaram trabalhos de caráter, digamos, duvidoso. Não se preocupe se o seu diretor favorito estiver na lista – afinal, nem só de glórias vive um grande artista.

1. Roman Polanski – O Último Portal (1999)
Sempre polêmico, Polanski também sempre produziu filmes igualmente polêmicos, atuando nos mais variados gêneros. No entanto, O Último Portal, de 1999, é um daqueles filmes que tinha tudo para dar certo mas… não deu. O longa gira em torno de um especialista em livros raros que embarca numa viagem para a Europa para confirmar a autenticidade de um livro que, ao que tudo indica, teria sido escrito pelo próprio demônio. No entanto, a história se perde no decorrer da trama e, principalmente, deixa a desejar no desfecho maluco, tornando um dos roteiros mais desperdiçados de Polanski.

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2. Alfred Hitchcock – Valsas de Viena (1935)
Até mesmo o mestre do suspense já pisou na bola… Se por um lado Hitchcock dirigiu clássicos do cinema mundial como PsicoseUm Corpo Que CaiDique M Para Matar entre muitos outros, o cineasta também tem um ou outro filme que não honram o nome do diretor. Entre eles, um de seus trabalhos menos aclamados ainda é Valsas de Viena, de 1935, cuja história gira em torno de um rapaz forçado a abandonar a carreira na música para trabalhar em uma confeitaria.

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3. Steven Spielberg – Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal (2008)
Rei do gênero pipoca nos cinemas, Steven Spielberg é o mestre por trás de produções como E.T. – O ExtraterrestreTubarãoA Lista de Schindler e mais uma porrada de filmes que marcaram a infância de muito cinéfilo aqui. Também é o homem que dirigiu a saga Indiana Jones e, por esta razão, foi frustrante para os fãs do diretor vê-lo retomar uma franquia quase vinte cinco anos após o último episódio e fazer uma continuação tão fraca como Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal, cujo maior mérito foi apenas reunir parte do elenco original. Fora isso, o restante se divide entre um roteiro muito ruim e piadas tão estúpidas que beiram à canastrice.

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4. Tim Burton – Planeta dos Macacos (2001)
Com seu estilo tão peculiar, o excêntrico Tim Burton conquistou fãs ao redor do mundo com suas produções macabras e fantasiosas. Ao longo da carreira, Burton fez filmes ótimos (Peixe Grande e Suas HistóriasEd WoodEdward Mãos de Tesoura), bons (A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça, BatmanA Fantástica Fábrica de Chocolate) e ruins (Marte Ataca!Alice no País das MaravilhasSombras da Noite). No entanto, é quase unanimidade que a versão burtoniana para Planeta dos Macacos, de 2001, foi a pior produção do diretor em anos – e é considerada a maior “mancha” no currículo do cineasta.

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5. Martin Scorsese – New York, New York (1977)
Dizem que Scorsese é tão cinéfilo que houve uma época em que ele tinha assistido a todos os filmes já produzidos no cinema. Se é verdade ou não, o fato é que o diretor de Taxi DriverTouro IndomávelOs Bons Companheiros entre tantos outros clássicos cinematográficos, já dirigiu filmes muito aquém de sua real capacidade. Entre eles, o fiasco maior (devido à proporção na época de lançamento) foi o musical New York, New York, concebido pelo cineasta como uma homenagem à sua cidade natal. Alem de ter sido detonado pela crítica, foi uma das piores bilheterias da carreira de Scorsese.

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6. Gus Van Sant – Psicose (1998)
Dirigindo um estilo que mescla cultura de massa e cinema independente, Gus tem filmes que, na maior parte das vezes, a crítica ama e o público esnoba. Com sua câmera única, certamente a pior produção de Gus, ao longo de mais de vinte anos de carreira, é seu remake de Psicose, obra-prima de Hitchcock. Aliás, não se trata apenas de um longa ruim – mas também um dos piores remakes de todos os tempos.

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7. Woody Allen – Você Vai Encontrar o Homem dos Seus Sonhos (2010)
Todos concordam quando os críticos dizem que a década de 2000 foi a mais fraca da carreira de Woody Allen – que há trinta anos, lança um filme por ano. Desde então, Woody teve alguns sucessos de crítica e público como o elogiado Meia Noite em ParisVicky Cristina BarcelonaPonto Final – Match Point e também alguns fiascos como Scoop – O Grande FuroIgual a Tudo na Vida e, principalmente, Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos, de 2010, que apesar do elenco estelar (Antonio Banderas, Naomi Watts, Anthony Hopkins, entre outros) não convence e é, talvez, um dos piores filmes da carreira do cineasta.

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8. Clint Eastwood – J. Edgar (2011)
O carrancudo Clint Eastwood é uma lenda vida do cinema norte-americano. Tanto na frente das câmeras quanto na direção, Clint é um daqueles nomes que chamam público ao cinema. No entanto, o astro de Os ImperdoáveisMenina de OuroAs Pontes de Madison já dirigiu filmes bem menos badalados, como J. Edgar, de 2011. De fato, a história do homem à frente do FBI durante seus primeiros anos tem uma das piores classificações da carreira do diretor.

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9. Francis Ford Coppola – Jack (1996)
É difícil acreditar que o diretor da trilogia O Poderoso Chefão possa, em algum momento de sua vasta carreira, ter criado um filme, digamos, ruim. Mas foi isso o que aconteceu com o mestre Coppola quando, em 1996, o cineasta decidiu dirigir Robin Williams em Jack, que conta a história de um garoto que envelhece muito rápido devido uma doença rara. Apesar de ser uma comédia que muita gente admira, o fato é que, se comparado a outras obras de Coppola, o filme é um mero desperdício de talento.

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10. Ridley Scott – Prometheus (2012)
Para quem dirigiu Alien, O Oitavo PassageiroGladiadorThelma & Louise, Ridley Scott escorregou feio quando decidiu, em 2012, dirigir Prometheus. Piadinha pronta, mas realmente o longa prometeu e não cumpriu, se tornando um dos maiores fiascos do ano e um daqueles filmes que facilmente poderiam ser apagados da lista do diretor que ninguém daria por falta.

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Oscar 2012: Resumão

A 84ª edição do Oscar foi celebrada neste domingo (26) no Hollywood & Highland Center, em Los Angeles e, como nas edições anteriores, a noite foi marcada por muito glamour, requinte e sofisticação. E, obviamente, muitos comentários a respeito dos vencedores da premiação. Enquanto algumas pessoas torciam o nariz para os premiados, outras aplaudiam as escolhas da Academia e criavam justificativas para os prêmios de seus indicados favoritos. E – como também foi feito no ano passado – vamos dar uma repassada nos melhores momentos da festa mais importante do cinema.

Na foto, o Kodak Theatre, que serviu de palco para a maior premiação do cinema mundial.

Quem abriu a noite foi Morgan Freeman, seguido por Billy Crystal – o veterano apresentador do Oscar – que, pra variar, fez sua famosa paródia dos principais filmes. Aliás, foi revigorante ver Billy de volta à apresentação do Oscar depois do fiasco de 2011, onde Anne Hathaway e James Franco protagonizaram uma das piores performances de todos os tempos da Academia.

Tom Hanks subiu ao palco para apresentar o primeiro premio da noite e entregou o Oscar de melhor fotografia para A Invenção de Hugo Cabret, que também faturou o Oscar de melhor direção de arte. Já as musas Cameron Diaz e Jennifer Lopez apresentaram o prêmio de melhor figurino e melhor maquiagem, que ficaram, respectivamente, com o mudo O Artista e A Dama de Ferro.

Lindas, Jennifer Lopez e Cameron Diaz não pouparam caras e bocas para apresentar os prêmios de melhor figurino e melhor maquiagem.

Sandra Bullock entregou o prêmio de melhor filme em língua estrangeira ao iraniano A Separação. Cristian Bale, que no ano anterior ganhou o prêmio de melhor ator coadjuvante em O Vencedor, entregou a Octavia Spencer o prêmio de melhor atriz coadjuvante por sua atuação em Histórias Cruzadas. Aplaudida de pé, Octavia claramente mostrava sua emoção ao receber a estatueta.

Visivelmente emocionada, Octavia faturou o Oscar de melhor atriz coadjuvante.

Millenium – Os Homens Que Não Amavam as Mulheres levou seu único prêmio da noite, com o Oscar de melhor montagem, o que não deixou de ser uma surpresa para o público. Os prêmios técnicos de som (melhor edição e mixagem) ficaram com A Invenção de Hugo Cabret – o que foi merecido, devido à qualidade técnica da obra de Scorsese.

Uma das apresentações da noite ficou por conta do Cirque Du Soleil, que trouxe ao palco um pouco da magia de ir ao cinema e de apreciar essa arte. Gore Verbinski, que dirigiu os três primeiros filmes da saga Piratas do Caribe, conseguiu uma estatueta com o prêmio de melhor animação para Rango (obviamente, não deixou de agradecer seu Johnny Depp impecável na dublagem do personagem título).

“Rango” faturou a estatueta de melhor animação. Nada de Tintin.

Ben Stiller e Emma Stone (a atual namorada de Andrew Garfield, estonteante em seu lindo vestido vermelho – e muito mais alta do que de costume) entregaram o Oscar de efeitos visuais para A Invenção de Hugo Cabret. Já o prêmio de melhor ator coadjuvante ficou para Christopher Plummer – aos 82 anos de idade, se tornando, assim, o ator mais velho a ganhar um Oscar. Se muita gente adorou a vitória de Plummer, houve quem preferisse Max Von Sidow por sua atuação em Tão Forte e Tão Perto.

“O Andrew é um cara de sorte…” – único pensamento ao ver a Emma Stone, certo?

Ludovic Bource ganhou o Oscar de melhor trilha sonora original por O Artista (trilha sonora que, em se tratando de cinema mudo, é essencial), enquanto o prêmio de melhor canção original ficou com Mano or Muppet, de Os Muppets – contrariando os fãs brasileiros que torciam por Carlinhos Brown e Sergio Mendes com sua Real In Rio, da animação Rio.

A linda Angelina Jolie (cujas pernas à mostra se tornaram um dos principais assuntos nas redes sociais) entregou o prêmio de melhor roteiro adaptado para os roteiristas de Os Descendentes, o mais provável da noite. A esposa de Brad Pitt também entregou a estatueta de melhor roteiro original para o ausente Woody Allen, por sua maior bilheteria, Meia Noite em Paris. Woody, um dos queridinhos da Academia, no entanto, perdeu o prêmio de melhor diretor para o francês Michel Hazanavicius, que recebeu das mãos de Michael Douglas a estatueta por seu trabalho em O Artista.

Repare na fenda do vestido – se você conseguir. Sem mais comentários.

Ao som de What a Wonderful World, uma homenagem foi feita a alguns nomes famosos do cinema como Elizabeth Taylor, Whitney Houston e Steve Jobs, que nos deixaram recentemente. A bela Natalie Portman, vencedora do Oscar de melhor atriz em 2011 por sua atuação em Cisne Negro, entregou o prêmio de melhor ator para Jean Dujardin, por seu personagem em O Artista. O vencedor do Oscar de melhor ator em 2011, Colin Firth, não poupou palavras para elogiar as indicadas à melhor atriz, mas quem levou a melhor foi Meryl Streep, que conquistou seu terceiro prêmio – ao longo de dezessete indicações durante sua carreira, um recorde na Academia – com sua personagem em A Dama de Ferro.

Meryl Streep e Jean Dujardin, as melhores atuações do ano.

Já prêmio mais importante da noite, melhor filme, ficou para o mais provável O Artista, desbancando Scorsese com sua declaração de amor pessoal ao cinema e Terrence Malick com sua obra-prima A Árvore da Vida – único filme que foi ovacionado durante as indicações. O Artista, que parece ter agradado também o público brasileiro, é o primeira produção em língua não-inglesa a ganhar este prêmio e o primeiro filme mudo a ganhar o Oscar em 83 anos de premiação.

“O Artista” empata com “A Invenção de Hugo Cabret”, levando 5 estatuetas e desbanca as obras de Martin Scorsese, Woody Allen e Terrence Malick.


INJUSTIÇADOS?
Se teve gente que ficou feliz com as premiações, houve quem as contestasse – assim como o foram com as indicações. A Invenção de Hugo Cabret e O Artista ganharam 5 Oscars cada um. Enquanto o primeiro faturou em prêmios técnicos, o segundo faturou as principais categorias (como melhor ator, melhor diretor e melhor filme). Houve também quem questionasse a não premiação de A Árvore da Vida para melhor filme, George Clooney por sua atuação em Os Descendentes ou mesmo Gleen Close ou Viola Davis para melhor atriz. Já o Brasil – contra um único concorrente em melhor canção original, com Real in Rio, do filme Rio – mais uma vez deixa o Oscar escapar de suas mãos.

George Clooney, em “Os Descendentes”; Gleen Close (irreconhecíve) em “Albert Nobbs”; e Brad Pitt em “A Árvore da Vida”: afinal, mereciam ou não?

Também questionou-se muito algumas indicações que não foram feitas. Leonardo DiCaprio, por exemplo, era um dos favoritos para melhor ator por seu John Edgar no filme de Clint Eastwood (que também ficou de fora das indicações para melhor direção). Já Sandra Bullock e Charlize Theron poderiam concorrer ao prêmio de melhor atriz, por seus belos personagens em Tão Perto e Tão Longe e Jovens Adultos. O polêmico Roman Polanski ficou de fora com seu filme Carnage, assim como Jodie Foster, que teve para muitos uma das melhores atuações de sua carreira. Já o filme de Steven Spielberg, As Aventuras de Tintim: O Segredo do Licorne e o badaladíssimo Rio foram ignorados para as indicações de melhor animação.

Leonardo DiCaprio, em “J. Edgar”; Sandra Bullock em “Tão Forte e Tão Perto”; e “As Aventuras de Tintin”: teve coisa boa que ficou de fora…

PREMIADOS DA NOITE

MELHOR FOTOGRAFIA: A Invenção de Hugo Cabret
MELHOR DIREÇÃO DE ARTE: A Invenção de Hugo Cabret
MELHOR FIGURINO: O Artista
MELHOR MAQUIAGEM: A Dama de Ferro
MELHOR FILME EM LÍNGUA ESTRANGEIRA: A Separação
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Octavia Spencer (Histórias Cruzadas)
MELHOR MONTAGEM: Millenium – Os Homens Que Não Amavam as Mulheres
MELHOR EDIÇÃO DE SOM: A Invenção de Hugo Cabret
MELHOR MIXAGEM DE SOM: A Invenção de Hugo Cabret
MELHOR DOCUMENTÁRIO: Undefeated
MELHOR ANIMAÇÃO: Rango
EFEITOS VISUAIS: A Invenção de Hugo Cabret
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Christopher Plummer (Toda Forma de Amor)
MELHOR TRILHA SONORA ORIGINAL: O Artista
MELHOR CANÇÃO ORIGINAL: Man or Muppet (Os Muppets)
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Os Descendentes
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Meia Noite em Paris
MELHOR CURTA-METRAGEM: The Shore
MELHOR DOCUMENTÁRIO DE CURTA-METRAGEM: Saving Face
MELHOR CURTA ANIMADO: The Fantastic Flying Books of Mister Morris Lessmore
MELHOR DIREÇÃO: Michel Hazanavicius (O Artista)
MELHOR ATOR: Jean Dujardin (O Artista)
MELHOR ATRIZ: Meryl Streep (A Dama de Ferro)
MELHOR FILME: O Artista

J. Edgar: A Honestidade de Eastwood

Mesmo para os diretores mais experientes, um dos maiores desafios enfrentados ao levar para as telas de cinema a biografia de uma figura pública muito importante é retratar essa pessoa sob uma visão imparcial, de maneira que não se destrua ou exalte sua personalidade. Aliás, este não é um desafio apenas para o cinema: a literatura é cheia de casos semelhantes. Em Lolita, de Vladimir Nabokov, por exemplo, o autor conduz tão bem a história que ao final do livro sentimos uma espécie de compaixão pelo pobre professor Humbert – mesmo detestando seus atos.

J. Edgar, do diretor Clint Eastwood, conseguiu a difícil façanha de retratar a vida conturbada de uma das figuras mais poderosas dos EUA de uma forma sincera. Ao longo de pouco mais de duas horas, somos apresentados a John Edgar Hoover (Leonardo DiCaprio), um advogado que ao longo de quase cinco décadas foi o diretor do FBI, a mais importante e conhecida organização policial do mundo. O filme narra a rápida ascensão do jovem Edgar dentro do Departamento e seu possível envolvimento afetivo com Clyde Tolson (vivido por Armie Hammer), que seria seu braço direito durante toda a sua carreira.

J. Edgar, no começo de carreira – mudanças significativas de DiCaprio para sua personagem.

Edgar não é considerado o patrono do FBI à toa. Ele permaneceu no comando da organização durante o mandato de 8 presidentes norte-americanos – e durante sua direção, o FBI se tornou a força policial mais forte do mundo. Sob sua liderança, durante a década de 1930, o FBI declarou guerra a criminosos famosos, como John Dillinger (considerado o inimigo público número 1 na época), Pretty Boy Floyd e outros. Edgar também transformou o FBI em uma organização moderna: trouxe para os tribunais métodos científicos de investigação que são utilizados até hoje pelas forças policiais de todo o mundo – é, inclusive, considerado o revolucionário que trouxe a biometria para a utilização nas forças armadas.

Armie Hammer (à esquerda) e Leonardo DiCaprio que vivem, respectivamente, Hoover e Tolson. Apesar de nunca asumir, especula-se sobre o envolvimento pessoal dos dois agentes.

Se, entretanto, John mostrava-se um verdadeiro herói norte-americano, muitos duvidavam de seu talento como diretor da organização – e mesmo de seu caráter. O próprio filme questiona se os grandes feitos atribuídos a Edgar foram, de fato, realizados por ele. Em  relação ao seu comportamento, Edgar nunca foi casado – mas frequentemente era visto ao lado de Tolson, o que aumentava as especulações sobre sua homossexualidade. Sob seu caráter, já no fim de seu mandato, Hoover era acusado de passar mais tempo tentando destruir figuras com quem não simpatizava do que combatendo o crime propriamente. Na política, por exemplo, Edgar enfrentava um novo embate a cada troca de presidente devido, sobretudo, ao fato de manter um arquivo confidenial com informações (verdadeiras, supostas ou falsas) de várias personalidades famosas que poderiam destruir suas reputações. Com a morte de Hoover, a maior parte destas informações se perderam – apesar de que algumas poucas foram encontradas ao longo dos anos.

DiCaprio, como Hoover em seus últimos anos. A equipe de maquiagem do filme tem sido bem criticada pelo exagero dado à produção.

O filme de Clint não chega a ser um clássico. Longe disto, J. Edgar dividiu opiniões da critica e do público. Enquanto alguns consideram a produção excelente, outros torcem o nariz para a história, alegando a falta de enredo na narrativa, a maquiagem extravagante (o que não deixa de ser verdade), a iluminação e fotografia em partes inadequadas e, obviamente, a atuação de seus atores. Enquanto a veterana Judi Dench arranca elogios por sua interpretação de Anna Marie, a mãe puritana de Edgar, Leonardo DiCaprio divide opiniões. Certamente, não foi a melhor atuação de DiCaprio – contrariando a muitos que acreditavam que o ator seria indicado ao Oscar – , mas também não se pode acusa-lo de não ter deixado sua marca no personagem.

J. Edgar é uma trama para poucos. Ao que tudo indica, no Brasil o filme é recebido sem muito alarde. John não é tã0 conhecido no país por seus feitos grandiosos – talvez passará a ser agora com o longa (não por sua contribuição às forças policiais, mas como “o diretor homossexual do FBI”). Uma lástima. Clint consegue fazer um filme honesto que não julga sua personagem por antecipação, mas nos dá plenas condições de até mesmo sentir compaixão por uma figura como Hoover – feito possível somente a grandes artistas.