Quebrando a Banca (21, 2008)

Ben Campbell (Jim Sturgess) é um jovem tímido e superdotado, cujo sonho é cursar medicina em Harvard – o que lhe exigirá uma pequena fortuna caso ele não consiga uma cobiçada bolsa de estudos da universidade. Ao perceber o talento do garoto, seu professor, Micky Rosa (Kevin Spacey), o convida para integrar um grupo de alunos que, aos finais de semana, viaja para Las Vegas com um único objetivo: ganhar dinheiro. Com um sofisticado sistema de sinais e estratégias lógico-matemáticas de contagem de cartas, eles colocam sua inteligência acima da média em prática para quebrar cassinos por toda a cidade – mas não demora muito para que chamem a atenção de gente muito perigosa.

Dirigido por Robert Luketic (do primeiro filme da franquia Legalmente Loira e A Sogra), Quebrando a Banca (2008) é um dos projetos mais maduros do cineasta até então, ainda que seja genérico em sua estrutura fílmica. Com uma narrativa ágil e de fácil assimilação, o longa-metragem apoia-se em fórmulas já conhecidas (a ascensão meteórica e a inevitável queda de seu protagonista), recusando-se a desenvolver plenamente seus conflitos. A história é conduzida com eficiência, sobretudo nas sequências em Vegas, mas é notório que Luketic evita correr riscos, preferindo caminhos mais óbvios e seguros que privilegiam um entretenimento imediato – indiscutivelmente entregue – em detrimento de discussões mais complexas. O resultado, assim, é um filme que funciona como excelente passatempo, mas não consegue ir além da superfície do que propõe.

Com a promessa de permanecer no esquema apenas até conseguir o dinheiro que precisa para custear a faculdade, Ben logo se vê seduzido por um estilo de vida que sempre lhe parecera distante. Sua transformação – de nerd retraído à figura confiante e, por vezes, arrogante – encontra em Sturgess um intérprete convincente, que sustenta essa virada sem torná-la abrupta. Ao mesmo tempo, o filme acerta ao explorar Las Vegas como uma extensão desse deslumbramento do personagem, com uma encenação que enfatiza o brilho, o excesso e a velocidade daquele ambiente – em contraste ao cenário quase opaco e burocrático de sua vida pregressa. Assim, essa virada de chave não apenas transforma o protagonista, mas também orienta a própria lógica estética da obra.

No final, Quebrando a Banca flerta com questões promissoras, porém não busca responder (ou sequer discutir) qualquer uma delas, tornando-se apenas um bom exemplar de um gênero já saturado. E, convenhamos: não há problema algum nisso. Ao optar por não aprofundar quaisquer tensões, Quebrando a Banca reafirma seu compromisso com uma experiência leve, fácil e acessível, cujo ritmo e apelo imediato se sobrepõem a qualquer densidade dramática. É uma escolha que limita a obra, é verdade, mas define com clareza seu propósito: envolver o espectador sem exigir dele muito além de sua atenção momentânea.

Legalmente Loira (Legally Blonde, 2001)

E lá se vão mais de duas décadas desde a estreia de Legalmente Loira. A comédia, que marcou o início dos anos 2000, acompanha Elle Woods (Reese Witherspoon), uma patricinha fútil que, após levar um pé na bunda do namorado Warner (Matthew Davis), decide ingressar no curso de direito de uma prestigiada universidade norte-americana para reconquistar o amado.

Há quem afirme, não por acaso, que o longa dirigido por Robert Luketic (posteriormente responsável por títulos como A Sogra, de 2005, e Quebrando a Banca, de 2008) tenha envelhecido mal: de fato, a produção de 2001 possui abordagens em seu argumento que, sob um olhar contemporâneo mais crítico, podem parecer datadas, como a insistência inicial na imagem caricatural da “loira burra”, uma motivação romântica que limita as ambições da protagonista ao seu desejo de agradar o sexo masculino e as piadas que reforçam inúmeros estereótipos. Mas analisar a obra sob as lentes contemporâneas, convenhamos, é puro exercício anacrônico – seria o mesmo que esperar correção moral retroativa de uma comédia de Ernst Lubitsch ou de um texto de Veríssimo.

Portanto, reduzir o filme a esses aspectos narrativos é ignorar seu contexto histórico (indispensável), mas principalmente o modo como, gradualmente, a história subverte as próprias premissas que levanta – e este é um dos maiores trunfos de Legalmente Loira. A busca pelo homem se converte em uma jornada de autoconhecimento e o roteiro acerta em cheio ao abandonar o viés romântico e concentrar-se na reconfiguração da imagem de Elle. Não que as caricaturas deixem de existir, mas elas se tornam ferramentas para o humor – você não ri delas, mas através delas e de seus mecanismos de desconstrução: a loira supostamente ‘burra’ possui outros conhecimentos além do “juridiquês”, a rivalidade feminina perde espaço quando a “inimiga” se transforma em aliada e o homem que antes era prêmio vira um obstáculo. Ao deslocar o conflito do eixo amoroso para o profissional (expondo o machismo institucionalizado que sufoca a personagem, mesmo que inicialmente ela não tenha essa consciência), Legalmente Loira encontra uma inesperada maturidade.

No fim, Legalmente Loira é puro entretenimento – e não há nenhum demérito nisso. Seu humor acessível permite que a narrativa ofereça, de forma despretensiosa, uma leve trama de superação, valendo-se muito do carisma incontornável de Reese Witherspoon, que, com sua presença cênica e timing cômico, confere a Elle Woods uma rara combinação de ingenuidade, inteligência e determinação – provando que competência e feminilidade nunca foram excludentes. Longe de ser uma obra revolucionária, Legalmente Loira segue sendo lembrado como uma das comédias mais interessantes do início do século, não apenas por divertir, mas principalmente por mostrar que a inteligência nunca precisou abrir mão do salto alto, do blazer rosa ou das madeixas loiras.