“À Sombra das Mulheres”: A Infidelidade Por Philippe Garrel

Um dos cineastas franceses mais famosos da atualidade, Philippe Garrel chega aos cinemas com À Sombra das Mulheres, um drama romântico que acompanha a dupla Pierre (Stanislas Merhar) e Manon (Clotilde Courau), um casal de documentaristas que sobrevive de pequenos trabalhos temporários. Enquanto executam um novo projeto sobre um dos membros da Resistência Francesa, Pierre conhece Elizabeth (Lena Paugam), com quem acaba se envolvendo sem remorso algum. Ainda apaixonado por Manon, Pierre mantém o relacionamento com as duas mulheres até provar do mesmo veneno: a esposa também tem um amante.

À Sombra das Mulheres é competente ao tratar a tensão de um tema tão controverso: a infidelidade. Existe um contraponto entre as traições de Pierre e Manon: enquanto o adultério masculino é restrito ao apartamento da moça, Manon desfila com seu homem pelas ruas da cidade, entre cafés, sorrisos e carícias. Ao descobrir o adultério, a relação entre eles já não é a mesma: ainda que se “recuse” a terminar com Elizabeth, Pierre já não suporta estar ao lado de Manon sem um olhar de desconfiança. O encanto se acaba. Entretanto, o argumento é sábio ao não vilanizar nenhum dos lados: Garrel explora estes relacionamentos com coerência e, principalmente, com um viés de esperança. Há uma ruptura em À Sombra das Mulheres quando comparado aos títulos anteriores do cineasta: aqui há uma chance de seus protagonistas em se redimir.

Garrel retorna à película tradicional e à fotografia em preto e branco – o que traz todo o ar de nostalgia, assim como em seu longa anterior, O Ciúme. A trilha sonora de Jean-Louis Auber bem como a narração da fita (a cargo de Louis Garrel) também contribuem bastante à atmosfera de filmes antigos – algo que, por si só, já torna À Sombra das Mulheres uma obra, no mínimo, interessante. Curiosamente, entre idas e vindas, Garrel entrega aqui uma espécie de Closer – Perto Demais da nouvelle vague: a infidelidade pode ser encarada de várias formas; algo encorajador para alguns ou o fim do mundo para outros. Apesar de ser apenas mais um filme sobre o tema, À Sombra das Mulheres é um drama cru e cotidiano, que discute a moral duvidosa de suas personagens diante de situações que fazem parte da natureza humana. Garrel pai, mais uma vez, é feliz em sua proposta.

“Frantz”: Mais Uma Obra Certeira do Competente François Ozon

Uma das características mais expressivas de François Ozon é sua capacidade de se utilizar das mais diversas alternativas para contar suas histórias. O cineasta transita por qualquer gênero, porém sempre em busca de seu estilo instigante, com uma certa dose de tensão e suspense que tornam seus filmes, no mínimo, agradáveis. Com isso, é muito comum ouvirmos por aí que Ozon é um diretor “confiável”, que mesmo em seus momentos menos inspirados erra pouco. Todavia, ao acertar, o realizador francês entrega obras interessantíssimas, como 8 Mulheres, Dentro da Casa e seu mais recente trabalho, Frantz.

Ambientado em uma pequena cidade alemã após a Primeira Guerra Mundial, Frantz narra inicialmente o luto de Anna (Paula Beer) pela perda de seu noivo, morto em uma batalha na França. Um dia, ao levar flores ao túmulo de seu amado, Anna percebe a presença de um jovem francês, Adrien (Pierre Niney), soldado que se apresenta como amigo de Frantz durante o período em que este esteve na capital francesa. No entanto, qual seria a real natureza entre o relacionamento de Frantz e Adrien?

A rivalidade entre Alemanha e França é o pano de fundo deste conto – e também é fundamental para o desenvolvimento da película. Adrien, como francês, se torna cada vez mais íntimo de Anna e da família de Frantz, estes alemães. Aos poucos, porém, as revelações (e algumas reviravoltas no roteiro) acabam modificando a relação inicial entre estes personagens – algo que Ozon consegue manipular muito bem, fazendo com que o espectador pense uma coisa quando mais a frente a situação tomará outro rumo.

Com um controle total de sua mise-en-scène, Ozon constrói sua trama adequadamente, com uma estética visual impecável que recria a época e é primordial para a imersão do público. Direção de arte e design de produção são responsáveis pelo contraste entre a fria e quieta cidadezinha alemã e a efervescência parisiana do início do século XX (que acentua, inclusive, o conflito de Anna com relação à sua terra natal). A fotografia em preto e branco remete, em um primeiro momento , às escolhas estéticas de Philippe Garrel (como em seus recentes O Ciúme ou À Sombra de Uma Mulher) ou ao visual de A Fita Branca, de Haneke. Entretanto, ousando quando comparado aos seus colegas de profissão, François ignora algumas regras de seu cinema mais “tradicional”, empregando alguns artifícios pontuais, como a mudança brusca de sua fotografia para o colorido (em alguns trechos, como se trouxesse um ar de nostalgia e esperança aos personagens) ou a sequência em que Frantz aparece vivo em um quadro na parede de um hotel. São recursos que surpreendem o espectador de início, mas que é justificável dentro das expectativas do realizador.

Frantz, apesar disso, é um dos filmes mais “formais” de Ozon. Sério, econômico e sutil, o longa acaba cansando em sua segunda metade, muito prejudicada pela extensão da fita. Ainda assim, dado sua rica cinematografia, Frantz é um trabalho de apreço, uma obra incisiva que trata sobre a culpa do indivíduo e a omissão da verdade, temas contemporâneos que promovem discussões necessárias.

Philippe Garrel e as Relações Humanas em “O Ciúme”

03É difícil compreender as escolhas de Philippe Garrel. O diretor é talvez o mais próximo que temos na atualidade da nouvelle vague – uma das mais interessantes estéticas cinematográficas, que muitos tentam recriar, mas raros o conseguem. Mais do que isso: Philippe é um dos poucos que conseguem exprimir a tradição do amor no cinema francês, que se difunde em filmes introspectivos que retratam relacionamentos e conflitos humanos. Seu mais novo longa, O Ciúme, mantém este clima delicioso das tradicionais produções francesas, revelando-se em um ponto bastante sedutor e muito importante na filmografia do cineasta.

A trama é uma espécie de drama real, fugindo totalmente dos dramalhões “água com açúcar” norte-americanos. Com 77 minutos de duração, o filme foge do óbvio e se sustenta na visão de que o homem (como um todo) é um ser complicado e as relações entre eles mais ainda (algo que não é necessariamente novo, porém o cinema carece de uma abordagem mais direta, simples, adulta – contrariando os clichês romantizados hollywoodianos de hoje). Na narrativa, acompanhamos a derrocada amorosa de Louis (Louis Garrel), um ator por volta dos trinta anos que tenta arranjar um emprego para sua nova companheira, a também atriz Claudia (Anna Mouglalis). A filha de Louis (Olga Milshtein) tem um relacionamento saudável com os dois, o que acaba provocando certo ciúmes na mãe da garota, que foi abandonada por Louis tempos atrás. Mais tarde, decepcionada com o fracasso do amante, Claudia o trai com um homem que pode lhe dar a independência financeira que tanto precisa.

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O ponto alto de O Ciúme é, obviamente, sua fotografia em preto e branco, que cria uma atmosfera melancólica capaz de receber categoricamente a narrativa, acentuando os conflitos de suas personagens e o ar de nostalgia da obra. Aqui, é importante citar a ótima escolha de Garrel por filmar a película manualmente (o que justifica alguns momentos tremidos) e também o brilhante trabalho do diretor de fotografia Willy Kurant – que já esteve ao lado do cineasta anteriormente e também já foi parceiro do gênio Godard. Contribui bastante para a fita a música variada Jean-Louis Aubert, que vai do íntimo ao eloquente com bastante naturalidade e emprestando muito charme e sensibilidade às sequências que acompanha. Quanto às atuações, todo o elenco é razoavelmente suficiente e sem grandes destaques – exceto pela atriz mirim Olga Milshtein, encantadora como a filha do protagonista. Aliás, protagonista que já é nosso velho conhecido Louis Garrel – filho do Philippe e que é capaz de levar no rosto todo o ar descompromissado de sua personagem. É engraçado, no entanto, quando dizem que Garrel (filho) tem a mesma cara em suas atuações. Eu vou um pouco mais alem: Louis parece sempre fazer o mesmo papel, como se ele mesmo fosse uma personagem e seus filmes fossem apenas continuações de seus trabalhos anteriores. Ainda assim, Louis consegue ser arrebatador em cena.

O Ciúme foge do título clichê e se revela uma obra inspirada cuja poesia não reside apenas nas imagens, mas também em seu argumento que, antes de tudo, trata sobre relações: pais e filhos, irmãos, homem e mulher, amigos. Não há um modelo perfeito de relacionamento, não existe uma receita pronta – e talvez por isso, o título do filme pode confundir a percepção por parte do público. Com cenas inquietantes (que demonstram que a felicidade pode ser encontrada nos simples momentos da vida, como uma conversa com o professor ou o passeio ao parque), O Ciúme leva o espectador a confrontar as condições existenciais humanas e as complexidades de suas interações, através de uma realidade honesta e sem julgamentos.

A Fronteira da Alvorada

O cinema francês não é para qualquer um. Na maior parte das vezes, há os dois extremos: ou se ama ou se odeia. A Fronteira da Alvorada, do diretor Philippe Garrel, está exatamente nessa linha tênue de amor e ódio, gerando opiniões distintas no público e crítica.

A história do filme é simples – e sob certo aspecto, tem um final previsível (que vou evitar mencionar aqui). Carole (Laura Smet) é uma atriz solitária (apesar de cercada de amigos) recém-casada com um cineasta hollywoodiano. Longe do esposo, ela se envolve com o fotógrafo François (Louis Garrel), após uma sessão de fotos. Carole, que já possuía um histórico psiquiátrico não muito favorável, é abandonada por François e cai em profunda depressão, vindo a falecer. Tempos depois, François tenta reconstruir sua vida ao lado de uma nova paixão, porém é atormentado pela imagem da ex-amante.

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O cineasta faz um obra que, apesar de tratar de um tema atual – o amor – , foge dos padrões de cinema contemporâneo. A Fronteira da Alvorada é um filme sem muito apelo comercial e muito mais voltado à arte. Não que seja um produto difícil de digerir ou mesmo de se entender – o que diferencia A Fronteira da Alvorada dos demais longas convencionais que tratam sobre o amor é a maneira como o cineasta opta por criar um filme onde a arte é elevada à sua magnitude (apesar de algumas deficiências).

Esse status já fica explícito pela escolha do diretor em filmar em preto e branco – criando uma belíssima fotografia. Isso, de cara, já traz um clima romântico e retrô, assim como a obra anterior do cineasta, Amantes Constantes. Isso torna o filme infinitamente mais belo, nos dando uma espécie de expressionismo romântico carregado de beleza. Além disso, Garrel (pai) sabe bem que uma imagem vale mais do que mil palavras. É o gestual que acaba falando mais alto – como na cena do ensaio fotográfico onde, com uma curta troca de palavras, a tensão é acentuada pelo movimento de Carole e François na sacada do apartamento.

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É a fotografia em preto e branco que faz toda a diferença neste longa. Melhor: a maneira como a fotografia em preto e branco é utilizada. Os enquadramentos beiram a perfeição: seja no retrato dos rostos humanos (que captam os profundos sentimentos das personagens), seja nos ângulos das tomadas externas ou mesmo no uso da luz (ora com mais contrastes, em outros momentos com maior saturação). Com alguns defeitos nos aspectos sonoros, no entanto, o filme perde um pouco de sua qualidade técnica. A mixagem, em muitos momentos, evidencia uma total manipulação dos aspectos sonoros – o que pode causar certo desconforto.

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No final, são os belos e ricos diálogos que tornam A Fronteira da Alvorada um filme inspirador. E é ali que Garrel consegue o melhor: falar de amor de uma maneira atemporal e universal. Apesar da previsibilidade do desfecho, Garrel nos delicia com belas cenas e profundas reflexões ao longo de sua exibição. O espectador pode, assim, ficar despreocupado: A Fronteira da Alvorada atinge direto seus olhos e também seu coração.