Sarah Bernhardt é frequentemente citada como a “primeira celebridade mundial”: em um período em que não havia redes sociais ou meios de comunicação instantânea, a atriz francesa explorou todos os recursos disponíveis à época para construir uma faceta pública que extrapolava os palcos. Entre fotografias cuidadosamente produzidas, aparições públicas, entrevistas polêmicas e uma personalidade incomum que desafiava as convenções de seu tempo, Sarah transformou sua própria figura em um espetáculo, fazendo de seu nome uma marca reconhecida internacionalmente. É essa personagem controversa que Guillaume Nicloux busca retratar na cinebiografia A Divina Sarah Bernhardt. Através de uma estrutura fragmentada de suas memórias, o filme acompanha não apenas o auge de sua carreira, mas também o fim de sua vida, revelando os contrastes entre a imagem que projetava ao mundo e a mulher que existia por trás dela.
Sandrine Kiberlain, intérprete extremamente versátil, que trafega entre o drama e a comédia com total desenvoltura, entrega uma de suas melhores performances até aqui: sua Sarah equilibra momentos de intensidade dramática e irreverência, intimidade e exuberância, revelando as contradições entre a celebridade e o ser humano por trás do mito. O roteiro, todavia, nem sempre é capaz de explorar todas as nuances dessa mulher tão singular: ao concentrar boa parte de sua narrativa nos bastidores, o filme deixa em segundo plano toda a genialidade artística que fez Sarah ser conhecida como “a divina”. Temos acesso à persona, mas não somos capazes de reconhecer a fundo a atriz que encantou inúmeras plateias no início do século XX. Claro, isso é uma escolha: as cinebiografias, em geral, optam por trazer um recorte da vida de seu protagonista ou selecionam momentos que julgam mais interessantes para o público. Mas ao apresentar a mãe amorosa, a amante manipuladora, a paciente debilitada, sob uma atmosfera pesarosa, que privilegia a melancolia do declínio físico e os conflitos pessoais de Sarah, a tal “divina”, referência à artista excepcional que ela foi, nunca é alcançada.









