Realitys Musicais: Eles Ajudam em Alguma Coisa?

Dizem por aí – e eu digo “dizem” porque eu vejo pipocar notícias na rede, mas raramente escuto uma pessoa de bom senso comentar algo a respeito – que o The Voice Brasil está sendo um sucesso. Baseado no reality show norte-americano que estreou no ano passado, o The Voice é uma competição de canto, onde os participantes disputam entre si por um prêmio específico (desde contrato com gravadoras a valores em espécie). Este não é o primeiro formato a ser apresentado no país e fora dele. Há alguns anos, esse tipo de competição vem despertando a atenção do público – que se empolga, torce, vota pelo seu candidato preferido. Mas, cá entre nós, adianta alguma coisa participar destes programas?

"The Voice Brasil": será que desse mato sai coelho?

“The Voice Brasil”: será que desse mato sai coelho?

Entre 2002 e 2005, a Rede Globo apresentou o Fama que, com um formato bastante próximo, também funcionava como uma espécie de competição, onde os candidatos eram confinados em uma academia musical e lá recebiam aulas de música. Na época, talvez por se tratar até então de uma novidade, o programa conseguiu alavancar a audiência da emissora e revelar alguns nomes – apesar que maioria hoje vive no ostracismo. Desse programa, saíram Hugo e Tiago (amigos que formaram uma dupla sertaneja logo após o fim da atração), Marina Elali (que emplacou inúmeras canções em novelas globais), David Fantazzini (que já era vocalista de uma banda gospel e após sua participação seguiu carreira solo), Roberta Sá (uma das maiores cantoras nacionais em ascensão) e Thiaguinho (sim, o ex-Exaltasamba – se é que isso é importante para você). Mas e quanto a todos os outros?

Muitos outros programas do gênero chegaram ao país a partir daí. Quem não se lembra (infelizmente) do concurso Popstar, do SBT, que revelou o grupo feminino Rouge e, mais tarde, os “garotos” da banda Br’Oz? Quem ainda não lembra da primeira edição do Ídolos, ainda no SBT, que apresentou o cantor Leandro Lopes ao Brasil? Sim, ele mesmo que hoje é vocalista de uma banda de axé? Você não se recorda? Reveja seus conceitos. #NOT

A carreira de Thiaguinho vai bem. Elogiado pela crítica e público, ele até já declarou que "mudou a história do samba". Okay, menos, garoto, bem menos...

A carreira de Thiaguinho vai bem. Elogiado pela crítica e público, ele até já declarou que “mudou a história do samba”. Okay, menos, garoto, bem menos…

Brincadeiras e comentários maldosos à parte, o que realmente é preciso para se fazer sucesso? Afinal de contas, quando se está tão perto de alcançar o auge, o que faz com que o artista tenha sua carreira tão inferiorizada? Há quem diga que, de início, o público brasileiro não é muito inteligente. Em partes, concordo. Se formou uma mentalidade (estúpida, vamos combinar) de que quem assiste reality show é burro. Admito que, particularmente, eu viro a cara para qualquer tipo de reality. Me cansa e não acho paciência para ficar aturando gente que quer mostrar talento onde não tem, acho forçado demais. Também concordo que muitos realitys são profundamente desnecessários (leia-se aqui BBBA FazendaCasa dos Artistas e uma porção de outros do gênero que pegam uma dúzia de pseudo celebridades para disputar algum prêmio) e abusam da inteligência do espectador. Mas um programa musical, na minha modesta opinião, é mais um objeto de entretenimento. Se dali vai sair um grande artista, não garanto – mas que ao menos algumas horas de distração sadia (afinal, não deixa de ser música, certo?) pode sair dali é bem provável.

Veja o caso de inúmeros realitys desse tipo em países de primeiro mundo. Bons artistas saíram dali e alcançaram (ao menos por algum momento) uma exposição muito expressiva, até mesmo a níveis mundiais. Kelly Clarkson, por exemplo, foi a vencedora da primeira edição do American Idol – e certamente, uma das maiores responsáveis pelo sucesso e popularidade do programa. De lá, também saíram Carrie Underwood, por exemplo, vencedora da quarta edição e hoje é uma das maiores intérpretes de música country dos EUA, e Jennifer Hudson, cantora e atriz que já faturou inclusive estatueta do Oscar.

Resta dúvidas sobre o talento de Kelly?

Resta dúvidas sobre o talento de Kelly?

E o que dizer de Susan Boyle? Desprezada pelo júri e público do Britain’s Got Talent, a cantora não ganhou a competição, mas foi a maior revelação do programa, deixando o mundo inteiro de queixo caído com sua voz. No X-Factor, outra atração do gênero, ainda foram apresentados os garotos (ah tá…) do One Direction, conhece? O quinteto inglês se tornou um dos maiores grupos de todos os tempos, com milhões de visualizações no Youtube, inúmeras biografias (pergunta-se: pra quê?) e trazendo de volta a moda das boybands britânicas. Okay, você pode até ser indiferente aos talentos dos guris, mas confessa que você já se pegou cantando o refrão de What Makes You Beautiful, ou pelo menos já a ouviu uma porção de vezes.

One Direction: uma legião de fãs alucinadas e mais uma porrada de visualizações na Internet. Quem não queria?

One Direction: uma legião de fãs alucinadas e mais uma porrada de visualizações na Internet. Quem não queria?

No Brasil, o sucesso dos artistas que participam deste tempo de realitys são, geralmente, bastante passageiro. Alguns poucos conseguem algum destaque. A maioria é dividida em dois grupos: os que caem no ostracismo direto ou aqueles que ainda permanecem um tempo, fazendo participações esporádicas em programas do SBT, Record ou da Luciana Gimenez. Muitos deles alegam que, ao deixar as atrações, não encontram muitas opções, afinal tudo é tão igual, certo? Muitos não conseguem sequer gravar um único álbum – e quando conseguem, só vendem os álbuns para a família (geralmente a mãe, que compra, no mínimo, umas 50 cópias). As emissoras até ajudam em um momento, mas depois deixam os cantores por aí, sem  muitas opções.

Os 15 minutos de fama de muita gente duram, realmente, apenas quinze minutos. Quem ainda tem alguma sorte, consegue durar um pouco mais. Infelizmente, em um mundo onde qualquer um consegue fazer sucesso na Internet, a indústria fonográfica já não consegue mais se sustentar. Você faz sucesso de alguma forma? Okay, tem lugar pra você. Não chama mais atenção? O mercado te cospe como a um chiclete sem gosto. Fica a pergunta: vale a pena se expor por tão pouco? Bom, ao menos, alguns chicletes, mesmo que jogados fora, ainda dão algum certo sabor (pule para 1:48):

Certo?

Jogos Vorazes: Quando o Filme Independe do Livro

Franquias no cinema geralmente rendem bons lucros. Adaptações também. Quando se unem esses dois elementos, o mais comum é que se tenha um grande sucesso de bilheteria – mas que nem sempre é garantia de um bom filme, cinematograficamente falando. Eis que há algumas semanas chega aos cinemas a produção Jogos Vorazes, primeira parte da adaptação de uma série de três livros da autora Suzanne Collins e, como não podia ser diferente, o filme tem tido bons (na verdade, excelentes) resultados até então. Merecidamente? Então vamos lá…

A principio, vamos à história propriamente dita: em um futuro indeterminado, surge a nação Panem, dividida em 12 distritos e uma Capital, que controla toda o país. Há décadas atrás, estes distritos se rebelaram contra o governo, mas sem sucesso. Para punir os distritos e ressaltarem seu poder e domínio, são criados os Jogos Vorazes, uma espécie de reality show transmitido para toda a nação, onde uma menina e um menino de cada um dos distritos são escolhidos e obrigados  a lutar entre si até a morte. A protagonista Katniss, moradora do distrito 12 (o mais pobre e menos favorecido) se oferece para lutar no lugar de sua irmã caçula e ali a garota tem a chance de mudar sua trajetória e a de sua família.

A heroína do filme, interpretada por Jennifer Lawrence.

Antes de tudo, vou deixar claro que não li à obra de Suzanne e, portanto, minha crítica aqui será exposta em relação à obra cinematográfica e não à produção literária. O filme tem sido vendido como potencial sucessor das franquias teens Harry Potter e Crepúsculo. Até certo ponto, isso fez bem ao filme, pois aguçou a expectativa dos fãs da obra de Suzanne e despertou a curiosidade daqueles que ainda não a conhecem (meu caso, por exemplo, que já saí do cinema querendo levar os livros da série para descobrir o que acontece com os protagonistas). Mas o grande mérito aqui é que Jogos Vorazes FILME consegue ser completamente independente de Jogos Vorazes LIVRO – o que, se tratando de adaptações, é um fato muito difícil de se conseguir.

A narrativa de Jogos Vorazes é didática e permite que qualquer alienado que tenha ido ao cinema e entrado na sala por curiosidade se interesse pela história e mantenha uma espécie de compaixão pela trama – tanto que ao longo de quase duas horas e meia de filme, o tempo passa tão rapidamete que, ao final, você sente vontade de continuar ali, sentado, esperando qualquer coisa que possa te trazer algum indício do que pode acontecer.

Teve romance? Até teve um início. Mas ao menos o Josh não precisou tirar a blusa para isso...

Tecnicamente, o filme também se destaca. O figurino (especialmente nas cenas da Capital, que contrasta visivelmente com os demais distritos) já é aposta para os indicados ao Oscar 2013. O visual da Capital também é algo impressionante, c0m ambientes luxuosos e extravagantes, mas nunca piegas. Além disso, a direção bem acabada de Gary Ross traz uma dosagem certeira nas cenas mais violentas do filme (elas estão lá, presentes, mas a maneira como Gary percorre com suas câmeras faz com que isso seja atenuado – o que, em tese, ajuda a adequar a classificação indicativa ao público alvo do filme).

Há alguns pontos que poderiam ser melhorados. A princípio, creio que o maior deles seja quanto à duração e divisão do filme. Eu, particulamente, não sou fã de filmes longos. Se for pra ser longo, o filme tem que ser envolvente na medida certa. E, ultimamente, Hollywood não tem feito boas escolhas de roteiristas. Mas o fato é que Jogos Vorazes mantem um ritmo que permite que o filme pudesse ser esticado alguns minutos e mais bem dividido. Praticamente, podemos dizer que o filme é dividido em duas partes: a primeira, quando os jovens são escolhidos e apresentados às regras do jogo e a segunda, que trata dos duelos em si. Enquanto a primeira parte é apresentada de forma didática e bastante compreensível, a segunda peca por ser deveras “rápida” demais. Minha visão é a de que se podia dar um pouco mais de ênfase nas batalhas, nos pequenos conflitos, nas formas de sobrevivência dos jogadores.

"Jogos Vorazes" impressiona visualmente - mas não apenas isto.

Outro ponto que poderia ser melhorado é a visão “romântica” (não no sentido amoroso) da heroína da história. Ela é tão boazinha (já no início do filme se oferecendo como tributo aos Jogos) e bom caráter (apesar de vencer o duelo, ela mata pouca gente) que por vezes chega a enjoar. No final, o filme mostra que a força bruta apenas não é necessária, mas também a inteligência. Tudo bem, concordo, mas essa visão tão “amigão, gente fina” da protagonista não me impressionou. Quanto às atuações, cabe dizer que todos ali cumpriram razoavelmente suas funções – mas sem nenhum grande destaque.

Outro grande mérito de Jogos Vorazes, no entanto, é conhecido pelos espectadores mais atentos ao contexto do que à história propriamente dita. Há uma crítica explícita aos reality shows que, mais do que entreter uma populaçao, controlam, manipulam seus participantes (como o sistema faz conosco?). O próprio apresentador do programa (uma espécie de Galvão Bueno, mas muito menos chato), um diretor que interfere e os estratégias de jogo dos participantes para sobreviver refletem bem a realidade dos programas atuais de televisão, levantando bandeira à esta causa (tema já abordado anteriormente no cinema, como no excelente O Show de Truman – O Show da Vida).

Não adianta fugir: romance adolescente à vista...

Jogos Vorazes FILME é infinitamente melhor do muitos outros sucessos teens. A qualidade e o cuidado com que o filme foi produzido (talvez por conta da participação direta da autora dos livros) demonstram que o filme tem potencial para agradar não apenas adolescentes virgens e pré-adolecentes chatos. Talvez o filme tenha sido vendido como tal apenas para chamar público (talvez, não – quase certeza, né? Propaganda é a alma do negócio). E conseguiu. O filme tem ido muito bem e a expectativa é que continue assim. Vendo pelo lado positivo, não há vampiros que brilham, lobisomens sem camisa, bruxinhos adolescentes… Bom, pelo menos até aqui. Vai que…