Por Que “Em Família” Não Deu Certo?

Daí você pega um teledramaturgo consagrado, um diretor competente, alguns assuntos polêmicos, um elenco jovem e talentoso e pronto! Você tem uma ótima novela, com média de audiência satisfatória e boa aceitação do público. Certo? Bem, nem sempre. Em muitos casos, nem mesmo todos estes elementos são suficientes para se fazer um trabalho teledramatúrgico de qualidade – e o que era para ser um grande sucesso acaba se tornando um amargo fracasso. Em Família, atualmente no horário nobre, não leva apenas o título de último trabalho de Manoel Carlos (um veterano na televisão brasileira), mas também o de folhetim com a menor audiência da Rede Globo em anos. Duramente criticada e muito  longe do gosto popular, Em Família simplesmente não emplacou e, obviamente, pipocam teorias nas redes sociais sobre quais foram os motivos que levaram Em Família a ganhar tal posição e se tornar um dos maiores fiascos da história da Globo.

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Para começar, há de se observar que Manoel Carlos é um excelente romancista. Escrever boas histórias é com ele, definitivamente. Ele praticamente criou seu estilo ao escrever sobre o cotidiano da classe média, abordando diversos temas polêmicos e com apelo popular e social. Enquanto os outros novelistas se desprendem em tramas recheadas de reviravoltas, Maneco adentra a casa de suas personagens, invadindo cada vez mais sua intimidade. Mas, em tempos de super séries norte-americanas, recheadas de ação e com personagens fantásticos, já era de se esperar que o público que assistia a uma novela nos anos 90 não é o mesmo de hoje. A TV atualmente  é rápida, é dinâmica – e quem não acompanha este ritmo está fadado ao fracasso. E a trama de Manoel Carlos não acompanhou essas mudanças. Você assiste Em Família hoje, fica um mês sem assistir e quando volta você tem a sensação de que nada aconteceu, de que tudo permaneceu da mesma forma. Para quem acompanha diariamente, é um grande fardo ter de aturar as mesmas sequências cansativas todos os dias – o que fica ainda mais acentuado por conta dos cenários da trama que faz com que você pense que a mesma cena foi reprisada diversas vezes. Em suma: não acontece nada de relevante – e quando acontece é muito demorado. Não há agilidade, não há ação – e o público perde o interesse pela história.

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Outro ponto que tem prejudicado a trama é o elenco. Cá entre nós: Em Família não possui grandes nomes. Quem é o grande astro da trama? Não tem. Os grandes parceiros de Manoel Carlos (figurinhas constantes em suas obras) ficaram de fora e boa parte do elenco é formada por rostos desconhecidos e mesmo aqueles que o público já conhece não convencem – a começar pela protagonista, Julia Lemmertz (que nos capítulos iniciais era interpretada pela insossa Bruna Marquezine). Jamais afirmaria que o fracasso da trama seja culpa da atriz, mas se a personagem principal de uma telenovela não agrada ao público, o que se esperar de todo o resto? Apesar do talento inegável da filha de Lilian Lemmertz (primeira Helena de Manoel Carlos, em Baila Comigo, em 1981), faltou aquela identificação com o telespectador. Gabriel Braga Nunes (que foi unânime em Insensato Coração, de Gilberto Braga, em 2011) também não agradou na pele de Laerte – grande amor de Helena na adolescência – , assim como Humberto Martins, maridão da nossa protagonista – e um chato sem o menor charme. Ou seja, os mais experiente não possuem carisma suficiente, enquanto os mais novos não chamam a atenção. Aí fica complicado…

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Mais um erro: a história carece de boas tramas, inclusive as sociais. Um expert no assunto, Maneco já abordou diversos temas em seus trabalhos: alcoolismo, impotência sexual, homossexualismo, leucemia, AIDS, ética médica, entre outros. Em Família não possui, sequer, boas tramas paralelas – e como consequência, tudo fica sempre no mesmo núcleo, naquele mesmo círculo de personagens onde tudo se repete. Em Mulheres Apaixonadas, por exemplo, Manoel tinha à sua disposição mais de 100 personagens – ou seja, quando a coisa ficava muita cansativa em determinado núcleo, Maneco ia lá e mudava o foco da narrativa, colocando este núcleo meio que em “banho maria”. O mesmo não acontece em Em Família, porque não há muitos personagens e os que existem não são bem escritos – daí fica difícil para qualquer artista fazer milagre (é o caso, por exemplo, de Giovanna Antonelli, Vivianne Pasmanter, Helena Ranaldi, Paulo José e alguns outros que por mais que tentem não conseguem levar uma novela desse porte nas costas). Fato: Os personagens de Em Família são tão mal trabalhados que fica difícil tirar boas atuações dos elenco. A própria Helena, por exemplo, é uma das protagonistas mais chatas de todos os tempos – reclama a toda hora, fica se lamentando pelos cantos e alimentando um ódio inexplicável por seu primo Laerte, outro personagem que tinha tudo para ser o grande nome da trama nos primeiros capítulos, mas sua inconstância não nos deixa saber se estamos diante de um mocinho ou vilão. Aliás, vilões: onde estão os vilões de Em Família, aqueles que realmente fazem a trama pegar fogo? Não há! E como não há, consequentemente não acontece muita coisa.

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Há quem culpe Jayme Monjardim, diretor de núcleo da trama. De fato, desde Mulheres Apaixonadas, dirigida por Ricardo Waddington (velho parceiro do autor), Maneco não tem um grande sucesso – com exceção da microssérie Maysa – Quando Fala o Coração, dirigida por Monjardim, que foi muito elogiada pela crítica e abriu caminho para a parceria seguir em frente. Mas quando se fala de “família”, de “intimidade”, de “drama”, Monjardim peca um pouco – diferente do ótimo trabalho que Waddington realizava em suas dobradinhas épicas com Maneco (Por AmorLaços de FamíliaMulheres Apaixonadas e a série Presença de Anita). Em Laços de Família, por exemplo, o diretor utilizava planos de cena fechados que acentuavam todo o clima de intimidade que a trama exigia. As trilhas sonoras, escolhidas a dedo pelo autor, casavam perfeitamente com as fotografias das novelas. Resultado: ótimas tiragens em discos, coisa que há muito tempo não se vê em um folhetim das nove. A cúpula da Globo teria, inclusive, cogitado o afastamento de Monjardim – na verdade, rolam boatos de que o diretor já não aparece nos estúdios há alguns meses, deixando a responsabilidade nas mãos de Leonardo Nogueira. O motivo do “afastamento” do diretor? Boatos ainda dizem que 1) houve um desentendimento entre Jayme e Maneco; 2) o diretor estaria se dedicando a um novo trabalho; e 3) ele não aguentou a pressão e pediu para ser substituído.

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Em Família começou muito bem, realizando tecnicamente um trabalho louvável que, à primeira exibição, empolgou o público – mas já na primeira semana pecava por sua lentidão, desde cedo deixando o espectador incomodado na poltrona. Virou piada nas redes sociais com a confusão de idade entre os personagens na passagem da segunda para a terceira fase – e com razão. Apesar de dizer que não se importa, o autor teve que reduzir sua trama, que irá acabar já no mês de julho (tramas das nove possuem geralmente, no mínimo, 200 capítulos; Em Família vai encerrar com cerca de 140 capítulos) obtendo a menor audiência para esta faixa de horário da história da Globo. É, de certa forma, lastimável. Conhecendo a qualidade dos trabalhos do teledramaturgo, é de se preocupar o fato de que a próxima novela no horário será escrita por Aguinaldo Silva – outro grande nome dos folhetins brasileiros, mas que vem colecionando obras bastante questionáveis. Apesar de esboçar certa reação em alguns momentos, Em Família foi uma tentativa frustrada de se permanecer no velho dramalhão, na batida receita que hoje não funciona mais – desperdiçando o talento de um nome tão forte quanto o de Manoel Carlos.

Novas Apostas na Teledramaturgia Brasileira

Quem tem o olhar mais atento, já deve ter notado que, nos últimos anos, a quantidade de novos autores de novelas e minisséries que nos são apresentados tem aumentado consideravelmente. A Rede Globo, definitivamente a mãe da teledramaturgia no país, por exemplo, tem apostado explicitamente em novas caras nos seus folhetins. Para se ter uma idéia, há um mês atrás todas as principais faixas teledramatúrgicas da emissora eram ocupadas por autores relativamente novos (que assinam, no máximo, sua terceira obra).

Motivo? Bom, há alguns. A começar, os autores da “velha guarda” (como são conhecidos os veteranos Benedito Ruy Barbosa, Manoel Carlos, Gilberto Braga, Aguinaldo Silva ou Silvio de Abreu, por exemplo) há muito tempo já demonstram certo desgaste em suas tramas. Isso é reflexo de vários fatores e um deles é a exaustiva carga horária de trabalho a qual são submetidos. Escrever uma novela é uma tarefa árdua que demanda, no mínimo, 10 horas por dia. Ou seja, uma mente mais jovem tende a trabalhar com muito mais facilidade.

Da esquerda para direita, de cima para baixo, os teledramaturgos Manoel Carlos, Gilberto Braga, Aguinaldo Silva, Silvio de Abreu e Benedito Ruy Barbosa: simplesmente os maiores nomes globais em atividade.

Além disso, essa nova geração, boa parte das vezes, traz idéias e soluções mais próximas ao público – que convenhamos, não é o mesmo que assistia, há algumas décadas atrás, os clássicos Escrava Isaura, Vale Tudo ou Mulheres de Areia. O público mudou – e, consequentemente, a forma como a arte teledramatúrgica é vista também mudou. Antigamente, um autor de novela tinha apenas o trabalho de escrever um folhetim para prender a atenção do telespectador, numa época em que a TV era a única opção de entretenimento para a maioria das famílias. Hoje, ele tem a missão de levar o telespectador à televisão, chamar sua atenção e aí sim prende-la, numa época em que as opções de programação são infinitamente maiores e mais acessíveis. Isso é algo que poucos autores dessa velha safra conseguem fazer com maestria (e aqui não é apenas questão de talento).

Glória Pires, como as gêmeas Rute e Raquel, no remake “Mulheres de Areia”, de Ivani Ribeiro.

Duvida disso? Então, vamos a algumas perguntas rápidas: qual foi a última grande novela de sucesso de Gilberto Braga? Você se recorda do último trabalho de Benedito Ruy Barbosa? E qual foi a última Helena memorável de Manoel Carlos? Demorou para responder, certo? Pensou bastante? Não que esses autores estejam ultrapassados ou não sejam bons. Seria uma desonra falar isso de nomes que mudaram a cara da teledramaturgia brasileira e tornaram o Brasil o país com as melhores produções mundiais deste tipo de arte. Mas o fato é que as coisas mudaram e estão cada vez mais rápidas. A cena de um assalto em um novela do Manoel Carlos, por exemplo, pode durar cerca de 4 ou 5 capítulos (taí um autor que sabe escrever drama como ninguém), enquanto a mesma cena contada por um autor como João Emanuel Carneiro (a grande descoberta global na última década) pode durar menos de um quadro. Se você levantar para beber água, perde todo o enredo.

Essa renovação no quadro de autores globais não é nova. Entre as décadas de 1980 e 2000, a emissora foi apostando, aos poucos, em alguns profissionais que, se não são os grandes nomes da casa, tem rendido boas produções, como Carlos Lombardi (rei dos pastelões, como Uga Uga, Quatro por Quatro e Bebê a Bordo e recentemente contratado pela Record), Glória Perez (das saudosas Barriga de Aluguel, De Corpo e Alma e O Clone) Miguel Falabella (que oscila entre fiascos e sucessos) ou Antonio Calmon (de Vamp ou O Beijo do Vampiro).

Da esquerda para a direita: os teledramaturgos Carlos Lombardi, Glória Perez, Miguel Falabella e Antonio Calmon.

Atualmente, os novos nomes estão à solta por aí. Dois excelentes exemplos são Walcyr Carrasco e João Emanuel Carneiro. Walcyr Carrasco conheceu o sucesso com a polêmica novela Xica da Silva, na extinta Rede Manchete, e mais tarde com Fascinação, no SBT. Depois que se mudou para a Globo, em 2000, quando escreveu O Cravo e a Rosa, foi sucesso atrás de sucesso: Chocolate com Pimenta, Alma Gêmea e, recentemente, o remake de Gabriela. Em 2013, Walcyr passará a fazer parte do restrito time de autores do horário nobre da Globo, substituindo (dizem as más línguas) o veterano Manoel Carlos, que vai se dedicar a trabalhos mais curtos (como a provável próxima minissérie da casa).

E o que dizer de João Emanuel Carneiro? O autor conseguiu, com suas duas primeiras tramas próprias, criar as duas novelas com as maiores audiências da década no horário das 19 horas, Da Cor do Pecado e Cobras e Lagartos. Este sucesso inesperado foi o trampolim que levou o autor ao horário nobre em seu terceiro trabalho, A Favorita, grande sucesso de público e crítica. Recentemente, ele entrega à Rede Globo o megasucesso Avenida Brasil, que chega à sua reta final com uma das maiores audiências do horário.

Há outros autores que tem garantido a supremacia global em teledramaturgia. A novela A Vida da Gente, sucesso no horário das seis em 2011, revelou Lícia Manzo como a provável sucessora do estilo “Maneco” de fazer novela (tomara que siga os passos do mestre). Cordel Encantado, exibida em 2011, foi um marco do horário das seis ao apostar na temática da literatura de cordel, ganhando diversos prêmios e colocando os holofotes nos autores Duca Rachid e Thelma Guedes. Filipe Miguez e Izabel de Oliveira criaram a elogiada Cheias de Charme, novela atualíssima que abusou dos recursos mais distintos para agradar ao público, como cultura pop, internet ou o culto às celebridades.

As “empreguetes” Isabelle Drummond, Leandra Leal e Taís Araújo em “Cheias de Charme”.

Não se pode dizer aqui que estes novos autores serão, no futuro, nomes como foram Janete Clair, Dias Gomes, Ivani Ribeiro, Cassiano Gabus Mendes e outros, que com suas obras inovadoras criaram um novo padrão de teledramaturgia no país. Tampouco podemos afirmar que eles não poderão sofrer o gosto amargo de uma trama de pouco sucesso. Muito menos podemos dizer que os mais veteranos não são capazes de criar novos e grandes sucessos (taí Manoel Carlos com sua Laços de Família, Silvio de Abreu com sua Belíssima ou Aguinaldo Silva com seu clássico Senhora do Destino). Entretanto, uma coisa é certa: o brasileiro reclama e fala mal dizendo que novela é tudo igual, mas o maior produto televisivo do país ainda são nossos folhetins. E enquanto tiver público para isso, o que não vai faltar é autor talentoso para escrever boas tramas. Ou não…