Repulsa ao Sexo

Repulsa ao Sexo foi a primeira produção de Roman Polanski rodado em língua inglesa – além de ser o primeiro filme de uma sequência que ficou conhecida como “trilogia do apartamento” – onde as histórias se desenrolam dentro desse tipo de moradia, o que acentua a paranoia de suas personalidades, a claustrofobia e clima obscuro do lugar e, sobretudo, muito mistério e suspense. Seguida ainda por O Bebê de Rosemary (1968) e O Inquilino (1976), essa trilogia é composta por aqueles que, para muitos fãs do cineasta, são considerados as melhores obras de Polanski.

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Uma das coisas que admiro na obra de Roman é o seu talento para fazer temas simples crescerem de forma absurda na tela. Repulsa ao Sexo é um bom exemplo desse dom natural do cineasta. Na história, acompanhamos a bela Carol, manicure que trabalha num salão de beleza londrino e mora em um pequeno apartamento com a irmã mais velha. Inicialmente vista como uma moça tímida e retraída, Carol aos poucos revela um estado de desligamento completo do mundo ao seu redor, culminando em uma repressão sexual que mais tarde (quando sozinha no apartamento devido a viagem da irmã junto com o amante) tornaria seus medos e angústias em situações de esquizofrenia repletas de violência e perversão.

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Repulsa ao Sexo é um dos melhoras produções que abordam a questão da esquizofrenia feminina. Em tempos de Cisne Negro, obviamente uma bela produção do gênero, Repulsa ao Sexo (que foi pessimamente traduzido de Repulsion, título original e muito melhor) é um filme que talvez não funcionasse tão bem em nossa geração. A Londres da época estava em efervescência cultural crescente. Mais do que apenas uma trama sobre esquizofrenia (que irei falar mais adiante), Repulsa ao Sexo também é uma resposta do cinema de Polanski ao machismo que imperava no período, mostrado sutilmente em pequenos golpes de tela, como nas cantadas que Carol recebe na rua, na maneira como sua irmã é tratada pelo amante casado, o cobrador de aluguel que tenta se aproveitar da garota ou mesmo na reação de seu admirador ao ser esnobado por ela – o que fomenta os debates sobre a origem do comportamento doentio da personagem principal.

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Mas, espere: será Carol a personagem principal deste thriller? Do ponto de vista psicológico, talvez. No entanto, Polanski faz algo surreal: dá vida ao apartamento, que acaba se tornando o centro do desenrolar de toda a narrativa. Se antes o apartamento servia como refúgio de Carol contra tudo o que lhe afligia, quando se vê sozinha nele o mesmo local se torna seu maior algoz. Se antes o sexo esteve sempre fora de seu lar, agora ele penetra todos os cômodos de seu apartamento, vagando de forma impulsiva e, por vezes, violenta. Os cômodos se tornam cada vez mais claustrofóbicos e opressivos, aumentando gradativamente o processo de degradação psicológica da personagem de Carol. Aqui, Polanski cria um locação assustadora: ele altera as dimensões do ambiente, expandindo os cômodos e movimentando paredes, fazendo com que o público sinta quase o mesmo efeito da mentalidade distorcida de Carol. Com metáforas que evidenciam essa degradação (o coelho temperado que apodrece fora da geladeira, batatas que criam raízes, as paredes cheias de rachaduras), o diretor permite ao espectador acompanhar como um voyeur a desconstrução da racionalidade de Carol.

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Uma observação há de ser feita: nada disso seria possível sem a habilidade de Polanski em extrair boas atuações de seu elenco. Definitivamente, Roman é um ótimo diretor de atores – e em Repulsa ao Sexo ele consegue deixar Catherine Deneuve completamente oca, vazia. Seu olhar perdido direto para o chão rachado no meio da rua ou enquanto faz seu serviço de manicure evidenciam todo o talento da então jovem atriz – aliás, já nos créditos iniciais, esse mesmo olhar é focado em uma tomada que já nos deixa atordoados logo no início da projeção. Alem do olhar constantemente perdido (o que já derruba por terra a questão da repulsão ao sexo apenas), Catherine empresta seus movimentos contidos e receosos e sua voz tímida para construir uma manifestação de esquizofrenia que apavora o espectador. Seus delírios beiram o surreal (como na cena do suposto estupro), assim como sua aversão a tudo aquilo que tenha qualquer vínculo sexual (os gemidos da irmã enquanto mantém relações com o amante no quarto ao lado ou o simples fato de dividir sua pia com objetos do cunhado).

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Do ponto de vista técnico ainda, todos os elementos estão harmoniosamente sincronizados (especialmente a direção de arte e fotografia em preto e branco, que deixam o apartamento muito mais assustador). São esses mesmos elementos que contribuem muito mais para a história do que os próprios diálogos. Mais do que palavras, é a fotografia e o belo uso da linguagem visual que acentuam a claustrofobia do ambiente e a insanidade de Carol (as cenas das mãos masculinas agarrando Carol na parede é um delírio visual).

Repulsa ao Sexo é, portanto, um belo início para uma ótima trilogia – mas, infelizmente, esquecido pelo sucesso O Bebê de Rosemary, que também ofuscou o ótimo O Inquilino (provavelmente, o melhor da série). No site Rotten Tomatoes, o filme tem 100% de avaliação positiva da crítica – o que não seria uma surpresa. Como estudo psicológico, Repulsa ao Sexo se aprofunda na psique humana para demonstrar o processo de degradação psicológica de uma personagem, mas sem se preocupar em explicar as origens desta deterioração. Como obra cinematográfica, é um belo exemplar daquilo que podemos chamar de thriller psicológico, o que o torna um dos trabalhos mais perturbadores que Polanski já produziu – e por que não dizer o próprio cinema?

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Roman Polanski: O Cineasta da Polêmica

Há exatamente oitenta anos, o cinema ganhava um de seus maiores artistas: o cineasta Roman Polanski. Um dos mais prestigiados diretores de todos os tempos, Polanski tem uma bem sucedida carreira marcada por produções de sucessos de público e crítica – e também por suas polêmicas na vida pessoal.

Polanki iniciou sua carreira na Polônia e logo com seu primeiro trabalho, Faca na Água (1962), recebeu sua primeira indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Desde então, se tornou um dos diretores mais elogiados de sua geração, alternando produções independentes e filmes com maior apelo de público em Hollywood, abordando temas polêmicos e caindo nas graças da crítica especializada.

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Na vida pessoal, Polanski passou por alguns momentos difíceis, como a morte de sua mãe em um campo de concentração nazista durante a Segunda Guerra Mundial – período em que vivia em constante fuga. No final da década de 60, sua então esposa, a modelo e atriz Sharon Tate (que estava no final da gestação do primeiro filho do casal), foi assassinada pela gangue liderada por Charles Manson (naquele que se tornou um dos mais conhecidos crimes da história norte-americana). Mais tarde, em 1977, o ator assumiu ter estuprado uma adolescente de treze anos – crime pelo qual foi preso em setembro de 2009, no aeroporto de Zurique, quando tentava entrar na Suiça para receber um prêmio por sua obra.

Polêmicas pessoais à parte, o fato inegável é seu talento. E para comemorar seus oitenta anos, decidi separar aqui os 5 melhores trabalhos do diretor (tarefa muito difícil para mim, que sou um inveterado fã do artista). Confira a lista e relembre ou descubra os filmes que são essenciais para entender a obra de Roman Polanski.

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1. Repulsa ao Sexo (Repulsion, 1965)
Polanski criou, no começo de sua carreira, aquela que ficou conhecida como “Trilogia do Apartamento”, marcada por um terror claustrofóbico e clima obscuro em ambientes fechados e sufocantes, que acabam por oprimir seus moradores. O primeiro filme desta trilogia (e também o primeiro longa do diretor em língua inglesa) é Repulsion – pessimamente traduzida para Repulsa ao Sexo – , que foca sua narrativa na personagem Carol (a belíssima Catherine Deneuve), uma manicure que vive com sua irmã mais velha e é reprimida em vários aspectos de sua vida. Quando a irmã viaja em férias e Carol fica sozinha no apartamento, a jovem cai em uma profunda depressão, causando-lhe alucinações aterrorizantes.

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2. Chinatown (Chinatown, 1974)
Este é, talvez, o maior marco da carreira de Roman Polanski – além de ser um dos maiores filmes noir de todos os tempos. Chinatown narra a trajetória de um detetive particular que, ao ser contratado por uma mulher da alta sociedade para investigar um caso extraconjugal do esposo, se envolve em uma conspiração muito além do que previa. Estrelado por Jack Nicholson e Faye Dunaway, é frequentemente considerado como um dos melhores roteiros do cinema, exemplo de construção e desenvolvimento de história e personagens. Além disso, o longa recebeu 11 indicações ao Oscar (incluindo melhor filme e melhor direção).

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3. O Inquilino (Le Locataire, 1976)
Último filme da trilogia citada (que ainda conta com o clássico O Bebê de Rosemary, de 1968), O Inquilino é, talvez, o melhor trabalho da série. No longa, estrelado pelo próprio Polanski, acompanhamos a história de um jovem que, após alugar um apartamento cuja antiga dona se suicidara, passa a sofrer alucinações, acreditando que os demais moradores do prédio estão tentando fazê-lo também se suicidar. Já ouviu falar em terror psicológico? Pois é, O Inquilino é uma aula completa do gênero – vale muito a pena conferir.

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4. Lua de Fel (Bitter Moon, 1992)
Desta lista que selecionei, este será, provavelmente, o mais questionável. Mas como a ideia aqui é também diversificar os gêneros e as épocas de Polanski, nada melhor do que citar Lua de Fel, primeiro filme do cineasta na década de 90 – e uma aula de erotismo e sedução. No longa, acompanhamos o casal inglês Nigel e Fiona que, ao fazerem um cruzeiro, conhecem o casal Mimi e Oscar (ela, uma belíssima, sensual e misteriosa francesa; ele, um norte-americano preso a uma cadeira de rodas). Durante a viagem, ao perceber o interesse de Nigel por Mimi, Oscar conta ao novo amigo como conhecera sua esposa e a paixão doentia do casal – que mais tarde, se tornara um ritual de humilhação e descaso. Sensualidade, sadismo, relacionamentos conturbados – céu e inferno, neste que é um dos maiores filmes eróticos do cinema.

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5. O Pianista (The Pianist, 2002)
Talvez por contar uma trama de sobrevivência quase que autobiográfica, O Pianista tenha se tornado a mais aclamada produção de Roman Polanski nos últimos anos. Filme que consagrou Polanski, a narrativa de O Pianista gira em torno de Wladyslaw Szpilman (excepcionalmente vivido por Adrien Brody – que faturou o Oscar de melhor ator por esta personagem), um musicista judeu que tenta sobreviver à Segunda Guerra Mundial, escondendo-se dos nazistas e sobrevivendo com a ajuda de amigos. A história é real – mas é impossível não associar essa dramática trama de sobrevivência à biografia do próprio Polanski – que vivenciou o Holocausto quando criança. O Pianista rendeu o Oscar de Melhor Diretor a Polanski – que não compareceu à cerimônia devido à sua situação criminal no país. Repare o cineasta sendo aplaudido de pé:


Achou que a lista acaba aqui? Pois é, selecionar apenas cinco longas (dentro de uma filmografia tão vasta e boa) de um artista como Polanski é uma tarefa difícil – pois sempre vai faltar aquela produção que você tanto admira e gosta de indicar aos amigos. Por isso, acrescentei abaixo (bem sucintamente) mais alguns filmes que eu acredito serem indispensáveis para qualquer fã do cineasta.

carnificina

Em “Deus da Carnificina” (2011), baseado em uma peça teatral, acompanhamos dois casais bem diferentes que se reúnem para chegar a um “acordo” sobre a briga de seus filhos pré-adolescentes. Aos poucos, os nervos vão aumentando e as gentilezas dão lugar aos insultos e indelicadezas, nesta deliciosa comédia de costumes.

rosemary

Pertencente à trilogia do apartamento, “O Bebê de Rosemary” (1968) é um dos filmes mais conhecidos de Polanski. Trata-se do drama de uma mulher que desconfia que a sua gravidez é alvo de um ritual macabro feito por seu esposo e novos vizinhos. Ta aí um bom exemplo de terror.

vampiro

Particularmente, é um dos meus preferidos do cineasta. Uma mistura de comédia com terror, “A Dança dos Vampiros” (1967) é a história de um velho e atrapalhado caçador de vampiros e seu medroso assistente que ficam presos em um castelo junto com criaturas sanguinolentas. Um dos mais cultuados filmes da história – e um dos precursores do gênero.