Há quem afirme que, desde Elle (2016), obra pela qual recebeu uma indicação ao Oscar de melhor atriz, Isabelle Huppert não tenha feito boas escolhas na carreira (mesmo tendo trabalhado ao lado de cineastas competentes como Michael Haneke, Hong Sang-soo ou François Ozon). De fato, os filmes posteriores ao sedutor thriller de Paul Verhoeven parecem não fazer jus ao talento inegável da intérprete que, apesar disso, segue entregando performances envolventes que confirmam o prestígio conquistado ao longo dos anos. A Dona do Barato, de Jean-Paul Salomé, é um desses títulos que pode passar despercebido na extensa filmografia da atriz – mas que, para aqueles sem muita expectativa, pode render um entretenimento satisfatório.
Huppert é a tal personagem do título, Patience Portefeux – uma tradutora franco-árabe a serviço de um esquadrão antidrogas em Paris. Na vida pessoal, Patience vive com a corda no pescoço: ela paga há anos uma dívida contraída pelo falecido esposo, além de se desdobrar para arcar com o condomínio, os custos da casa de repouso da mãe com Alzheimer e as demais contas da casa. Quando tem a oportunidade de faturar uma grana por fora, Patience não hesita: ao tentar ajudar o filho imigrante da mulher que cuida de sua mãe, ela torna-se uma traficante de drogas, enquanto mantém seu emprego e passa a “investigar” a si mesma.
Entre tentativas de romance com o colega de trabalho, o desenvolvimento de uma amizade com a síndica do prédio, conversas com as filhas e, claro, negociações com revendedores, Patience vai se infiltrando no submundo que ela mesma deveria combater. Valendo-se de sua fluência em outro idioma e de informações privilegiadas de dentro da polícia, a protagonista consegue, aos poucos, fazer seu “pé de meia” – mas até onde ela será capaz de ir sem deixar rastros? Nesse sentido, talvez a maior limitação de A Dona do Barato seja não saber exatamente a que veio: apesar de sua execução correta, a trama permanece em um eterno “chove-não-molha” entre diversos gêneros, como se dependesse exclusivamente do carisma de Huppert – que não decepciona, é verdade, mas também não entrega uma atuação extraordinária como em outras produções. Assim, o espectador só tem diante de si a tarefa de acompanhar o desenrolar de uma história que, entre altos e baixos, entretém mas não cativa. O desfecho, esse sim um tanto apático, acaba deixando a sensação de que o crime, no fundo, compensa – desperdiçando a oportunidade de trazer uma camada “redentora” à personagem, o que provavelmente tornaria A Dona do Barato um filme mais interessante.









