“Emma”: Bonitinho, Mas Ordinário

Emma é uma mulher que perdeu a visão ainda adolescente. Ainda assim, ela é capaz de levar uma vida “normal”: tem uma carreira como osteopata, recebe amigos em sua casa e acaba de vir de um divórcio. Já o mulherengo Teo é um dos bambambãs do departamento de criação de uma badalada agência de publicidade. O encontro dessas duas pessoas de mundos tão distintos é a linha narrativa principal de Emma, novo filme do milanês Silvio Soldini.

Apesar de sua cinematografia eficiente, Emma sofre com sua previsibilidade, já que o argumento recorre inúmeras vezes a soluções fáceis já bastante revisitadas. Particularmente, achei este longa igual a muitas comédias românticas francesas feitas aos montes nos últimos anos (aliás, isto não é apenas uma impressão, já que estamos diante de uma produção em parceria da França, Itália e Suíça). Não há a preocupação de trazer algo novo ou mesmo promover alguma discussão: pelo contrário, o filme se sustenta com uma história razoavelmente simples, sem muito a dizer, como se com o intuito único de reciclar o bom desempenho do casal de protagonistas sem se importar com algo mais elaborado. Vale a sessão? Sim, para uma sexta-feira à noite acompanhado, Emma é uma ótima pedida. É bonitinho, bem feito, tem lá sua lição moral – mas não vai muito além de um entretenimento sem compromisso quando claramente poderia ser muito mais.

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Periferia (Peripherie, 2016)

Periferia é uma reunião de contos intercalados que acompanham um dia na vida de cinco personagens distintos. No primeiro núcleo, Vinc e seus amigos desejam protestar contra o capitalismo planejando um atentado em uma rua comercial de Zurique. Não muito longe dali, Edi passa por problemas financeiros e necessita urgentemente da ajuda de seu patrão. O imigrante Javier, por sua vez, é impedido de ver a filha e decide rapta-la e voltar com a criança para o Chile. Já a policial Sonam está em seu primeiro dia de trabalho na corporação, mas não demora muito para que ela conheça as “sujeiras” da profissão. Por fim, a ucraniana Sonja chega à cidade para fazer uma surpresa ao seu grande amor.

Cada segmento é dirigido por um cineasta diferente, como se estivéssemos diante de curtas independentes que não mantém uma relação direta entre si. Entretanto, essas pessoas tem algo em comum: todas elas passam por situações que as farão lutar por respeito – ou pelo direito de ser respeitadas, mesmo que sua moral possa ser, inevitavelmente, confrontada.

Apesar da individualidade das histórias, algumas delas não chegam a um desfecho satisfatório, cabendo muito ao espectador a tarefa de questionar o que pode ou não ter acontecido. Aliás, a data em que os eventos ocorrem é simbólica e não foi à toa: 01 de agosto, Dia Nacional da Suíça, o feriado nacional mais importante do país. É um momento de reflexão, onde é possível debater se os erros do passado justificam os erros do presente. A ética é posta à mesa, mas será que nossas convicções não podem influenciar nossas atitudes para com o próximo e, principalmente, para com nós mesmos?

“Silêncio Azul”: Um Filme de Pouco Alcance

Talvez o azul no título do filme de Bülent Öztürk se refira à sua fotografia inicial, que valoriza o uso de tons azulados e frios para acompanhar o soldado Hakan durante sua recuperação em um hospital psiquiátrico militar. O silêncio, por sua vez, pode fazer alusão ao vazio de sua própria existência neste período (ou mais à frente, a narrativa pode nos responder isso de forma um tanto óbvia), após passar por um trauma que mudaria seu destino. Não sabemos ao certo o que se passou até Hakan retornar para casa, encarando o desafio de resgatar vínculos e acertar as contas com seu passado aterrorizante.

A partir de então, Silêncio Azul abre algumas possibilidades, desdobrando camadas até aqui não exploradas, como se para revelar a história de seu protagonista aos poucos. Entretanto, essas linhas não parecem ter qualquer conexão e a jornada de nosso herói se torna cansativa e desestimulante. O que poderia ser um interessante conto sobre a tentativa de um homem em retomar sua vida comum acaba virando uma sucessão de fatos ininteligíveis à primeira vista e que não esclarecem nada a respeito do personagem principal. Percebe-se, no entanto, que Silêncio Azul tem muito a dizer: em alguns instantes, há a impressão de que o longa vai, enfim, engrenar. Mas é só impressão mesmo: apesar da evidente boa vontade, Silêncio Azul é um filme que muito quer e pouco alcança, reduzindo-se infelizmente a uma obra sem tanta relevância.

“Bikini Moon”: Falso Documentário Sobre Manipulação da Mídia

Perturbadora, inquieta, sarcástica, sedutora, imprevisível – é impossível ficar indiferente a uma figura como Bikini quando esta surge entre a multidão. Afinal, quem é ela? O que faz? Até onde podemos confiar em uma pessoa da qual não sabemos o que esperar? Não é de se espantar que a jovem moradora de rua e ex-fuzileira naval desperte a atenção de um grupo de cinegrafistas que decide torna-la protagonista de um documentário.

Bikini Moon é um “filme dentro do filme”. Revestido com a premissa de um falso documentário, (um gênero que, aparentemente, tem o intuito de revelar apenas a verdade), o longa-metragem de Milcho Manchevski lança em suas entrelinhas um questionamento: até que ponto o público é manipulado pela mídia? Mais ainda: como ocorre nossa percepção do mundo através da ótica midiática? Tudo o que vemos nos documentários, jornais, reality shows é real?

Para tanto, a estrutura de Bikini Moon se desenvolve sob os olhares da equipe de cinegrafistas e também de sua protagonista – um personagem genuinamente tão interessante quanto o é bem construído. Condola Rashad tem um desempenho absurdamente incrível, fazendo de Bikini um tipo cheio de nuances. Doce, porém violenta; calma, mas explosiva; emotiva e ao mesmo tempo racional. Suas dualidades são evidentemente contrastadas nos gestos, no andar desinibido, nos risos soltos de uma mulher que, apesar dos evidentes problemas psiquiátricos, mantém um certo nível de “normalidade”. Nunca conseguimos decifrar ao certo se ela está mentindo ou sendo honesta, dadas as oscilações de seu temperamento diante das situações mais distintas possíveis: dela, sempre podemos esperar o improvável (e esta sensação permanece durante todo o decorrer da fita).

Com Bikini Moon, Manchevski (que com seu Antes da Chuva concorreu ao Oscar de melhor filme estrangeiro) tem claramente a intenção de provocar o espectador quanto à sua capacidade de acreditar no quase “surreal” – o desfecho, por exemplo, é pura fantasia. Uma explosão de reviravoltas, Bikini Moon só não é mais interessante já que, dadas algumas circunstâncias, o filme não vai muito além disso, um debate sobre como assumimos uma verdade sem, de fato, sabermos se ela é ou não real. Outras questões de caráter social relevantes poderiam ter sido melhor exploradas, como a pobreza das ruas e a situação dos sem-tetos. Ainda assim, vale como reflexão: em uma geração onde qualquer um pode ligar uma câmera e sair por aí postando vídeos na Internet até virar uma “celebridade formadora de opinião” (mesmo sem conteúdo algum), Bikini Moon nos faz pensar que nem tudo o que se vê é verdade até que se prove.

“A Constituição”: Os Vestígios do Conflito Servo-Croata

Um casal de proletários se espreme entre os cômodos de seu modesto apartamento. Ela, enfermeira; ele, um policial truculento – o sonho dos dois é adotar uma criança, mesmo que a condição financeira não seja lá das melhores. No andar logo acima, um professor de meia idade divide seu tempo entre as aulas no colégio e os cuidados com o pai paralítico.

À primeira vista, estas quatro pessoas nada tem em comum, exceto o fato de morar no mesmo prédio. Na verdade, suas diferenças são gritantes e refletem a forma como se relacionam – simplesmente não há relação entre elas. Elas se evitam a todo custo, pois sabem que suas origens, crenças e maneira de encarar a vida não são as mesmas.

A Constituição retrata os vestígios do conflito servo-croata do final do século passado. O ódio, os preconceitos e as mágoas ainda parecem estar vivos, como se uma herança a ser transmitida para as futuras (e a atual) gerações. No entanto, o filme de Rajko Grlic (que também assina o roteiro em parceria com Ante Tomic) é feliz ao mostrar a humanidade de seus personagens diante dos infortúnios da vida: em determinado momento, um grave acontecimento acaba os unindo e essas pessoas são lançadas umas aos braços das outras. A partir daí, esta comédia dramática ganha novos contornos: aos poucos, as diferenças são postas de lado e, lentamente, eles vão reconhecendo o “ser humano” de cada um. Ainda que possa haver algum tipo de interesse na relação que se estabelece entre eles, seus conceitos são confrontados – e, felizmente, apesar do receio inicial, eles acabam se permitindo abrir para o novo.

Tecnicamente bem produzido e com atuações excepcionais por parte de seu elenco, A Constituição é uma grata surpresa do cinema croata atual. É um daqueles casos raros em que o espectador já é fisgado de início e, à medida que a fita evolui, o filme cresce até chegar a um desfecho que, embora fácil, nos enche de esperança. Com um roteiro original e surpreendente, A Constituição é obra necessária tanto como cinema quanto socialmente.

“O Vendedor de Orquídeas”: Documentário em Road Movie Sobre Oswaldo Vigas e Sua Obra Perdida

Aos 80 anos, Oswaldo Vigas foi tema de exposição “Vigas Los Comienzos”, contendo as obras que o artista plástico venezuelano produziu no início de sua bem sucedida carreira. Dias antes, ele pega a estrada ao lado de sua esposa Jeannine, à procura de um trabalho feito quando ainda jovem, em 1945 – o tal “O Vendedor de Orquídeas” que dá título ao documentário. Nessa busca pela pintura perdida, Vigas retorna aos locais onde cresceu e recorda momentos marcantes de sua trajetória.

Escolher sempre quer dizer renunciar…

Muito mais do que uma simples peça que faltava para completar o acervo, “O Vendedor de Orquídeas” tinha também um forte valor sentimental: a tela trazia à memória um momento da juventude de Vigas que o marcaria para sempre e o definiria como artista e, principalmente, como pessoa. Foi a última vez que Reynaldo, seu irmão que desenvolveu um quadro de esquizofrenia, serviu-lhe como modelo. Tomado por um sentimento de culpa ao abandonar a família por conta de sua carreira, Vigas conta trechos de sua vida, desde a infância pobre em uma zona periférica à renúncia da medicina para se dedicar às artes.

O mais interessante em O Vendedor de Orquídeas, no entanto, é a sensação acolhedora que transmite. Sabe quando você senta no sofá com seus avós e eles começam a contar histórias antigas, naquele clima de intensa nostalgia? É exatamente assim que você se sente ao assistir a O Vendedor de Orquídeas – e isto não é difícil de entender: dirigido por Lorenzo Vigas, filho de Oswaldo, este road movie possui uma narrativa que carrega um agradável espirito familiar (como se o diretor houvesse posto a câmera na mão para filmar casualmente seu “velho” ao longo de sua odisseia, como se um mero registro de família). Além disso, O Vendedor de Orquídeas possui um protagonista extremamente carismático, sensível e humano – fugindo do estereotipo do artista cheio de firulas e estrelismo. Isso faz com que a identificação com o público ocorra de forma gratuita e natural. Daí para se apaixonar por esta grande figura, é rapidinho…

“Amar”: A Intensidade do Primeiro Amor

Dizem que a adolescência é um dos períodos mais difíceis da vida. Os nervos ficam à flor da pele e todo sentimento parece ser elevado à enésima potência, fazendo com que situações simples possam tomar proporções gigantescas. Com o amor não é diferente e esta parece ser a premissa de Amar, longa-metragem de estreia do espanhol Esteban Crespo, que narra toda a intensidade do primeiro amor.

Amar  vai na contramão dos títulos tradicionais do gênero, já que não acompanha seus protagonistas no processo habitual de início um relacionamento (conhecer o outro, se aproximar, se apaixonar, etc.). Pelo contrário, o filme já nos apresenta os jovens Laura e Carlos no ápice da paixão: as trocas contínuas de mensagens, as escapadas do colégio, o sexo e suas descobertas – enfim, todas as peças de uma típica paixão adolescente é visto aqui.

Entretanto, se tudo nesta fase da vida é maximizado, os desentendimentos também o são – e, aos poucos, eles começam a surgir e afetar a relação do casal. E aqui encontramos talvez o grande problema de Amar: as ações passam a ser inverossímeis e seus personagens ganham contornos que fazem com que não tenhamos tanto apreço por eles. O homem, por exemplo, se torna um bobo sentimental e inconveniente, do tipo que espera na porta da ex-namorada para tirar satisfação. A mulher, por sua vez, vive em constante confusão e não sabe ao certo o que realmente espera de seu relacionamento – e no meio disso tudo, cada um sofre e reage à sua forma.

Apesar da química existente entre os protagonistas (Maria Pedraza e Pol Monen estão ótimos em cena) e de algumas sequências interessantes, Amar sofre com essas escolhas do roteiro. Talvez Amar seja um retrato cru de uma juventude que trata tudo hoje com praticidade e sem perda de tempo (se não está dando certo, é hora de partir para outra). O fato é que embora haja uma boa cinematografia, Amar não é um filme para toda hora – e confesso que muito do que absorvi desta produção pode ser resultado do meu atual momento de vida. O mais engraçado, no entanto, é pensar como as pessoas são tão descartáveis e se desapegam uma das outras com a mesma facilidade com que dizem “eu te amo” de maneira vazia. Ao menos isso, Amar consegue expor sem muita dificuldade.