Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas

Meus amigos mais próximos sabem que sou avesso aos blockbusters norte-americanos. Mesmo quem me acompanha através das redes sociais percebe claramente que eu torço o nariz para longas que abusam de efeitos especiais miraculosos. Portanto, não seria de imaginar que um dos meus cineastas favoritos fosse o excêntrico Tim Burton. Não que ele não utilize efeitos especiais ou não crie filmes com grandes bilheterias (está aí Alice no País das Maravilhas para comprovar), mas ele é um dos poucos diretores cuja obra é identificada facilmente à primeira vista. E Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas, lançado em 2003, é uma espécie de cartão de visita para quem quer entender a obra burtoniana.

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Peixe Grande de Burton é a adaptação do delicado livro de Daniel Wallace (tive a oportunidade de ler a versão original em inglês) e apresenta um roteiro previsivelmente clichê: um filho que tem a oportunidade de reconstruir a imagem paterna enquanto seu pai, um inveterado contador de história, está com uma doença terminal. Nada muito novo – tanto que outros diretores, como Spielberg ou Stephen Daldry foram cotados para estar à frente do projeto. Entretanto, a própria personalidade de Burton foi determinante para sua escolha. Quando criança, Burton foi problemático. Seu relacionamento com os pais nunca foi bom – Burton ficou durante anos sem manter contato com o pai, até sua morte, no início da década passada, justamente na época em que recebeu o roteiro. Talvez por estar tão ligado a essa memória recente, Burton tenha se empenhado tão fervorosamente neste filme.

Will Bloom passou a vida inteira ouvindo as histórias do pai. Entretanto, à medida que envelhece, os contos fantasiosos do velho se tornam absurdos para a mente antiquada e ressentida de Will. É com este ressentimento que Will retorna ao lar, após anos sem falar com seu progenitor, para tentar aos poucos recriar a identidade do pai e separar o homem do mito, a realidade da ficção. E é essa mistura de dois mundos que tornam Peixe Grande um filme tão encantador quanto o universo de seu diretor.

bigfish1É impossível ficar indiferente ao mundo fantasioso que Burton cria para contar a história de Edward. Narrada em flashbacks, cada cena ajuda a compor e a mitificar o personagem central da trama, brilhantemente interpretado por Ewan McGregor quando jovem e um Albert Finney inspirado na fase final da vida. Mais uma vez, como em qualquer um de seus trabalhos, Burton dá uma aula (não estou exagerando por ser fã pessoal do diretor) de como fazer uma fotografia impecável, marcada por cenários exuberantes. Mesmo os menores e mais simples, externos ou internos, são recriados com detalhes simples que só realçam a pureza e leveza do longa. Este aspecto técnico se torna ainda mais evidente nas cenas mais emocionantes do filme, como quando Edward conhece sua esposa – e depois quando a pede em casamento, em uma rua recheada de narcisos – , na cidade de Espectro ou no banho de banheira (de longe, a cena que mais me faz chorar na história).

bigfishSurpreendendo por dirigir um dos melhores roteiros de sua carreira (uma constante nos filmes burtonianos são os roteiros esburacados), a história reveza momentos reais e imaginários. No plano real, temos um Will seco, distante, que acusa e censura o pai doente a todo momento. As únicas figuras mágicas neste universo são as personagens femininas: Sandra, a esposa de Edward, interpretada por Jessica Lange – tão radiante, tão sensível quanto um anjo – e Josephine, a romântica esposa de Will. O plano imaginário, por sua vez, é repleto de personagens encantadores: o poeta, o gigante, o dono do circo, as gêmeas – todos tão belos quanto o próprio universo em que estão inseridos, mesmo que alguns não tenham sido devidamente explorados.

As situações presentes em Peixe Grande são bizarras, mas nada soa ridículo – mesmo a ideia de ser um “peixe grande dentro de um lago” é levada ao ápice, com a expressão retratada no filme à risca. A sensação que se tem ali é de que estamos inseridos dentro de um livro de fantasia, repleto de personagens surreais, mas que estão instintivamente ligados à nossa realidade. Além disso, a grandeza do personagem principal (com a certeza de que não morreria antes do tempo – o que lhe dá a coragem necessária para enfrentar qualquer desafio), que diferente dos outros filmes de Burton não é uma criança mas sim seu pai, torna Edward tão cativante quanto o outro Edward que conhecemos há alguns anos atrás, também pelas mãos de Burton.

bigfish4Burton vinha de um fiasco comercial, sua insossa versão para Planeta dos Macacos – e mesmo seus trabalhos anteriores não foram grandes sucessos de bilheteria. Com um orçamento estimado de cerca de 70 milhões de dólares, Peixe Grande foi recebido como a redenção de Tim, apesar de também não ser sua maior bilheteria. Entretanto, Peixe Grande foi o filme mais… “filme” de Tim Burton. De longe, é o que carrega a maior carga de emoção – talvez pelas próprias condições humanas de Burton. Tem ainda quem acredita que esta foi a única (e maior) esperança de Burton de conseguir um Oscar – em um ano de produções bem razoáveis. Pois é, Hollywood não o quis. Definitivamente, Burton é um peixe muito grande para a indústria cinematográfica atual. Mas, bem, deixemos que ele nade neste lago. Como a própria trama sugere, um homem conta tantas vezes sua história que acaba sobrevivendo a elas e assim se torna um mito. Esta foi a maior conquista de Burton até então.

Frankenweenie: A Redenção de Burton?

Dizem por aí que Tim Burton não produz um bom filme desde 2007, quando dirigiu o musical Sweeney Todd – O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet, longa que recebeu boas críticas mas não empolgou tanto o público nas bilheterias. De fato, as produções que se seguiram não foram as mais felizes para o cineasta. Alice no País das Maravilhas recebeu uma enxurrada de críticas negativas (apesar de ser uma das maiores bilheterias da história, boa parte pelo uso dos recursos em 3D, então em alta), enquanto Sombras da Noite tem a pior aprovação das fitas burtonianas. Entretanto, se há um terreno cinematográfico onde Burton sabe caminhar muito bem é nas animações – e isso explica a ansiedade dos fãs pelo lançamento de Frankenweenie, que chegou aos cinemas brasileiros nesta sexta-feira (02).


Frankenweenie
é baseado livremente no curta  homônimo dirigido pelo próprio Tim Burton em 1984. Originalmente filmado em live-action, o curta não teve uma recepção muito calorosa na época pelos estúdios Disney, que produziram o projeto mas não deram muita ênfase na sua promoção (quem duvida que a história bizarra de Burton não se encaixava muito bem nos padrões da empresa que adorava animais fofinhos e princesas puras?). Anos depois,  Burton traz de volta às telas a história de um garoto que perde seu cão Sparky em um trágico atropelamento. Inconsolado com a perda do melhor amigo, o garoto tenta trazer seu cão de volta à vida através de experimentos científicos, motivados pelas aulas de ciência do colégio.

Universo burtoniano em sua melhor definição.

A versão de 2012 foi rodada em em stop-motion e totalmente em 3D. Outra novidade aqui é que a fita foi filmada em preto e branco – vale ressaltar que o cineasta já usou desta “técnica” em um outra produção que dirigiu, o premiado Ed Wood, de 1994. Essa característica acentua o universo burtoniano, que está impregnado em todo a projeção e torna Frankenweenie o filme que talvez melhor traduza o universo de Tim Burton. A começar, é difícil rotularmos Frankenweenie dentro de algum gênero específico. Também seria difícil dizermos que se trata de um filme para crianças. É um produto para adultos que gostam de animação – e isto é um fato. Mas o que mais fica perceptível nesta nova versão de Frankenweenie é que, ao que tudo indica, Burton não quis apenas criar uma boa história, mas também homenagear toda a sua obra – e quem acaba ganhando com isso são seus fãs.


Há inúmeras referências ao universo burtoniano, começando pelos personagens do longa, que são as melhores definições dos rascunhos do diretor. Uma das personagens secundárias, por exemplo, foi retirada de seu livro de poemas O Triste Fim do Pequeno Menino Ostra. As imagens em preto e branco também realçavam o ambiente de filmes de terror B, que Tim tanto admirava quando criança. E quem não pensou em Vincent Price quando viu a cara do professor de ciências do garoto Victor?

Mesmo se este universo fosse totalmente novo, ainda assim o filme teria grandes méritos – e é por isso que é bem capaz que Burton conquiste novos fãs a partir daqui. O longa bem produzido tem um roteiro bem estruturado (coisa que não é muito comum nos trabalhos burtonianos, devo admitir), que ora comove, faz rir, faz chorar, dá medo – o que quebrou a cara de muito fã chato que dizia que Burton não conseguiria segurar quase 1 hora e meia de projeção a partir de um curta de cerca de 30 minutos. O roteiro foi “recriado” mas sem perder em nenhum momento a essência do original, apresentando novos personagens que dão o tom de animação da trama.

À esquerda, a fisionomia assustadora de Vincent Price serve de inspiração para compor o personagem M. Rzykruski; à direita, a Menina de Olhos Fitos, já conhecida dos fãs da obra de Burton.

O projeto foi bem desenvolvido nos aspectos técnicos também. Visualmente, Burton e sua equipe continuam impecáveis. Danny Elfman, parceiro de longas datas de Tim, parece que acertou a mão e criou uma trilha digna – que ficou bem apagada em Sombras da Noite, diga-se de passagem. Também deve-se comentar aqui a dublagem correta dos principais personagens, feitas por veteranos como Martin Landau, Winona Ryder, Martin Short e Catherine O’Hara – que já trabalharam com o diretor em seu tempo áureo.

Sim, admito que trata-se de uma crítica de um fã inveterado de Tim Burton. Mas quem acompanha as minhas postagens, sabe que eu tento ser imparcial – como o fui em Sombras da Noite, há alguns tempos atrás. O fato é que é impossível ficar indiferente a Frankenweenie. Muito mais do que uma simples animação (do cara que é a “cabeça” de projetos como O Estranho Mundo de JackA Noiva CadáverJames e o Pêssego Gigante), Frankenweenie é um dos retratos mais fiéis da obra burtoniana. Além disso, este retrato tem qualidade cinematográfica indiscutível, mostrando que o cineasta ainda está em forma – e é por isso que pode se dar ao luxo de fazer o projeto que quiser. O que vai ser daqui pra frente, não se sabe. Mas Frankenweenie, de longe, é um dos filmes indispensáveis para os fãs do diretor – e de todo o estranho mundo de Tim Burton.

E nada melhor que assistir um curta do cara para entendermos um pouco seu universo, certo? Então, selecionei o curta Vincent, narrado pelo próprio gênio Vincent Price, que é praticamente uma obra-prima burtoniana.

E para aqueles que curtem o universo de Tim Burton, tem outros posts aqui que podem interessar:

Mais Um Filme de Tim Burton, Apenas…
Dark Shadows: a Novela Vampiresca de Burton e Depp
Burton: Das Telonas Para as Livrarias
O Estranho Mundo de Tim Burton

Mais Um Filme de Tim Burton, Apenas…

Ah, as expectativas… Elas sempre podem nos decepcionar – especialmente quando muito altas. Então, o que esperar de Tim Burton? Sempre algo grandioso, no mínimo – afinal, estamos falando de um diretores mais cultuados desta geração. No entanto, nem mesmo um artista como ele é capaz de acertar todas as vezes. Sombras da Noite, seu novo longa-metragem, está aí para provar que até um cineasta com o seu calibre pode errar a mão.

Os parceiros Burton e Depp nos bastidores de “Sombras da Noite”: novelão vampírico que não assusta, mas diverte…

A trama principal de Sombras da Noite nos traz Barnabas Collins (vivido pelo parceiro de Burton, Johnny Depp), um jovem rico que após partir o coração de uma bruxa (sim, ela, Eva Green), é transformado em um vampiro e condenado a passar a eternidade preso em um caixão. Quase dois séculos depois, Barnabas retorna à sua cidade e encontra sua família (fundadora da cidade de Collinspot) à beira da falência. Barnabas se vê obrigado a trazer os tempos de glória à sua prole, enquanto tenta se adaptar a um novo mundo completamente desconhecido (o filme se passa na década de 70) e reencontrar, quem sabe, seu amor do passado.

Assim, à primeira vista, tudo parece uma típica produção burtoniana. E realmente o é. Essa é a razão pela qual, particularmente, eu não entendo a razão da crítica ser tão dura com Sombras da Noite. Ok, o filme está longe de ter a magnitude de Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas, ou ser o conto de fadas moderno de Edward Mãos de Tesoura. Mas tudo o que é peculiar a um filme de Burton está lá, inclusive as suas deficiências. Como em tudo o que o cineasta faz, sem exceção, Burton dá uma aula de arte. Talvez o fato de ser da geração de desenhistas da Walt Disney tenha contribuído para Tim ser obcecado pela imagem, mas o fato é que todos os detalhes são cuidadosamente trabalhados. A direção de arte é primorosa, com belas locações na Inglaterra e Escócia, e cenários que impressionam, alternando ambientes gélidos e frios com cores vibrantes que nos remetem aos primeiros trabalhos do diretor.

Talvez a melhor cena de “Sombras da Noite”: o sexo selvagem entre a bruxa Angelique e o vampiro Barnabas. Também, quem resiste a Eva Green?

No entanto, como em todos os filmes burtonianos, um problema crônico se apresenta: roteiro. Burton emprega tanto apelo visual que parece se esquecer de conduzir seus argumentos com pulso firme. Aqui, temos uma verdadeira colcha de retalhos, com várias subtramas que não cativam. Isso pode ter sido reflexo da própria obra que originou o longa, pois cabe-se dizer que Dark Shadows era uma série tipicamente novelesca, com milhões de personagens e enredos paralelos. Tudo bem esse tipo de abordagem na TV, mas no cinema nao dá certo: o espaço para criar tramas consistentes é pouco e tudo fica meio à deriva, perdido.

Logo no início, Barnabas narra sua história – de como os negócios da família foram prosperando até ser amaldiçoado pela bruxa Angelique. Depois, temos a recriação de uma cena clássica da série: a governanta que viaja de trem à Collinspot para trabalhar na casa dos Collins. Nesse início, parece que o foco central da narrativa será nesta personagem – e, no entanto, ela some e se torna algo completamente descartável. Apenas mais tarde descobrimos que ela seria a reencarnação (ou apenas alguém muito parecido) do antigo amor de Barnabas. E se você tem dúvida do tom novelesco do filme, o que dizer sobre os altos e baixos da relação entre Angelique e Barnabas? Vilã e “mocinho” tendo recaída? Até as novelas do Manoel Carlos já aposentaram isso…

Eva Green, claramente inspirada na personagem famosa da TV norte-americana Vampira.

O roteiro peca tanto que o filme se torna massante a partir de sua segunda metade. Nada de interessante ou relevante acontece e o longa caminha para um final meio nonsense(com fantasma, bruxa, lobisomem e vampiros, tudo junto, como na série original, assim, do nada, de uma hora pra outra). Só vale a pena ver a bruxa de Eva Green com o rosto partido e arrancando o coração do peito (bizarro, mas eu gostei…).

Até Danny Elfman, colaborador constante de Burton (só não trabalharam juntos em Ed Wood e Sweeney Todd), pareceu não estar inspirado. Trilha ruim? Não, mas também nada que se possa reconhecer e admirar. No mais, o filme se sustenta com um humor suficiente (nada genial, mas há boas sacadas – como Barnabas confundindo o ‘m’ do McDonalds com o símbolo de Mefistóteles), fotografia e arte impecáveis e as atuações de seu elenco, com Johnny Depp (que, contrariando os chatos de plantão, fez um tipo convincente, sem exageros) e, roubando a cena, Eva Green (linda e claramente inspirada na personagem Vampira, de Maila Syrjäniemi, já retratada por Burton em Ed Wood). Helena Bonham Carter está sensacional como a psiquiatra bêbada – pena que o personagem não ajudou nem um pouco. Michelle Pfeifer também cumpre bem sua função, apesar de não fazer nada eloquente.

Sem dúvidas, Angelique é uma das melhores atuações de Eva e uma das personagens femininas mais interessantes de Burton.

Não se pode dizer que Sombras da Noite é um fracasso completo. Apesar de ter uma das piores estréias de Burton, o filme (que custou cerca de US$ 150 milhões) conseguiu faturar o suficiente para se pagar. Em partes, o fiasco de bilheterias na estréia se deve a dois fatores principais. O primeiro deles é que o longa estreou nos EUA quando o fenômeno Os Vingadores estava em sua segunda semana de exibição (o que ofuscaria qualquer coisa). Depois, Sombras da Noite, cá entre nós, não teve publicidade. A Warner teria tido dificuldades para vendê-lo por conta de seu gênero indefinido, tando que só houve um único trailer, que foi apresentado há menos de dois meses de seu lançamento. Ou seja, não chamou o público ao cinema.

Como em todos os longas de Burton (e por esta razão não considero Dark Shadows um filme ruim), Sombras da Noite é um verdadeiro estudo sobre como fazer cinema. Tecnicamente falando. O roteiro, como em tudo de Burton, ainda tem altos e baixos, não há um equilíbrio. Sombras da Noite, mediano, é como uma mulher que se arruma em uma noite de sábado (põe sua melhor roupa, capricha na maquiagem, escolhe o melhor sapato e jóias) mas não sabe para onde vai ou não tem para onde ir. Simplesmente quer provar para si que pode ficar linda, independente do que os outros digam, talvez apenas para seu próprio ego. Faturar uma grana ou não é mero detalhe…

Branca de Neve? Recuse Imitações

Branca de Neve e os Sete Anões foi o primeiro longa-metragem animado dos estúdios Disney e, provavelmente, o melhor e mais influente filme dessa empresa. Tudo aquilo que Disney produziu desde então esteve presente nesse filme: as narrativas de conto de fadas, os animais fofinhos, as músicas que ficam na cabeça e são cantadas de geração em geração, os vilões maléficos e as mocinhas puras, enfim, foi o filme que consolidou a Disney como um das maiores empresas cinematográficas de todos os tempos. Afinal, na época, parecia loucura de Walt Disney fazer com que o público aguentasse 90 minutos de desenho animado (em uma época em que o cinema era uma atividade excessivamente “adulta”).

“Branca de Neve e os Sete Anões” foi o primeiro longa-metragem animado da Disney – na época, considerado a grande loucura do estúdio.

Um fato que preocupa os cinéfilos é que, nos últimos anos, Hollywood não tem criado bons roteiros originais. Na maior parte das vezes, o expectador é obrigado a engolir adaptações e releituras de textos já conhecidos e que, muitas vezes, são repetitivos e não apresentam criatividade. E os contos de fada estão aí para servir de inspiração. Depois do sucesso comercial de Alice no País das Maravilhas de Burton, recebemos uma enxurrada de adaptações de contos: A Garota da Capa Vermelha é uma versão moderna da clássica história de Chapeuzinho Vermelho. Recentemente, a história de A Bela e a Fera também ganhou sua visão mais “dark”. Já foi anunciado também que está sendo preparada uma nova versão para Cinderela e rola-se boatos de que Tim Burton estaria estudando um roteiro para Pinóquio. E Branca de Neve, é claro, não ficaria de fora: só em 2012, foram 2 versões lançadas praticamente ao mesmo tempo. Mas não se engane: Branca de Neve só mesmo a original.

À esquerda, cena de “A Garota da Capa Vermelha”; à direita, o espetáculo visual para a versão burtoniana de “Alice no País das Maravilhas”.

A primeira adaptação deste ano foi a comédia Espelho, Espelho Meu, que apresenta o clássico conto dos Grimm como um grande pastelão. Na história, temos um reino falido e uma rainha má (Julia Roberts) à procura de um partido que salve seu império e resolva seus problemas. O príncipe Alcott é o homem ideal para a missão, mas acaba se encantando pela protagonista. A angelical Lily Collins dá vida à Branca de Neve – papel que lhe cai perfeitamente, diante o encanto visual que é Lily. Obviamente, em Espelho, Espelho Meu o destaque vai para Julia Roberts. Mas não por mérito próprio e, sim, por falta de opção. Apesar de até ir razoavelmente bem nas bilheterias, o filme não convence.

O tom pastelão e os elementos bizarros ajudaram a acentuar a classificação indicativa do filme – e deixar todo mundo traumatizado.

O principal problema é que o filme foi vendido como uma comédia – e realmente é. No entanto, o filme até que tem graça, mas não é engraçado. Entende? Não há química entre os elementos do filme. Os personagens são cansativos (o que dizer do príncipe bobão de Armie Hammer?), o cenário é extravagante (talvez pelo próprio apelo infantil do filme, tudo bem, é até justificável), o figurino é criativo mas piegas, as piadas são prontas e idiotas (“Você é a azeitona da minha empadinha!”) e o filme não tem ritmo. Mesmo a Rainha de Roberts, que deveria ser uma personagem má e ao mesmo tempo engraçada, é chata e não consegue se fazer envolver. É um filme bobo, dirigido exclusivamente a crianças e não um entretenimento em família. É um daqueles filmes que você comprará em DVD para colocar a seu filho quando quiser que ele fique quieto. Claro, se ele conseguir assistir…

Mas também é fácil se destacar em uma trama recheada de bizarrice, né, Julia?

Branca de Neve e o Caçador apresenta uma visão mais adulta do conto tradicional. Na realidade, uma observação aqui se faz importante: Walt Disney foi um grande visionário, mas o cara também foi o grande responsável por essa infantilização dos contos de fadas. A maioria dessas histórias são obscuras, recheadas de elementos de terror e fatos macabros. Daí Walt foi lá, colocou uns animais fofinhos, umas músicas alegres, personagens engraçados e… acabou com as histórias originais – apesar de faze-las mais conhecidas. Branca de Neve e o Caçador busca o lado mais sombrio da história dos irmãos Grimm, mas ainda não acerta na dose.

“Branca de Neve e o Caçador” estreou em primeiro lugar em vários países – mas ainda não acertou…

De longe, não se pode dizer que Branca de Neve e o Caçador seja um filme ruim. Ele tem todos os elementos para agradar o público e ir bem nas bilheterias. Pegou um rosto famoso de uma série teen (Kristen Stewart) para o papel principal. Escolheu uma atriz veterana para encarnar o difícil papel da Madrasta (Charlize Theron, que foi muito melhor que Roberts, fato). Abusou de efeitos especiais mirabolantes (um dos produtores foi o mesmo de Alice no País das Maravilhas) e recheou a trama de cenas de luta épica (afinal, está na moda né? Game of Thrones está aí para comprovar). O estreante Rupert Sanders conseguiu, dessa forma, dirigir um filme que é visualmente encantador (como Alice), mas com um roteiro que ainda não conseguiu emplacar. Até porque não se tem muito o que fazer com uma história tão famosa…

Muitos efeitos especiais e arte para compensar uma história já conhecida: assim é “Branca de Neve e o Caçador”.

Há cenas no filme que são incrivelmente desnecessárias. Visualmente, elas são um espetáculo. Mesmo. Vale o ingresso – especialmente se você puder assistir em 3D. E ainda tem a boa trilha do veterano James Newton Howard. Mas ainda há muitos pontos a melhorar em Branca de Neve e o Caçador. Primeiro, os personagens são fracos. O caçador interpretado por Chris Hemsworth (sim, o Thor) parece ter uma batata quente na boca, enquanto o príncipe de Sam Claflin não tem o menor carisma, apesar da beleza do ator (que ficou conhecido por seu papel no último filme da saga Piratas do Caribe). Talvez por essa razão Branca de Neve aparentemente teria ficado com o coração dividido entre os dois (o beijo que acorda Branca da morte não vem do príncipe mas do caçador, um viúvo que sofre com a perda da esposa).

Como caçador, ele ele é um excelente Thor…

Kristen Stewart, surpreendentemente, até que consegue alguns créditos com sua personagem. Não está totalmente ruim. O problema é que seria difícil para ela, por mais esforço que fizesse, se destacar em um filme onde há Charlize Theron. Apesar de exagerada, elá traz uma força para a Rainha que destaca esse como um de seus melhores papéis no cinema. Sorte de Kristen que só ficou frente à frente com Charlize em uma única cena, coitada. A diferença entre talento ficou evidente, assim como, cá entre nós, a supremacia da beleza de Charlize – o que confunde o espectador, né?

Na boa, Kristen, não tem como competir com a Charlize – seja em talento, seja em beleza. O espelho que disse que você é mais bonita que ela deve ter algum defeito…

O que irrita, no entanto, é que o produto é vendido como uma novela gótica e medieval, cheia de elementos sombrios e lutas épicas. Não, Branca de Neve e o Caçador não chega nesse nível. Se apostasse mais nesses pontos, certamente o filme se tornaria um clássico, pois ele tem potencial. O problema é que o roteiro atropelado não deixa espaço para isso. O novato Rupert se sai bem para o primeiro filme, uma grande surpresa de um cara que saiu da escola da publicidade e pode ser um dos novos nomes do cinena nos próximos anos. Como entretenimento, Branca de Neve e o Caçador é perfeitamente assistível – mas nada que nos faça cair de amores pelo longa.

Em ambos os filmes, são as madrastas que se destacam mesmo. Charlize Theron (brilhante) em “Branca de Neve e o Caçador” e Julia Roberts (sem opção) em “Espelho, Espelho Meu”.

Seja como for, ambas as produções tem um público definido e, nesse ponto, cumprem seu propósito. Espelho, Espelho Meu é ideal para entreter criancinhas até 7 anos de idade, que irão rolar de rir com as piadas inocentes e repetidas do filme (eu assisti no cinema em uma sala lotada de crianças que gargalhavam, enfim…). Já Branca de Neve e o Caçador é um estudo sobre direção de arte e fotografia e um entretenimento para toda a família – mas não deve criar uma legião de fãs, mesmo apostando em um ícone teen já conhecido. Na dúvida, fique com o original da Walt Disney que, apesar de distorcer um pouco a história tradicional dos irmãos Grimm, ainda é a que prevalece na mente de todas as gerações. Merecidamente.

As Novas Caras do Cinema (Parte 2)

Há algum tempo, postamos aqui um texto sobre os 10 atores ou atrizes mais promissores de Hollywood nos próximos anos (entre eles, citamos Zac Efron, Andrew Garfield, Anne Hathaway e outros). Alguns deles vem se firmando como artistas de primeira grandeza e se tornaram astros do cinema, apesar da pouca idade. Mas, ao que parece, a lista não pára de crescer.

Um fato que vem acontencendo comumente em Hollywood na atualidade é que as grandes produtoras vem tentando ao máximo reduzir seus gastos de produção. Na realidade, a relação custo-faturamento é um dos pré-requisitos básicos que são avaliados em um projeto e é um fator determinante para a aprovação ou não de uma produção. Com orçamentos cada vez mais apertados (e com o medo de fracasso nas bilheterias), muitos diretores apostam em novos rostos para seus filmes.

A razão óbvia: sai muito mais barato pagar o cachê de um ator jovem e desconhecido do que os cachês milionários de grandes atores como Al Pacino, Leonardo DiCaprio, Johnny Depp, Meryl Streep, Julia Roberts e outros. Na maioria das vezes, esses grandes e conhecidos astros fazem pequenas pontas (para chamar o público ao cinema), mas no final, o espetáculo principal fica por conta dos mais jovens.

Dessa forma, selecionamos mais uma lista de 10 jovens atores e atrizes hollywoodianos que estão em alta nesse momento e que tem tudo para se tornarem os nomes mais fortes dessa nova geração do cinema. Resta alguma dúvida de que esses nomes tem potencial para isso?

1. Dakota Fanning
Aos 18 anos, Dakota ofusca quando aparece na tela com sua beleza única. Dakota estreou nos cinemas no filme Uma Lição de Amor (2001) e de lá pra cá não parou mais. Já trabalhou com diretores famosos, como Steven Spielberg e Henry Selick.  Além de atuar, Dakota tem um notável talento para a música e, em 2009, a revista Forbes considerou a artista como a segunda atriz mais rentável do cinema.

Linda de morrer, Dakota é uma das atrizes mais promissoras de sua geração.

2. Aaron Johnson
Nascido em 1990, Aaron ficou conhecido por dois papéis notáveis: como Dave Lizewski, o nerd metido a herói de Kick-Ass Quebrando Tudo (2010), e John Lennon, na cinebiografia O Garoto de Liverpool (2009). E se você acha que a precocidade do ator é só nas telinhas, lá vai: o ator é casado com a diretora Sam Taylor-Wood (apenas 23 anos mais velha do que ele). O casal, que se conheceu durante as filmagens de O Garoto de Liverpool já tem um filho, nascido em 2010.

O precoce Aaron Johnson, como o protagonista de "O Garoto de Liverpool".

3. Scarlett Johansson
Em 2006, Scarlett foi considerada a mulher mais sexy do mundo. Mas não pense que a bela atriz é somente um rostinho muito bonito: a artista já trabalhou em vários filmes dirigidos por nomes como Robert Redford, Michael Bay e o veterano Woody Allen. Ah, só pra constar: Scarlett também é cantora e modelo. Que fôlego, hein?

Woody Allen não é nada bobo, hein?

4. Kristen Stewart
A atriz já tem vários filmes no currículo mas, definitivamente, foi em 2008 que Kristen despontou para a fama quando protagonizou o primeiro filme da série Crepúsculo. Apesar das inúmeras críticas negativas por conta de sua protagonista insossa, Bella Swan, Kristen ganhou também vários elogios por suas atuações em The Runaways (2010) e On The Road (2011).

Apesar das críticas por sua Bella Swan (completamente devidas), Kristen vem conquistando bons papéis ao longo de sua carreira.

5. Robert Pattinson
Assim como sua namorada Kristen Stewart, Robert Pattinson também virou astro internacional com seu papel na saga Crepúsculo, onde interpreta o vampiro que brilha ao sol Edward Cullen. Além de uma beleza exótica, Robert também é musicista e já gravou algumas músicas para a trilha da saga que o consagrou.

 

6. Armie Hammer
Ele quase se tornou o Bruce Wayne de George Miller – mas o projeto não foi adiante. Armie ficou famoso mesmo após sua aparição em A Rede Social (2010), onde interpretou os gêmeos Cameron e Tyler. Depois disso, arrancou bons elogios por sua atuação em J. Edgar (2012) e mostrou seu lado cômico em Espelho, Espelho Meu (2012). Em próximo trabalho – ainda sem data – , Armie vai atuar ao lado de Johnny Depp no longa The Lone Ranger.

Armie Hammer, em toda sua veia cômica, como o príncipe do filme "Espelho, Espelho Meu".

7. Carey Mulligan
De todas da lista, Carey é uma das mais elogiadas pela imprensa. Sua estréia no filme Orgulho e Preconceito (2005) lhe rendeu boas críticas, assim como em Em Busca de Uma Nova Chance (2009) e Não Me Abandone Jamais (2010). Além disso, Carey já foi indicada ao Oscar de melhor atriz pelo seu desempenho no filme Educação (2009).

Uma das maiores apostas de Hollywood nos últimos anos, Carey é expert em dramas.

8. Jennifer Lawrence
Em 2011, aos 20 anos, Jennifer recebeu sua primeira indicação ao Oscar por sua atuação no filme Inverno da Alma (2010). Atualmente, está em alta em Hollywood por sua personagem Katniss do filme Jogos Vorazes, primeira de uma série de adaptações da obra de Suzanne Collins.

Seguindo os passos de Kristen Stewart, Jennifer também é protagonista de uma franquia "teen".

9. Josh Hutcherson
Com apenas 19 anos, Josh tem uma filmografia ampla e variada, mas foi com Ponte Para Terabítia (2007) e Viagem ao Centro da Terra (2008) que o ator ficou conhecido pelo grande público, que o viu crescer diante de seus olhos. Mais tarde, também ganhou notoriedade por seu personagem no filme Minhas Mães e Meu Pai (2010). Também está em alta por seu papel na franquia Jogos Vorazes. Além do trabalho no cinema, Josh é ativista dos direitos gay, participando, inclusive, da campanha Straight But Not Narrow.

10. Chloë Moretz
Quinze anos. Esta é a idade de Moretz, que impressionou a todos com seu papel de Hit-Girl no filme Kick-Ass. Além desse, Chloë também já trabalhou com os diretores Martin Scorsese e Tim Burton (recentemente nos longas A Invenção de Hugo Cabret, de 2011, e Sombras da Noite, a ser lançado). Também levou inúmeros elogios por sua Abby de Deixa-me Entrar (2010), que foi determinante para a escolha da jovem atriz para protagonizar o papel principal da nova versão cinematográfica de Carrie, a Estranha.

Pra falar de Chloë, apenas uma dica: assista "Kick-Ass". Sem mais.

Dark Shadows: a Novela Vampiresca de Burton e Depp

Há artistas que criam uma legião de fãs que admiram, amam e aguardam ansiosamente por qualquer material que possa remeter à obra de seu ídolo. Tim Burton, o diretor mais não-convencional de Hollywood, é um bom exemplo de artista que alcançou esse status de gênio e que, desta forma, não precisa de muito esforço para promover seus trabalhos porque seus fãs o fazem por ele. E foi assim que o público recebeu nesta quinta-feira (15) o primeiro trailer de seu próximo longa, a “novela” sobrenatural Dark Shadows.

Para quem não sabe (o que é um pouco improvável, visto a imensa “divulgação não-oficial” do filme), Dark Shadows de Burton é uma adaptação do seriado homônimo exibido pelo canal ABC nos EUA entre 1966 e 1971. A trama foi pioneira no conceito de novela com tema sugestivamente sobrenatural e abriu caminho para várias outras que se seguiram posteriormente. A série ainda hoje faz bastante sucesso e alcançou o status de programa cult, com muitos artistas e importantes celebridades afirmando serem fãs do seriado sessentista.

Imagem promocional (e oficial) do filme até o momento. Bem novelesco, não?

Uma dessas celebridades (e bota celebridade aí) é Johnny Depp, que declarou várias vezes que, quando criança, assistia à série e tinha o grande desejo de reviver o vampiro Barnabas Collins, um dos personagens centrais da história. Quando Tim Burton o convidou para o projeto, Depp aceitou de cara a empreitada (inclusive, Depp assina também a produção do longa). Com Dark Shadows, já se somam 8 parcerias entre Burton e Depp (junto com Edward Mãos de Tesoura, Ed Wood, A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça, A Fantástica Fábrica de Chocolate, A Noiva Cadáver, Sweeney Tood – O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet e Alice no País das Maravilhas).

A sinopse de Dark Shadows nos remete ao século XVIII, quando Barnabas Collins, filho de uma rica família da região, seduz uma poderosa bruxa (no filme, interpretada pela sensualíssima Eva Green) que, para se vingar, transforma o jovem em um vampiro e o enterra vivo. Anos mais tarde, em 1972, Barnabas volta à vida (?) em um mundo completamente diferente do que havia deixado e encontra sua mansão e seu legado a pontos de serem destruídos. Junta-se a Depp e Green um elenco de peso, com Michelle Pfeiffer, Chloe Moretz, Helena Bonham Carter e outros.

Eva Green vive a bruxa Angelique Bouchard. Na boa, Eva, já estou enfeitiçado…

Dizem as más línguas que a Warner estaria com dificuldades para vender o produto (tom bem novelesco), o que poderia explicar o lento marketing feito sobre o filme. Com estréia já confirmada para 11 de maio nos EUA (no Brasil, apenas em junho, caso venha), apenas  hoje (menos de dois meses da estréia) foi divulgado um trailer completo e oficial do longa. Tudo o que se via até então eram poucas imagens oficiais e de bastidores que apenas aguçavam a curiosidade dos fãs e admiradores de Depp e Burton. E, obviamente, após a divulgação do trailer, já pipocam opiniões sobre o novo projeto da dupla.

De fato, pelo trailer, ainda é cedo para se ter uma opinião concreta sobre o filme. Apesar das inúmeras imagens de horror, o trailer (com todas suas músicas e tom mais humorístico) passou a sensação de que se trata de mais uma comédia de Burton, como o clássico Beetlejuice. Visivelmente, só podemos dizer que, como todos os filmes burtonianos, as imagens impressionam e deixam os fãs ansiosos pela produção – e, também, com um certo pé atrás.

Será que a promessa de “salvar” a fama dos vampiros será cumprida, Depp?

Após oito trabalhos juntos, há quem se incomode com a parceria entre Depp e Burton. Os fãs de Burton (muitos que idolatravam também Johnny Depp) já começam a sugerir que o diretor deve buscar outros atores. De fato, Johnny Depp é o ator preferido de Burton quando o assunto é caracterização e chega a ser cansativo assistir ao Depp fazendo personagens caricatos em boa parte de seus filmes. Muitos ainda alegam que Depp, desde a saga Piratas do Caribe, não consegue perder alguns trejeitos do seu personagem Jack Sparrow (o que é verdade, pois mesmo no trailer o vampiro de Depp faz umas caras e bocas que nos lembram vagamente o pirata). Talvez seja verdade, talvez seja impressão deixada pela enorme “marca” Jack Sparrow ao se tornar um dos personagens mais famosos do cinema; o fato é que a presença de Depp (que antes chamava a atenção em qualquer projeto de Burton) agora causa certo desconforto nos fãs do diretor.

A verdade é que depois do questionável Alice no País das Maravilhas, a relação entre Depp-Burton e o público ficou severamente abalada. Dark Shadows, mais do que a realização pessoal de seus idealizadores, é, ao que parece, a última chance que Johnny e Burton tem de “salvar” sua parceria que tão bem tem funcionado (ou não) até hoje. Os fãs estão ansiosos. Para se ter uma idéia, a Warner criou um site para o filme, com a contagem regressiva para a divulgação do trailer oficial e, depois do lançamento, o assunto foi um dos mais comentados nas redes sociais. É um preço alto a ser pago. Qualquer pequeno deslize pode ser fatal. Dark Shadows é a esperança de um recomeço para o diretor e reencontro para Johnny Depp – a prova final que ambos tem de provar o porquê chegaram até aqui.

This is Halloween!

Finalzinho do mês de outubro, dia 31. Pois é, para os alienados de plantão, hoje é dia de Halloween, um feriado tradicional nos países anglo-saxônicos (com destaque especial nos Estados Unidos), e que também movimenta uma indústria cultural bastante eloquente em outras comunidades.

A origem desta festividade nos remete às celebrações pagãs (através do culto aos mortos) e também algumas festas católicas. Entretanto, o modo como celebramos hoje o dia das Bruxas é bem diferente da maneira como ele era cultuado na antiguidade: o que resta ainda hoje ainda é uma alusão ao mundo dor mortos, mas de uma forma bem alterada do que era proposto no início.

Apesar da festa não ser tão popular no Brasil (pelo menos não da maneira como a mesma ocorre nos Estados Unidos – ou como os filmes norte-americanos mostram), nos últimos anos, essa festa tem ganhado um espaço bastante significativo no calendário brasileiro. Muitas das figuras macabras do dia das Bruxas povoam nossas histórias e literaturas.

Por esta razão, listamos aqui alguns filmes que apresentam temas relacionados à esta festividade. Na verdade, a idéia aqui é apresentar não apenas filmes de Halloween, mas algumas histórias macabras e assustadoras que são bem sugeridas para o dia de hoje. Então, tranque suas janelas, feche a porta e prepare seus doces: é hora das travessuras!

1. Coraline e o Mundo Secreto (Henry Selick, 2009)
Coraline foi muito bem aceito pelo público e crítica. Trata-se da história de uma garota que descobre uma porta secreta em sua nova casa, que a leva para uma outra versão de sua própria vida. Entretanto, com o tempo, a garota percebe que este novo mundo não é tão bom quanto parece.

Coraline e o Mundo Secreto


2. Museu de Cera (Andre De Toth, 1953)

Vincent Price é considerado o “mestre do macabro” no cinema. Ao longo de sua carreira, o ator granjeou uma galeria de personagens marcantes. Em uma de suas mais brilhantes atuações, Price interpreta Henry Jarrod, um famoso escultor que após perder o trabalho de sua vida em um incêndio, decide recriar sua obra de forma mais macabra: suas esculturas são cadáveres cobertos de parafina, formando esculturas perfeitas e envoltas de mistérios.

Museu de Cera


3. O Exorcista (William Friedkin, 1973)
Este foi, talvez, o primeiro grande sucesso na história dos filmes de terror, influenciando muitos outros filmes do gênero que se seguiram. A história, baseada em um best-seller do ano de 1971, é conhecida por todos os admiradores do gênero e ganhou diversas paródias dentro e fora das telonas.

O Exorcista


4. Os Pássaros (Alfred Hitchcock, 1963)
O mestre Hitchcock dirigiu este que é um dos clássicos do suspense mundial, que conta a história de uma cidade que é atacada por pássaros de várias espécies. O filme se tornou referência para as produções que se seguiram, tornando Hitchcock em um dos diretores mais famosos do cinema.

Os Pássaros


5.  O Bebê de Rosemary (Roman Polanski, 1968)
O polêmico Polanski baseou seu filme em um romance de Ira Levin, publicado um ano antes do filme. Logo, a história se tornou um dos clássicos do cinema de terror da década de 60. O filme foi indicado, inclusive, ao Oscar de melhor roteiro adaptado.

O Bebê de Rosemary


6. Drácula de Bram Stoker (Francis Ford Coppola, 1992)

O filme dirigido por Coppola levou 3 prêmios Oscar e apresenta a fonte original do mito de Drácula, partindo do romance gótido de Stoker. O filme, muito bem aceito, é visualmente apaixonante, mostrando a clássica lenda do maior de todos os vampiros.

Drácula de Bram Stoker


7. A Noiva Cadáver (Tim Burton, 2005)
Um dos clássicos da animação em stop-motion, a história é baseada em um conto russo do século XIX. O filme conta a história de Victor, um jovem que acaba pedindo a mão de uma morta em casamento e, por engano, vai para o mundo dos mortos. Diferente do que se suponha, o mundo dos mortos é habitado por figuras alegres e felizes – contrastando com as figuras melancólicas do mundo dos vivos.

A Noiva Cadáver


8. Drácula (Tod Browning, 1931)

Mais uma vez, o livro de Bram Stoker serve de inspiração para a história do vampiro Drácula, aqui interpretado pelo brilhante ator Béla Lugosi, no papel que lhe consagrou como um dos mestres do horror.

Drácula


9. A Hora do Pesadelo (Wes Craven, 1984)
O filme trouxe Johnny Depp em sua primeira atuação no cinema e apresentou ao mundo um dos personagens mais conhecidos do terror mundial: Freddy Krueger, um maníaco que habita os pesadelos mais sombrios e macabros de um grupo de adolescentes. Detalhe: o longa rendeu sequencia nos cinemas.

A Hora do Pesadelo


10. O Estranho Mundo de Jack, de Tim Burton (Henry Selick, 1992)

Tim Burton deu vida a uma das histórias mais interessantes sobre Halloween, assim como criou uma galeria de personagens inesquecíveis, como Jack Esqueleto, o rei da cidade do Halloween que após anos assustando pessoas e sendo o responsável pelas comemorações do dia 31/10, se cansa de seu legado e tenta fazer algo diferente, sequestrando Papai Noel e tomando o Natal para si.

O Estranho Mundo de Jack

Bom, para aqueles que estão comemorando a data, ótimo Halloween.
Para os que não, fica a sugestão de filmes. Aproveite para ouvir também a música que dá título a este post:

10 Musicais Que Você Deve Assistir

Pra quem gosta de música e dramaturgia, nada melhor do que assistir a um bom musical.

No teatro ou no cinema, o gênero tem atraído a atenção de milhares de pessoas. No Brasil, temos presenciado nos últimos anos uma intensa onda de musicais invadindo os palcos brasileiros, o que tem proporcionado bons momentos de entretenimento para muitos. Atualmente, é possível assistir a bons musicais nos teatros das principais cidades do país, como São Paulo e Rio de Janeiro.

Para aqueles que não gostam de teatro – mas não abrem mão de uma boa história contada ao som de belas canções – , selecionei a seguir alguns musicais famosos nas telas de cinema. Muitos deles se tornaram clássicos – mas são poucos os que realmente os conhecem. Portanto, confira a lista e escolha o seu. Afinal, o show não pode parar.

 

1. Mary Poppins (1964)
O filme foi vencedor de 5 Oscars, incluindo melhor atriz para a fantástica Julie Andrews, que interpreta Mary, uma babá que possui poderes mágicos e transforma a vida das crianças Jane e Michael. Além das belíssimas sequências musicais, o filme critica a sociedade da época, especialmente através dos personagens Sr. Banks (um homem frio e rígido – estereótipo inglês – que sustenta sua casa) e Winifred Banks (e esposa ativista do Sr. Banks, que tenta garantir o direito de voto às mulheres). A magia e diversão, no entanto, não se perdem com isso.


2. A Noviça Rebelde (1965)
O musical A Noviça Rebelde, originalmente com o título The Sound of Music, foi bem recebido pela crítica. Originado de um musical da Broadway, a produção levou o Oscar de melhor filme no ano de 1966. A história gira em torno da governanta Maria (Julie Andrews), que vai trabalhar na casa do Capitão Von Trapp, um homem solitário, que desde a morte de sua esposa, cria os filhos com rigidez. História parecida com Mary Poppins, mas aqui Maria e Von Trapp se apaixonam – inclusive, Von Trapp termina o noivado com uma baronesa para poder se casar com Maria.


3. Chicago (2002)
Chicago misturou música e comédia na dose certa – o que lhe rendeu 6 prêmios Oscars, incluindo o de melhor filme. A história se passa na década de 1920, em uma cidade onde todos almejam o sucesso, inclusive as assassinas Roxie Hart e Velma Kelly (respectivamente, Renée Zellweger e a bela Catherine Zeta-Jones). O filme aborda a questão de se tornar uma celebridade instantânea e como isso pode levar ao ostracismo.


4. Um Violinista no Telhado (1971)
Mais um filme baseado em um musical da Broadway, Um Violinista no Telhado levou quatro Oscars. A  história se passa na Rússia, especificamente na época do Czarismo, onde um leiteiro judeu tem uma vida tranquila até que decide casar suas duas filhas mais velhas, que recusam o casamento imposto pelo pai. Uma das curiosidades em torno desta produção é que o papel do leiteiro Tevye foi cotado para nomes como Marlon Brando, Anthony Quinn e Frank Sinatra – mas quem acabou ficando com  a personagem foi Chaim Topol.


5. Cry-Baby (1990)
Mais uma comédia na lista. O musical conta a paixão entre o bad-boy Wade Walker (Johnny Depp, em um de seus primeiros papéis no cinema) e Allison Vernon-Williams, uma jovem rica criada pela avó, que considera Wade o líder de uma gangue juvenil que ameaça a paz da pequena cidade de Baltimore, nos anos 50. O filme é embalado por canções de rockabilly e rock and roll, estilos próprios da época. Assim como aconteceu com Um Violinista no Telhado, outros atores foram sugeridos para o papel do protagonista, como Tom Cruise e Jim Carrey – mas, sabiamente, o diretor John Waters escolheu Johnny Depp para o papel do jovem Cry-Baby.


6. O Fantasma da Ópera (2004)
O filme foi baseado no romance de Gaston Leroux e tem o roteiro de Andrew Lloyd Webber. Já foi adaptado para a Broadway e já passou pelo país – em uma das maiores bilheterias nacionais. O desfigurado “fantasma” (vivido por Gerard Butler) encontra em Christine a voz ideal para expressar todas as suas emoções. Entretando, o ciúme doentio do fantasma por Christine coloca em risco a vida da jovem e de Raoul, um ex-namorado de infância de Christine, que a reencontra e faz reacender a chama desta paixão.


7. New York, New York (1977)
Apesar de não ser muito badalado, este é um dos melhores filmes do diretor Martin Scorcese. O filme narra o envolvimento do músico Jimmy Doyle (0 fantástico Robert DeNiro) com a cantora Francine Evans (Liza Minnelli), que se conhecem no mesmo dia em que termina a Segunda Guerra Mundial. Enquanto buscam o sucesso, eles vivem momentos conturbados nessa relação, que é um romance e também uma parceria artística. No teatro, o musical já passou pelo país este ano e agradou ao público paulista.


8. Cantando na Chuva (1952)
O filme ocupa a primeira colocação em diversas listas de maiores musicais norte-americanos de todos os tempos. Não é pra menos: quem nunca ouviu a canção Singin’ in the Rain e não se recorda da clássica cena do astro Gene Kelly fazendo piruetas na chuva? O musical conta a história de dois astros do cinema mudo que tentam se adaptar aos novos métodos do cinema para manter a fama que conquistaram.


9. Sweeney Todd – O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet (2007)
Também baseado em uma peça da Broadway, Sweeney Todd foi o filme que consagrou o diretor Tim Burton e fez com que seus colegas de Hollywood reconhecessem o talento do excêntrico artista. O musical conta a triste história de Benjamin Barker, um modesto e simples barbeiro que, após ser preso injustamente, retorna à cidade de Londres – agora como Sweeney Todd – para executar sua maligna vingança. O suspense conta com Johnny Depp no papel do medonho Benjamin. As cenas de assassinato do filme – onde litros de sangue são jorrados a cada corte de garganta – são um espetáculo à parte.


10. Evita (1996)
Evita é um clássico. Dirigido por Alan Parker e baseado na peça teatral do mestre Tim Rice, o musical conta a história de Eva Perón, uma das mais populares primeiras-damas da América. A biografia – narrada em flashback – mostra a infãncia pobre de Eva até sua ascensão como artista e seu casamento com o político Juan Perón – quando de “prostituta”, como era chamada, Eva passou a ser idolatrada e uma das figuras políticas mais influentes de toda a história da Argentina. A cena do funeral de Evita é, por si só, um espetáculo. A produção ganhou o Oscar de melhor canção original (para You Must Love Me) e o Globo de Ouro de melhor atuação de atriz em cinema (para Madonna – sim, Madonna).

Burton: Das Telonas Para as Livrarias

Há algumas semanas, postei aqui no site uma matéria sobre o cineasta Tim Burton e suas incríveis histórias que encantam os apaixonados pelo cinema. Na ocasião, entretanto, ainda não tinha lido O Triste Fim do Pequeno Menino Ostra e Outras Histórias, uma reunião de pequenos poemas escritor pelo artista que descrevem bem um pouco da personalidade imaginária do autor.

Ao longo de pouco mais de 120 páginas, Tim Burton nos revela um pouco de seu mundo. Philippe Barcinski apresenta a obra com a seguinte declaração:

A mente de Burton é um universo à parte. E este livro parece ser sua melhor radiografia.”

A verdade é que este livro nos apresenta algumas características que são primordiais na obra do diretor, como a melancolia (presente em Edward Mãos de Tesoura), a fantasia e imaginação (marcantes em Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas), o ambiente gótico (explorado em A Noiva Cadáver), entre outros. É isso que o leitor vai encontrar nesse livro, que retrata bem a mente insana do cineasta como nenhum outro filme seu poderia fazer. O leitor vai ser apresentado a personagens que beiram o grotesco, o bizarrismo e também a inumanidade.

A leitura é obrigatória para os amantes do trabalho de Burton – e mesmo para aqueles que não a conhecem. Os 23 poemas escritos apresentam a ambiguidade tão comum à obra de Tim: ao mesmo tempo que é triste, é também engraçado. Além disso, fica difícil considera-lo um produto infantil, tamanho é o tom soturno e desesperançoso do livro.

O diretor na época de sua cultuada animação “O Estranho Mundo de Jack”.

Os poemas tratam bem as relações afetivas e também os conflitos psicológicos de cada um de seus personagens. São figuras infantis bastante distintas que, na maior parte das vezes, são incompreendidas e lutam para encontrar seu lugar em um mundo cada vez mais cruel. Os heróis para Burton são infelizes, decadentes e desesperançosos – expondo um lado negro que existe em cada um de nós.

Para completar, o livro é recheado de ilustrações criadas pelo próprio autor. Os desenhos são facilmente identificados, pois a forma tão peculiar de Burton já é bastante conhecida em seus filmes. Vale também destacar a excelente tradução de Márcio Suzuki, que conseguiu preservar as características principais do texto original, como as figuras de linguagem, as métricas e também o jogo de palavras.

Na imagem, alguns personagens de Burton: acima, Stain Boy; abaixo, a versão de Burton para a Rainha Vermelha da história de Alice (que no filme do cineasta, foi interpretada por sua esposa Helena Bonham Carter).

Longe de ser apenas a opinião de um fã assumido de Tim Burton, o livro se revela uma opção incrível de leitura. É curto, não é cansativo e nos traz o que há de melhor na obra do cineasta norte-americano. Em tempos em que a leitura está sendo substituída por videogames e celulares, O Triste Fim do Pequeno Menino Ostra nos oferece bons momentos de entretenimento. Mais do que isso: nos permite também enxergar um pouco do universo incompreendido de um artista tão pouco casual.

Dia desses no parque
Vi uma moça de raro encanto.
Tinha tantos, tantos olhos
Que, confesso, fiquei meio tonto.

A sua beleza não era pouca
(Aliás, que tremenda gatinha!),
Quando notei que tinha boca,
Engatamos uma conversinha.

Falamos sobre ecologia,
Sobre suas aulas de poesia,
Sobre os óculos que usaria
Se um dia tivesse miopia.

Mas, de tudo, o que eu mais adoro
É seu olhar diversificado.
Se entretanto ela cai no choro,
Não tem quem não fique molhado.

(“A menina de muitos olhos”)

O Triste Fim do Pequeno Menino Ostra e Outras Histórias
Tim Burton (tradução de Márcio Suzuki)
Editora Girafinha, 2010, 123 páginas.

O Estranho Mundo de Tim Burton

Ainda me lembro bem do mês de abril de 2010 quando, ansioso, enfrentei uma imensa fila na bilheteria do cinema (precisamente no dia 23) para comprar os ingressos para a estréia de Alice no País das Maravilhas. Lembro também que a tietagem em volta de Johnny Depp era grande: por toda parte, milhares de fãs histéricas aguardavam o início do filme para acompanhar o ator na pele do clássico personagem infantil. Muitos produtos do filme eram vendidos. Ao conversar com um dos lanterninhas, o rapaz me joga a frase: “Você teve sorte de encontrar ingresso. A sessão da meia-noite já estava com todas as cadeiras esgotadas desde segunda-feira e tivemos que colocar cadeiras extras – fora a galera que ficou no chão”.

Tudo isso era previsível. Afinal, além de Depp no elenco, o filme era dirigido por Tim Burton – uma das mentes mais excêntricas do cinema. Um outro funcionário do cinema me confessou: “Eu fiquei dentro da sala na hora do filme, todo mundo falou bem e eu fiquei curioso. Teve uma criança que saiu chorando. E realmente, o filme é bem ao estilo Tim Burton”. Achei aquilo um pouco de exagero. Sim, foi feita muita propaganda em cima do filme e as expectativas dos fãs de Burton e Depp era enormes. E justificáveis.

Tim Burton durante as gravações de seu último filme, ao lado da atriz Mia Wasikowska.

Se por um lado Alice no País das Maravilhas não agradou muito e foi duramente criticado, temos que admitir uma coisa: Tim Burton pode se dar ao luxo de fazer exatamente o que ele quer e como quer. Afinal, depois de clássicos como Edward Mãos de Tesoura, O Estranho Mundo de Jack e Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas (pra mim, o melhor filme da carreira de Burton), ele tem moral pra encarar qualquer projeto e fazer dele seu brinquedinho pessoal – e ainda conseguir vende-lo.

Burton já esteve a frente de projetos ambiciosos em Hollywood, como o sucesso Batman – O Filme (1989), ou a nova versão de Planeta dos Macacos (2001). Mas também já esteve comandando filmes menos badalados, como Ed Wood (1994), que era uma homenagem de Burton ao “pior diretor de cinema de todos os tempos” e lhe rendeu muitos elogios da crítica.

O reconhecimento por seus colegas de profissão, entretanto, veio tempos depois, em 2008, com o sanguinolento Sweeney Todd – O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet. Foi a partir de então que Burton passou a ser cultuado como um dos maiores diretores de sua geração. Reconhecimento tardio? Provavelmente. Isso em muito se deve ao seu desprezo quase que evidente a tudo que é padrão em Hollywood. Burton vai na contramão do que é comum na indústria cinematográfica e isso lhe confere o status de “excêntrico”. Mesmo assim, Burton é considerado “cult”, provando que há espaço para suas histórias no cinema.

De cima para baixo: Johnny Depp em "Ed Wood"; a versão de Burton para "Planeta dos Macacos"; e o clássico burtoniano "Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas".

Burton é cultuado por suas histórias, que percorrem a linha entre imaginação e medo – temas constantes em sua obra. Praticamente todos os filmes do diretor e produtor mantem esse equilibrio: por um lado, a imaginação, a fantasia, a pureza; por outro, o medo, o inesperado, o desconhecido, o horror. Perceba a sensibilidade da imaginação de Burton ao dirigir Peixe Grande e o suspense macabro do musical Sweeney Todd, por exemplo. Em ambos os temas, Burton sabe fazer isso como ninguém.

Algumas pessoas já são parte de sua equipe. Depp é uma delas. Juntos, já estiveram no comando de sete filmes (cronologicamente: Edward Mãos de Tesoura, Ed Wood, A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça, A Fantástica Fábrica de Chocolate, A Noiva Cadáver, Sweeney Todd – O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet e o já comentado Alice no País das Maravilhas). Helena Bohram Carter, esposa também maluca de Burton, também é figura frequente em seus filmes desde que se conheceram nas gravações de Planeta dos Macacos, em 2001. Danny Elfman, vocalista da extinta banda Oingo Boingo, sõ não trabalhou com Burton em dois de seus filmes (Ed Wood e Sweeney Todd).

Ao lado do amigo Johnny Depp e da esposa Helena Bonham Carter, durante homenagem recebida.

Mente brilhante? Certamente. Sua criatividade é notável. Quando criança, o parque de diversão particular de Burton era um cemitério perto de sua casa. Nunca foi bom aluno e seus pais frequentemente eram chamados ao colégio. Fã do ator Vincent Price (cuja última participação no cinema foi em Edward Mãos de Tesoura, pouco antes de falecer), passava horas do seu dia assistindo filmes B de terror e clássisos vampirescos. Talvez isso tenha sido importante para a formação de sua personalidade incomum e de sua mente insana.

O mundo de Burton é difícil de ser explorado justamente porque tudo que vem dele sempre é um mistério. Sempre somos surpreendidos por seus pensamentos absurdos, suas histórias improváveis e seu humor volúvel. Acompanhar tudo isso é complicado para a maioria das pessoas, fortemente influenciadas pelas convenções que o sistema nos impoe. Seu mundo é sempre uma nova surpresa, um novo desafio. Como dizem os rapazes da banda Plain White T’s na trilha sonora de Alice, “bem vindos ao mistério”.

Rolam diversos boatos sobre qual seria o próximo trabalho de Burton. Alguns, apostam na versão burtoniana para o clássico O Mágico de Oz; outros sugerem que, ao lado de Depp, Burton já vai iniciar as gravações da versão cinematográfica do seriado vampiresco Dark Shadows – o que seria o mais provável. Rolam também comentários de que Burton poderia refilmar A Família Adams. Dúvidas? Inúmeras. Certeza? O estranho mundo de Burton não dá limites para sua imaginação.