Jessica Chastain é a Estrela de “A Grande Jogada”

Após um grave acidente que a impediu de participar dos Jogos Olímpicos, Molly Bloom (Jessica Chastain) decidiu mudar-se para Los Angeles e recomeçar sua vida. Ex-promessa do esqui norte-americano, não demora muito até que a jovem conheça o mundo da jogatina, tornando-se a responsável pelo gerenciamento de um clube de pôquer milionário, que envolvia celebridades mundiais e a máfia russa.

A Grande Jogada é o filme de estreia de Aaron Sorkin, respeitado roteirista hollywoodiano, vencedor do Oscar de melhor roteiro adaptado por A Rede Social, de 2010. E Sorkin traz sua marca registrada para A Grande Jogada: bem escrito, seu argumento, inspirado no livro da própria “princesa do pôquer” (como Bloom ficou conhecida), traz diálogos ligeiros e repletos de informação (um didatismo que ajuda muito para quem não tem familiaridade com os temas propostos) – e isso traz bastante agilidade à trama, mesmo que ela seja relativamente longa, o que dá espaço suficiente para que a história seja bem desenvolvida e não haja muitas pontas. Assim, Sorkin não tem dificuldade na direção da fita, entregando um trabalho que, se não é excepcional, ao menos cumpre aquilo que promete: um drama criminal que desperta a curiosidade do público, mesmo que o tema não seja tão “popular”.

Com mais uma atuação acima da média, Jessica Chastain desponta como uma das maiores atrizes de sua geração. Mesmo com uma carreira relativamente curta, Chastain coleciona personagens fortes e “empoderados”. Aqui não é diferente: sua Molly é uma protagonista única, daquelas que sabem o que quer e o que exatamente precisa fazer para alcançar este objetivo. Jessica faz um tipo cheio de personalidade, que sabe como usar o que tem à sua disposição para chegar ao topo. A Grande Jogada é absolutamente seu e é interessante perceber o turbilhão de emoções de Molly, transformando-a em uma personagem “humana”, palpável: ela pode ser durona, sim, mas sofre calada com a arrogância do pai exigente; ela pode ser sedutora, sim, sabendo como manter os homens por perto, mas sempre à certa distância.

Algumas escolhas da fita, entretanto, acabam prejudicando-a um bocado. Inicialmente, sua duração – uns 20 minutos a menos seriam ideais. A relação entre Molly e o pai, em especial já nos instantes finais, parece um tanto falsa justamente pela carga dramática que até então fora inexplorada. A forma como Molly também se posiciona em um submundo razoavelmente masculino também é questionável: toda vez em que ela está quase lá, aparece um homem para cortar suas asinhas – uma estranha “independência” difícil de ser creditada a uma mulher aparentemente tão segura. Ainda com estes pequenos deslizes, A Grande Jogada é um baita filme, com um dinamismo incrível e uma história eletrizante, daquelas que merecem ser conferidas. De quebra, traz uma esplêndida performance de uma atriz que dispensa comentários e uma estreia brilhante de um cineasta que, a julgar por este título, tem ainda muito a oferecer ao cinema.

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“Artista do Desastre” é o James Franco Que a Gente Quer Ver Sempre

Confesso que desconheço as circunstâncias e condições sob as quais foi produzido Artista do Desastre, novo longa dirigido e estrelado por James Franco – mas tudo leva a crer que este tinha tudo para ser mais uma daquelas bombas em que o workaholic James vira e mexe aposta. Felizmente, Artista do Desastre está no rol dos melhores filmes de Franco, tanto atrás das câmeras quanto à frente delas, já que somos surpreendidos com sua melhor performance desde 127 Horas.

Baseado no livro The Disaster Artist: My Life Inside The Room, de Greg Sestero e Tom Bissell, Artista do Desastre mostra o processo de produção de The Room, filme de 2003 considerado um dos piores longas do cinema em todos os tempos. Na trama, acompanhamos Sestero (Dave Franco), um jovem ator com o profundo desejo de se tornar um astro. Ao conhecer o misterioso e excêntrico Tommy Wiseau (James Franco), os dois partem para Los Angeles e decidem fazer o próprio filme (após inúmeras tentativas fracassadas de embarcar em grandes projetos). Contando com a supervisão de Wiseau (cuja origem do dinheiro era totalmente desconhecida), a dupla mal imaginava que sua obra se tornaria um sucesso cult no futuro.

Assim como o Ed Wood de Tim Burton (o roteiro segue a mesmíssima premissa), Artista do Desastre é uma daquelas comédias de absurdo, em alguns momentos quase surreal, que causa estranheza logo de início. Entretanto, é interessante o quanto o argumento consegue desenvolver a história sem caracterizar de forma pejorativa sua personagem principal. A atuação de Franco agrega muito à narrativa: ele constrói seu Wiseau de forma cuidadosa, nada caricata, ora engraçado, ora triste, um gênio ou um embuste, frustrado por não ser compreendido mas impossível de se fazer compreender; enfim, o ator consegue dar vida a um protagonista cheio de nuances por quem é difícil ficar indiferente, mesmo com todas suas bizarrices. James, com louvor, foge de qualquer imitação fácil e acha o ponto certo, nem mais, nem menos – tanto pela própria interpretação quanto pela maquiagem que o deixam irreconhecível. Dave Franco, em sua primeira parceria com o irmão, tem menos tempo de cena mas não deixa a desejar, cumprindo satisfatoriamente a função de antagonista. Definitivamente, a relação problemática entre Sestero e Wiseau é muito bem delineada pelos irmãos Franco.

Apesar de algumas tramas paralelas no início da fita que acabam dispersando um bocado, Artista do Desastre retoma as rédeas a partir do segundo ato para não parar mais. Porém, mais do que uma fita a revelar os bastidores de um filme “ruim” (e que praticamente coloca o público dentro do set de filmagem), Artista do Desastre é também uma história sobre sonhos e não desistir deles, mesmo quando tudo ao seu redor não for muito favorável. Ok, isso é meio clichê, não é? Por sorte, Franco consegue, com muita competência, criar uma obra deliciosa, que diverte, emociona e também traz lá suas reflexões. Oxalá ele esteja tão inspirado nas próximas vezes para nos dar trabalhos que não sejam tão desastrosos como algumas de suas escolhas ao longo da carreira.

“Eu, Tonya”: Margot Robbie Arranca Elogios em Biografia de Esportista

A patinação no gelo é um esporte que ostenta charme, elegância, sofisticação – justamente o oposta da personalidade efusiva de Tonya Harding. Da infância pobre marcada pela relação conturbada com a mãe à ascensão no meio esportivo, Tonya tornou-se famosa não apenas por sua capacidade técnica mas também pelo escândalo que destruiu sua carreira: às vésperas dos Jogos Olímpicos de 1994 (naquela que seria sua segunda participação), Tonya foi acusada de planejar, ao lado do marido Jeff Gillooly, o ataque que tentou incapacitar uma de suas principais concorrentes, Nancy Kerrigan.

A grande dificuldade em se produzir cinebiografias é fugir do formato tradicional deste tipo de narrativa: a estrutura, em geral, já vem “pronta” e muitas vezes fica limitada aos eventos que buscam relatar. Eu, Tonya, por sua vez, é uma grata surpresa nesta temporada e suas maiores virtudes são a quebra da “quarta parede” e a atmosfera de falso documentário que permeia a trama. Não, esses elementos não são totalmente originais, sabemos disso; mas o roteiro de Steven Rogers (de Lado a LadoP.S. Eu te amo) consegue manipula-los de maneira inteligente, o que valoriza esta história que, sobretudo, discute o feminismo com uma abordagem irreverente, fora do comum.

Com uma performance deslumbrante, Margot Robbie é a estrela da fita. Esta é, provavelmente, sua melhor atuação até aqui (aos 27 anos, a loura coleciona bons títulos em sua filmografia) e fatalmente lhe renderá uma indicação ao premio de melhor atriz na Academia. A intérprete faz de Tonya uma protagonista com incrível carisma e empatia, ainda que suas ações nem sempre sejam vistas com bons olhos. O público torce por Tonya, mas sabe que a garota precisa tomar um rumo na vida – seja posicionando-se frente à mãe exigente (a sarcástica Allison Janney que, merecidamente, poderá ser indicada ao Oscar de melhor coadjuvante), como também dando um “chega pra lá” no marido agressor (um Sebastian Stan muito eficiente, outro grande desempenho no elenco).

Embalado por uma trilha que evoca as sonoridades das décadas de 80/90, Eu, Tonya chega de mansinho, mas se mostra uma das cinebiografias mais interessantes desta temporada. Ao “quebrar” a estrutura usual do gênero, o filme de Craig Gillespie apresenta uma fórmula não-convencional para narrar uma história atípica, inusitada e polêmica, cujos personagens não são lá exemplos a serem seguidos, é verdade; pelo contrário, são tipos problemáticos que estão sujeitos a todo e qualquer tipo de sentimento. O que os diferencia são as atitudes que tomam diante os acontecimentos de suas vidas. Eu, Tonya é uma obra sobre escolha e como elas nos afetarão em algum momento.

“Lady Bird – A Hora de Voar”: Greta Gerwig Tenta Voar Alto, Mas Não Vai Muito Longe…

Talvez a característica marcante de Lady Bird – A Hora de Voar, recebido pela crítica como um dos grandes títulos desta temporada, é o fato de o filme dirigido e roteirizado por Greta Gerwig (um dos símbolos do cinema independente norte-americano) não reinventar a roda. Pelo contrário, Lady Bird evidencia uma tendência contemporânea: a produção de filmes com “cara” de cinema alternativo, algo meio “indie” (ainda que não o seja por completo), a tratar sobre temas comuns à juventude.

No caso de Lady Bird, nossa protagonista é Christine McPherson, uma adolescente comum, igual a tantas outras de sua idade (apesar de o roteiro almejar mostrar o contrário). Ela mora com os pais na cidade de Sacramento, na Califórnia, no início dos anos 2000. O relacionamento com a mãe controladora é conturbado: com personalidades muito fortes, as duas definitivamente não combinam – logo, é pelo pai (um desempregado, em plena crise que afetou a economia do país na época) que Christine mantém uma profunda admiração. Todos os planos de Lady Bird (como Christine prefere ser chamada) são frustrados pelas situações naturais da vida: cursar uma universidade na costa leste é impossível devido às suas notas; sua “carreira” de atriz é abandonada no colégio, já que ela nunca consegue bons papéis; seu namoro não vai lá muito bem, uma vez que seu namorado possui sérios problemas de identidade. Para completar, ela não é bem a garota mais popular em seu meio; na realidade, Lady Bird é apenas mais uma na multidão.

Lady Bird é um filme, sobretudo, de memórias, daqueles capazes de fazer o espectador reviver cenas de seu passado. Percebe-se que alguns trechos da narrativa são puramente biográficos, o que contribui muito para uma identificação imediata com Christine, principalmente na primeira parte da fita. Entretanto, apesar do início promissor, o segundo ato deixa a desejar. Em suma, Lady Bird começa melhor do que termina. A trama parte para algumas soluções fáceis (a aproximação com a menina popular, a paixão pelo garoto descolado, o sentimento de vergonha dos pais, etc.). Alguns personagens convertem-se em estereótipos e até mesmo a própria Lady Bird parece ser uma versão teen da protagonista de Frances Ha (obra que lançou Greta Gerwig ao mundo e cujo argumento foi curiosamente desenvolvido pela artista), tornando Lady Bird uma espécie de prequel do longa de Noah Baumbach.

O que faz Lady Bird parecer grandioso, afinal, é a atuação impecável de Saoirse Ronan. Lady Bird é todo seu. A intérprete percorrer a tênue linha entre o humor e o drama com muita sutileza e talento e, com toda justiça, já há quem a coroe com o prêmio da Academia de melhor atriz. Já Lucas Hedges poderia render muito mais caso sua personagem fosse melhor aproveitada, enquanto Timothee Chalamet (que eu já elogiei em outras ocasiões) está visivelmente ligado no automático – ou talvez seja apatia de seu tipo mesmo, que o faz parecer desinteressante em todas as aparições. Seja como for, Lady Bird – A Hora de Voar é um longa bonito e bem produzido, é verdade – mas a melhor definição para ele é “fofinho”. Sim, Lady Bird é muito mais “fofinho” do que necessariamente “excepcional”, como muitos o tem considerado. E isso nos leva à uma conclusão: temos urgentemente que parar de achar que só porque um filme é alternativo, “indie” ou “fofinho” ele está acima da média.

“Me Chame Pelo Seu Nome”: A Beleza em Todas as Formas

Aclamado pela crítica e público, Me Chame Pelo Seu Nome desponta como um dos grandes favoritos nas principais categorias do Oscar em 2018. De fato, o longa dirigido por Luca Guadagnino, para além de sua excepcional cinematografia (o que, em minha opinião, já o configura como um dos melhores títulos do gênero neste quesito), trata com sensibilidade o despertar da paixão adolescente, tendo como cenário a idílica paisagem italiana no início dos anos 80.

É mais um verão na vida do jovem Elio (Timothee Chalamet), de 17 anos, filho único de uma família norte-americana com ascendência europeia. Tudo muda, no entanto, com a chegada de Oliver (Armie Hammer), um acadêmico convidado pelo pai do adolescente a passar as férias com a família e ajuda-lo em suas pesquisas sobre cultura greco-romana. Aos poucos, as afinidades entre Elio e Oliver se tornam mais vigorosas, fazendo vir à tona novos sentimentos que marcarão para sempre a vida do garoto.

Baseado no livro homônimo de André Aciman, o argumento de Me Chame Pelo Seu Nome é eficiente mormente ao acompanhar o crescimento de seu personagem principal e a evolução de seus sentimentos pelo hóspede tão desejado. Há quem reclame do ritmo da narrativa (provavelmente aqueles que esperam calorosas sequências de sexo entre os protagonistas, algo que – sinto informar – felizmente não acontece), alegando que a fita custa a engrenar. Com efeito, a atração entre Elio e Oliver pode até parecer imediata, logo à primeira cena, na troca de olhares do casal; mas sim, o envolvimento entre eles ocorre aos poucos, em meio a diálogos soltos, encontros casuais, toques inesperados – entre outros momentos propícios ao florescer de uma paixão.

Entretanto, quando os sentimentos são revelados, o filme ganha uma intensidade monstruosa, muito estimulada pela incrível química entre Chalamet e Hammer. Enquanto o mais velho (que nunca fora reconhecido necessariamente por seu talento, mas sobretudo por sua beleza clássica) consegue manter a distância narrativa apropriada a seu personagem (ele nunca ofusca, mas também nunca é ofuscado), Timothee tem uma atuação irretocável, conseguindo transmitir todas as ânsias, angústias, medos do tímido Elio. A menos que surja outra grande performance nesta temporada, o Oscar de melhor ator “precisa” ser dele – os últimos 15 minutos de película são arrebatadores e é ele quem faz toda a diferença para que isto ocorra. Juntos em cena, é impossível não perceber a perfeita sincronia do par – e, claro, como espectadores, nós somos incentivados a torcer por eles.

A fotografia iluminada de Sayombhu Mukdeeprom é a responsável pelo clima de veraneio da fita, capturando com precisão a paisagem campestre da Itália da década de 80. A câmera passeia com naturalidade, nos colocando como observadores da história do plano mais conveniente possível. O design de produção contribui muito para a ambientação, que nos remete ao período em questão já nos instantes iniciais. A trilha sonora, no entanto, favorece muito o filme, uma vez alocada de forma irrepreensível. Ela é tímida, mas não imperceptível e funciona como um poderoso agente na trama – senti particularmente uma certa influência das trilhas “quebradas” da nouvelle vague (como em inúmeras obras de Godard, Truffaut ou mesmo nos acordes mais recentes do cinema de Philippe Garrel).

É interessante perceber o quanto o cinema gay (uma definição a qual não gosto de recorrer) tem crescido ao longo dos anos: se antes, essas histórias ficavam muito restritas às produções baratas ou alternativas, elas vem alcançando o “mainstream” e ganhando destaque em inúmeras premiações – não apenas por sua temática, que fique claro, mas pela qualidade inegável destas produções. É o caso de Me Chame Pelo Seu Nome: talvez ele possa não trazer nada necessariamente novo (há até mesmo alguns clichês, sejamos honestos); mas sua cinematografia é, até aqui, uma das melhores no gênero, transformando este em um filme indiscutivelmente importante – especialmente quando vivemos em uma época um tanto turbulenta para a comunidade LGBT. Visual e tecnicamente belo, Me Chame Pelo Seu Nome é uma história de amor convencional, sim, mas narrada com a sensibilidade e excelência necessários para transforma-lo em um “cinema gay” de primeiro escalão.

“Assim é a Vida”: Comédia do Ano dos Mesmos Criadores de “Intocáveis”

É curioso o fato de que Assim é a Vida tenha chegado tão timidamente aos cinemas brasileiros, mesmo carregando nos créditos os nomes de Eric Toledano e Olivier Nakache – os parceiros de roteiro e direção responsáveis por Intocáveis, a maior bilheteria francesa da história. Felizmente, essa nova produção da dupla é uma das gratas surpresas do ano, uma deliciosa comédia contemporânea capaz de divertir o espectador sem subestimar sua inteligência. A trama relativamente simples acompanha um dia de trabalho de Max (Jean-Pierre Bacri), um promotor de eventos que tem a difícil missão de organizar um casamento badalado, realizado em um castelo francês do século XVIII.

Entretanto, a equipe de Max não é lá muito profissional – e nesse cenário improvável, surgem vários personagens com suas respectivas vicissitudes: a gerente do buffet que arranja confusão com todos os empregados; um animador com o ego inflado; o noivo cheio de manias; o garçom maluco que se passa por convidado para “cantar” a noiva; o fotógrafo que abusa do estagiário e só se preocupa em encher a barriga. Enfim, conforme o tempo passa e a festa se desenrola, os problemas surgem e caberá ao “multitarefas” Max resolve-los e entregar ao exigente casal uma noite dos sonhos.

Apesar de o roteiro não ser algo totalmente original, Assim é a Vida apresenta arcos e soluções muito interessantes dentro da sua proposta de entreter. Há alguns estereótipos do gênero, é verdade, mas o filme não se limita a isso; pelo contrário, existe um equilíbrio, nada é em excesso. Além disso, pequenas tramas paralelas vão acontecendo e dão certo alívio à narrativa principal, abrindo espaço suficiente para que os personagens em cena sejam desenvolvidos de maneira satisfatória.

Mas há um ponto importante a ser mencionado: há quem diga que a comédia é um gênero de filme que não exige muito tecnicamente. Assim é a Vida, no entanto, nos surpreende por ser brilhantemente bem executado: a direção com um ótimo timing cômico (muito valorizada pelas grandes atuações do elenco); a fotografia iluminada e cheia de vida de David Chizallet, que praticamente nos insere dentro da festa; a edição que constrói um ritmo muito mais dinâmico à fita; a trilha sonora muito bem escolhida e orquestrada – todos estes elementos tornam Assim é a Vida um longa muito agradável. Arriscaria dizer que, levando em consideração o desafio cinematográfico de então, Assim é a Vida é ligeiramente superior ao sucesso Intocáveis, dado principalmente o desafio do pequeno espaço cênico que concentra uma quantidade razoável de tipos – esses, por sua vez, que refletem muito bem (como em poucas outras produções) a pluralidade da sociedade francesa atual e globalizada. Assim é a Vida, dessa forma, é a grande comédia do ano – daquelas que a gente não vê tão fácil por aí…

“Corpo e Alma”: Mundo dos Sonhos é Cenário de História de Amor

Endre é um homem de meia idade que trabalha como gerente financeiro em uma empresa do ramo alimentício. Com um dos braços paralisados, ele mora sozinho e visivelmente prefere a solidão ao envolvimento com outras pessoas. A reclusa e metódica Mária, por sua vez, tem dificuldades para interagir com quem quer que seja, ainda que seja superdotada (traços evidentes da Síndrome de Asperger). Essas características são propícias para que ela possa exercer com naturalidade sua profissão: ela é uma espécie de agente de qualidade e vai prestar seus serviços no matadouro em que Endre atua.

Não é muito difícil ao espectador entender que o relacionamento entre os dois não será, à primeira vista, muito fácil. A virada no roteiro de Corpo e Alma, contudo, ocorre quando descobrimos que essas duas pessoas solitárias partilham todas as noites de um mesmo sonho: um casal de cervos que vivem juntos em uma floresta. Conectados por este cenário lírico mas incapazes de qualquer comunicação na realidade, aos poucos um sentimento incomum aproxima estes protagonistas e eles decidem se aprofundar nesta história inusitada.

Provavelmente, o argumento de Corpo e Alma é um dos mais originais a chegar aos cinemas este ano e é muito favorecido pelas atuações da dupla que o protagoniza (Alexandra Borbély e Géza Morcsányi) e a direção concisa da húngara Ildikó Enyedi – aliás, Corpo e Alma é o representante da Hungria ao Oscar de produção em língua estrangeira no próximo ano. Infelizmente, o lento desenrolar da narrativa prejudica muito um filme que, em sua proposta, poderia ser uma experiência muito mais interessante. Entendemos, na verdade, que o ritmo empregado não é à toa; pelo contrário, ele é até necessário para podermos compreender as alusões de seu roteiro – o mesmo roteiro que inclusive não poupa o espectador de cenas que poderiam o fazer se contorcer na poltrona (as sequências de carnificina no matadouro, por exemplo, são importantíssimas para delinear o início frio e apático da relação dos dois personagens principais). Corpo e Alma causa estranheza, sim, mas curiosamente não é isto que o torna menos acessível, mas sua monotonia: longos espaços silenciosos, diálogos aparentemente desconexos e uma incrível sensação de que tudo demora a acontecer. E quando o filme “engrena”, somos surpreendidos pelos créditos finais, após quase 2 horas de projeção (sem ao menos um desfecho palatável). Corpo e Alma é uma aparente e linda história de amor entre dois seres incompletos e suas idiossincrasias, que apesar de bem executado sofre por ser arrastado e um tanto incomum – e isso, bem sabemos, não é qualquer espectador que está disposto a enfrentar.