Oscar 2012: Resumão

A 84ª edição do Oscar foi celebrada neste domingo (26) no Hollywood & Highland Center, em Los Angeles e, como nas edições anteriores, a noite foi marcada por muito glamour, requinte e sofisticação. E, obviamente, muitos comentários a respeito dos vencedores da premiação. Enquanto algumas pessoas torciam o nariz para os premiados, outras aplaudiam as escolhas da Academia e criavam justificativas para os prêmios de seus indicados favoritos. E – como também foi feito no ano passado – vamos dar uma repassada nos melhores momentos da festa mais importante do cinema.

Na foto, o Kodak Theatre, que serviu de palco para a maior premiação do cinema mundial.

Quem abriu a noite foi Morgan Freeman, seguido por Billy Crystal – o veterano apresentador do Oscar – que, pra variar, fez sua famosa paródia dos principais filmes. Aliás, foi revigorante ver Billy de volta à apresentação do Oscar depois do fiasco de 2011, onde Anne Hathaway e James Franco protagonizaram uma das piores performances de todos os tempos da Academia.

Tom Hanks subiu ao palco para apresentar o primeiro premio da noite e entregou o Oscar de melhor fotografia para A Invenção de Hugo Cabret, que também faturou o Oscar de melhor direção de arte. Já as musas Cameron Diaz e Jennifer Lopez apresentaram o prêmio de melhor figurino e melhor maquiagem, que ficaram, respectivamente, com o mudo O Artista e A Dama de Ferro.

Lindas, Jennifer Lopez e Cameron Diaz não pouparam caras e bocas para apresentar os prêmios de melhor figurino e melhor maquiagem.

Sandra Bullock entregou o prêmio de melhor filme em língua estrangeira ao iraniano A Separação. Cristian Bale, que no ano anterior ganhou o prêmio de melhor ator coadjuvante em O Vencedor, entregou a Octavia Spencer o prêmio de melhor atriz coadjuvante por sua atuação em Histórias Cruzadas. Aplaudida de pé, Octavia claramente mostrava sua emoção ao receber a estatueta.

Visivelmente emocionada, Octavia faturou o Oscar de melhor atriz coadjuvante.

Millenium – Os Homens Que Não Amavam as Mulheres levou seu único prêmio da noite, com o Oscar de melhor montagem, o que não deixou de ser uma surpresa para o público. Os prêmios técnicos de som (melhor edição e mixagem) ficaram com A Invenção de Hugo Cabret – o que foi merecido, devido à qualidade técnica da obra de Scorsese.

Uma das apresentações da noite ficou por conta do Cirque Du Soleil, que trouxe ao palco um pouco da magia de ir ao cinema e de apreciar essa arte. Gore Verbinski, que dirigiu os três primeiros filmes da saga Piratas do Caribe, conseguiu uma estatueta com o prêmio de melhor animação para Rango (obviamente, não deixou de agradecer seu Johnny Depp impecável na dublagem do personagem título).

“Rango” faturou a estatueta de melhor animação. Nada de Tintin.

Ben Stiller e Emma Stone (a atual namorada de Andrew Garfield, estonteante em seu lindo vestido vermelho – e muito mais alta do que de costume) entregaram o Oscar de efeitos visuais para A Invenção de Hugo Cabret. Já o prêmio de melhor ator coadjuvante ficou para Christopher Plummer – aos 82 anos de idade, se tornando, assim, o ator mais velho a ganhar um Oscar. Se muita gente adorou a vitória de Plummer, houve quem preferisse Max Von Sidow por sua atuação em Tão Forte e Tão Perto.

“O Andrew é um cara de sorte…” – único pensamento ao ver a Emma Stone, certo?

Ludovic Bource ganhou o Oscar de melhor trilha sonora original por O Artista (trilha sonora que, em se tratando de cinema mudo, é essencial), enquanto o prêmio de melhor canção original ficou com Mano or Muppet, de Os Muppets – contrariando os fãs brasileiros que torciam por Carlinhos Brown e Sergio Mendes com sua Real In Rio, da animação Rio.

A linda Angelina Jolie (cujas pernas à mostra se tornaram um dos principais assuntos nas redes sociais) entregou o prêmio de melhor roteiro adaptado para os roteiristas de Os Descendentes, o mais provável da noite. A esposa de Brad Pitt também entregou a estatueta de melhor roteiro original para o ausente Woody Allen, por sua maior bilheteria, Meia Noite em Paris. Woody, um dos queridinhos da Academia, no entanto, perdeu o prêmio de melhor diretor para o francês Michel Hazanavicius, que recebeu das mãos de Michael Douglas a estatueta por seu trabalho em O Artista.

Repare na fenda do vestido – se você conseguir. Sem mais comentários.

Ao som de What a Wonderful World, uma homenagem foi feita a alguns nomes famosos do cinema como Elizabeth Taylor, Whitney Houston e Steve Jobs, que nos deixaram recentemente. A bela Natalie Portman, vencedora do Oscar de melhor atriz em 2011 por sua atuação em Cisne Negro, entregou o prêmio de melhor ator para Jean Dujardin, por seu personagem em O Artista. O vencedor do Oscar de melhor ator em 2011, Colin Firth, não poupou palavras para elogiar as indicadas à melhor atriz, mas quem levou a melhor foi Meryl Streep, que conquistou seu terceiro prêmio – ao longo de dezessete indicações durante sua carreira, um recorde na Academia – com sua personagem em A Dama de Ferro.

Meryl Streep e Jean Dujardin, as melhores atuações do ano.

Já prêmio mais importante da noite, melhor filme, ficou para o mais provável O Artista, desbancando Scorsese com sua declaração de amor pessoal ao cinema e Terrence Malick com sua obra-prima A Árvore da Vida – único filme que foi ovacionado durante as indicações. O Artista, que parece ter agradado também o público brasileiro, é o primeira produção em língua não-inglesa a ganhar este prêmio e o primeiro filme mudo a ganhar o Oscar em 83 anos de premiação.

“O Artista” empata com “A Invenção de Hugo Cabret”, levando 5 estatuetas e desbanca as obras de Martin Scorsese, Woody Allen e Terrence Malick.


INJUSTIÇADOS?
Se teve gente que ficou feliz com as premiações, houve quem as contestasse – assim como o foram com as indicações. A Invenção de Hugo Cabret e O Artista ganharam 5 Oscars cada um. Enquanto o primeiro faturou em prêmios técnicos, o segundo faturou as principais categorias (como melhor ator, melhor diretor e melhor filme). Houve também quem questionasse a não premiação de A Árvore da Vida para melhor filme, George Clooney por sua atuação em Os Descendentes ou mesmo Gleen Close ou Viola Davis para melhor atriz. Já o Brasil – contra um único concorrente em melhor canção original, com Real in Rio, do filme Rio – mais uma vez deixa o Oscar escapar de suas mãos.

George Clooney, em “Os Descendentes”; Gleen Close (irreconhecíve) em “Albert Nobbs”; e Brad Pitt em “A Árvore da Vida”: afinal, mereciam ou não?

Também questionou-se muito algumas indicações que não foram feitas. Leonardo DiCaprio, por exemplo, era um dos favoritos para melhor ator por seu John Edgar no filme de Clint Eastwood (que também ficou de fora das indicações para melhor direção). Já Sandra Bullock e Charlize Theron poderiam concorrer ao prêmio de melhor atriz, por seus belos personagens em Tão Perto e Tão Longe e Jovens Adultos. O polêmico Roman Polanski ficou de fora com seu filme Carnage, assim como Jodie Foster, que teve para muitos uma das melhores atuações de sua carreira. Já o filme de Steven Spielberg, As Aventuras de Tintim: O Segredo do Licorne e o badaladíssimo Rio foram ignorados para as indicações de melhor animação.

Leonardo DiCaprio, em “J. Edgar”; Sandra Bullock em “Tão Forte e Tão Perto”; e “As Aventuras de Tintin”: teve coisa boa que ficou de fora…

PREMIADOS DA NOITE

MELHOR FOTOGRAFIA: A Invenção de Hugo Cabret
MELHOR DIREÇÃO DE ARTE: A Invenção de Hugo Cabret
MELHOR FIGURINO: O Artista
MELHOR MAQUIAGEM: A Dama de Ferro
MELHOR FILME EM LÍNGUA ESTRANGEIRA: A Separação
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Octavia Spencer (Histórias Cruzadas)
MELHOR MONTAGEM: Millenium – Os Homens Que Não Amavam as Mulheres
MELHOR EDIÇÃO DE SOM: A Invenção de Hugo Cabret
MELHOR MIXAGEM DE SOM: A Invenção de Hugo Cabret
MELHOR DOCUMENTÁRIO: Undefeated
MELHOR ANIMAÇÃO: Rango
EFEITOS VISUAIS: A Invenção de Hugo Cabret
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Christopher Plummer (Toda Forma de Amor)
MELHOR TRILHA SONORA ORIGINAL: O Artista
MELHOR CANÇÃO ORIGINAL: Man or Muppet (Os Muppets)
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Os Descendentes
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Meia Noite em Paris
MELHOR CURTA-METRAGEM: The Shore
MELHOR DOCUMENTÁRIO DE CURTA-METRAGEM: Saving Face
MELHOR CURTA ANIMADO: The Fantastic Flying Books of Mister Morris Lessmore
MELHOR DIREÇÃO: Michel Hazanavicius (O Artista)
MELHOR ATOR: Jean Dujardin (O Artista)
MELHOR ATRIZ: Meryl Streep (A Dama de Ferro)
MELHOR FILME: O Artista

J. Edgar: A Honestidade de Eastwood

Mesmo para os diretores mais experientes, um dos maiores desafios enfrentados ao levar para as telas de cinema a biografia de uma figura pública muito importante é retratar essa pessoa sob uma visão imparcial, de maneira que não se destrua ou exalte sua personalidade. Aliás, este não é um desafio apenas para o cinema: a literatura é cheia de casos semelhantes. Em Lolita, de Vladimir Nabokov, por exemplo, o autor conduz tão bem a história que ao final do livro sentimos uma espécie de compaixão pelo pobre professor Humbert – mesmo detestando seus atos.

J. Edgar, do diretor Clint Eastwood, conseguiu a difícil façanha de retratar a vida conturbada de uma das figuras mais poderosas dos EUA de uma forma sincera. Ao longo de pouco mais de duas horas, somos apresentados a John Edgar Hoover (Leonardo DiCaprio), um advogado que ao longo de quase cinco décadas foi o diretor do FBI, a mais importante e conhecida organização policial do mundo. O filme narra a rápida ascensão do jovem Edgar dentro do Departamento e seu possível envolvimento afetivo com Clyde Tolson (vivido por Armie Hammer), que seria seu braço direito durante toda a sua carreira.

J. Edgar, no começo de carreira – mudanças significativas de DiCaprio para sua personagem.

Edgar não é considerado o patrono do FBI à toa. Ele permaneceu no comando da organização durante o mandato de 8 presidentes norte-americanos – e durante sua direção, o FBI se tornou a força policial mais forte do mundo. Sob sua liderança, durante a década de 1930, o FBI declarou guerra a criminosos famosos, como John Dillinger (considerado o inimigo público número 1 na época), Pretty Boy Floyd e outros. Edgar também transformou o FBI em uma organização moderna: trouxe para os tribunais métodos científicos de investigação que são utilizados até hoje pelas forças policiais de todo o mundo – é, inclusive, considerado o revolucionário que trouxe a biometria para a utilização nas forças armadas.

Armie Hammer (à esquerda) e Leonardo DiCaprio que vivem, respectivamente, Hoover e Tolson. Apesar de nunca asumir, especula-se sobre o envolvimento pessoal dos dois agentes.

Se, entretanto, John mostrava-se um verdadeiro herói norte-americano, muitos duvidavam de seu talento como diretor da organização – e mesmo de seu caráter. O próprio filme questiona se os grandes feitos atribuídos a Edgar foram, de fato, realizados por ele. Em  relação ao seu comportamento, Edgar nunca foi casado – mas frequentemente era visto ao lado de Tolson, o que aumentava as especulações sobre sua homossexualidade. Sob seu caráter, já no fim de seu mandato, Hoover era acusado de passar mais tempo tentando destruir figuras com quem não simpatizava do que combatendo o crime propriamente. Na política, por exemplo, Edgar enfrentava um novo embate a cada troca de presidente devido, sobretudo, ao fato de manter um arquivo confidenial com informações (verdadeiras, supostas ou falsas) de várias personalidades famosas que poderiam destruir suas reputações. Com a morte de Hoover, a maior parte destas informações se perderam – apesar de que algumas poucas foram encontradas ao longo dos anos.

DiCaprio, como Hoover em seus últimos anos. A equipe de maquiagem do filme tem sido bem criticada pelo exagero dado à produção.

O filme de Clint não chega a ser um clássico. Longe disto, J. Edgar dividiu opiniões da critica e do público. Enquanto alguns consideram a produção excelente, outros torcem o nariz para a história, alegando a falta de enredo na narrativa, a maquiagem extravagante (o que não deixa de ser verdade), a iluminação e fotografia em partes inadequadas e, obviamente, a atuação de seus atores. Enquanto a veterana Judi Dench arranca elogios por sua interpretação de Anna Marie, a mãe puritana de Edgar, Leonardo DiCaprio divide opiniões. Certamente, não foi a melhor atuação de DiCaprio – contrariando a muitos que acreditavam que o ator seria indicado ao Oscar – , mas também não se pode acusa-lo de não ter deixado sua marca no personagem.

J. Edgar é uma trama para poucos. Ao que tudo indica, no Brasil o filme é recebido sem muito alarde. John não é tã0 conhecido no país por seus feitos grandiosos – talvez passará a ser agora com o longa (não por sua contribuição às forças policiais, mas como “o diretor homossexual do FBI”). Uma lástima. Clint consegue fazer um filme honesto que não julga sua personagem por antecipação, mas nos dá plenas condições de até mesmo sentir compaixão por uma figura como Hoover – feito possível somente a grandes artistas.