Johnny O’Hara é acusado de assassinar seu patrão, Bill Sheffield, mas tem um álibi que poderia inocentá-lo: na noite do crime, ele estava em companhia de Katrina Lanzetta, esposa de um poderoso chefe do crime local e com quem Johnny vivia um romance. Embora insista na sua inocência, o jovem decide omitir o encontro com a amada às autoridades, temendo pela vida de Katrina. Tudo que lhe resta é confiar no talento e na experiência de James Curtayne, amigo da família e outrora um respeitado promotor cuja carreira foi destruída pelo alcoolismo e que agora tem uma atuação mais discreta como advogado de causas civis.
Combinando elementos do gênero noir e do filme de tribunal, A um passo do fim é uma das obras mais sólidas do início da carreira de John Sturges – cineasta que se notabilizaria por seus westerns a partir da década de 1950, como Sem Lei e Sem Alma (1957), Duelo de Titãs (1959) e Sete Homens e um Destino (1960), remake norte-americano do clássico Os Sete Samurais (1954), de Akira Kurosawa. O filme de 1951 já antecipa alguns temas que se tornariam recorrentes em títulos posteriores do diretor (como culpa, redenção, honra), mas, sobretudo, demonstra seu interesse por personagens moralmente complexos.

E A um passo do fim, de fato, confirma esse interesse: vivido por um competente Spencer Tracy, Curtayne é um tipo intrigante, não apenas por ser o advogado que vai até o limite para provar a inocência de seu cliente, mas principalmente por sua fragilidade: suas decisões questionáveis tanto no passado quanto no presente interferem diretamente no caso, tornando-o um personagem profundamente falível e contraditório. Curtayne tem acertos e erros, hesita e se precipita, ele falha, mas persiste – e é justamente nessa contradição que reside sua humanidade: a absolvição de O’Hara deixa de ser apenas um objetivo profissional e se transforma também em uma oportunidade de Curtayne provar a si mesmo que ainda é capaz de fazer o que é certo, de ser alguém de valor. Enfim, é um árduo caminho em busca de redenção.
Ao acompanhar essa trajetória de (possível) redenção, A um passo do fim vai além do mero drama de tribunal. Sturges não parece preocupado em construir um herói infalível, imune a erros; ao contrário, nota-se uma inclinação à observação daquilo que acontece quando alguém marcado pelos próprios fracassos tem uma nova oportunidade de fazer aquilo que considera correto. Nesse aspecto, toda a trama investigativa e o desenrolar do julgamento funcionam como uma espécie de contraponto ao real conflito do filme: a luta de Curtayne contra si mesmo. Ele é o seu maior inimigo – e é aqui que Sturges, ainda distante do cineasta de westerns e ação que se consolidaria nos anos seguintes, reafirma sua predileção por figuras imperfeitas (homens, em sua quase totalidade), colocadas diante de situações extremas que as obrigam a questionar suas escolhas. Com isso, A um passo do fim se estabelece como uma obra competente, cujo mistério policial serve menos à descoberta do criminoso do que à reconstrução de um homem que, ao tentar salvar o mundo à sua volta, encontra a possibilidade salvar a si mesmo.








