“Os Miseráveis”: Perdido Dentro de Sua Grandeza

Antes de mais nada, uma pergunta aqui se faz indispensável: você gosta de musicais? Se sua resposta for negativa, meu conselho é que você passe longe do cinema enquanto Os Miseráveis estiver em cartaz. Se a resposta for positiva, no entanto, há boas chances de você se encantar com a nova versão cinematográfica da obra do francês Victor Hugo.

Os Miseráveis é uma adaptação livre da obra homônima lançada em 1862. É uma das leituras mais influentes do século XIX e certamente a maior realização de Victor Hugo. Ao longo dos anos, a obra teve diversas adaptações no teatro, cinema e TV – até ser idealizada pelo diretor Tom Hooper e ganhar sua mais recente versão hollywoodiana. Hooper já havia, não muito longe, mostrado todo seu talento como diretor em O Discurso do Rei, em 2011. Com Os Miseráveis, o diretor (que teria recusado o convite para dirigir o provável blockbuster Homem de Ferro 3)  mostra que está no caminho certo para se tornar um dos mais elogiados artistas de seu meio.

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Há poucos diretores que conseguem extrair o máximo da atuação de seu elenco. Quentin Tarantino, por exemplo, recentemente conseguiu fazer com que Leonardo DiCaprio (que há anos não fazia um personagem realmente bom) surpreendesse o público com seu papel em Django Livre. Polanski, com seu Deus da Carnificina, criou um filme cuja força está nas atuações de um elenco de estrelas – de Jodie Foster a Kate Winslet e Christoph Waltz. Hooper já havia feito isso com O Discurso do Rei – não à toa, Colin Firth levou o Oscar de melhor ator, enquanto Helena Bonham Carter e Geoffrey Rush ganharam indicações a melhores coadjuvantes. Em Os Miseráveis, Hooper repete sua façanha em um filme cujo maior mérito são as atuações de seu elenco – ou parte dele.

Não que Os Miseráveis seja, de resto, um desastre. Muito longe disso. O que acontece é que ao longo de mais de duas horas, é difícil aturar tanta cantoria – mesmo que você ame o gênero. Chicago, de Rob Marshall, conseguiu faturou o Oscar de melhor filme em 2002 com um musical excelente – que mescla as canções com cenas comuns, onde os personagens apenas dialogam. Em Os Miseráveis, não há trégua: toda história é contada musicalmente o que torna o filme, inevitavelmente, longo e cansativo – ainda que tenha muitas qualidades.

6A trama é ambientada na França da primeira metade do século XIX e, basicamente, pode ser dividido em duas partes. Na primeira, conhecemos Jean Valjean, papel de Hugh Jackman, um homem preso por roubar um pão que ganha sua liberdade condicional mas ainda é impedido de levar uma vida decente. Sem perspectivas, ele foge para outra cidade e assume uma nova personalidade, se tornando até mesmo o prefeito local. Na segunda parte, Valjean passa a ser novamente foragido da lei após ser localizado por seu antigo inspetor, interpretado por Russell Crowe. Ele foge com a órfã Cosette, personagem insossa de Amanda Seyfried, que Valjean cria como filha desde que a mãe da menina, Fantine, morreu nas ruas.

Com uma história desse porte, é de esperar que toda a produção seja digna da obra do grande Victor Hugo. De fato, Tom Hooper não economizou em cenários e figurinos, criando uma atmosfera impecável – isso explica as indicações no Oscar aos prêmios de melhor figurino, design de produção e maquiagem. Tudo é muito bem feito, muito bem recriado e a câmera de Hooper ajuda ainda mais a acentuar esses detalhes, o que faz com que o filme ganhe pontos pela reconstituição da época. Além disso, Hooper optou por fazer seus atores mostrarem seus dotes vocais ali mesmo, na frente das câmeras, dispensando o uso do famoso play-back. Isso rendeu bons momentos ao longa e tornou a experiência muito mais agradável (quem sabe faz ao vivo, não é?). Mas o que se sobressai ainda, positiva ou negativamente, é o elenco dirigido por Hooper.

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Hugh Jackman como Valjean é um alívio a cada cena em que aparece. Com uma boa voz, ele consegue quase que carregar o filme todo nas costas. Sua atuação nas cenas iniciais, quando é hostilizado pelo personagem de Crowe, é de sensibilizar o coração. Anne Hathaway (ahhh Anne) consegue criar uma Fantine encantadora. A cena em que canta I Dreamed a Dream é a típica cena com cara de Oscar e enche os olhos dos espectadores – não obstante, Anne está indicada ao Oscar de Melhor atriz coadjuvante e está praticamente com as mãos na estatueta.

Na outra ponta, o restante do elenco parece estar meio perdido. É o caso de Russell Crowe – visivelmente incomodado com seu personagem Javert. É nítido que Crowe não se encaixa no papel – apesar da cara carrancuda e do porte austero, além do fraco desempenho vocal do ator, diga-se de passagem. Amanda Seyfried é opaca e ao lado de Eddie Redmayne protagoniza as cenas mais piegas de todo o filme. Esta aí um casal que não faz diferença na trama, pois serve apenas de pretexto para que outras ações mais interessantes se desenvolvam. Em meio a tantas desgraças, surgem ainda Helena Bonham Carter e Sacha Baron Cohen, como um casal de picaretas que tentam dar um ar cômico a uma narrativa recheada de tristezas. Apesar do talento de ambos, pouco se consegue.

4Outro porém, obviamente, é o fato do filme ser rodado em inglês – afinal, trata-se de um momento histórico tão francês que realmente soa estranho alguns personagens com um evidente sotaque britânico gritando “Vive La France!”. Não que isso estrague o resultado final – até porque é cinema e aqui tudo pode acontecer, certo? Mas há quem se incomode, por exemplo, com Hathaway com seu “bonjour” tão, tão… ah deixa pra lá.  Além disso, algumas cenas são cortadas tão bruscamente que a sensação que se tem é de que alguns eventos são tratados superficialmente, enquanto outros são exaustivos.

Com uma boa bilheteria e críticas mistas, Os Miseráveis acaba tropeçando naquilo que deveria lhe salvar: sua grandeza. O ar requintado de grande obra de arte que exala durante toda sua exibição (assim como o porte elegante de uma grande produção) não funciona tão bem e faz com que o espectador ache tudo um pouco confuso e exagerado. No fim, quando a bandeira francesa é erguida (por atores norte-americanos, obviamente), o público suspira aliviado. Tom Hooper consegue, assim como em O Discurso do Rei, criar um filme que é muito bom para ser admirado, mas que se perde dentro de sua própria grandeza.

10 Musicais Que Você Deve Assistir

Pra quem gosta de música e dramaturgia, nada melhor do que assistir a um bom musical.

No teatro ou no cinema, o gênero tem atraído a atenção de milhares de pessoas. No Brasil, temos presenciado nos últimos anos uma intensa onda de musicais invadindo os palcos brasileiros, o que tem proporcionado bons momentos de entretenimento para muitos. Atualmente, é possível assistir a bons musicais nos teatros das principais cidades do país, como São Paulo e Rio de Janeiro.

Para aqueles que não gostam de teatro – mas não abrem mão de uma boa história contada ao som de belas canções – , selecionei a seguir alguns musicais famosos nas telas de cinema. Muitos deles se tornaram clássicos – mas são poucos os que realmente os conhecem. Portanto, confira a lista e escolha o seu. Afinal, o show não pode parar.

 

1. Mary Poppins (1964)
O filme foi vencedor de 5 Oscars, incluindo melhor atriz para a fantástica Julie Andrews, que interpreta Mary, uma babá que possui poderes mágicos e transforma a vida das crianças Jane e Michael. Além das belíssimas sequências musicais, o filme critica a sociedade da época, especialmente através dos personagens Sr. Banks (um homem frio e rígido – estereótipo inglês – que sustenta sua casa) e Winifred Banks (e esposa ativista do Sr. Banks, que tenta garantir o direito de voto às mulheres). A magia e diversão, no entanto, não se perdem com isso.


2. A Noviça Rebelde (1965)
O musical A Noviça Rebelde, originalmente com o título The Sound of Music, foi bem recebido pela crítica. Originado de um musical da Broadway, a produção levou o Oscar de melhor filme no ano de 1966. A história gira em torno da governanta Maria (Julie Andrews), que vai trabalhar na casa do Capitão Von Trapp, um homem solitário, que desde a morte de sua esposa, cria os filhos com rigidez. História parecida com Mary Poppins, mas aqui Maria e Von Trapp se apaixonam – inclusive, Von Trapp termina o noivado com uma baronesa para poder se casar com Maria.


3. Chicago (2002)
Chicago misturou música e comédia na dose certa – o que lhe rendeu 6 prêmios Oscars, incluindo o de melhor filme. A história se passa na década de 1920, em uma cidade onde todos almejam o sucesso, inclusive as assassinas Roxie Hart e Velma Kelly (respectivamente, Renée Zellweger e a bela Catherine Zeta-Jones). O filme aborda a questão de se tornar uma celebridade instantânea e como isso pode levar ao ostracismo.


4. Um Violinista no Telhado (1971)
Mais um filme baseado em um musical da Broadway, Um Violinista no Telhado levou quatro Oscars. A  história se passa na Rússia, especificamente na época do Czarismo, onde um leiteiro judeu tem uma vida tranquila até que decide casar suas duas filhas mais velhas, que recusam o casamento imposto pelo pai. Uma das curiosidades em torno desta produção é que o papel do leiteiro Tevye foi cotado para nomes como Marlon Brando, Anthony Quinn e Frank Sinatra – mas quem acabou ficando com  a personagem foi Chaim Topol.


5. Cry-Baby (1990)
Mais uma comédia na lista. O musical conta a paixão entre o bad-boy Wade Walker (Johnny Depp, em um de seus primeiros papéis no cinema) e Allison Vernon-Williams, uma jovem rica criada pela avó, que considera Wade o líder de uma gangue juvenil que ameaça a paz da pequena cidade de Baltimore, nos anos 50. O filme é embalado por canções de rockabilly e rock and roll, estilos próprios da época. Assim como aconteceu com Um Violinista no Telhado, outros atores foram sugeridos para o papel do protagonista, como Tom Cruise e Jim Carrey – mas, sabiamente, o diretor John Waters escolheu Johnny Depp para o papel do jovem Cry-Baby.


6. O Fantasma da Ópera (2004)
O filme foi baseado no romance de Gaston Leroux e tem o roteiro de Andrew Lloyd Webber. Já foi adaptado para a Broadway e já passou pelo país – em uma das maiores bilheterias nacionais. O desfigurado “fantasma” (vivido por Gerard Butler) encontra em Christine a voz ideal para expressar todas as suas emoções. Entretando, o ciúme doentio do fantasma por Christine coloca em risco a vida da jovem e de Raoul, um ex-namorado de infância de Christine, que a reencontra e faz reacender a chama desta paixão.


7. New York, New York (1977)
Apesar de não ser muito badalado, este é um dos melhores filmes do diretor Martin Scorcese. O filme narra o envolvimento do músico Jimmy Doyle (0 fantástico Robert DeNiro) com a cantora Francine Evans (Liza Minnelli), que se conhecem no mesmo dia em que termina a Segunda Guerra Mundial. Enquanto buscam o sucesso, eles vivem momentos conturbados nessa relação, que é um romance e também uma parceria artística. No teatro, o musical já passou pelo país este ano e agradou ao público paulista.


8. Cantando na Chuva (1952)
O filme ocupa a primeira colocação em diversas listas de maiores musicais norte-americanos de todos os tempos. Não é pra menos: quem nunca ouviu a canção Singin’ in the Rain e não se recorda da clássica cena do astro Gene Kelly fazendo piruetas na chuva? O musical conta a história de dois astros do cinema mudo que tentam se adaptar aos novos métodos do cinema para manter a fama que conquistaram.


9. Sweeney Todd – O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet (2007)
Também baseado em uma peça da Broadway, Sweeney Todd foi o filme que consagrou o diretor Tim Burton e fez com que seus colegas de Hollywood reconhecessem o talento do excêntrico artista. O musical conta a triste história de Benjamin Barker, um modesto e simples barbeiro que, após ser preso injustamente, retorna à cidade de Londres – agora como Sweeney Todd – para executar sua maligna vingança. O suspense conta com Johnny Depp no papel do medonho Benjamin. As cenas de assassinato do filme – onde litros de sangue são jorrados a cada corte de garganta – são um espetáculo à parte.


10. Evita (1996)
Evita é um clássico. Dirigido por Alan Parker e baseado na peça teatral do mestre Tim Rice, o musical conta a história de Eva Perón, uma das mais populares primeiras-damas da América. A biografia – narrada em flashback – mostra a infãncia pobre de Eva até sua ascensão como artista e seu casamento com o político Juan Perón – quando de “prostituta”, como era chamada, Eva passou a ser idolatrada e uma das figuras políticas mais influentes de toda a história da Argentina. A cena do funeral de Evita é, por si só, um espetáculo. A produção ganhou o Oscar de melhor canção original (para You Must Love Me) e o Globo de Ouro de melhor atuação de atriz em cinema (para Madonna – sim, Madonna).