“Gutland”: Muita Expectativa, Pouco Resultado

O alemão Jens Fauser é um misterioso forasteiro que acaba de chegar a uma pequena aldeia em Luxemburgo, onde tenta recomeçar sua vida (e se esconder das autoridades) após participar de um assalto. Embora haja uma resistência inicial dos moradores, Jens consegue um emprego na colheita local, onde conhece Lucy, a filha do prefeito da cidade. À medida que aprofunda sua relação com a garota e se integra à comunidade, Jens descobre que não é o único com um passado tenebroso a esconder.

Dirigido por Govinda Van Maele e representante oficial de Luxemburgo ao Oscar de melhor filme estrangeiro, Gutland  é uma obra de suspense cujo suspense não chega necessariamente a ser seu grande triunfo. Na verdade, o roteiro do cineasta, em parceria com Razvan Radulescu, busca evocar um clima de mistério mas, apesar da boa tentativa (favorecida pela fotografia campestre, bucólica, idílica, que capta os costumes daquela região tanto nos planos gerais externos quanto nas tomadas internas) não consegue, de fato, chegar a um resultado conclusivo. Tudo é muito vago – e não sabemos dizer se é devido à falta de desenvolvimento do argumento ou simples intenção do diretor em apresentar uma proposta que estimulasse mais o espectador (o que só funciona até certo ponto da história). Apesar da competência do protagonista de Frederick Lau, do carisma de Vicky Krieps (de Trama Fantasma  e O Jovem Karl Marx) e do aspecto noir  da fita, Gutland  é um filme do qual se espera muito, mas se entrega pouco, não obtendo tanta relevância dentro da produção luxemburguesa atual.

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“Malila: A Flor do Adeus”: O Amor Que Ultrapassa a Vida e a Morte

Drama tailandês pré-selecionado ao Oscar de melhor filme estrangeiro, Malila: A Flor do Adeus  narra o reencontro de dois ex-amantes unidos, até certo ponto, pela dor do luto: enquanto Pitch (que sofre de câncer terminal) perdera a mãe, Shane lamenta a morte da filha e o casamento fracassado.

Dirigido pela cineasta transexual Anucha Boonyawatana, Malila  é um filme repleto de simbologia, especialmente por tratar questões ligadas a tradições orientais (os próprios Baisri, arranjos florais feitos por Pitch em seus últimos dias, possuem um grande significado para aquela cultura) – o que, fatalmente, pode dispersar o espectador menos acostumado. Além disso, a fita sofre com seu ritmo arrastado e ausência de diálogos, especialmente a partir de sua segunda metade, quando um dos personagens parte em uma jornada espiritual, como se em busca de absolvição. A estrutura narrativa também se mostra confusa: não temos muita noção de tempo, lugar, duração, principalmente durante as cenas entre os dois amantes, já que eles perambulam pra lá e pra cá, em meio à paisagem campestre, como se para o filme promover um estágio de contemplação que, na verdade, não é tão estimulante. Para piorar, a fotografia apagada contribui muito ao clima monótono da obra.

Ainda assim, Malila  possui alguns bons momentos – curiosamente, as sequencias de intimidade entre o casal, onde o jogo de sombras é muito bem empregado. É válido também ressaltar que, apesar do roteiro aparentemente desalinhado, Malila  é uma história sobre o amor eterno, daqueles que nem a morte é capaz de separar: o relacionamento entre Pitch e Shane transcende o corpo material, atingindo o espírito (que é perene). O filme sugere que dois espíritos, quando se amam verdadeiramente, de alguma forma estarão sempre unidos – tanto na vida quanto na morte. É uma pena, portanto, que a execução a execução de Malila  não seja das melhores, o que impede que a experiência promovida seja mais satisfatória.

“Culpa”: Thriller Dinamarquês é Sucinto e Repleto de Tensão

Em uma delegacia dinamarquesa, o policial Asger Holm está cuidando das chamadas de emergência daquela noite. Prestes a encerrar seu turno, Asger recebe uma ligação: uma mulher acabara de ser sequestrada. Quando a chamada é subitamente interrompida, o policial inicia uma desenfreada corrida contra o tempo para descobrir a identidade dos envolvidos e salvar a vida daquela mulher. Tendo o telefone como seu único recurso, aos poucos Asger percebe que o crime que tem a resolver é muito maior do que parece.

Pré-indicado da Dinamarca ao Oscar de melhor filme estrangeiro, Culpa  é um excepcional thriller  cujo maior triunfo está na precisão com o qual o estreante Gustav Möller utiliza pouquíssimos elementos para criar um clima de tensão surpreendente, sem que o filme soe repetitivo – isto porque só temos em tela praticamente um só personagem, além do fato de toda a narrativa se desenvolver em único ambiente: a delegacia de polícia. Diferente do que podemos esperar do gênero (onde a imagem é fundamental para inserir o espectador dentro da história), aqui somos estimulados a imaginar a ação, especialmente por conta do excelente trabalho de edição de som (diálogos, ruídos, silêncio), que sugere muito aquilo que está do outro lado da linha, mesmo que em cena não vejamos nada além da figura de Asger, um personagem com um conflito bem estabelecido e que é muito favorecido pela eficiente performance de Jakob Cedergren. A fotografia e edição também colaboram muito à atmosfera pretendida: a câmera do diretor aposta em inúmeros close-ups e planos detalhes, o que aumenta a tensão e faz com que o espectador, assim como Asger, queira desvendar o crime o mais rápido possível, com as diversas situações ocorrendo em tempo real. Todas essas características fazem de Culpa  uma obra ousada e provocante, daquelas que não deixam o espectador desgrudar os olhos da tela – e acreditar também que nem tudo é o que parece ser.

10 Filmes Imperdíveis da 42ª Mostra Internacional de Cinema de SP

Já faz parte do calendário paulista: outubro é mês da Mostra Internacional de Cinema de SP! Neste ano, a edição acontece entre os dias 18 e 31 de outubro e abrangerá mais de 30 espaços, entre cinemas, museus e outros locais culturais da capital paulista. No total, serão mais de 300 títulos das mais variadas cinematografias e países – incluindo a seleção de 18 obras já indicadas por seus respectivos países para concorrerem a uma vaga ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Além disso, a Mostra trará mais de 20 filmes em realidade virtual. Entre os títulos, está o francês A Ilha dos Mortos, animação de Benjamin Nuel, premiada no Festival de Veneza 2018 com o Leão de Ouro pelo uso da técnica. No espaço, haverá também uma instalação para celebrar a obra Chalkroom, produzida em VR (virtual reality) pela artista multimídia Laurie Anderson (que assina o pôster e a vinheta do festival).

Para dar aquela forcinha, selecionei aqui 10 filmes imperdíveis desta Mostra:

A CASA QUE JACK CONSTRUIU (The House That Jack Built, de Lars Von Trier)
Este é o mais novo filme do controverso Lars Von Trier, que passou por diversos festivais mundiais e dividiu opiniões (em Cannes, por exemplo, o filme foi tanto vaiado quanto ovacionado).

Cena de “A Casa que Jack Construiu”, de Lars Von Trier.

AS FAVORITAS (The Favourite, de Yorgos Lanthimos)
As Favoritas  rendeu a Olivia Colman o premio de melhor atriz no Festival de Veneza, por sua atuação como a Rainha Anne durante a Inglaterra do século XVIII em guerra com a França.

ASSUNTO DE FAMÍLIA (Manbiki Kazoku, de Hirokasu Kore-eda)
Além de ser a aposta japonesa ao Oscar de melhor filme estrangeiro, Assunto de Família levou a Palma de Ouro em Cannes nesta última edição.

EM CHAMAS (Beoning, de Chang-Dong Lee)
Em Chamas  não faturou a Palma de Ouro este ano, mas foi uma das obras mais elogiadas do festival e é o grande favorito ao Oscar de filme estrangeiro no próximo ano.

GUERRA FRIA (Zimma Wojna, de Pawel Pawlikovski)
Guerra Fria  também passou por Cannes este ano, onde arrancou elogios da crítica. Além disso, o filme é dirigido por Pawel Pawlikovski – que faturou a estatueta de melhor produção estrangeira com Ida.

IMAGEM E PALAVRA (Le Livre d’Image, de Jean-Luc Godard)
Uma das surpresas de Cannes foi Imagem e Palavra, novo trabalho da lenda viva do cinema Jean-Luc Godard. Não é preciso falar mais nada.

INFILTRADO NA KLAN (BlacKkKlansman, de Spike Lee)
Um dos grandes favoritos nas principais categorias do Oscar no próximo ano, Infiltrado na Klan foi um dos destaques de Cannes e traz Spike Lee na direção.

O GRANDE CIRCO MÍSTICO (O Grande Circo Místico, de Cacá Diegues)
Apesar de não ter sido muito bem recebido nos festivais em que participou, O Grande Circo Místico  é o novo filme de Cacá Diegues – e representante oficial do Brasil ao Oscar.

Cena de “O Grande Circo Místico”, de Cacá Diegues.

ROMA (Roma, de Alfonso Cuarón)
Dirigido pelo oscarizado Alfonso Cuarón, Roma  foi o primeiro filme produzido pela Netflix a levar o Leão de Ouro, em Veneza.

THE MAN WHO KILLED DON QUIXOTE (The Man Who Killed Don Quixote, de Terry Gilliam)
Após anos e inúmeras tentativas fracassadas, Terry Gilliam conseguiu finalizar sua obra (considerada “maldita” pelos mais supersticiosos) – cuja produção conturbada nos anos 90 virou até documentário.

“Nasce Uma Estrela”: Um Filme Feito Sob Medida Para Lady Gaga

Em sua estreia como diretor, Bradley Cooper apostou em um projeto que não tinha como dar errado: o remake  do clássico Nasce Uma Estrela  (o quarto, para ser mais exato), um filme descaradamente feito sob medida para Lady Gaga. A trama, que acompanha o relacionamento conturbado entre o astro do rock Jackson Maine e a jovem cantora Ally, caiu como uma luva para ser a Lady Gaga o que Evita  foi para Madonna, praticamente um presente de Cooper com um bilhete dizendo “Toma, Gaga, vem cá, vamos esfregar seu talento na cara dos haters, ok?”.

E, de fato, a cantora (e agora atriz) não decepciona: Gaga chama o filme pra si. Não que a personagem exija muito dela, mas a artista tem um carisma inegável – isto sem mencionar os dotes musicais já conhecidos pelo público. Aliás, a trilha sonora de Nasce uma Estrela  é irretocável: Shallow, por exemplo, carro-chefe do longa, é até aqui uma das favoritas ao Oscar de melhor canção no próximo ano. Gaga até ofusca o protagonista de Cooper que, com sua barba e cabelos desgrenhados, entrega uma atuação no máximo mediana, destacando-se, sobretudo, na parte vocal. Juntos, felizmente, a dupla mantém uma química interessante em cena.

O roteiro, no entanto, carrega uma forte carga melodramática, algo que em décadas anteriores até caía bem – hoje nem tanto. A forma como o argumento desenvolve os personagens enquanto “artistas” é desestimulante, especialmente na segunda metade da fita, com a decadência de Jack (destinada desde o início, o que não permite ao espectador digerir essa transição) e a ascensão de Ally (que, no ato final, nada mais é do que uma paródia da própria Lady Gaga). Assim, as melhores sequencias de Nasce Uma Estrela  são os momentos de diálogos e intimidades entre o casal e um ou outro número musical mais empolgantes. No conjunto da obra, este Nasce Uma Estrela  é um filme sonora e visualmente bem executado, mas que não passaria de uma produção genérica não fosse o apelo da história e, claro, os astros que a estrelam.

Vencedor de Cannes 2018, “Assunto de Família” Questiona Laços Afetivos e Sanguíneos

O que é mais forte: os laços afetivos ou aqueles de sangue? Este certamente é o questionamento que passa por nossas cabeças ao assistir Assunto de Família, drama do japonês Hirokasu Koreeda (de Pais e Filhos, 2013) sobre um núcleo familiar “informal”, formado às margens da sociedade.

Osamu (Lily Franky) é o chefe de uma família aparentemente tradicional, mas que aos poucos revela suas idiossincrasias. Sem trabalho fixo, ele vive de pequenos furtos ao lado do filho Shota (Jyo Kairi), enquanto sua esposa, Nobuyo (Sakura Andou), se reveza entre os afazeres domésticos e um emprego modesto. Eles dividem a humilde residência com a avó Hatsue (Kirin Kiki) e a jovem Aki (Mayu Matsuoka) e, apesar das dificuldades, estes membros rejeitados de outras famílias parecem viver em harmonia. A rotina do lar, no entanto, é afetada com a chegada de Yuri (Miyu Sasaki), uma garota resgatada das ruas com evidentes sinais de maus tratos.

Ao longo de suas duas horas de projeção, Assunto de Família  traça o cotidiano destas pessoas, fazendo com que o espectador se torne também parte da família. O cineasta (experiente em histórias sobre famílias) não presta julgamento moral algum aos seus personagens, tratando cada um deles com bastante carinho, permitindo ao público que tenhamos empatia por eles – o que, de fato, parece ser a proposta deste projeto. Mais do que isso: apesar de não concordarmos com suas atitudes, somos capazes de compreender suas motivações, algo que só é possível a partir do momento em que temos sensibilidade suficiente para nos colocar no lugar do outro.

O desfecho da narrativa, entretanto, pode parecer ambíguo à abordagem do diretor: curiosamente, o que afeta a paz desta família não são agentes externos a ela, mas o conflito pessoal do pequeno Shota, quando este passa a questionar o estilo de vida que levam. A partir daí, tudo no longa passa a acontecer rápido demais (em oposição à introdução um tanto lenta), o que não compromete o conjunto da obra, felizmente. Ainda que melancólico, Assunto de Família  é um filme que, sobretudo, nos possibilita olhar para o próximo com empatia e, assim, acreditar no outro e no poder do amor.

Pixote: A Lei do Mais Fraco

Rodado em plena ditadura militar no país, Pixote: A Lei do Mais Fraco  é um dos filmes mais relevantes do nosso cinema e certamente a obra mais significativa da filmografia do argentino Hector Babenco, antecipando temas que dialogariam com outros de seus trabalhos mais notáveis, como O Beijo da Mulher-Aranha  e Carandiru. Narrado sem a tradicional linearidade “começo-meio-fim”, Pixote  é um retrato cruel e indigesto do cotidiano de miséria, de abandono e violência de um garoto de apenas onze anos, que nunca conhecera os pais e sobrevive de pequenos delitos nas ruas da capital paulista. Após um período de confinamento em um reformatório (algo como a antiga FEBEM – Fundação Estadual Para o Bem Estar do Menor, hoje Fundação Casa), onde presencia estupros, espancamentos, corrupção e assassinatos, Pixote escapa da instituição ao lado de outros jovens infratores e adentra de vez no mundo do crime.

Eu vi um menino correndo. Eu vi o tempo brincando ao redor do caminho daquele menino…
Eu pus os meus pés no riacho e acho que nunca os tirei…

Apesar do lirismo em alguns momentos (como na cena em que um dos meninos canta trechos de “Força Estranha” ou na sequência final, quando Pixote suga o seio da prostituta Sueli – a irrepreensível Marília Pêra), Pixote  é um filme que produz asco como, de fato, precisava ser ao se tratar um tema tão horripilante. É interessante notar, no entanto, o carinho com o qual as lentes de Babenco capturam esses personagens, fazendo com que o público, ainda que não goste deles, é verdade, aceite que eles existem no mundo real e precisam ser ouvidos. Pixote  é ousado ao tocar nesta ferida de forma tão crua e, assim como seu protagonista, sem o menor lampejo de esperança, em uma radiografia franca sobre uma minoria esquecida e sem perspectivas, que lançaria seu idealizador ao estrelato do dia para a noite. Infelizmente, neste caso, a vida imita a arte: Fernando Ramos da Silva, o intérprete de Pixote, retornaria pouco tempo depois à favela e ao crime, sendo assassinado por policiais em 1987, com apenas 19 anos. Pixote  é, sim, uma obra suja, feia e intragável em sua natureza e, justamente por isso, é tão necessária ao trazer à luz uma realidade tão negligenciada.