50 São os Novos 30

Após ser abandonada pelo marido e perder o emprego, a cinquentona Marie-Francine se vê forçada a voltar a morar com os pais. Este é o ponto de partida de 50 São os Novos 30, comédia dirigida, roteirizada e protagonizada pela atriz Valérie Lemercier, que tenta comprovar a velha tese de que idade é apenas um número e nunca é tarde demais para recomeçar a vida.

Infelizmente, o filme sofre com alguns problemas, sendo o principal deles a previsibilidade de seu argumento. Já sabemos de cara o que vai acontecer, apenas vamos empurrando com a barriga adiando aquilo que virá logo em seguida. A obviedade manifesta-se até mesmo na caracterização das personagens da trama: um mais estereotipado que o outro, começando pela própria protagonista, desprovida de qualquer vaidade – seja nas roupas, nos óculos antiquados, nos hábitos, enfim, no melhor estilo Ugly Betty. Com um agravante: Maria-Francine parece não evoluir e termina a história praticamente da mesma forma que começou, passando uma falsa mensagem (e inconcebível nos dias atuais) de que para ser feliz a mulher precisa estar ao lado de um homem. O único obstáculo de Marie é ela mesma – e em tempos de “empoderamento” feminino, essa visão de personagem nos soa um tanto estranha, principalmente em uma obra conduzida quase que inteiramente por uma mulher, convenhamos. Além disso, o humor não funciona tão bem, já que procura comicidade em situações banais e que passam quase despercebidas, fazendo de 50 São os Novos 30 um filme apenas desestimulante.

Anúncios

De Carona Para o Amor

Esta premissa você certamente já viu por aí: o personagem se envolve em uma mentira e depois não tem mais como fugir dela. No caso da comédia francesa De Carona Para o Amor, o bonitão Jocelyn decide se passar por deficiente físico para seduzir uma jovem vizinha, até o dia em que ela lhe apresenta sua irmã, que realmente é deficiente.

De Carona Para o Amor é o tipo de obra que consegue falar de temas sérios com muita leveza e bom humor. Apesar da previsibilidade do roteiro e sua ausência de profundidade (poderia se explorar mais a questão de acessibilidade, por exemplo), ele funciona muito bem quanto comédia, sem zombar ou inferiorizar qualquer tipo ou ainda tratar a deficiência como algo digno de “pena”. A personagem de Alexandra Lamy, mesmo confinada a uma cadeira de rodas, é o sinônimo de “eu quero, eu posso”: irradiante, ela sempre está de bem com a vida, sem condescendência alguma, praticamente de igual para igual a todos (na verdade, sua Florence é até mais interessante do que qualquer outro papel feminino da trama). Já Franck Dubosc – que também dirige a película – se mostra à vontade na pele do cinquentão e solteiro convicto Jocely, para quem nenhuma mulher é páreo para sua lábia. Embora o desfecho seja um tanto clichê e inacabado, De Carona Para o Amor é um filme que diverte e emociona na mesma medida, sendo uma experiência muito benvinda e a prova de que não existem barreiras que possam nos impedir senão nós mesmos.

“Promessa ao Amanhecer”: O Quanto o Amor Materno Pode Marcar Uma Vida?

Adaptação do romance homônimo e autobiográfico de Romain Gary, Promessa ao Amanhecer acompanha seu protagonista desde a infância difícil na Polônia (ainda Romain Kacew) até seus dias de glória como escritor e piloto aéreo durante a ascensão de Hitler na Alemanha. O filme ainda narra seu relacionamento com a mãe Nina, uma judia polonesa que almejava um futuro brilhante para o filho.

Um dos erros comuns em cinebiografias que contemplam um período muito longo da trajetória de seu protagonista é que, na maior parte das vezes, a abordagem nunca é devidamente aprofundada, ficando muito superficial devido ao grande material que se quer mostrar. Felizmente, o roteiro do diretor Eric Barbier e sua parceira Marie Eynard consegue escapar desta armadilha ao resgatar situações cruciais para compreendermos as consequências da presença materna super protetora na vida do filho – inclusive psicológicas. A personalidade forte de Nina e o excesso de dedicação e afeto para com o unigênito o impulsionaram ao sucesso, é verdade, mas também marcaria para sempre a existência e a obra de Romain. Com certa comicidade, a relação dos dois chega quase aos delírios, apontando a dependência constante que um tinha sobre o outro.

Com uma ambientação de época impecável (não muito diferente de outros filmes do gênero), Promessa ao Amanhecer  traz também as incríveis performances de Charlotte Gainsbourg e Pierre Niney, em uma química invejável (em especial, é importante ressaltar o desenvolvimento de Pierre, que a cada dia se mostra um ator melhor e mais versátil). Ambos encontram as medidas certas de seus personagens, sem nunca ir além do que é realmente necessário (evitando que suas atuações caiam na cafonice, mesmo em cenas mais histriônicas). Em um determinado trecho, o filho recebe a visita da mãe no quartel e, mesmo entre os deboches dos amigos, Romain retribui o ato com um abraço. Este gesto e a revelação que temos posteriormente, já nos minutos finais da fita, nos dizem muito sobre o ligamento quase simbiótico que se estabelece entre estes dois seres que se amam – e isso transborda da tela para atingir o espectador. Promessa ao Amanhecer é um relato apaixonante sobre o amor materno e o quanto ele é capaz de nos marcar por toda a vida.

“A Raposa Má”: Um Filme de Criança Feito Para Criança

A Raposa Má  é uma coletânea de três fábulas protagonizadas pelos animais de uma pequena fazenda. Na primeira história, “Um Bebê Para Entregar”, um porco conta com a ajuda de seus parceiros atrapalhados (um pato e um coelho) para levar um recém-nascido até a casa de seus pais; no segundo ato (que dá nome ao filme), uma raposa sem tanta vocação para a maldade seqüestra os filhos de uma galinha, mas o plano acaba não dando muito certo; finalmente em “Precisamos Salvar o Natal”, um grupo de amigos parte em uma missão importantíssima: substituir Papai Noel (que eles acreditam estar morto) na noite de Natal.

Dirigida pela dupla Patrick Imbert e Benjamin Renner (este último, uma das mentes brilhantes por trás de Ernest e Célestine, de 2012), A Raposa Má  não é uma animação muito requintada ou elaborada – especialmente em uma época em que este gênero deixou de ser voltado exclusivamente para crianças, atingindo uma audiência adulta cada vez maior e mais exigente. Vencedor do César de melhor filme de animação deste ano, A Raposa Má  é uma obra relativamente simples, sem rodeios, que através de seus três contos traz ao público infantil temas como a amizade, a vida em família e solidariedade. Visualmente belo, as cores dos desenhos em aquarela são suaves, contornadas por traços fortes que dão uma identidade própria ao longa. Com um humor inocente e uma leveza narrativa muito peculiar, A Raposa Má  cumpre seu papel de entreter os baixinhos sem recorrer a tramas fantásticas ou cenários mirabolantes – que, em vários casos, só enchem os olhos e pouco falam. Sem caráter moralizador, A Raposa Má  não será, para muitos, um título impactante ou marcante, é verdade; mas é sempre reconfortante e agradável ver um filme de criança sendo feito para criança e com qualidade.

“Todo Dia”: Mais um Romance Adolescente Irrelevante

Não importa o lugar, gênero ou personalidade: “A” acorda todo dia em um corpo diferente e precisa se adaptar a este novo corpo, ainda que apenas por um dia. Após tanto tempo vivendo dessa maneira, “A” já sabe exatamente que não deve se envolver e muito menos interferir na vida destas pessoas. Tudo vai bem até o dia em que “A” amanhece no corpo do adolescente Justin e conhece sua namorada, Rhiannon, por quem acaba se apaixonando.

Baseado no Best-seller de David Levithan e dirigido por Michael Sucsy, Todo Dia  tem uma premissa interessante e original, infelizmente prejudicada por um roteiro que não se aprofunda em questões que, aparentemente, deveriam ser exploradas, como a importância de se viver intensamente como se fosse o último dia. O argumento meio que inverte o protagonismo da história em sua segunda parte – e isso reduz a trama a um simples romance adolescente. Com um incrível potencial, porém desperdiçado, Todo Dia  centra sua narrativa mais nas dificuldades de se amar alguém sem saber o que vai acontecer em seguida, enquanto faz alusão também aos relacionamentos baseados puramente em atração física – mas isso tudo muito superficialmente, fazendo com que Todo Dia  não vá alem de um filme bonitinho pra Sessão da Tarde, mas sem muita relevância como a obra que o originou.

“Custódia”: Tensão e Ambiguidade Marcam Drama Francês Sobre Violência Doméstica

O amor é a coisa mais triste quando se desfaz…”, já dizia uma velha canção popular brasileira. De fato, quando o amor acaba sempre há um lado que sai machucado – ou vários. Para Miriam (Léa Drucker) e Antoine (Denis Ménochet), a separação é inevitável – o que resta agora é brigar na justiça pela guarda do filho Julien (Thomas Gioria).

Xavier Legrand tem dois grandes méritos com Custódia. O primeiro deles é ótimo roteiro, que abraça a ambiguidade para construir uma narrativa inquietante. “Eu não sei qual dos dois é o mais mentiroso…”, diz a juíza ao casal durante a audiência que determina a custódia compartilhada da criança. Esta afirmação, porém, é a mesma que fazemos: ficamos na dúvida se o depoimento do garoto foi manipulado pela mãe, como se ele estivesse sendo usado por ela para se vingar do ex-marido, ou se, de fato, estamos diante de um pai agressivo. Esta dúvida nos persegue durante as duas primeiras partes do filme, uma vez que não conseguimos definir de imediato quem é quem nesta história. Aos poucos, no entanto, vamos desnudando a verdadeira relação entre aqueles familiares, através de pequenas situações que revelam a natureza de cada um dos personagens.

O segundo acerto de Legrand é sua competente direção, em especial na terceira e última parte da fita. É interessante notar o desempenho do cineasta na manipulação do público, tanto na ambiguidade dos primeiros atos quanto na tensão que se estabelece ao final, quando as máscaras caem de vez e a agonia toma conta da tela. A cena da festa de aniversário é o melhor exemplo do talento do diretor: a pouca iluminação contrasta com a música que contagia os convidados; uma mensagem é recebida; do lado de fora, cônjuges discutem; pouco tempo depois, um jovem casal organiza o salão no fim da noite – enfim, ficamos sempre na expectativa de algo muito sério que está por vir. Seja nos usos eficientes da luz e trilha sonora ou na edição precisa do longa, Legrand se apropria destes elementos para estabelecer uma conexão com o espectador: ele se torna íntimo daqueles personagens, praticamente tendo as mesmas sensações que eles.

Particularmente, confesso que poucas vezes saí do cinema tão perturbado, mexido, transtornado como depois de assistir Custódia. Para um diretor relativamente inexperiente, Legrand nos entrega um filme marcado por um excelente rigor cinematográfico. Artifícios técnicos (e psicológicos) são precisamente empregados para abordar um tema incômodo e, mais do que nunca, universal: a violência doméstica. O final apoteótico, por si, já fala muito e nos faz ficar com o filme na cabeça por muito tempo depois.

O Último Suspiro

Após um terremoto, uma enorme neblina misteriosamente invade Paris, dizimando grande parte da população. Aqueles que moram nos prédios mais altos têm a chance de sobreviver, já que a névoa pára a certa altura, formando uma espécie de teto que toma conta da cidade. Tudo o que resta é esperar por uma solução que parece estar longe de chegar. Neste cenário caótico, o casal Mathieu (Romain Duris) e Anna (Olga Kurylenko) luta pela sobrevivência e a vida de sua filha Sarah, uma jovem que, devido a uma doença genética, fica constantemente confinada a uma câmera estéril.

Dirigido por Daniel Roby, O Último Suspiro  é um daqueles filmes de definição imprecisa. Devido sua narrativa um tanto peculiar, é difícil situa-lo como uma ficção cientifica, um thriller, um drama pós-apocalíptico, uma fantasia ou o que quer que seja. É uma produção bastante moderada, que passa longe de qualquer blockbuster norte-americano, mas que também sofre com uma ausência de profundidade que o impede de se destacar como outros títulos franceses contemporâneos, como o recente A Noite Devorou o Mundo. Assim, O Último Suspiro  não conseguir ir muito além. Apesar das visíveis tentativas em criar um clima de tensão, o roteiro apresenta soluções que pouco convencem – isto sem mencionar o didatismo do mesmo em inúmeras passagens. O que vemos na tela são heróis que muito tentam, mas pouco conseguem fazer efetivamente, em uma corrida contra o tempo que se mostra desestimulante. Ainda que seja uma obra cheia de boas intenções, O Último Suspiro  peca por ficar em cima do muro, sendo prejudicado até mesmo pela falta da megalomania tão comum a outros filmes do gênero.