“O Amante Duplo”: Thriller de François Ozon Surpreende Pelo Exagero

Da atual geração de diretores franceses, François Ozon é provavelmente o meu predileto. Eu particularmente sou apaixonado pela total destreza com a qual o cineasta consegue percorrer pelos mais diversos gêneros, fazendo com que em sua filmografia nenhum filme seja igual ao outro. Por este motivo, é sempre com muita expectativa que aguardo a uma nova obra do idealizador e dificilmente saio decepcionado. Com O Amante Duplo não foi diferente: neste thriller psicológico, Ozon transforma uma história banal (e digna de folhetim) em uma surpreendente trama repleta de suspense e erotismo.

Marine Vatch (que já foi protagonista de Ozon em Jovem e Bela) interpreta Chloé, uma mulher que procura a ajuda de um psicólogo, Paul (Jérémie Renier), para tratar das fortes dores que sente em seu ventre e que acredita ser de causa psicológica. Aos poucos, médico e paciente se aproximam e iniciam uma relação, que fica estremecida quando Chloé descobre um segredo do companheiro: Paul tem um irmão gêmeo, também psicólogo, mas com personalidade completamente oposta à sua. Cabe a Chloé agora achar a resposta para a pergunta: qual dos dois é o gêmeo dominante?

É certo dizer que o argumento de O Amante Duplo (que concorreu à Palma de Ouro em 2017) escorrega um tanto em seu mistério (principalmente em sua reta final, quando abraça de vez o suspense), já que, à medida que o filme avança, o enredo se torna mais confuso, carecendo um pouco de objetividade. François compensa essa deficiência, entretanto, com uma mise-en-scène  bastante firme e segura, com referências claras às obras de David Cronenberg e Brian de Palma – com relação a este último, Ozon se apropria até mesmo de um dos artifícios tradicionais de Brian, a tela dividida, para brincar com a questão do “duplo”. Na verdade, o “duplo” parece ser a grande proposta da película e é muito bem manuseado através da fotografia e direção de arte (como no intenso uso de espelhos nos ambientes, por exemplo, ou outros elementos visuais).

Somos surpreendidos, no entanto, com a extravagância de Ozon: propositalmente novelesco, O Amante Duplo é um filme que se assume como tal em muitos aspectos, seja na paleta cheia de cores, nas cenas carregadas de erotismo, nos inúmeros simbolismos, nas acentuadas diferenças entre os dois irmãos (algo quase como “gêmeo bom versus gêmeo mau”) ou, finalmente, no absurdo da trama. Felizmente, estes são itens que poderiam atrapalhar qualquer produção, mas a condução de Ozon (aliada às ótimas atuações do elenco e uma cinematografia caprichada) faz de O Amante Duplo um dos títulos mais interessantes do diretor, mesmo não sendo para todo tipo de público.

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Festival Varilux de Cinema Francês 2018: Programação Imperdível Para Junho

Marque aí na agenda: entre os dias 07 e 20 de junho de 2018 acontecerá em todo o país o Festival Varilux de Cinema Francês. O evento, já considerado o maior festival de cinema francês do mundo, percorrerá cerca de 60 cidades brasileiras, oferecendo ao público a oportunidade de conhecer 20 longas-metragens da atual cinematografia francesa.

Entre os principais títulos, os destaques ficam por conta de O Amante Duplo, novo trabalho de François Ozon e que concorreu a Palma de Ouro em Cannes em 2017. Custódia, de Xavier Legrand, também é um dos mais aguardados desta edição. O filme, que foi um das grandes surpresas da última Mostra de Cinema de São Paulo, concedeu a seu idealizador o prêmio de melhor direção no Festival de Veneza. A cineasta Anne Fontaine (que participou nos últimos anos com Gemma Bovery  e Agnus Dei) chega com Marvin, drama sobre um adolescente gay interpretado por Finnegan Oldfield e que ainda tem no elenco a dona da França Isabelle Huppert.

A dupla Pierre Niney e Charlotte Gainsbourg estrelam o drama autobiográfico Promessa ao Amanhecer, baseado no livro de Romain Gary, onde o autor relembra sua juventude na Lituânia e seu êxodo como aviador durante a Segunda Guerra Mundial. Além disso, o oscarizado Jean Dujardin e Mélanie Laurent são os protagonistas da comédia O Retorno do Herói, de Laurent Tirard (diretor de O Pequeno Nicolau e Um Amor à Altura). O documentário da vez será A Busca do Chef Ducasse, sobre o chef  e mentor de culinária Alain Ducasse. Já o clássico do ano será Z, de Costa-Gravas. A produção franco-argelina recebeu 5 indicações ao Oscar em 1970: melhor filme, direção, roteiro adaptado, edição e filme estrangeiro (levando os dois últimos).

Além dos títulos, o Festival também apresentará pela segunda vez a Mostra de Realidade Virtual, uma seleção com cerca de 8 dos melhores filmes franceses nesta categoria. Também haverá, em parceria com a Unifrance Films, uma mostra com curtas-metragens premiados em diversos festivais, como Belle à Croquer (cujo elenco traz as atrizes Lou de Laâge e a dama Catherine Deneuve) e o elogiado Garden Party, que concorreu ao último Oscar. A delegação francesa, por sua vez, contará com a presença de 8 artistas: Finnegan Oldfield, Nabil Ayouch, Yannick Renier, Maryam Touzani, Jérèmie Renier, Fabien Gorgeart, Clotilde Hesme e Zita Hanrot.

Confira abaixo a lista completa dos títulos desta edição:

50 SÃO OS NOVOS 30 (Marie Francine), de Valérie Lemercier
O AMANTE DUPLO (L’Amant Double), de François Ozon
A APARIÇÃO (L’Apparition), de Xavier Giannoli
A BUSCA DO CHEF DUCASSE (La Quête D’Alain Ducasse), de Gilles de Maistre
CARNÍVORAS (Carnivores), de Jérémie Renier e Yannick Renier
DE CARONA PARA O AMOR (Tout le Mond Debout), de Franck Dubosc
CUSTÓDIA (Jusqu’à la Garde), de Xavier Legrand
A EXCÊNTRICA FAMÍLIA DE GASPARD (Gaspard va au Mariage), de Antony Cordier
GAUGUIN – VIAGEM AO TAITI (Gauguin – Voyage de Tahiti), de Edouard Deluc
MARVIN (Marvin ou la Belle Éducation), de Anne Fontaine
A NOITE DEVOROU O MUNDO (La Nuit a Devoré le Monde), de Dominique Rocher
NOS VEMOS NO PARAÍSO (Au Revoir Là-Haut), de Albert Dupontel
O ORGULHO (Le Brio), de Yvan Attal
O PODER DE DIANE (Diane a les Épaules), de Fabien Gorgeart
PRIMAVERA EM CASABLANCA (Razzia), de Nabil Ayouch
PROMESSA AO AMANHECER (La Promesse de L’Aube), de Eric Barbier
A RAPOSA MÁ (Le Grand Méchant Renard et Autres Contes), de Benjamin Renner e Patrick Imbert
O RETORNO DO HERÓI (Le Retour du Héros), de Laurent Tirard
TROCA DE RAINHAS (L’Échange des Princesses),  de Marc Dugain
O ÚLTIMO SUSPIRO (Dans la Brume), de Daniel Roby
Z (Z), de Costa-Gavras

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FESTIVAL VARILUX DE CINEMA FRANCÊS 2018

Data: de 07/06/2018 a 20/06/2018
Informações: http://variluxcinefrances.com/2018/

“Frantz”: Mais Uma Obra Certeira do Competente François Ozon

Uma das características mais expressivas de François Ozon é sua capacidade de se utilizar das mais diversas alternativas para contar suas histórias. O cineasta transita por qualquer gênero, porém sempre em busca de seu estilo instigante, com uma certa dose de tensão e suspense que tornam seus filmes, no mínimo, agradáveis. Com isso, é muito comum ouvirmos por aí que Ozon é um diretor “confiável”, que mesmo em seus momentos menos inspirados erra pouco. Todavia, ao acertar, o realizador francês entrega obras interessantíssimas, como 8 Mulheres, Dentro da Casa e seu mais recente trabalho, Frantz.

Ambientado em uma pequena cidade alemã após a Primeira Guerra Mundial, Frantz narra inicialmente o luto de Anna (Paula Beer) pela perda de seu noivo, morto em uma batalha na França. Um dia, ao levar flores ao túmulo de seu amado, Anna percebe a presença de um jovem francês, Adrien (Pierre Niney), soldado que se apresenta como amigo de Frantz durante o período em que este esteve na capital francesa. No entanto, qual seria a real natureza entre o relacionamento de Frantz e Adrien?

A rivalidade entre Alemanha e França é o pano de fundo deste conto – e também é fundamental para o desenvolvimento da película. Adrien, como francês, se torna cada vez mais íntimo de Anna e da família de Frantz, estes alemães. Aos poucos, porém, as revelações (e algumas reviravoltas no roteiro) acabam modificando a relação inicial entre estes personagens – algo que Ozon consegue manipular muito bem, fazendo com que o espectador pense uma coisa quando mais a frente a situação tomará outro rumo.

Com um controle total de sua mise-en-scène, Ozon constrói sua trama adequadamente, com uma estética visual impecável que recria a época e é primordial para a imersão do público. Direção de arte e design de produção são responsáveis pelo contraste entre a fria e quieta cidadezinha alemã e a efervescência parisiana do início do século XX (que acentua, inclusive, o conflito de Anna com relação à sua terra natal). A fotografia em preto e branco remete, em um primeiro momento , às escolhas estéticas de Philippe Garrel (como em seus recentes O Ciúme ou À Sombra de Uma Mulher) ou ao visual de A Fita Branca, de Haneke. Entretanto, ousando quando comparado aos seus colegas de profissão, François ignora algumas regras de seu cinema mais “tradicional”, empregando alguns artifícios pontuais, como a mudança brusca de sua fotografia para o colorido (em alguns trechos, como se trouxesse um ar de nostalgia e esperança aos personagens) ou a sequência em que Frantz aparece vivo em um quadro na parede de um hotel. São recursos que surpreendem o espectador de início, mas que é justificável dentro das expectativas do realizador.

Frantz, apesar disso, é um dos filmes mais “formais” de Ozon. Sério, econômico e sutil, o longa acaba cansando em sua segunda metade, muito prejudicada pela extensão da fita. Ainda assim, dado sua rica cinematografia, Frantz é um trabalho de apreço, uma obra incisiva que trata sobre a culpa do indivíduo e a omissão da verdade, temas contemporâneos que promovem discussões necessárias.

Prepare o Vinho e o Croissant: Vem Aí o Festival Varilux de Cinema Francês 2017

Junho já está quase aí – e com ele chega também um dos eventos mais esperados pelos cinéfilos de carteirinha: o Festival Varilux de Cinema Francês. A edição deste ano, que ocorre entre os dias 07 e 21 de junho, abrangerá 55 cidades de 21 estados e o Distrito Federal.

Ao todo, serão 19 títulos exibidos, todos inéditos no país, incluindo o documentário Amanhã, de Cyril Dion e Melanie Laurent, e o musical Duas Garotas Românticas, de Jacques Demy – o clássico do ano, estrelado pelas irmãs Catherine Deneuve e Françoise Dorléac (esta última falecida em 1942, aos 25 anos, em um trágico acidente automobilístico).

Além destes, outros filmes ganham destaque e são muito aguardados pelo público. Julliete Binoche, que estampa o cartaz desta edição, é a protagonista de Tal Mãe, Tal Filha, comédia de Noèmie Saglio (um dos nomes responsáveis pelo irresistível Beijei Uma Garota, exibido no festival em 2015). Deneuve também estrela O Reencontro, filme de Martin Provost, ao lado da igualmente musa francesa Catherine Frot (que protagonizou Marguerite, de Xavier Gianolli, no ano anterior). A oscarizada Marion Cotillard aparece nas telonas do evento em duas produções: em Rock’n Roll – Por Trás da Fama, de Guillaume Canet; e Um Instante de Amor, de Nicole Garcia, onde divide as atenções com ninguém menos que Louis Garrel. Omar Sy dá as caras por aqui com Uma Família de Dois, assim como o cineasta François Ozon, que apresenta seu mais novo trabalho, o elogiado drama pós-guerra Frantz.

Além dos títulos, o Varilux também contará com sua já tradicional oficina de roteiros, que acontecerá no Rio de Janeiro entre os dias 05 a 09 de junho. Marcam presença ainda na abertura do Festival os realizadores e intérpretes de Perdidos em Paris, Dominique Abel e Fiona Gordon; o rapper e ator Sadek, que contracena ao lado de Gérard Depardieu em Tour de France; o ator Ramzy Bedia e o diretor Olivier Peyon, de O Filho Uruguaio; a cineasta Noèmie Saglio e a atriz Camille Cottin.

Confira abaixo os filmes desta edição:

A VIAGEM DE FANNY (Le Voyage de Fanny), de Lola Doillon
A VIDA DE UMA MULHER (Une Vie), Stéphane Brizé
AMANHÃ (Demain), de Cyril Dion e Mélanie Laurent
CORAÇÃO E ALMA (Réparer les Vivants), de Katell Quillévéré
DUAS GAROTAS ROMÂNTICAS (Les Demoiselles de Rochefort), de Jacques Demy
FRANTZ (Frantz), de François Ozon
NA CAMA COM VICTORIA (Victoria), de Justine Triet
NA VERTICAL (Rester Vertical), Alain Guiraudie
O FILHO URUGUAIO (Une Vie Ailleurs), de Olivier Peyon
O REENCONTRO (Sage Femme), de Martin Provost
PERDIDOS EM PARIS (Paris Pieds Nus), de Dominique Abel e Fiona Gordon
ROCK’N ROLL – POR TRÁS DA FAMA (Rock’n’Roll), de Guillaume Canet
RODIN (Rodin), de Jacques Doillon
TAL MÃE, TAL FILHA (Telle Mére, Telle Fille), de Noémie Saglio
TOUR DE FRANCE (Tour de France), de Rachid Djaidani
UM INSTANTE DE AMOR (Mal de Pierres), de Nicole Garcia
UM PERFIL PARA DOIS (Un Profil Pour Deux), de Stéphane Robelin
UMA AGENTE MUITO LOUCA (Raid Dingue), de Dany Boon
UMA FAMÍLIA DE DOIS (Demain Tout Commence), de Hugo Gélin

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FESTIVAL VARILUX DE CINEMA FRANCÊS 2017

Data: de 07/06/2017 a 21/06/2017
Informações: http://variluxcinefrances.com

François Ozon Aposta na Diversidade e Autodescoberta do Indivíduo em “Uma Nova Amiga”

Claire e Laura se conheceram ainda no colégio e logo tornaram-se amigas. As duas cresceram inseparáveis, dividindo suas experiências da infância à idade adulta. Suas vidas tinham tudo para seguir seu curso normalmente até a morte prematura de Laura, após dar à luz a sua única filha. Devota à companheira, Claire se compromete firmemente a cuidar tanto da criança quanto de David, o viúvo – até o dia em que Claire é surpreendida com um fato completamente novo: David é flagrado vestindo as roupas da falecida. A situação é um tanto quanto “bizarra” – ou, pelo menos, inesperada. Mas aí vem a explicação: o rapaz sempre gostara de se vestir como mulher – e, segundo ele, sua própria esposa sabia de sua preferência, apesar de David ter aprisionado essa “personalidade” durante muito tempo para manter as conveniências do matrimônio. O problema é que com a morte de Claire, essa figura “feminina” interior agora quer se libertar.

01Uma Nova Amiga traz abertamente um tema que ainda é tabu: a questão de gênero. Confesso que fiquei surpreso com a trama (até mesmo porque o trailer pouco revela sobre a história) e logo me recordei de Laurence Anyways, de Xavier Dolan – longa de 2012 que também falava sobre o assunto. No entanto, a abordagem sobre gênero é o único ponto em comum com o filme do cineasta canadense, pois Uma Nova Amiga nos traz alguns elementos que nos remetem vagamente à obra do espanhol Pedro Almodóvar, especialmente na forma como Virgínia (a versão feminina de David) se desenvolve e, aos poucos, toma espaço, se tornando praticamente a personalidade dominante – tanto que chega um instante na fita em que Claire quase se convence de que o melhor meio de David lidar com o luto pela morte da esposa é através de Virgínia, assim como ela mesma, que encontra na nova amiga uma razão para sua existência abalada.

Com uma fotografia competente (cujas cores também nos transportam ao universo de Almodóvar) e uma boa cenografia, Uma Nova Amiga flerta de maneira bastante pontual com vários estilos, desde o drama intimista (como no irreparável prólogo, que apresenta todas as fases da amizade entre Claire e Laura), a comédia e também o suspense – principalmente nas sequências de sonhos eróticos de Claire). Além disso, a trilha sonora contribui muito para o desenvolvimento da narrativa, acentuando o tom dramático através de acordes de piano envolventes. Por sua vez, o elenco cumpre bem sua função: se Anaïs Demoustier é eficientemente sóbria na construção de Claire, Romain Duris é, no mínimo, excepcional, se entregando totalmente à personagem. Sua atuação é bastante expressiva, sobretudo no olhar do ator, capaz de trazer toda ternura tanto a David quanto a Virgínia.

É interessante analisar a capacidade de François Ozon em percorrer os mais diversos temas e gêneros com total desenvoltura. Um dos maiores expoentes do novo cinema francês e um dos mais ativos cineastas contemporâneos (com, no mínimo, uma produção por ano), sua obra não é unânime – o que é compreensível, haja visto o período entre seus projetos. Uma Nova Amiga, por exemplo, está longe de ser o momento mais inspirado do diretor, mas possui uma identidade marcante que o torna um título obrigatório na filmografia do artista. Apesar de faltar ousadia, Ozon não decepciona ao trazer à discussão um assunto ainda polêmico, mas tratando-o com muita delicadeza, valorizando a inocência da transformação de sua personagem principal. Uma Nova Amiga é um filme que celebra brilhantemente a diversidade – e, sobretudo, a autodescoberta do indivíduo.

Uma Mulher é Uma Mulher

Uma Mulher é Uma Mulher é, de longe, um dos momentos mais agradáveis da obra de um cineasta cujo nome é comumente acompanhado dos adjetivos “genial” e “chato”. Segundo filme de Jean-Luc Godard, lançado após o unânime Acossado, de 1960, Uma Mulher é Uma Mulher é uma comédia deliciosa onde o diretor abusa das experimentações técnicas enquanto critica a supervalorização das atrizes no cinema (o tipo femme fatale) – revelando a clara intensão de cutucar os valores da estética cinematográfica daquela época. Iniciando sua próspera e bem sucedida parceria com Godard, a modelo Anna Karina (que, na ocasião, já era companheira do artista) é a personificação da jovialidade e beleza na pele de Angela, uma inocente e sonhadora stripper que vive pressionada por dois homens: seu noivo Émile e o amigo de seu companheiro, Alfred, apaixonado pela jovem.

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Apesar de não ser necessariamente “engraçado”, o tom leve e pastelão do excelente roteiro do próprio Godard faz com que Uma Mulher é Uma Mulher seja um de seus filmes mais “digeríveis”. A narrativa (com algumas sequências puramente nonsenses) se desdobra de forma bastante natural, como se todos os envolvidos na produção estivessem a vontade com o que acontece à sua volta. Isso fica bem perceptível, por exemplo, nas tomadas externas: o público tem a nítida sensação de que as cenas são gravadas sem prévio ensaio, como se Godard colocasse a câmera nas mãos, escolhesse o lugar e dissesse: “É aqui! Vamos filmar!”. Isso torna muito mais fácil a proposta de despersonificar a imagem feminina no cinema da época (no ápice desta desconstrução, Angela quer engravidar, mas fica em dúvida sobre qual dos dois homens deve escolher).

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Godard brinca com a montagem do longa: o filme possui algumas sequências mais extensas, mas pára também com cortes secos e rápidos, onde é visível a intensão do cineasta de produzir um efeito humorístico, ou através dos diversos instantes em que os atores fazem seus discursos com os olhares fixos na câmera, como se falando diretamente ao espectador. Da mesma forma, a fotografia merece seu destaque, com o bom uso de cores e uma cenografia inteligente que realça os tons, especialmente nos ambientes internos, como no apartamento do casal principal. Aliás, o elenco é primoroso: se por um lado temos a musa godardiana Anna Karina como um furacão em cena, temos um Jean-Claude Brialy irresistivelmente atraente como Émile – franzino, com certo charme másculo sem parecer ogro. Já Jean-Paul Belmondo cumpre bem a tarefa de antagonista, mostrando boa sintonia com os protagonistas da trama. Já a trilha sonora, é um caso à parte: totalmente descontinuada e inusitada, uma marca registrada das produções do diretor.

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Em determinado momento, os personagens se questionam: seria essa história uma comédia ou uma tragédia? Com um desfecho inteligente, Uma Mulher é Uma Mulher não fez tanto alarde em seu lançamento, principalmente na França. Por questões que podem parecer pouco óbvias, o filme foi um sucesso fora de seu país de origem, mas hoje é saudado como uma das melhores amostras do cinema de Godard, praticamente obrigatório para os que desejam conhecer sua vasta filmografia. Jean-Luc faz aqui um trabalho experimental, abusando de tudo o que tem à sua disposição para contar as aventuras deste incomum triângulo amoroso. Não à toa, essa película influenciou (e muito) autores dessa nova e atual fase do cinema francês, como François Ozon ou Christophe Honoré (repare o quanto Bem Amadas, deste último, tem traços evidentemente inspirados no filme godardiano). Uma Mulher é Uma Mulher é ousado, inovador e artisticamente belo – como tudo aquilo que Godard vem fazendo durante sua carreira.

Retrospectiva 2013 – Parte 2: O Que Passou de Melhor Por Aqui

Já comentei que 2013 não foi um ano totalmente excelente para o cinema. Muita gente boa acabou pisando feio na bola e produzindo filmes de qualidade “duvidosa”. No entanto, obviamente teve coisa boa que estreou nos nossos cinemas e deixaram os cinéfilos muito mais felizes.

aplauso

Como já postei minha tradicional lista com os piores filmes do ano, chegou a hora de eleger os melhores longas de 2013. A escolha envolveu produções que foram sucesso de crítica e público – e também reflete um pouco minhas preferências pessoais, obviamente. Confira abaixo a lista dos filmes mais badalados, estilizados, bem produzidos e elogiados do ano – e por que não dizer os mais queridos?

DENTRO DE CASA (Dans la Maison, François Ozon)
Em 2013, François Ozon produziu Jovem e Bela, que dividiu a crítica. Mas é unanimidade que seu Dentro de Casa (de 2012, mas que só chegou aqui este ano) é um filme deliciosamente irresistível. O longa francês conta a história de um professor que descobre o talento literário de seu aluno e, aos poucos, fica cada vez mais obcecado pelos textos perturbadores que o rapaz escreve.

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RUSH – NO LIMITE DA EMOÇÃO (Rush, Ron Howard)
O filme aborda os bastidores do mundo glamouroso da Fórmula 1 (especialmente em sua época de ouro), e acompanha a vida dentro e fora das pistas de dois grandes rivais, que se esforçam para atingir o máximo de seus potenciais. O longa de Ron Howard foi amplamente elogiado pela crítica e é uma das maiores apostas para a premiação do Oscar no próximo ano.

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AMOR (Amour, Michael Haneke)
Ah, Haneke, como não te amar? Estrelado por dois dos maiores ícones do cinema francês em todos os tempos (Emmanuelle Riva e Jean-Louis Trintignant), Amor trata a relação de um casal de idosos à medida que a morte se aproxima. Vale lembrar que o longa foi indicado ao Oscar de melhor filme – mas acabou levando apenas melhor filme em língua estrangeira. Totalmente merecido.

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TATUAGEM (Tatuagem, Hilton Lacerda)
O filme brasileiro se passa na Recife do final da década de 70, durante a ditadura militar no país, e mostra a paixão entre um artista libertário e um jovem soldado. Junto com O Som ao RedorTatuagem foi um dos filmes nacionais mais elogiados do ano.

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DJANGO LIVRE (Django Unchained, Quentin Tarantino)
Não dá para deixar Django Livre de fora, mesmo se você quiser. O longa escrito e dirigido por Tarantino arrebatou boas críticas, contando a história de um escravo negro que, ao lado de um caçador de recompensas, parte em uma jornada em busca de sua esposa vendida a um inescrupuloso fazendeiro. Um banho de sangue visual, Django Livre ganhou o Oscar de melhor roteiro original e, de quebra, rendeu a Christoph Waltz o segundo prêmio de sua carreira.

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JOGOS VORAZES: EM CHAMAS (The Hunger Games: Catching Fire, Francis Lawrence)
A segunda parte da franquia Jogos Vorazes conseguiu a proeza de ser ainda melhor que a primeira (trocando o sangue e a pancadaria por uma profunda análise política sobre o poder). Além de uma técnica impecável, Jogos Vorazes: Em Chamas é um filme inteligente que distancia a saga cada dia mais do rótulo (errôneo) de “franquia adolescente”.

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GRAVIDADE (Gravity, Alfonso Cuarón)
O mexicano Alfonso Cuarón (que dirigiu um filme da série Harry Potter) produziu o visualmente impecável Gravidade – uma fábula contemporânea sobre a sobrevivência do homem, que se passa em uma missão espacial – quando um desastre ocorre e deixa a doutora Ryan Stone (Sandra Bullock) à deriva no meio da vastidão e do silêncio do espaço.

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FRANCES HA (Frances Ha, Noah Baumbach)
Provavelmente, o filme mais “cult” do ano. Com toda sua aura de produção independente, Frances Ha aposta em sua protagonista (a brilhante Greta Gerwig) para recriar uma parábola moderna sobre a juventude atual, com todos os seus anseios, desejos, medos e incertezas.

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A CAÇA (The Hunt, Thomas Vinterberg)
A crítica considerou A Caça, do dinamarquês Thomas Vinterberg, como o melhor filme de 2013. No longa, Lucas é um homem que aos poucos está recomeçando sua vida – novo emprego, nova namorada, planos com o filho – quando é acusado de abusar de uma criança de cinco anos na creche em que trabalha, despertando o ódio na comunidade em que vive.

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AZUL É A COR MAIS QUENTE (La Vie D’Adèle, Abdellatif Kechiche)
Sem sombra de dúvidas, Azul é a Cor Mais Quente é o filme mais comentado do ano. No longa, acompanhamos a história de uma garota de quinze anos que descobre a sua primeira paixão na vida por outra mulher.

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