Às vésperas de um importante evento de moda na badalada – mas, aqui, também melancólica – Paris, três mulheres enfrentam seus dilemas pessoais: uma cineasta que, enquanto tenta se reaproximar da filha adolescente, é diagnosticada com um câncer; uma garota sul-sudanesa, aposta promissora de uma marca famosa, apesar de não demonstrar qualquer talento para a profissão de modelo; e uma maquiadora, aspirante a escritora, que vive de pequenos bicos.
A julgar por seu título nacional, Vidas Entrelaçadas, é de se supor que, em tese, essas três trajetórias femininas apontam para um lugar comum; entretanto, o filme dirigido por Alice Winocour (de Augustine e A Jornada) trata essas histórias paralelamente, recusando qualquer convergência mais evidente entre elas. Embora eventualmente essas personagens se cruzem no decorrer da história, o roteiro delineia esses conflitos à distância, como se estivesse mais interessado na justaposição das experiências individuais do que em sua fusão.
Essa estrutura dispersa não é necessariamente ruim; pelo contrário, ela reforça a sensação de isolamento que perpassa as três protagonistas, ainda que inseridas em um ambiente tão coletivo e glamouroso quanto o da alta costura. Sob certo aspecto, a obra sugere uma crítica à dificuldade contemporânea de conexões, mesmo em um contexto atual mediado por instrumentos que, em teoria, aproximariam essas pessoas. Portanto, longe de soar como falha (como muitos podem argumentar), essa ausência de um entrelaçamento mais “concreto” é uma característica narrativa que acentua a fragilidade desses corpos, que habitam um mesmo espaço, mas não dividem o mesmo mundo.
Elas vivem, inclusive, um mesmo impasse profissional, à medida que atuam em funções que não correspondem a seus desejos ou aspirações mais íntimas: Maxine, cineasta mais alternativa, só aceita produzir um vídeo para o desfile pelo cachê; Ada é seduzida pelo universo da moda, que lhe permite uma rápida ascensão, mas lhe cobra um alto preço, fazendo-a abdicar de sua vocação genuína; Angèle, por sua vez, busca firmar-se como escritora, quase às escondidas, adiando constantemente seu sonho para dedicar-se à sobrevivência imediata. Todas elas ocupam lugares que não são propriamente seus, como se fossem versões provisórias de si mesmas, sobrepostas às suas identidades mais autênticas.
É notório, todavia, que o argumento privilegia um desses núcleos, aquele protagonizado por Angelina Jolie, que toma a maior parte do filme com seu drama rocambolesco. É na sobriedade e, sobretudo, na presença hipnótica de Jolie que a história de Maxine se sustenta, mesmo que às custas de um melhor desenvolvimento das demais tramas, principalmente a de Angèle, interpretada por Ella Rumpf. As figuras masculinas, por sua vez, são poucas e surgem parcamente, mas completam o elenco europeu estelar: um mal aproveitado Finnegan Oldfield, limitado a uma única cena; um Vincent Lindon, em modo automático, no papel do médico responsável por revelar a doença de Maxine; e Louis Garrel, assistente da diretora – e, à semelhança de Jolie, dotado de um magnetismo que é imediatamente reconhecido pela câmera, ainda que o roteiro pouco explore seu potencial.
Justamente por todas essas escolhas, Vidas Entrelaçadas pode parecer funcionar melhor em partes, como se o mosaico que se propõe não fosse coeso em sua integralidade. Visualmente atraente, é um filme que pode gerar identificação, mas que, ao evitar o confronto mais direto entre suas linhas narrativas, acaba tornando menos incisivo o impacto que poderia causar no espectador. Revela-se, desse modo, um conjunto de intenções que, fragmentadas, encontram ressonâncias, ainda que o conjunto não se articule plenamente.









