“O Amante de Um Dia” Encerra Trilogia Romântica de Philippe Garrel

A nouvelle vague foi um dos mais intensos e frutíferos momentos da história do cinema, mas ela ficou lá atrás, não há dúvidas. Philippe Garrel, entretanto, está entre nós, fiel a um movimento tão singular e rico quanto sua filmografia – infelizmente pouco conhecida pelo grande público brasileiro, que só passou a (re)conhecer Garrel através de seu filho, Louis, o astro francês de Os Sonhadores. Ainda que o cineasta tenha iniciado sua carreira quando a “nova anda” já não era tão nova assim, sobram títulos marcados por características da nouvelle vague na obra de Garrel (pai) – e O Amante de um Dia, seu mais novo longa-metragem, é um desses trabalhos.

Jeanne (Esther Garrel) acaba de terminar o noivado com um homem por quem fora (e ainda é) perdidamente apaixonada. À beira do colapso total, ela vai buscar abrigo no pequeno apartamento do pai, Gilles (Eric Caravaca), um professor universitário que acabara de engatar um namoro às escondidas com Ariane (Louise Chevilotte), sua aluna de mesma idade da filha. Jeanne e Ariane se aproximam e tornam-se amigas, mas não demora muito para que os problemas comecem a surgir.

Já nos minutos iniciais, é possível observar o contraste existente entre as duas personagens femininas: enquanto uma corre de euforia ao encontro de seu amado, a outra chora a perda de seu par. Céu e inferno, alegria e tristeza, sorrisos e lágrimas. O contraste, todavia, é alimentado durante toda a narrativa até que, ao final, a situação se inverta. A relação entre os três protagonistas, por sua vez, se constrói em meio às crises nervosas de Jeanne, ataques de ciúmes, infidelidade, descaso – em um emaranhado de sentimentos que acabará corrompendo esse trio tão incomum.

Segundo o próprio idealizador, O Amante de um Dia é a terceira parte de uma trilogia precedida por O Ciúme (2013) e À Sombra das Mulheres (2015). Compõem este conjunto tanto por sua temática (romances que falam sobre relacionamentos amorosos) quanto por sua estética, que evoca o cinema clássico francês nos recursos que utiliza: a fotografia em preto e branco, de um granulado sutil; os diálogos habituais entre os personagens (muitas vezes fora de quadro); as caminhadas nas ruas, que exploram os ambientes externos; a narração off; a trilha sonora irregular – entre outros artifícios que, ainda que não tão habituais no cinema atual, agregam um charme à película e criem uma identidade à filmografia de seu diretor. Há planos, por exemplo, que parecem ser retirados de fotografias antigas: em um deles, o rosto limpo de Chevillote é captado com tamanha delicadeza, que é impossível não nos recordarmos dos filmes franceses de outrora.

Dizem por aí que o amor é como duas pessoas segurando a ponta de um elástico: o primeiro que soltar machuca o outro. Todos estamos, no entanto, invariavelmente propensos a sofrer, a nos deixar sofrer ou a fazer sofrer – assim é o amor. As relações amorosas tendem a ser conturbadas em suas inúmeras camadas e é constantemente explorada no cinema. Poucos cineastas, entretanto, conseguem tratar este tema infinito de forma tão interessante – e um deles é Philippe Garrel.

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“The Square” é Sátira Provocante à Cidadania e Solidariedade

Não é difícil entender os motivos que levaram The Square a faturar a Palma de Ouro em Cannes nesta sua última edição. Já nos primeiros minutos do novo filme de Ruben Östlund (do excelente Força Maior, de 2014) o espectador já tem a consciência de estar diante de uma obra bastante singular e provocante, seja pelo humor mordaz ou pelo desconforto.

O protagonista é Christian, praticamente um modelo daquilo que seria um “homem ideal” contemporâneo: ele é belo, inteligente, com uma carreira bem sucedida, culto, se veste bem – enfim, o tipo que chama a atenção por onde passa. Ele é o curador de um museu de arte moderna na cidade de Estocolmo que está prestes a lançar uma nova exposição: “The Square”, um espaço físico delimitado por um quadrado no chão, onde as pessoas são “convidadas” a ajudarem uma às outras promovendo, assim, suas cidadania e solidariedade.

Mas seu próprio senso de cidadania e solidariedade são ameaçados quando, em uma manhã qualquer, Christian é surpreendido por uma jovem na rua fugindo da agressão de um homem. Christian prontamente a protege e, junto a um outro pedestre, impede o pior. Bela atitude, não? Só que não demora muito para ele perceber que sua carteira, celular e abotoaduras (de família, é bom frisar) foram roubados. Pois é, ele foi vítima de um golpe. A partir daí, é só ladeira abaixo.

É interessante observar que The Square parte de um tipo de narrativa que vem ganhando espaço nos últimos anos, especialmente nos grandes festivais: a crítica social (ou apenas moral) a partir da observação comum e direta de um personagem em uma determinada situação (ou conjunto delas), mesmo quando levada ao absurdo. O próprio Östlund fez isso em Força Maior, ganhando o Prêmio do Júri em Cannes daquele ano. O excepcional Toni Erdmann foi um dos finalistas ao prêmio de melhor filme estrangeiro no Oscar deste ano (injustamente esnobado), enquanto o italiano Capital Humano, de 2014, foi um sucesso. O russo Leviatã? Uma pérola incomparável.

The Square não é, de fato, uma comédia, mas abusa de sequências cômicas para cutucar as feridas em suas múltiplas camadas, de maneira incrivelmente sutil, quase imperceptível em alguns instantes. As críticas, entretanto, não são tão simples. The Square satiriza, por exemplo, a prepotência da burguesia e o falso sentimento de solidariedade (afinal, ajudamos o outro porque vemos que ele precisa ou para não nos sentirmos culpados por não ajudar?). A tolerância liberal também é abordada: em uma sequência controversa, um senhor com Síndrome de Tourette interrompe o debate de um artista famoso, mas ninguém ousa falar nada – afinal, ele é a pobre vítima de uma doença. O preconceito “brando” também ganha um espaço em inúmeras situações. Em uma delas, quase passa despercebido: Christian hesita ao invadir um prédio e sugere (em um tom de brincadeira que disfarça um assédio) ao seu funcionário que o faça. O funcionário? Negro.

Mas talvez a discussão mais perceptível que The Square traga é quanto à velha questão: o que é arte? Um vídeo no Youtube pode ser considerado uma obra de arte capaz de chocar? Um punhado de granito no chão que acidentalmente foi removido pode ser reposto? Na cena icônica de The Square (em minha modesta opinião, uma das mais incríveis no cinema em tempos), um homem perambula como macaco em meio a um salão requintado repleto de milionários filantropos e artistas. Apesar da violência da performance, ninguém se manifesta – quem teria coragem de dizer que aquilo não é arte para parecer inculto diante dos demais? Vemos a arrogância e o ar de superioridade da classe artística. O que se segue é arrebatador e faz de The Square um dos melhores filmes do ano até aqui – daqueles que provocam seja pelo humor repleto de ironia ou pelo incômodo que causa e que muitas vezes é a única coisa que nos faz realmente refletir.

“Emma”: Bonitinho, Mas Ordinário

Emma é uma mulher que perdeu a visão ainda adolescente. Ainda assim, ela é capaz de levar uma vida “normal”: tem uma carreira como osteopata, recebe amigos em sua casa e acaba de vir de um divórcio. Já o mulherengo Teo é um dos bambambãs do departamento de criação de uma badalada agência de publicidade. O encontro dessas duas pessoas de mundos tão distintos é a linha narrativa principal de Emma, novo filme do milanês Silvio Soldini.

Apesar de sua cinematografia eficiente, Emma sofre com sua previsibilidade, já que o argumento recorre inúmeras vezes a soluções fáceis já bastante revisitadas. Particularmente, achei este longa igual a muitas comédias românticas francesas feitas aos montes nos últimos anos (aliás, isto não é apenas uma impressão, já que estamos diante de uma produção em parceria da França, Itália e Suíça). Não há a preocupação de trazer algo novo ou mesmo promover alguma discussão: pelo contrário, o filme se sustenta com uma história razoavelmente simples, sem muito a dizer, como se com o intuito único de reciclar o bom desempenho do casal de protagonistas sem se importar com algo mais elaborado. Vale a sessão? Sim, para uma sexta-feira à noite acompanhado, Emma é uma ótima pedida. É bonitinho, bem feito, tem lá sua lição moral – mas não vai muito além de um entretenimento sem compromisso quando claramente poderia ser muito mais.

Periferia (Peripherie, 2016)

Periferia é uma reunião de contos intercalados que acompanham um dia na vida de cinco personagens distintos. No primeiro núcleo, Vinc e seus amigos desejam protestar contra o capitalismo planejando um atentado em uma rua comercial de Zurique. Não muito longe dali, Edi passa por problemas financeiros e necessita urgentemente da ajuda de seu patrão. O imigrante Javier, por sua vez, é impedido de ver a filha e decide rapta-la e voltar com a criança para o Chile. Já a policial Sonam está em seu primeiro dia de trabalho na corporação, mas não demora muito para que ela conheça as “sujeiras” da profissão. Por fim, a ucraniana Sonja chega à cidade para fazer uma surpresa ao seu grande amor.

Cada segmento é dirigido por um cineasta diferente, como se estivéssemos diante de curtas independentes que não mantém uma relação direta entre si. Entretanto, essas pessoas tem algo em comum: todas elas passam por situações que as farão lutar por respeito – ou pelo direito de ser respeitadas, mesmo que sua moral possa ser, inevitavelmente, confrontada.

Apesar da individualidade das histórias, algumas delas não chegam a um desfecho satisfatório, cabendo muito ao espectador a tarefa de questionar o que pode ou não ter acontecido. Aliás, a data em que os eventos ocorrem é simbólica e não foi à toa: 01 de agosto, Dia Nacional da Suíça, o feriado nacional mais importante do país. É um momento de reflexão, onde é possível debater se os erros do passado justificam os erros do presente. A ética é posta à mesa, mas será que nossas convicções não podem influenciar nossas atitudes para com o próximo e, principalmente, para com nós mesmos?

“Silêncio Azul”: Um Filme de Pouco Alcance

Talvez o azul no título do filme de Bülent Öztürk se refira à sua fotografia inicial, que valoriza o uso de tons azulados e frios para acompanhar o soldado Hakan durante sua recuperação em um hospital psiquiátrico militar. O silêncio, por sua vez, pode fazer alusão ao vazio de sua própria existência neste período (ou mais à frente, a narrativa pode nos responder isso de forma um tanto óbvia), após passar por um trauma que mudaria seu destino. Não sabemos ao certo o que se passou até Hakan retornar para casa, encarando o desafio de resgatar vínculos e acertar as contas com seu passado aterrorizante.

A partir de então, Silêncio Azul abre algumas possibilidades, desdobrando camadas até aqui não exploradas, como se para revelar a história de seu protagonista aos poucos. Entretanto, essas linhas não parecem ter qualquer conexão e a jornada de nosso herói se torna cansativa e desestimulante. O que poderia ser um interessante conto sobre a tentativa de um homem em retomar sua vida comum acaba virando uma sucessão de fatos ininteligíveis à primeira vista e que não esclarecem nada a respeito do personagem principal. Percebe-se, no entanto, que Silêncio Azul tem muito a dizer: em alguns instantes, há a impressão de que o longa vai, enfim, engrenar. Mas é só impressão mesmo: apesar da evidente boa vontade, Silêncio Azul é um filme que muito quer e pouco alcança, reduzindo-se infelizmente a uma obra sem tanta relevância.

“Bikini Moon”: Falso Documentário Sobre Manipulação da Mídia

Perturbadora, inquieta, sarcástica, sedutora, imprevisível – é impossível ficar indiferente a uma figura como Bikini quando esta surge entre a multidão. Afinal, quem é ela? O que faz? Até onde podemos confiar em uma pessoa da qual não sabemos o que esperar? Não é de se espantar que a jovem moradora de rua e ex-fuzileira naval desperte a atenção de um grupo de cinegrafistas que decide torna-la protagonista de um documentário.

Bikini Moon é um “filme dentro do filme”. Revestido com a premissa de um falso documentário, (um gênero que, aparentemente, tem o intuito de revelar apenas a verdade), o longa-metragem de Milcho Manchevski lança em suas entrelinhas um questionamento: até que ponto o público é manipulado pela mídia? Mais ainda: como ocorre nossa percepção do mundo através da ótica midiática? Tudo o que vemos nos documentários, jornais, reality shows é real?

Para tanto, a estrutura de Bikini Moon se desenvolve sob os olhares da equipe de cinegrafistas e também de sua protagonista – um personagem genuinamente tão interessante quanto o é bem construído. Condola Rashad tem um desempenho absurdamente incrível, fazendo de Bikini um tipo cheio de nuances. Doce, porém violenta; calma, mas explosiva; emotiva e ao mesmo tempo racional. Suas dualidades são evidentemente contrastadas nos gestos, no andar desinibido, nos risos soltos de uma mulher que, apesar dos evidentes problemas psiquiátricos, mantém um certo nível de “normalidade”. Nunca conseguimos decifrar ao certo se ela está mentindo ou sendo honesta, dadas as oscilações de seu temperamento diante das situações mais distintas possíveis: dela, sempre podemos esperar o improvável (e esta sensação permanece durante todo o decorrer da fita).

Com Bikini Moon, Manchevski (que com seu Antes da Chuva concorreu ao Oscar de melhor filme estrangeiro) tem claramente a intenção de provocar o espectador quanto à sua capacidade de acreditar no quase “surreal” – o desfecho, por exemplo, é pura fantasia. Uma explosão de reviravoltas, Bikini Moon só não é mais interessante já que, dadas algumas circunstâncias, o filme não vai muito além disso, um debate sobre como assumimos uma verdade sem, de fato, sabermos se ela é ou não real. Outras questões de caráter social relevantes poderiam ter sido melhor exploradas, como a pobreza das ruas e a situação dos sem-tetos. Ainda assim, vale como reflexão: em uma geração onde qualquer um pode ligar uma câmera e sair por aí postando vídeos na Internet até virar uma “celebridade formadora de opinião” (mesmo sem conteúdo algum), Bikini Moon nos faz pensar que nem tudo o que se vê é verdade até que se prove.

“A Constituição”: Os Vestígios do Conflito Servo-Croata

Um casal de proletários se espreme entre os cômodos de seu modesto apartamento. Ela, enfermeira; ele, um policial truculento – o sonho dos dois é adotar uma criança, mesmo que a condição financeira não seja lá das melhores. No andar logo acima, um professor de meia idade divide seu tempo entre as aulas no colégio e os cuidados com o pai paralítico.

À primeira vista, estas quatro pessoas nada tem em comum, exceto o fato de morar no mesmo prédio. Na verdade, suas diferenças são gritantes e refletem a forma como se relacionam – simplesmente não há relação entre elas. Elas se evitam a todo custo, pois sabem que suas origens, crenças e maneira de encarar a vida não são as mesmas.

A Constituição retrata os vestígios do conflito servo-croata do final do século passado. O ódio, os preconceitos e as mágoas ainda parecem estar vivos, como se uma herança a ser transmitida para as futuras (e a atual) gerações. No entanto, o filme de Rajko Grlic (que também assina o roteiro em parceria com Ante Tomic) é feliz ao mostrar a humanidade de seus personagens diante dos infortúnios da vida: em determinado momento, um grave acontecimento acaba os unindo e essas pessoas são lançadas umas aos braços das outras. A partir daí, esta comédia dramática ganha novos contornos: aos poucos, as diferenças são postas de lado e, lentamente, eles vão reconhecendo o “ser humano” de cada um. Ainda que possa haver algum tipo de interesse na relação que se estabelece entre eles, seus conceitos são confrontados – e, felizmente, apesar do receio inicial, eles acabam se permitindo abrir para o novo.

Tecnicamente bem produzido e com atuações excepcionais por parte de seu elenco, A Constituição é uma grata surpresa do cinema croata atual. É um daqueles casos raros em que o espectador já é fisgado de início e, à medida que a fita evolui, o filme cresce até chegar a um desfecho que, embora fácil, nos enche de esperança. Com um roteiro original e surpreendente, A Constituição é obra necessária tanto como cinema quanto socialmente.