O Estrangeiro (L’étranger, 2025)

Argélia, década de 1930. Enquanto aguarda ser julgado por homicídio, o francês Meursault revisita os últimos momentos que antecedem sua prisão – da morte da mãe, por quem não derramara uma única lágrima, ao fatídico dia em que assassinara a tiros um jovem árabe.

Dirigido pelo prolífico François Ozon, O Estrangeiro é a adaptação mais recente de um dos maiores clássicos da literatura francesa (já que houvera uma anterior, de Luchino Visconti), o livro homônimo de Albert Camus – considerado revolucionário não apenas por seus aspectos estilísticos, mas, sobretudo, por ser um dos títulos centrais do pensamento ligado ao existencialismo e, mais precisamente, obra seminal do ‘absurdismo’. Exceto por raras passagens (obviamente ajustadas ao suporte cinematográfico), a versão de Ozon é bastante fiel ao texto que o originou, preservando não apenas sua estrutura narrativa, mas essencialmente o distanciamento e a frieza emocional que definem seu protagonista.

O cineasta encontra em Benjamin Voisin o rosto ideal para (in)expressar a apatia de Meursault, uma figura cuja opacidade emocional (e não sua simples ausência) resiste a qualquer tipo de leitura. Homem de poucas palavras, o Meursault do jovem intérprete é contido, se esvaziando de gestos ao ponto em que até as mínimas variações são quase imperceptíveis. É uma escolha arriscada, já que, ao se manter preso a um tom quase único, a indiferença do personagem transforma-se, por vezes, em algo próximo à monotonia – só não severamente alcançada graças às precisas e sutis reações físicas ao ambiente (sobretudo à luz) exploradas pelo ator. De qualquer modo, Voisin reafirma seu lugar no cinema francês contemporâneo ao fazer de Meursault um contraponto a outros personagens de sua carreira, como o jovem David de Verão de 85 (2020), sua primeira parceria com Ozon.

Todavia, em diversos trechos, o filme soa mais ilustrativo do que necessariamente interpretativo, como se Ozon hesitasse em traduzir cinematograficamente o vazio existencial do texto de Camus, apenas reproduzindo-o – o que não deixa de ser conceitualmente coerente, é verdade. Ainda assim, há instantes em que a encenação consegue sugerir, com potência sensorial, o peso quase insuportável daquele mundo indiferente – e dois elementos ganham destaque nessa função. O primeiro deles é a fotografia em preto e branco (já explorada pelo realizador em Frantz, de 2016), que favorece a luz, a espacialidade e a sensação de calor sufocante que impregna aquele cenário; o segundo é o desenho sonoro, tanto em sua trilha musical econômica em acordes quanto, sobretudo, no som ambiente – onde o farfalhar das folhas, o vento e o oceano parecem ganhar peso físico, reforçando a materialidade daquele mundo – dialogando diretamente com o absurdo de Camus.

Ao fim, O Estrangeiro se estabelece como uma adaptação rigorosa, por vezes até em demasia – o que, se por um lado busca preservar a integridade do original, por outro pode limitar suas possibilidades enquanto produto cinematográfico autônomo, embora tecnicamente refinado. À semelhança do gesto camusiano, o filme parece vislumbrar não a explicação do absurdo, mas sua vivência sensorial – o que, aliado à competente mise-en-scène de Ozon, já justifica a experiência.

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