Insensata Apelação

O escritor Gilberto Braga, autor de sucessos como Vale Tudo e Celebridade, definiu seu atual trabalho, Insensato Coração, como “a melhor novela de sua carreira”. Pois eis que a produção chega à sua reta final e deixa uma dúvida no ar: foi sério o que Gilberto Braga disse? Pois a julgar pela audiência mediana da trama, podemos concluir que não é bem essa a impressão que público e crítica tem da obra do veterano autor.

A novela, na época de seu lançamento, causou grandes debates. A princípio, foi oficialmente considerada como “a nova novela das oito” – quando, até então, todas as tramas que estreavam no horário eram referidas como “a próxima” atração no horário. Isso despertou a audiência – mas só por alguns instantes. Com o tempo, ficou claro que se tratava de uma narrativa como todas as outras: relações familiares, alguns temas sociais, uma certa dose de humor e, em se tratando dos trabalhos de Gilberto Braga, muita polêmica.

As polêmicas de Insensato Coração se devem, sobretudo, às constantes apelações a que o autor recorre para alavancar a audiência. Em Celebridade, por exemplo, logo nos capítulos iniciais a personagem de Juliana Paes tirou a roupa na praia na frente de fotógrafos sensacionalistas – em uma cena completamente desnecessária. Ali, naquele momento, ficou claro o talento nato de Gilberto para escrever sequências capazes de aumentar a audiência – ainda que o respeito pelo público diminua.


Em Insensato Coração, o vocabulário chega a ser baixo: não há um capítulo em que não se escute as palavras vagabunda, desgraçado ou derivados. A insinuação sexual também tem sido bastante criticada na obra – afinal, não seria diferente em uma novela em que falta bons textos e diálogos. Aliás, a falta de ritmo na trama é tamanha que chega a ser cansativa a quantidade de flashes em que o personagem de Jonatas Faro aparece ao som da música “Talking To The Moon”, de Bruno Mars.

Que a telenovela em si sempre foi um produto questionável, não é novidade para ninguém. Mas o que não podemos entender é a razão pela qual ela ainda continua a ser o principal produto da televisão brasileira. Apesar da audiência das produções ter diminuído consideravelmente nos últimos anos, as histórias das personagens retratadas nas nossas novelas ainda é assunto de discussão na mesa dos brasileiros. Mas Insensato Coração é um caso incomum: o produto é criticado, tem imensos pontos negativos – mas ainda há quem a assista.

Há pontos a serem considerados? Bom, talvez. A coragem de Gilberto Braga em abordar o tema da homofobia (inédito em produções nacionais) foi digna – e, de certa forma, contraria todas as expectativas da emissora. Enquanto o SBT largou na frente e já mostrou o primeiro beijo gay da história da TV moderna, a Globo ainda resiste firmemente. Segundo a cúpula da emissora carioca, o público ainda não estaria preparado para um beijo homossexual na TV. A pergunta que fica no ar, entretanto, é: o público não está preparando para assistir a um beijo gay na TV (apesar do grande número de personagens gays da história, um dos maiores de todos os tempos), mas está preparada para ver um homossexual ser agredido até a morte em horário nobre, como aconteceu em uma cena dessa semana? PS.: com essa, já se somam 22 mortes na trama.

Gilberto, homossexual assumido, tem pisado no freio ao abordar esse tema. A Globo teria vetado diversas cenas do autor que fariam apologia ao homossexualismo. Ou seja, Gilberto sofre com seu texto fraco e com os vetos de sua emissora (ou seria por conta disso que sua criatividade tem se mostrado baixa?). Já foi anunciado que o casal gay da novela iria morrer nos últimos capítulos – o que tem causado furor na comunidade simpatizante.

O autor Gilberto Braga, um dos maiores nomes da nossa teledramaturgia: “Insensato é minha melhor novela.”

Faltando pouco menos de um mês para ter seu final fechado, Insensato Coração não emplacou – e certamente não o fará agora. Com um texto sem teor e histórias pífias, a novela só se sustenta com seus atores. Glória Pires, como sempre, rouba a cena a cada aparição. Sua Norma é impecável. Deborah Secco, apesar de mais um personagem clichê, mostra a razão de ser considerada uma das atrizes mais promissoras de sua geração. Gabriel Braga Nunes substituiu bem Fábio Assunção e nos fez entender porque a Globo fez tanta questão de trazer o ator de volta ao seu elenco. Mas se há boas atuações, há aquelas que envergonham nossa teledramaturgia: Maria Clara Gueiros, engraçadíssima em outros trabalhos, é decepcionante; o casal de protagonistas interpretados por Paola Oliveira e Eriberto Leão é humilhante; Jonatas Faro, então, só sabe chorar e… bom, melhor parar por aqui.

Insensato Coração pode ser para Gilberto a melhor obra do autor. Para o público, certamente não. Para alguns, a trama pode ser considerada como revolucionária e visionária; para outros, uma página manchada na história da TV brasileira. Qualquer que seja a situação, Insensato Coração jamais trará para Gilberto a glória que o autor alcançou com Vale Tudo. Também pudera: já não se fazem mais novelas como antigamente…

União Homoafetiva: o que muda agora?

 Depois de muita discussão e debate, no último dia 05 o Supremo Tribunal Federal (STF) reconheceu a união estável entre indivíduos do mesmo sexo. Com isso, os casais em relação homoafetiva passarão a ter os mesmos direitos e deveres das famílias formadas por homens e mulheres. Bom, até aí, tudo bem. Mas, afinal, o que muda com isso?

Inicialmente, deve-se fazer uma observação pertinente: o STF simplesmente “formalizou” algo que já existe. Antes desta decisão, os casais homossexuais já podiam registrar sua união em cartório, através de um contrato. Ou seja, a situação já existia; agora, ela será apenas regulamentada. Antes, para fazer valer seus direitos, os parceiros tinham que correr à Justiça (como sempre o será). Com essa decisão, a única mudança palpável é que os processos serão mais rápidos.

Agora está decidido: a união estável entre casais homossexuais é reconhecida e ganha os mesmos direitos das uniões entre parceiros heterossexuais.

 Mais uma informação que vale a pena ser comentada é a diferença entre os termos. A relação homoafetiva, pelo Código Civil, era considerada uma relação de “sociedade”. Ou seja, em um caso de separação, os direitos do casal são os mesmos existentes ao se quebrar uma sociedade. Já o conceito de “união estável” (pela Constituição Federal e também pelo Código Civil) se refere intimamente à entidade familiar – e isso se rege pelo direito da família.

Esta foi justamente a questão que está gerando polêmica. Ao reconhecer a união estável entre individuos do mesmo sexo, o STF reconhece também um novo tipo de família. Agora, casais homossexuais podem, pela lei, ser considerados como família – participando, inclusive, de todos os mais de 100 direitos que antes eram exclusivos dos casais heterossexuais. Isso inclui, por exemplo, a comunhão parcial de bens, pensões do INSS por morte, pensão alimentícia em caso de separação judicial, herança e adoção (que nunca foi tecnicamente proibida, mas agora tende a ser facilitada).

O direito que ainda não foi atribuído aos casais homossexuais é o do casamento. Alguns especialistas sugerem que o casamento (tradicional, como conhecemos) exige, além do registro civil, a aprovação religiosa – em muitos casos. Ou seja, o casamento exige uma formalidade maior que não é atendida pela união estável. Além disso, a Igreja certamente não irá ceder quanto neste ponto, afinal, ela tem suas razões e idéias – que não cabe discutir aqui. Aliás, a decisão do STJ já deu o que falar entre os religiosos.

À esquerda, o pastor Silas Malafaia, que já participou de debate na TV sobre homofobia; à direita, o pastor e deputado Marco Feliciano, que levantou polêmicas há alguns dias atrás na internet, devido a alguns comentários incábiveis.

Essa decisão foi recebida com entusiasmo pela comunidade GLS – e, provavelmente, abrirá caminho para uma série de novas conquistas. No último censo do IBGE (2010), foi apontado a existência de, aproximadamente, 60.000 casais homossexuais. Provavelmente, este número é maior, uma vez que muitas pessoas podem esconder sua condição devido a algum receio. O presidente do IBGE, Eduardo Pereira Nunes, acredita que exista a possibilidade de que este número cresça nos próximos levantamentos – não pelo aumento de casos, mas porque as pessoas poderão se sentir mais confortáveis agora para se declararem.

O presidente do IBGE, Eduardo Pereira Nunes,estima que o número de casais homossexuais cresça nas próximas pesquisas.

Por unaminidade (foram 10 votos a 0), o STF abriu caminho também para discussões que não irão acabar tão cedo. Nossa cultura ainda não permite que a maior parte das pessoas enxergue a união homossexual como um novo tipo de estrutura familiar – e isso será o motivo de muito preconceito durante um bom tempo.

BEIJO GAY NA TV?
Enquanto isso, o SBT dispara na frente da Globo (que transformou o tema em tabu) e exibe o primeiro beijo gay feminino na história da TV brasileira. E a cena aconteceu na novela Amor e Revolução, escrita pelo autor Tiago Santiago. A comunidade GLS elogiou a iniciativa, enquanto o próprio autor da trama declarou que gostou da cena e, caso o público aceite, as personagens de Luciana Vendramini e Giselle Tigre.
Na verdade, este não é o primeiro beijo gay feminino da TV, que aconteceu em 1963, ainda na extinta TV Tupi. Entretanto, podemos considera-lo como o primeiro beijo gay após o crescimento do movimento no país. A decisão foi estratégica: a cena foi ao ar uma semana após a decisão do STF. O SBT chegou a anunciar a cena em um de seus jornais, mas a exibiu no dia seguinte – o que alavancou o Ibope de uma novela que, após um mês, ainda não decolou.

O próximo passo de Tiago Santiago seria escrever uma cena de sexo para as personagens, mas isso só irá se confirmar se o público concordar. Para isso, está rolando uma enquete no site da novela, onde o público poderá deixar sua opinião. Além disso, provável também que aconteça a cena de beijo entre mais um casal homossexual da trama, desta vez protagonizada por dois atores.

Como a Arte Trata a Homossexualidade

Já se foi a época em que a homossexualidade era reprimida na arte. Atualmente, é comum vermos personagens gays em novelas, filmes, peças de teatro, e as pessoas estão lidando com isso de forma cada vez mais sensível, o que indica que o público está cada vez mais aberto para essa temática.

Quando falamos de novelas, por exemplo, é difícil encontrar na atualidade uma trama que não tenha um personagem gay. A atual novela das oito, Insensato Coração, está aí pra comprovar: escrita pelo autor também homossexual Gilberto Braga, a trama é considerada uma das que mais tem personagens homossexuais na história. No cinema, a homossexualidade já deixou de ser tabu há muito tempo. Em 2011, por exemplo, das produções indicadas ao Oscar de melhor filme, duas continham temáticas homossexuais.

E o sucesso dessas obras não é apenas entre homossexuais ou simpatizantes do mundo GLS. Quando tratados de forma correta, esses personagens acabam agradando ao público e ganhando destaque nas produções. Mas pra chegarmos até aqui, muita coisa mudou. Por isso, listei a seguir, com a ajuda de amigos, algumas obras que trataram deste tema e alguns personagens que o público não esquece. Confira quais são os filmes e novelas que abordaram este universo e, de certa forma, se tornaram referencial para o tema.

1. Torre de Babel (1998)
Silvio de Abreu teve que mudar sua história às pressas quando viu a audiência de sua trama despencar por conta do casal lésbico vivido por Christiane Torloni e Silvia Pfeifer. Inicialmente, apenas uma delas ficaria na trama após a explosão do shopping e tentaria refazer a vida ao lado de um novo amor. Com a rejeição do público, ambas as personagens morreram no desastre.

As personagens lésbicas foram retiradas às pressas da trama, devido às reinvidicações do público.

2. Eclipse de uma Paixão (1995)
Filme biográfico, Eclipse de uma Paixão narra a intensa e conturbada relação amorosa entre os poetas Arthur Rimbaud e Paul Verlaine. Financiado pelo amigo, Rimbaud se destaca nos meios literários franceses por sua precocidade, enquanto Verlaine abandona esposa e filho e parte pra uma vida de aventuras com o jovem poeta.

Baseado na história real do poeta francês Rimbaud, o filme rendeu uma das melhores atuações da carreira de Leonardo DiCaprio.

3. Do Começo ao Fim (2009)
Polêmico mesmo antes de ser concebido, Do Começo ao Fim apresentou a história do casal de irmãos gays vividos pelos atores Rafael Cardoso e João Gabriel. Após a morte da mãe, os jovens decidem assumir um relacionamento, até o momento em que enfrentam uma separação. Apesar do roteiro cheio de falhas, a crítica recebeu bem ao filme do cineasta Aluizio Abranches.

O filme nacional abordou questões polêmicas, como a homossexualidade e o incesto.

4. Antes do Anoitecer (2004)
Mais um filme biográfico na lista. Desta vez, trata-se da história do autor cubano Reinaldo Arenas (interpretado pelo talentoso Javier Bardem), um revolucionário que luta pela liberdade de seu país e de sua homossexualidade, em um período regrado de tabus. O filme ainda conta com a participação de Johnny Depp, que vive dois personagens diferentes – entre eles o travesti Bon Bon.

Baseado na biografia de Reinaldo Arenas, o filme rendeu a Javier Bardem uma indicação ao Oscar de melhor ator.


5. Mulheres Apaixonadas (2003)
Talvez esse tenha sido o primeiro casal homossexual a ter uma boa aceitação do público em telenovelas brasileiras. Manoel Carlos soube retratar bem a relação entre as duas adolescentes homossexuais de “Mulheres Apaixonadas”. Ao longo da trama, as garotas sofreram muito preconceito e rejeição por outras personagens, mas o público se sensibilizou bastante com a história. No final, o casal ficou junto – mas não houve a tão esperada cena do beijo gay.

Mesmo com a torcida do público por um final feliz para o casal homossexual, a produção da trama chegou a conclusão de que o público não estaria pronto pra assistir ao primeiro beijo gay em telenovelas.

 6. Billy Elliot (2000)
Ambientado em uma época problemática, o filme mostra a trajetória real do bailarino Billy Elliot em busca do seu sonho de ser um dançarino profissional. Enfrentando o preconceito do pai e do irmão, Billy abandona as aulas de boxe e passa a treinar balé escondido da família. A questão central do filme é a paixão de Billy pela dança – o que não o torna um homossexual, como alguns sugerem.

A amizade de Billy com um homossexual e sua paixão pela dança não afetaram sua sexualidade - como alguns sugeriam.

7. Cisne Negro (2010)
Cisne Negro não trata especificamente um caso de amor homossexual, mas apresenta uma cena de suposto sexo entre duas amigas bailarinas. Na película, a cena poderia representar a forma pela qual a personagem de Natalie Portman se liberta de suas dúvidas, incertezas e opressões que vivera durante toda a vida. Essa superação se torna fundamental para que Nina abandone a imagem de doce e imatura menina e encarne a sensual e forte personagem de sua peça.

A cena de sexo entre as duas bailarinas foi uma das mais polêmicas do ano.

 
8. Minhas Mães e Meu Pai (2010)
Já se imaginou tendo duas mães? O casal homossexual Jules e Nic (respectivamente Julianne Moore e Annette Bening) tem dois filhos adolescentes concebidos através de uma inseminação artificial. A comédia mostra o que acontece quando um dos filhos do casal decide sair em busca de seu pai biológico. O filme, além de divertido e polêmico, rendeu uma indicação ao Oscar de melhor atriz para Annette.

A história do casal lésbico vivido por Bening e Moore tiraram boas gargalhadas do público.


9. Ti-ti-ti (2010)
No remake da obra de Cassiano Gabus Mendes, Maria Adelaide Amaral criou o casal homossexual vivido por André Arteche e Gustavo Leão. A personagem de Gustavo morreu nos primeiros capítulos, o que foi primordial para o desenvolvimento da trama. Entretanto, Julinho (personagem de Arteche) continuou na trama e agradou ao público.

Os personagens de André Arteche e Gustavo Leão na trama de Maria Adelaide Amaral foram bem recebidos pelo público.


10. O Segredo de Brokeback Mountain (2005)
Certamente, este foi um dos filmes mais felizes a tratar sobre o tema. Ambientado entre as décadas de 60 e 80, a produção norte-americana e canadense conta a história de amor entre dois jovens vaqueiros impedidos de assumir seu romance por conta de seus casamentos falidos e do medo da homofobia que era característica da época. A atuação memorável de Heath Ledger foi fundamental para o desenvolvimento da trama, que entrou na lista dos filmes românticos de maior bilheteria de todos os tempos.

A atuação impecável do falecido Heath Ledger contribuiu para o sucesso do filme.

Macho (Quase) Man

Comentei, em outros textos, que faltam boas atrações de humor na TV aberta brasileira. Já não se faz um casal tão divertido quanto o de Os Normais ou sátiras realmente boas como as do Casseta e Planeta Urgente dos primeiros anos (estes que, inclusive, perceberam que perderam sua força e, sabiamente, penduraram as chuteiras). Mesmo os programas que poderiam se destacar, como CQC ou Legendários, que mesclam humor com jornalismo – ou pelo menos, tentam – acabaram se perdendo ao longo do tempo e não tem o mesmo potencial. E é nesse marasmo que estreou na última sexta-feira (8) o humorístico Macho Man, mais uma tentativa da Globo de alavancar um gênero em constante queda. E ao que tudo indica vai continuar assim.

01

O roteiro do programa conta as peripécias do homossexual Nelson, que após uma pancada na cabeça, descobre que deixou de ser gay e passa a se interessar por mulheres. Acompanhado por sua amiga ex-gorda Valéria, ele passa por algumas situações do mundo heterossexual que são novas para o ex-gay, agora atormentado por perder a personalidade que o acompanhava desde criança.

A trama, em si, já é meio duvidosa, pois levanta uma questão: existe ex-gay? Bom, se há ou não, não é este o ponto que quero discutir aqui. Mas o acidente que teria transformado Nelson em heterossexual foi, no mínimo, bizarro – afinal, levar uma botada no meio da boate, mesmo GLS, não é algo muito comum. Mas se o roteiro é meio furado, o elenco não é diferente.

Jorge Fernando se sai melhor como diretor. Fato. Pode até ser que ele tenha criado esse tipo tendo em vista que se trata de um humorístico, mas Nelson não é uma criação magnífica. Primeiro porque Jorge tem as mesmas caras e bocas de todas suas personagens (e também do seu próprio jeito alegre e descontraído). Depois, e pior do que isso, mais uma vez somos apresentados a uma personagem estereotipada. Pois é, a Globo faz isso como ninguém.

02

Todos os tipos do universo GLS que o programa apresentou são estereotipados. Do protagonista até o segurança da boate, todos possuem as mesmas características – que muitas vezes não correspondem à realidade deste mundo. Se a tentativa dos roteiristas ao criar Nelson era estabelecer as diferenças entre heterossexuais e homossexuais, eles falharam porque além de criar um homossexual estereotipado, criaram um Nelson heterossexual com características semelhantes à sua personalidade anterior – com a única diferença de que, agora, ele sente atração por mulheres. Não sei se isso foi proposital para levantar o debate sobre a sexualidade do personagem central ou simplesmente falta de talento de Jorge Fernando, mas pra qualquer hipótese, o tiro saiu pela culatra.

Se houve algo que salvou a atração foi a impagável Marisa Orth que, como sempre, mostra que tem humor na veia. Ah, a abertura da equipe de Hans Donner também é divertida e muito criativa. Mas apenas isso. As cenas beiravam a catástrofe, como no momento em que Nelson tem uma ereção ao ver uma revista pornográfica e grita aos céus: “Por que, meu Deus?”. O mesmo se pode dizer da cena em que Valéria é forçada a ficar nua para que Nelson se certifique de que é um ex-gay. Patética.

Fernanda Young e Alexandre Machado, os roteiristas, são experts em trazer programas com personagens em situações atuais e irreverentes. Mas a pegada da dupla não está tão boa como na época de Os Normais – a obra-prima do humor de sexta à noite. Depois da tentativa frustrada de Separação!, acho que a Globo poderia dar férias ao casal e apostar em um abordagem menos apelativa e mais inteligente.

O programa é engraçado? Sim. Mas não é o suficiente. Como foi o primeiro episódio (e, geralmente, o primeiro episódio serve pra apresentar as personagens ao público), podemos até pensar que as coisas podem melhorar daqui em diante. Com Macho Man, a Globo garantiu sua liderança no horário, com aproximadamente 17 pontos no Ibope (o que se deve muito à sua propaganda). Resta saber se o humorístico agradou ao público ou vai se tornar mais um descartável que a Globo vai lançar em DVD daqui uns tempos.