Vidas Secas (Vidas Secas)

Dirigido por Nelson Pereira dos Santos e inspirado na obra literária clássica de Graciliano Ramos, Vidas Secas é, sem dúvidas, um dos maiores filmes nacionais de todos os tempos e um dos grandes representantes do Cinema Novo (movimento cinematográfico brasileiro que ganhou notoriedade entre as décadas de 60 e 70), tanto por suas questões políticas quanto estéticas. Ambientado no início do século XX, Vidas Secas narra a saga de uma família de retirantes que foge da seca que arrasa uma região do Nordeste: pai, mãe, dois filhos e seu cachorro lutam diariamente naquele cenário árido e inóspito em busca da sobrevivência. 

Optando por um estilo mais realista (em contraposição à estilização proposta pelos artistas do Cinema Novo, como Glauber Rocha – o mais célebre nome do período), Nelson Pereira dos Santos traz uma estética mais ‘crua’, que reflete aquele contexto social sem qualquer glamourização (aderente, assim, à estética da fome: importante manifesto idealizado por Glauber). As agruras daquelas personagens são tratadas sem qualquer pudor: a todo instante, elas são hostilizadas seja na exploração do trabalho, pela arrogância das autoridades, pela opressão da Igreja, mas, principalmente, pela dureza da seca – esta última amplificada pelas escolhas fotográficas do cineasta, com uma luz estourada que torna aquele ambiente ainda mais agressivo, quente, saturado. Em alguns momentos, céu e chão não se diferenciam em planos mais abertos, uma vez que as nuvens quase não aparecem na tela, por exemplo, destacando as personagens como se estivessem prestes a serem engolidas por aquele cenário (não à toa, a cena final traz a família caminhando até sumir ao longe, na tela, enfatizando a pequenez dessas pessoas diante da vida).

Essa escolha do cineasta é fundamental para provocar a sensação de desumanização daquela gente: diante daquela vastidão, a família é impotente, pequena, insignificante, o que é ressaltado em seus diálogos curtos, vozes baixas e sonhos simplórios (o da mulher, por exemplo, é dormir feito gente em uma ‘cama de couro’). Curiosamente, essas personagens parecem não entender ao certo a alienação que os rodeiam, estando sempre confinados a sua total incapacidade de reagir ao que lhes acontece – e quando eventualmente o fazem, são prontamente rechaçados. Talvez entre eles, o tipo mais “humanizado” seja a cachorra Baleia que, sob uso de um plano subjetivo, ganha vida tal qual no texto original (inclusive em uma das cenas mais incríveis da obra). 

Nessa sucessão de imagens que revelam uma sociedade brasileira desigual (em uma crítica social que permanece atualíssima, diga-se de passagem), algumas sequências merecem destaque: entre elas, o questionamento de uma das crianças quanto ao termo ‘inferno’ (afinal, diante daquela realidade, já não estão vivendo em um?); o assassinato de Baleia, recriado quase que como um duelo de western (inclusive com um close em Fabiano, seu dono – e, também, seu algoz); ou ainda a felicidade da esposa ao ver Baleia com um animal na boca, aquele que será, muito provavelmente, a única proteína da família durante muito tempo. Todas esses trechos demonstram o quão implacável Vidas Secas foi – e segue sendo – em seu retrato do desequilíbrio social que impera em nosso país e que impede que os menos favorecidos tenham a oportunidade de acesso a coisas tão simples – incluindo sua própria sobrevivência.  

Deixe um comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.