“Timbuktu”: Doloroso e Impactante Como Poucos

02Timbuktu é uma cidade histórica localizada no centro de Mali, considerada patrimônio mundial pela Unesco em 1988. O filme homônimo do cineasta Abderrahmane Sissako (natural da Mauritânia, país vizinho) retrata a ação de um grupo fundamentalista islâmico naquela região durante cerca de oito meses – período marcado pela imposição de leis extremistas que mudaram para sempre o local.

Indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro, Timbuktu é um daqueles raros momentos no cinema. Grandioso em sua essência, Timbutku é uma obra que, através de seu brilhante roteiro, consegue transformar o espectador, atingindo-o em cheio – mas nunca efetuando julgamentos. As duas faces da moeda são mostradas: se por um lado há o radicalismo e seus excessos, há também o perdão, a compreensão, a tolerância – dualidade esta que gera um questionamento: é possível que pessoas pertencentes a uma mesma crença possam ter pensamentos tão distantes? Dessa forma, apesar de não seguir um fluxo tradicional (com começo, meio e fim), o roteiro torna-se primoroso à medida que traz à tona pequenos casos dos moradores da região que, ainda que incompletos, traduzem o sofrimento daqueles seres humanos.

Com um trabalho fotográfico impressionante – que abusa de tons saturados –, a ambientação recorre às mais belas paisagens locais (e todos seus recursos naturais, como os rios, as dunas, a fauna), o que deixa o público muito confortável com o que vê em cena. Essa sensação ainda fica melhor com a excelente trilha de Amin Bouhava, que apresenta composições curtas e melancólicas, mas inconstantes (recorrendo aos mais variados tipos de instrumentos) – e causam um sentimento estranho: como a música é proibida pelos rebeldes, tem-se a ideia de que sempre algo poderá acontecer na fita, uma vez que a ordem é descumprida. Aliás, é interessante como o cineasta trabalha com as emoções de quem assiste: é como se ele fosse moldando seu espírito, preparando terreno para te lançar na cara algo impactante – e falo impactante no sentido mais amplo da palavra.

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Talvez Timbuktu seja o menos favorito à categoria que concorre no Oscar deste ano. Isso não importa: de todos os filmes, Timbuktu é talvez o mais pungente, doloroso, capaz de impactar o público. Pura poesia visual, a câmera de Sissako (com seus cortes definidos e sua transposição entre o documentário e o cinema amador) estende também essa poesia e lirismo para sua narrativa – a cena do jogo de futebol entre as crianças no meio do deserto é simplesmente uma das melhores experiências cinematográficas que já pude presenciar. Abandonando o sentimentalismo barato tão presente no cinema contemporâneo, Timbuktu foge da receita “fácil” e faz com que tudo surja naturalmente na trama. Ao final da fita, é possível ficar ainda paralisado durante alguns segundos tentando digerir o que se acabou de ver – promovendo um rico debate em que a fé é questionada e o homem é colocado em primeiro plano.

Complexo Quanto a Própria Vida

Há algum tempo, fiquei admirado com o belo trailer de A Árvore da Vida, o novo trabalho do diretor Terrence Malick (o mesmo de O Novo Mundo e Além da Linha Vermelha). As imagens são tão boas, os diálogos tão convincentes que a curiosidade em torno do longa foi aumentando gradativamente à medida que sua estréia se aproximava. Finalmente, após meses de espera, o filme chega aos cinemas brasileiros e divide as opiniões dos espectadores.

Terrence é um diretor incomum: há  mais de 35 anos na profissão, ele produziu apenas 6 longas – mas, individualmente, todos eles são considerados obras-primas (com exceção, talvez, de seu filme anterior, O Novo Mundo, muito criticado por conta da atuação de Colin Farrell). Talvez por essa razão, A Árvore da Vida foi recebido com muito entusiasmo no Festival de Cannes de 2011, faturando, inclusive, a Palma de Ouro. O recluso Terrence, que dificilmente concede entrevistas ou aparece na mídia, foi aclamado – e a corrida pelo Oscar do próximo ano parece já estar lançada.

“A Árvore da Vida” traz questões que vão além dos pensamentos religiosos.

A Árvore da Vida é um filme belo. Não há o que contestar. Ao longo de pouco mais de duas horas, somos surpreendidos com uma sequência de imagens que nos deixam paralisados com tamanha beleza e encanto. O estado da arte, aqui, é alcançado: cada cena, por si, é suficiente para deixar o espectador maravilhado. Mas o fato de ser belo não faz com que a obra seja fácil de ser assimilada pelo grande público.

Como já mencionado, A Árvore da Vida é uma série de belas imagens, mas que não seguem uma linearidade – e isso exige atenção redobrada do espectador. Mais do que isso: o longa é um tratado de reflexão sobre a condição do homem diante da vida e como os efeitos de uma morte podem abalar suas relações futuras. Não se trata de questões religiosas apenas, mas também questões filosóficas, em um drama existencialista que produz profundas reflexões sobre a vida – e seu significado.

Confesso que o filme é cansativo. Por diversas vezes, me revirei na poltrona do cinema e – admito – quase cochilei em alguns momentos (especialmente em uma sequência logo nos minutos iniciais que trazia um conjunto de imagens avulsas sem uma única fala). E mesmo os diálogos, por vezes, se tornam massantes, tamanha a complexidade de seus significados. Aliás, o próprio filme é de uma pretenciosa complexidade – tão complexo quanto a própria vida.

Da criação do universo até os dinossauros.

O filme mostra alguns momentos da vida de uma família norte-americana, focando especialmente a relação dos três filhos com o pai – aqui interpretado por Brad Pitt. Enquanto a mãe é uma figura quase divina, o personagem de Pitt é um pai intransigente – talvez por conta do luto familiar ou mesmo por sua vocação não seguida – que produz marcas profundas no comportamento do filho mais velho. Entretanto, a intolerância do pai não faz com que o homem se torne um vilão. Pelo contrário: o espectador em muitos momentos chega a se comover com a forma como o pai é tratado pelos filhos. Se em alguns momentos ele é intolerante, em outros ele mostra-se carinhoso e arrependido de seu jeito de ser, o que mostra toda a humanidade de seu personagem.

Quando começaram os créditos finais, a sensação da platéia não poderia ter sido diferente: silêncio. Não consegui compreender bem se ele foi inspirado pelas profundas reflexões que o filme proporcionou aos espectadores ou se porque o longa é muito difícil de ser ingerido. Creio que a última opção seria a mais correta. Tecnicamente, A Árvore da Vida é quase perfeito e acredito que tenha chance de concorrer a quase todos os prêmios técnicos no Oscar do próximo ano. A fotografia de Emmanuel Lubezki foi explêndida do começo ao fim, assim como a trilha sonora de Alexandre Desplat (o mesmo de O Discurso do Rei), que soube selecionar os temas clássicos que estavam de acordo com o espírito do filme. As atuações de Brad Pitt e Hunter McCracken também merecem seus méritos, mas o destaque é o próprio Malick.

A relação conturbada entre pai e filhos.

A Árvore da Vida é um drama perfeito – e cujo único defeito é justamente a perfeição. De tão completo, o filme se torna uma obra extremamente complexa e de difícil entendimento. Cada um sai dali com uma idéia distinta – diferente dos blockbusters hollywoodianos, que nos corrompem com suas histórias fracas e seus efeitos especiais mirabolantes. Para os mais atentos, o filme produz bons momentos de discussão sobre a vida, a morte, religião e filosofia. Terrence com A Árvore da Vida, definitivamente, deixou seu nome cravado na história do cinema – e esta é a maior beleza da sétima arte.