A Importância de “Pulp Fiction” e Quentin Tarantino na Cultura Indie Cinematográfica

Mesmo que você não tenha assistido a este longa de Quentin Tarantino, lançado em 1994, em algum momento de sua vida você já se deparou com alguma referência a esta produção. Pulp Fiction é um dos filmes mais cultuados de todos os tempos, uma obra-prima aclamada e sem precedentes de, até então, um jovem e promissor diretor que, já em seu segundo trabalho, firmava-se como um dos mais importantes cineastas de todos os tempos e criava um estilo particular que influenciou toda uma geração hollywoodiana desde então.

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Há quem fique indiferente a Pulp Fiction; há os que alegam que Cães de Aluguel, debut de Tarantino, seria a verdadeira obra máxima do cineasta. De fato, sob o ponto de vista estilístico, Cães de Aluguel é impecável e contém tudo aquilo que Tarantino faria em seus trabalhos futuros – não à toa, o filme foi ovacionado em Cannes à época de sua exibição. Sua importância é notável: sem Cães de Aluguel, jamais haveria Pulp Fiction – financeira e estilisticamente falando. Não obstante, Pulp Fiction lançou Tarantino para o estrelato definitivo, rompendo moldes e rótulos da indústria cinematográfica de então e deixando o público e, principalmente, a crítica de joelhos diante de seu idealizador.

Pulp Fiction nos apresenta três histórias distintas, contadas ao longo de capítulos não lineares, mas que se cruzam ao longo de suas duas horas e meia de duração. Essas três histórias são interligadas através de alguns personagens: na primeira delas, somos apresentados a dois parceiros mafiosos, Vincent Vega e Jules Winnfield (respectivamente, John Travolta e Samuel L. Jackson), que estão executando um serviço para um chefão da máfia; na segunda, acompanhamos o encontro fortuito de Vincent com Mia (Uma Thurman), a esposa do chefão criminoso; e, finalmente, a terceira narrativa acompanha o boxeador em fim de carreira Butch (Bruce Willis) pago para perder uma luta, mas que desiste da derrota e agora é procurado por Marcellus Wallace (Ving Rhames).

Mas Pulp Fiction não se resume somente a essas histórias. O filme representa Quentin Tarantino em sua essência. Aqui, como em pouquíssimos e raros casos no cinema, o diretor tem total controle sobre seus expectadores. Tarantino parece tentar arrancar tudo o que pode de seu público, indo mais fundo e explorando cada vez mais nossas emoções – até o exato momento em que estamos quase não aguentando mais e ele tira a mão, como que dizendo “tudo bem, você só aguenta até aqui… acho melhor parar!”. Tarantino é um como um deus brincalhão, abusando de seu público e se divertindo à custa dele.

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Pulp Fiction, apesar de não ser o primeiro a ter tal abordagem (vide clássicos como Cidadão Kane, ou mesmo o “debut” Cães de Aluguel), foi o que popularizou a narrativa não-linear (alem de tramas paralelas que se complementam). Prova é a quantidade de produções que seguiram essa característica da década de 90 em diante. A montagem desfragmentada das cenas contribui para que não haja sequer uma base temporal. Com isso, o cineasta transformou um estilo em sua própria narrativa, praticamente um “jeito Tarantino de fazer filme”. Esse estilo peculiar também fica mais evidente por outras características, como a violência mostrada em suas produções (para muitos, gratuita)s, que fica mais ressaltada através de seus personagens sanguinolentos e frios (mas sempre humanos), e também dos diálogos memoráveis que fazem inúmeras referências às obras de outros cineastas e também à cultura pop. Em uma cena no início do filme, por exemplo, o público se delicia com uma conversa informal entre Vincent e Jules sobre hambúrgueres – aliás, os mesmos criminosos que recitam versos bíblicos para executar seus devedores.

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Outra característica notável em Pulp Fiction é o humor negro. Tarantino faz uso dele para criar sequências arrebatadoras, tornando até mesmo atos odiosos em situações cômicas (suficiente para nos fazer amar seus personagens). Em uma das cenas mais surpreendentes, o carro dos criminosos é inundado por sangue e miolos após a arma de um deles acidentalmente disparar um tiro em um adolescente – algo que pega o espectador desprevenido de surpresa e se perguntando “mas… como?”. Também marca registrada de Tarantino, o bom uso da trilha sonora é frequente em Pulp Fiction. Seja nas sequências mais discretas, as músicas se encaixam de forma harmoniosa. Melhores exemplos são as duas cenas clássicas do longa: na primeira, Vincent e Mia dançando twist em um restaurante temático ao som de Chuck Berry; na segunda, nossa heroína (e talvez um dos melhores personagens femininos do cinema) tendo uma overdose após se deliciar ao som de Girl, You’ll Be a Woman Soon, de Urge Overkill.

No Festival de Cannes deste ano, Tarantino foi homenageado pelos 20 anos de Pulp Fiction – o diretor e o elenco estavam presentes, inclusive com a suspeita de um relacionamento entre Quentin e Uma Thurman. Também, no final de 2013, o longa foi listado entre os 25 filmes que serão preservados pela Biblioteca do Congresso Norte-Americano. A produção, que custou cerca de 8 milhões de dólares, alcançou mais de 200 milhões ao redor do mundo e deu um “up” considerável na carreira de seu elenco, formado por até então nomes desconhecidos (como Uma Thurman) e outros que enfrentavam certas dificuldades (Travolta e Willis, por exemplo) – o que também o torna, provavelmente, no melhor filme independente de todos os tempos. Um dos momentos mais impactantes dos anos 90 – e certamente uma das melhores produções dessa década –, Pulp Fiction continua gerando um número impar de citações (diretas ou indiretas), se tornando um fenômeno dentro das culturas pop e cinematográfica, assim como seu cineasta – praticamente um ídolo de nossa geração.

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“Ninfomaníaca – Volume 1”: Cadê o Choque, Minha Gente?

posterLars Von Trier não é apenas um cineasta. Ele é, praticamente, uma marca do cinema. Uma marca que muitos consomem com grande veemência e adoração, o que torna difícil a profunda tarefa de analisar qualquer uma de suas obras. Em Os Idiotas, de 1998, por exemplo, Lars presenteia o espectador com uma cena de sexo anal explícita que, para muitos fãs e defensores do diretor, é pura arte. Em torno de várias polêmicas, então, não seria muita surpresa a expectativa do público em torno da história de Ninfomaníaca – novo longa do diretor que estreou nos cinemas brasileiros esta semana.

Uma observação aqui se faz importante: Ninfomaníaca é um filme de cerca de 5 horas que o diretor (para atingir a demanda de sua marca) aceitou dividi-lo em dois volumes distintos e menores, sem as cenas explícitas de sexo da versão original – que teremos que aguardar até o lançamento da mídia para assistir ou, caso não chegue por aqui, importa-la para analisar as tão polêmicas sequências pornográficas.

No início do filme, encontramos a protagonista Joe jogada e machucada ao chão, em um beco frio e solitário, sob forte chuva – não se sabe ainda como, quando ou por qual razão ela está ali – , quando é socorrida pelo velho Seligman, que a leva para sua casa oferecendo-lhe ajuda. Ali, Joe assume o papel de narradora e começa a contar a história de sua vida a Seligman, ouvinte bondoso que a todo momento mostra compreensão para com a moça – que é viciada em sexo e, por talvez por esta razão, se acha um péssimo ser humano. É a partir do diálogo entre os dois que o filme se desenvolve, abrindo espaço para as aventuras de Joe desde criança (quando descobre precocemente sua sexualidade) até seus vinte e poucos anos.

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Ninfomaníaca foi vendido como um filme com cenas de sexo explícito – o que, se tratando de Lars Von Trier, já renderia boas polêmicas. Quando anunciado, logo após Melancolia, os fãs do cineasta já saíram nas redes sociais soltando ideias sobre quais atores fariam parte do elenco, como seria a história e tudo mais que pudesse remeter ao filme. Quando os pôsteres e trailers foram lançados, então, houve quem esperasse que Ninfomaníaca fosse uma obra prima. O problema, talvez, tenha sido justamente isso: muita expectativa e pouco retorno – ao menos neste momento.

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O filme tem um ritmo um tanto lento. Já na cena inicial, há um silêncio que incomoda – até ser interrompido pela música da banda alemã de metal Rammstein, onde o velho Lars do choque, da polêmica retorna, mas muito menos do que prometia. Lars utiliza-se de um profundo didatismo ao mostrar as passagens de vida de seus personagens – o filme é recheado de gráficos, desenhos, cálculos e outros recursos que nos deixam a impressão de que estamos diante de uma aula de anatomia no colégio. Há uma sequência onde diversos pênis são mostrados explicitamente na tela, por exemplo. No entanto, este didatismo, apesar de deixar o filme muito menos desconfortável do que se poderia supor, aumenta também o pouco apelo erótico do longa. Ao ver as cenas de sexo (que, enfatizo, não são tão chocantes assim), mesmo aos gozos e gemidos, o espectador é incapaz de se aproximar dos personagens – ou sequer, se excitar (se era esta a proposta das cenas). O espectador, de longe, cada vez mais longe, é apenas um mero observador dos fatos, uma espécie de voyeur, sem sentimentalismo barato.

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Tecnicamente, não se pode dizer que o filme tenha grandes méritos. Há uma edição suficiente e a câmera de Lars consegue extrair bons momentos do elenco. Stacy Martin é Joe quando nova, sem grandes alardes ou momentos que lhe rendam algum elogio maior. Charlotte Gainsbourg faz Joe na idade adulta – e, provavelmente, terá maior espaço no volume 2 do filme. Os destaques, inevitavelmente, ficam por conta de três coadjuvantes que trazem os melhores momentos do filme: Uma Thurman, como uma jovem dona de casa abandonada pelo marido (que a deixara para ficar com Joe); Shia LaBeouf, o garoto bonitão e de mãos fortes que tira a virgindade de Joe e por um bom tempo é o seu grande “amor” (se é que este termo pode ser empregado neste filme); e, finalmente, Christian Slater, que no papel do pai de Joe, protagoniza uma das cenas mais fortes do longa.

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Seria injustiça dizer que o primeiro volume de Ninfomaníaca é ruim. Esta primeira parte começa realmente a “andar” a partir de sua segunda metade, o que pode cansar muita gente – até mesmo pela falta do sexo prometido, que aparentemente virá no próximo capítulo. Esta ausência dá lugar para uma postura professoral na abordagem do sexo, ainda que envolto em um humor negro, característico do diretor. Há ainda uma série de referências com a nítida pretensão de tornar o filme “culto”: o sexo é abstraído como pesca, como botânica, como música (há até mesmo uma sugestão à sequência Fibonacci, veja você, no número de “estocadas” que Joe recebe em sua primeira transa). Julgando Ninfomaníaca – Volume 1, pode-se dizer que Lars criou um filme que, assim como pode ocorrer no sexo, as preliminares são melhores e mais prazerosas do que o ato em si. É esperar até março para ver a segunda parte e, principalmente, a versão original, sem cortes.

Kill Bill – Vol. 1 e 2

Quando estreou com Cães de Aluguel, em 1992, Quentin Tarantino foi recebido com entusiasmo pela crítica. Na época, o jovem diretor de 28 anos, viciado em vídeos e cultura pop, escrevia o roteiro daquele se tornou um dos grandes clássicos dos anos 90. Uma década depois, Tarantino trazia às telas a saga Kill Bill, menos envolvente e underground que seus filmes anteriores, mas que mostrou ao mundo que Tarantino era um dos cineastas mais maduros de sua geração.

Kill-Bill-Foto-2Concebido como uma história contínua, mas dividida em dois volumes, Kill Bill narra a trajetória de Beatrix Kiddo, conhecida simplesmente durante quase toda a sequencia como “A Noiva”, e sua incansável luta por vingança. Narrada em capítulos, recheados de flashbacks e com um roteiro não linear (constante nas produções de Quentin), Kill Bill conta como Beatrix é atacada por Bill (o próprio do título, interpretado pelo já falecido David Carradine), seu antigo mentor, no dia de seu casamento. Após passar quatro anos em coma, Beatrix desperta do sono e só pensa em vingança. Contando assim, é de se imaginar, à primeira vista, que o filme seja um clichê hollywoodiano – até mesmo porque o tema, vingança, é clichê. Mas quando falamos de Quentin Tarantino, a ideia é um pouco diferente.

kill-bill-vol-1-2003-tou-5-g-1A princípio, uma observação é importante aqui: é impossível assistir apenas a um dos volumes da saga. Ainda que conte com inúmeros méritos que tornem ambos os volumes deliciosamente divertidos de se assistir individualmente, é imprescindível assistir a sequencia para se entender a genialidade da obra (como mencionado, a proposta do filme era ser uma história contínua), até mesmo porque boa parte das respostas já esperadas são apenas reveladas no último volume. Inspirado em longas de artes marciais da década de 70 e nos westerns (especialmente os italianos da década de 60), Tarantino consegue criar um filme que concentra sua essência em cenas de lutas estratosféricas que, muito mais do que excelentes sequencias de ação, foram cuidadosamente coreografadas e bem executadas. A sequencia em que a Noiva derrota o grupo de O-Ren dentro de um clube, por exemplo, é uma daquelas coisas que não te deixam desgrudar os olhos da tela, mesmo se você quisesse.

kill-bill-bar-5601Além das inúmeras cenas de luta, há ali o humor tarantinesco impregnado por todos os lados – aquele humor sutil, quase imperceptível, basicamente inserido em diálogos muito bem escritos. A comparação entre Clark Kent e Beatrix Kiddo, feita por Bill nos últimos minutos da sequencia, faz com que você caia de amores pelo roteiro de Tarantino – sim, ele dirige e escreve seus filmes, veja você! São diálogos simples que ajudam a construir cada uma das personagens, ainda que nem todas sejam devidamente desenvolvidas. A sequencia do treinamento de Beatrix pelo mestre Pai Mei, por exemplo (de longe, um dos meus personagens preferidos na trama), tem cenas e diálogos simples, mas com uma força surpreendente.

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Também é nos aspectos técnicos que Kill Bill se destaca. Além das belas coreografias, as câmeras de Tarantino percorrem um cenário exuberante – simples até, mas talvez por isso exuberante, como na cena do combate entre O-Ren e Kiddo. Outro destaque técnico é a edição de som e, falando de Tarantino, a trilha sonora eclética e impecável. É a trilha sonora que ajuda a conduzir tão bem os personagens da saga que, sob a direção de Tarantino, são brilhantemente caracterizados por seus intérpretes. Obviamente, o destaque fica por conta de Uma Thurman (ah, Uma, por que tão esplêndida?), no papel que certamente salvou sua carreira. Musa de Tarantino desde sua Mia Wallace em Pulp Fiction, Uma (que também ajudou a roteirizar o filme) se empenhou em criar uma personagem cuja sede de vingança é plenamente justificável.

kill-bill-vol-1Há quem torça o nariz para Kill Bill, assim como para os demais projetos de Tarantino, acusando-o de ser um diretor exibicionista, abusando de cenas com violência excessiva e propensas ao apelativo. De fato, violência excessiva é praxe na obra tarantinesca (e não adianta dizer o contrário). O que difere Tarantino dos demais diretores é a estética implacável de sua filmografia. As cenas são tão bem montadas e arquitetadas que por mais sanguinolentas que sejam não há como não admira-las. Além disso, os filmes de Quentin são repletos de referencias a outras obras cinematograficas e à cultura pop em geral. Logo, um telespectador qualquer pode não se sentir muito à vontade com o excesso de detalhes que são a base de suas histórias.

KillBillVol2_1Embora o final seja deveras artificial e morno (afinal, ao longo das quatro horas de história, são tantas sequencias incríveis que o mínimo que se esperava do confronto final entre a Noiva e Bill fosse o ápice da saga), Kill Bill se firma como um dos maiores triunfos do cinema atual. É um típico filme de Tarantino, recheado de referências cinematográficas (mostrando o profundo conhecimento de Quentin sobre o tema), diálogos memoráveis, personagens frios e calculistas e visual de tirar o fôlego, o que torna Kill Bill um dos filmes mais queridos de seu diretor. Rolam-se boatos de uma provável continuação. Não que seja necessário, afinal a história parece que já foi devidamente contada. Mas nunca se sabe o que pode sair da mente brilhante de Tarantino.

Sedução: O Que Mais Falta em “Bel Ami”

Nem sempre um rosto bonito, um nome de sucesso e uma boa história geram um bom filme. Isso é um fato já comprovado diversas vezes no cinema. Muitas produções, para chamar público e a atenção da crítica, gastam tanto tempo promovendo esses itens que esquecem de desenvolver bem sua trama – e o fiasco é irreversível. Pois bem, é mais ou menos dessa forma que os críticos receberam Bel Ami – O Sedutor, longa que estreou nos cinemas brasileiros nesta semana.

Aparentemente, Bel Ami teria tudo para ser um bom filme – quer dizer, ao menos os itens mencionados anteriormente estão presentes ali. Temos um rosto bonito (Robert Pattinson – ao menos para as adolescentes virgens fãs do ator), nomes de sucesso (ou, neste caso, pelo menos dois, Uma Thurman e Christina Ricci) e uma boa história (o romance do escritor Guy de Maupassant, com um enredo que utiliza episódios amorosos para criticar a moral religiosa, a política e as mazelas da alta sociedade). Mas fica-se a questão: por que o filme não decola?

É difícil listar os motivos que tornam uma produção boa ou ruim. No caso de Bel Ami – O Sedutor, temos um problema grave: o filme não te seduz. Não há aquela identificação com o público e nem mesmo o menor feeling com a platéia. Okay, daí quem leva a culpa? Direção, elenco, roteiro, fotografia, trilha sonora? Bom, no caso de Bel Ami, a culpa é um pouco de todo mundo.

O trio feminino da trama: Kristin Scott Thomas (a esposa devotada), Uma Thurman (a misteriosa manipuladora do fantoche George Duroy) e Christina Ricci (a esposa solitária). PS.: sim, meninas, Pattinson pegou todas…

Vamos começar pelo roteiro. Tem gente que acha que adaptar uma obra literária é apenas criar diálogos e colocar um bando de atores contracenando entre si para contar a história. Mas se esquecem do principal: desenvolver esta história. Desenvolver é essencial e não apenas ilustrar os fatos. Isso cria um roteiro atropelado, onde as ações centrais são exibidas, mas o caminho entre elas não são mostrados ou sequer desenvolvidos. Mais ou menos assim: o cara tosse numa cena e em seguida morre de uma doença fatal; o jovem olha uma mulher numa cena e na próxima já a leva pra cama; a mulher está na cama com o jovem e em seguida já está perdidamente apaixonada por ele; um homem ajuda um jovem necessitado e duas cenas depois já o odeia.

Provavelmente, é esse erro fatídico no roteiro que tornou as atuações do filme tão gritantes. Talvez pelo fato do livro ser uma espécie de romance novelesco, optou-se por fazer uma interpretação mais pomposa. Não funcionou e o resultado foram performances que, cá entre nós, são dignas de produções baratas. O elenco tem uma dramaticidade exagerada e quase teatral, que não acompanha o fraco ritmo do roteiro. Pattinson é razoavelmente suficiente, com as mesmas caras e feições de qualquer um de seus trabalhos anteriores – mas percebe-se o esforço e a vontade do ator em fazer um bom personagem, e por isso nem vou critica-lo. Apesar de atuar sem muita confiança, o rapaz até pode ser promissor. Agora, ver Uma Thurman (de Kill Bill, meu amigo, pensa só…) fazendo uma atuação tão pobre quanto sua Madeleine Forestier é triste. Nem Christina Ricci se contorcendo e tentando ser sexy ajudou a salvar um elenco nada inspirado – e inspirador.

A trama central já foi vista e revista várias vezes no cinema. Um jovem humilde quer subir na vida e utiliza seu poder de sedução como ferramenta de manipulação. O que acontece é que George Duroy (o verdadeiro nome de Bel Ami) não tem nenhum sex appeal e não manipula, mas é manipulado. Ele até se dá bem no final, mas o bonzão, o garanhão é apenas uma peça no jogo. Se durante todo a narrativa ele pensa que está arrasando, que tem tudo calculado e a seu favor, na verdade seu único mérito é tirar proveito de toda e qualquer situação. Mas nada além disso.

Bel Ami – O Sedutor se sustenta apenas na presença de Robert Pattinson, que não vai levar somente suas fãs aos cinemas, mas também aqueles que querem ver sua atuação fora da saga Crepúsculo (meu caso, que além de ficar curioso quanto à performance de Pattinson, também queria ver Uma Thurman nas telonas novamente, mas nem isso valeu a pena). Talvez a direção dupla de Declan Donnellan e Nick Ormerod acabou confundindo também os atores, roteirista, diretores de arte, musicistas e compositores (sério, que trilha sonora previsível!) e a produção como um todo. Bel Ami é um filme até que bonito, mas que não passa nada: não diverte, não seduz, não entretem, não passa uma mensagem – como aquelas mulheres para as quais você olha, admira e cobiça, mas quando abrem a boca, tudo o que você mais quer é que acabe logo.