“Jogos Vorazes: Em Chamas”: A Chama Que Não se Apagou

Cinema lotado. Alvoroço antes da sessão. Casais de adolescentes por todos os lados, ocupando todas as poltronas da sala. Muita falação e excitação… Bem, poderia estar falando da estréia de algum filme de uma série teen qualquer – do tipo Crepúsculo, talvez. E, na verdade, é particularmente isso: em pleno feriado no país, eis que chega às telas de nossos cinemas a segunda parte da adaptação cinematográfica da trilogia criada por Suzanne CollinsJogos Vorazes: Em Chamas – confirmando que, ao que tudo indica, essa saga veio para ficar.

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São inevitáveis as comparações entre Jogos Vorazes e outras franquias adolescentes. Peguemos, no caso, a saga de Stephenie MeyerCrepúsculo. Ambas tem uma protagonista feminina meio perdida no mundo ou personagens masculinos bonitos (mesmo que Josh Hutcherson tenha pouco mais de 1 metro e meio…). Tornaram também seus atores em celebridades instantâneas (no caso de Crepúsculo, os insossos Kristen Stewart e Robert Pattinson; Jogos Vorazes com Jennifer Lawrence). Ambas tem uma trama romântica na veia (Crepúsculo, por sua vez, leva isso ao extremo) e também uma carga de ação e aventura. Mas o que torna Jogos Vorazes uma obra infinitamente superior a Crepúsculo ou outros sucessos adolescentes de nossa geração?

Convenhamos: há muita babação em torno de Jogos Vorazes. E tem muita gente que critica isso – eu, particularmente, não entendo tanta badalação em torno deste universo e, principalmente, de Lawrence, a grande estrela da saga. Mas, assumo que, se é para “pagar pau”, o façamos por algo que mereça. E Jogos Vorazes consegue fazer por merecer. A série é intensa, repleta de ação (ainda que não explícita), tem um bom roteiro e não é apenas uma “história”. Ainda que a maior parte dos fãs vá aos cinemas para assistir o espetáculo visual que o filme promove e os belos rostos de seus protagonistas, é fato inegável que Jogos Vorazes proporciona uma análise bem mais profunda do que a questão das franquias adolescentes.

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Jogos Vorazes: Em Chamas retoma a história um ano depois dos acontecimentos do primeiro longa, quando Katniss e Peeta (respectivamente, Jennifer Lawrence e Josh Hutcherson) vencem os 74º Jogos Vorazes do título (quer entender melhor? Sugiro a leitura do artigo que fiz para o filme e que você pode conferir aqui). A trama segue o casal em sua “turnê da vitória” – uma espécie de promoção para os próximos jogos – , quando devem fingir estar apaixonados como uma forma de propaganda da Capital. No entanto, uma revolução se espalha por Panem – em parte causada pela protagonista Katniss, que despertou um sentimento de luta e esperança no povo que há muito havia se perdido. Para tentar amenizar a situação e demonstrar o poder da Capital, o presidente Snow (Donald Sutherland) decide enviar nossos heróis e outros vencedores de edições anteriores dos jogos para competir entre si e “comemorar” o 3º Massacre Quaternário.

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É neste momento que Jogos Vorazes ganha forças e se distancia de outras produtos adolescentes (se é que um dia se aproximou deles…). Nesse segundo capítulo, a franquia se torna mais intensa e encorpada, trocando o sangue e a ação por maior crítica e fidelidade ao texto que o originou. O foco é voltado para os conflitos dos distritos, as lutas entre o povo e a Capital e a chama da revolução que está se acendendo em Panem. Exatamente por isso, mesmo que com um número menor de sequências de ação, o filme ainda é capaz de tirar o fôlego e fazer você torcer por suas personagens (aliás, há novos personagens que, provavelmente, devem ganhar maior espaço nos próximos capítulos, como Finnick e Johanna, respectivamente Sam Claflin e Jena Malone). Muito mais fiel ao livro de Collins, Jogos Vorazes: Em Chamas troca a pancadaria e a violência física da primeira parte por um tom político muito mais evidente e elaborado. Apenas nos últimos 30 minutos de projeção (das quase duas horas e meia) é que ocorre ação física para valer – e, ironicamente, é quando o filme perde mais sua beleza. E é aí que muitos colocam em cheque a direção de Francis Lawrence (que substituiu Gary Ross, diretor do primeiro filme): fica-se a dúvida se ele quis maneirar na ação e injetar um teor político, sendo mais fiel à obra, ou se ele realmente é um cineasta medíocre para cenas de ação.

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Com elementos técnicos primorosos (aliás, o orçamento quase dobrou em relação ao primeiro episódio), parece que toda a grana foi gasta na última parte da película (tem névoa venenosa, babuínos assassinos e ondas gigantescas…) – justamente quando o filme perde um pouco de seu carisma, apesar de encher os olhos dos espectadores. Com boas locações e cenários, assim como na primeira parte da franquia, a maquiagem e o figurino também se destacam – ainda que sem muito alarde. Outro bom ponto a ser considerado é a trilha sonora – ótima em sua plenitude e bem condizente com as cenas, caindo como uma luva à trama. Quanto às atuações, não queria dizer, mas o filme é da oscarizada Lawrence, muito mais conturbada e aflita do que antes. É visível o enorme abismo entre ela e alguns demais atores, como Sam Claflin e Josh Hutcherson (que, apesar de carismático, precisa crescer em cena – ou seria generosidade demais do ator?). Por sorte, Lawrence aparece mais em cena com outros bons atores, como Donald Sutherland, Woody Harrelson (como o cômico Haymitch) e Philip Seymour Hoffman (que, na pele do diretor do espetáculo, Plutarch Heavensbee, é a grande entrada no elenco e o gancho para a continuação do próximo filme).

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Boa parte do que realmente Jogos Vorazes pode passar ao público tende a ficar desapercebida, lamentavelmente, pela grande massa. No cinema, foi possível ouvir alguns suspiros de adolescentes ao verem os garotos na tela sem camisa ou um grito de “vadia” quando Katniss beijou Peeta logo no início do filme. Jogos Vorazes, distanciando a anos-luz das franquias adolescentes dos últimos anos, é uma saga que critica o abuso de poder das autoridades, assim como os deveres do Estado para a população e também a indústria midiática atual – que nos entope com suas propagandas agressivas e suas maquinações. Apesar de não ter um desfecho direto como o primeiro longa (afinal, Em Chamas é justamente o intermediário), Jogos Vorazes: Em Chamas consegue ser muito mais do que “o filme do meio”; é um promissor criador de debates e análises sobre o poder. É um filme que ganha ímpeto para o 3º episódio (que será dividido em 2 partes), mas proporciona, sobretudo, uma reflexão sobre alguns temas importantes da nossa geração. Isso é, se nossa geração quiser ainda refletir sobre alguma coisa…

Jogos Vorazes: Quando o Filme Independe do Livro

Franquias no cinema geralmente rendem bons lucros. Adaptações também. Quando se unem esses dois elementos, o mais comum é que se tenha um grande sucesso de bilheteria – mas que nem sempre é garantia de um bom filme, cinematograficamente falando. Eis que há algumas semanas chega aos cinemas a produção Jogos Vorazes, primeira parte da adaptação de uma série de três livros da autora Suzanne Collins e, como não podia ser diferente, o filme tem tido bons (na verdade, excelentes) resultados até então. Merecidamente? Então vamos lá…

A principio, vamos à história propriamente dita: em um futuro indeterminado, surge a nação Panem, dividida em 12 distritos e uma Capital, que controla toda o país. Há décadas atrás, estes distritos se rebelaram contra o governo, mas sem sucesso. Para punir os distritos e ressaltarem seu poder e domínio, são criados os Jogos Vorazes, uma espécie de reality show transmitido para toda a nação, onde uma menina e um menino de cada um dos distritos são escolhidos e obrigados  a lutar entre si até a morte. A protagonista Katniss, moradora do distrito 12 (o mais pobre e menos favorecido) se oferece para lutar no lugar de sua irmã caçula e ali a garota tem a chance de mudar sua trajetória e a de sua família.

A heroína do filme, interpretada por Jennifer Lawrence.

Antes de tudo, vou deixar claro que não li à obra de Suzanne e, portanto, minha crítica aqui será exposta em relação à obra cinematográfica e não à produção literária. O filme tem sido vendido como potencial sucessor das franquias teens Harry Potter e Crepúsculo. Até certo ponto, isso fez bem ao filme, pois aguçou a expectativa dos fãs da obra de Suzanne e despertou a curiosidade daqueles que ainda não a conhecem (meu caso, por exemplo, que já saí do cinema querendo levar os livros da série para descobrir o que acontece com os protagonistas). Mas o grande mérito aqui é que Jogos Vorazes FILME consegue ser completamente independente de Jogos Vorazes LIVRO – o que, se tratando de adaptações, é um fato muito difícil de se conseguir.

A narrativa de Jogos Vorazes é didática e permite que qualquer alienado que tenha ido ao cinema e entrado na sala por curiosidade se interesse pela história e mantenha uma espécie de compaixão pela trama – tanto que ao longo de quase duas horas e meia de filme, o tempo passa tão rapidamete que, ao final, você sente vontade de continuar ali, sentado, esperando qualquer coisa que possa te trazer algum indício do que pode acontecer.

Teve romance? Até teve um início. Mas ao menos o Josh não precisou tirar a blusa para isso...

Tecnicamente, o filme também se destaca. O figurino (especialmente nas cenas da Capital, que contrasta visivelmente com os demais distritos) já é aposta para os indicados ao Oscar 2013. O visual da Capital também é algo impressionante, c0m ambientes luxuosos e extravagantes, mas nunca piegas. Além disso, a direção bem acabada de Gary Ross traz uma dosagem certeira nas cenas mais violentas do filme (elas estão lá, presentes, mas a maneira como Gary percorre com suas câmeras faz com que isso seja atenuado – o que, em tese, ajuda a adequar a classificação indicativa ao público alvo do filme).

Há alguns pontos que poderiam ser melhorados. A princípio, creio que o maior deles seja quanto à duração e divisão do filme. Eu, particulamente, não sou fã de filmes longos. Se for pra ser longo, o filme tem que ser envolvente na medida certa. E, ultimamente, Hollywood não tem feito boas escolhas de roteiristas. Mas o fato é que Jogos Vorazes mantem um ritmo que permite que o filme pudesse ser esticado alguns minutos e mais bem dividido. Praticamente, podemos dizer que o filme é dividido em duas partes: a primeira, quando os jovens são escolhidos e apresentados às regras do jogo e a segunda, que trata dos duelos em si. Enquanto a primeira parte é apresentada de forma didática e bastante compreensível, a segunda peca por ser deveras “rápida” demais. Minha visão é a de que se podia dar um pouco mais de ênfase nas batalhas, nos pequenos conflitos, nas formas de sobrevivência dos jogadores.

"Jogos Vorazes" impressiona visualmente - mas não apenas isto.

Outro ponto que poderia ser melhorado é a visão “romântica” (não no sentido amoroso) da heroína da história. Ela é tão boazinha (já no início do filme se oferecendo como tributo aos Jogos) e bom caráter (apesar de vencer o duelo, ela mata pouca gente) que por vezes chega a enjoar. No final, o filme mostra que a força bruta apenas não é necessária, mas também a inteligência. Tudo bem, concordo, mas essa visão tão “amigão, gente fina” da protagonista não me impressionou. Quanto às atuações, cabe dizer que todos ali cumpriram razoavelmente suas funções – mas sem nenhum grande destaque.

Outro grande mérito de Jogos Vorazes, no entanto, é conhecido pelos espectadores mais atentos ao contexto do que à história propriamente dita. Há uma crítica explícita aos reality shows que, mais do que entreter uma populaçao, controlam, manipulam seus participantes (como o sistema faz conosco?). O próprio apresentador do programa (uma espécie de Galvão Bueno, mas muito menos chato), um diretor que interfere e os estratégias de jogo dos participantes para sobreviver refletem bem a realidade dos programas atuais de televisão, levantando bandeira à esta causa (tema já abordado anteriormente no cinema, como no excelente O Show de Truman – O Show da Vida).

Não adianta fugir: romance adolescente à vista...

Jogos Vorazes FILME é infinitamente melhor do muitos outros sucessos teens. A qualidade e o cuidado com que o filme foi produzido (talvez por conta da participação direta da autora dos livros) demonstram que o filme tem potencial para agradar não apenas adolescentes virgens e pré-adolecentes chatos. Talvez o filme tenha sido vendido como tal apenas para chamar público (talvez, não – quase certeza, né? Propaganda é a alma do negócio). E conseguiu. O filme tem ido muito bem e a expectativa é que continue assim. Vendo pelo lado positivo, não há vampiros que brilham, lobisomens sem camisa, bruxinhos adolescentes… Bom, pelo menos até aqui. Vai que…