Os Bons Companheiros

Há muitas discussões sobre qual seria o melhor filme de máfia já produzido. Há os que apontam O Poderoso Chefão no topo da lista (ou mesmo sua continuação, de 1974), considerando a obra-prima de Copolla como o maior representante deste tipo de narrativa. De fato, O Poderoso Chefão, como um todo, revolucionou o gênero e tem sua importância cinematográfica indiscutível. No entanto, enquanto O Poderoso Chefão foi responsável por “romantizar” os gangsteres (transformando-os em marginais “elitizados”, de bom coração e que só matavam em nome da honra), Martin Scorsese ia ainda mais fundo em Os Bons Companheiros, mostrando uma faceta cruel e indigesta, como realmente é: violentos e perversos, os mafiosos são bandidos como qualquer outro. É este retrato frio sobre a máfia que torna Os Bons Companheiros um título obrigatório para quem gosta de cinema.

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Baseado no livro Wiseguy, de Nicholas Pileggi (que dividiu os créditos de roteiro com o próprio Scorsese), Os Bons Companheiros recria a trajetória de Henry Hill no mundo do crime, junto com seus comparsas Jimmy Conway e Tommy DeVito (formado pelo incrível trio Ray Liotta, Robert De Niro e Joe Pesci). Fascinado pela vida luxuosa proporcionada pelos gângsteres de seu bairro, Henry se inicia ainda jovem no crime, trabalhando para o chefão local até se firmar como um dos mais respeitados bandidos das redondezas. Apesar de desaprovar a violência exagerada de seus parceiros, sua ambição e ganância acabam sempre falando mais alto, o que faz com que o rapaz se envolva em situações perigosas – para ele, os riscos de ser preso tornam-se aceitáveis diante de tudo aquilo que pode conquistar. Anos depois, Henry é capturado e condenado, mas decide colaborar com o FBI e entrar para o programa federal de proteção a testemunhas.

Com um estilo quase documental, Os Bons Companheiros causou grande impacto por mostrar o cotidiano sanguinário da máfia, diferente dos filmes anteriores. Com uma habitual narração em off (marca registrada de Scorsese), o longa é dividido em duas partes: na primeira delas, o cineasta faz jus ao título e retrata, com certo clima de nostalgia, toda a intimidade daquele grupo de pessoas, em todo o esplendor de suas riquezas (com seus carros, roupas e mesas sofisticadas, distribuindo dólares por todos os lados); na segunda metade, entretanto, Scorsese nos revela a decadência de tudo aquilo que construiu no ato anterior – e aqui ocorre o choque de realidade. O crime realmente compensa?

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Este trabalho de “desconstrução” fica ainda mais acentuado por conta da boa edição, que mantém um ritmo alucinante no início e diminui aos poucos no decorrer da fita. A trilha sonora (que é uma explosão de energia) acompanha a montagem e é imprescindível para a história – o desfecho, com o clássico My Way interpretado de maneira contagiante, é de tirar o fôlego. Martin ainda é feliz no uso que faz de sua câmera. Alem de capturar ótimos planos e movimentos, o diretor recorre a um recurso pontual: ele paralisa a cena no ápice da ação, enquanto a voz em off continua seu relato. E não pára por aí: em um dos momentos mais fantásticos, há um plano-sequência que segue o protagonista da saída do veículo até a mesa do restaurante – um marco cinematográfico, amplamente elogiado pelos cinéfilos e pela crítica.

Scorsese também consegue extrair atuações memoráveis de seu elenco. Se De Niro e Liotta são competentes em suas performances, Joe Pesci é, no mínimo, excepcional. Na pele do sádico e irreverente Tommy DeVito, Joe é simplesmente genial – não à toa, o ator levou pra casa um Oscar de melhor coadjuvante por sua atuação (dentre as seis categorias em que o longa concorreu, incluindo filme e direção). Apesar de não faturar os principais prêmios, Os Bons Companheiros ganha um lugar de destaque na filmografia de Scorsese – que, por si, já não precisa provar muita coisa. Com uma introdução estimulante, Os Bons Companheiros é, de longe, o filme definitivo sobre a máfia e uma das melhores produções norte-americanas de todos os tempos.

Os Infiltrados

Repare: qualquer lista de melhores filmes do cinema inclui alguma obra de Martin Scorsese. O cultuado cineasta é um dos maiores ícones da história do cinema – sinônimo de erudição e conhecimento cinematográfico (além de algumas polêmicas pessoais). No entanto, foi apenas com Os Infiltrados, de 2006, que a Academia reconheceu (finalmente) o talento do diretor, lhe conferindo a estatueta de melhor direção após 5 indicações: Touro Indomável (1980), A Última Tentação de Cristo (1988), Os Bons Companheiros (1990), Gangues de Nova York (2002) e O Aviador (2004).

Os Infiltrados é a versão de Scorsese para Infernal Affairs (“Conflitos Internos”), uma produção de Hong Kong de 2002, dirigido por Alan Mak e Andrew Lau. Enquanto no filme original a história é centrada na guerra entre a polícia e os criminosos de Hong Kong, Scorsese (ao lado de William Monahan) adapta a narrativa, transformando-a em um sanguinário combate entre a polícia de Boston e a máfia irlandesa. No entanto, a estrutura da narração é basicamente a mesma: um policial na gangue de bandidos e um bandido dentro da corporação policial.

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Na introdução de Os Infiltrados (que dura pouco mais de 18 minutos), somos apresentados a três personagens centrais. Entre eles, está Frank Costello (Jack Nicholson), mafioso irlandês que apadrinha o garoto Colin Sullivan (vivido, quando adulto, por Matt Damon). Inteligente e bom aluno, Sullivan se forma com méritos na academia de polícia, conquistando uma posição de destaque dentro da corporação – e se tornando o informante ideal de Costello. Paralelamente, conhecemos também Billy Costigan (Leonardo DiCaprio), policial recém formado cuja família com antecedentes criminais e ligações com a máfia o tornam a melhor escolha da polícia para se infiltrar no grupo de Costello.

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Tanto Costigan quanto Sullivan passam por um questionamento moral ao longo da trama: até quando conseguirão esconder sua identidade e, principalmente, seu caráter sem arriscar suas vidas? Para protagonizar personagens com esse dilema, Scorsese consegue extrair o melhor da atuação de DiCaprio e Damon. O primeiro é instável emocionalmente – o que reflete claramente o inferno em que vive ao se manter incluso no grupo de bandido – enquanto o segundo é um tipo dissimulado que causa uma espécie de ódio imediato no público. Em ambos os casos, tanto DiCaprio quanto Damon mantém atuações eficientes ao longo de toda a trama. No entanto, em filme com Jack Nicholson, é difícil ser melhor do que… Jack Nicholson. Na primeira parceria com Scorsese, Jack cria um tipo brilhante – e, certamente, um de seus melhores papéis no cinema. Na pele de Costello, ele chama a atenção à cada aparição, disparando frases antológicas (“A Igreja diz que podemos ser policiais ou criminosos. Mas com uma arma na cabeça, que diferença isso faz?” ou o prólogo “Eu não quero ser um produto do meio ambiente. Eu quero que o meio ambiente seja um produto meu.”). Vale ainda citar a participação de Mark Wahlberg, como um agente estressadinho que traz o grande (e surpreendente) desfecho do filme.

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Mantendo o mesmo estilo “urbano” de alguns de seus clássicos, como Cassino ou Os Bons Companheiros, tecnicamente, além do roteiro alinhado, deve-se destacar a bela fotografia, marcada pelo uso constante de elementos sombreados (Costello na introdução do filme, por exemplo, só é mostrado através de sombras) que deixam as imagens ainda mais reais. Como se não bastasse, Scorsese ainda seleciona uma trilha sonora que, assim como em seus maiores clássicos, tornam as ações ainda mais excitantes. Excepcional, Os Infiltrados é um dos marcos da carreira de Scorsese, na mesma linha de seus antigos clássicos, voltando um pouco às origens de suas primeiras produções. Com uma direção competente e um roteiro eletrizante, o público chega a ignorar o fato de que está assistindo a um filme com mais de duas horas e meia de duração. No melhor padrão Scorsese (sim, ele merece isso…), Os Infiltrados é um filme arrebatador, nos contagiando com sua explosão frenética de corrupção, drogas e muita violência inteligente.