“Promessa ao Amanhecer”: O Quanto o Amor Materno Pode Marcar Uma Vida?

Adaptação do romance homônimo e autobiográfico de Romain Gary, Promessa ao Amanhecer acompanha seu protagonista desde a infância difícil na Polônia (ainda Romain Kacew) até seus dias de glória como escritor e piloto aéreo durante a ascensão de Hitler na Alemanha. O filme ainda narra seu relacionamento com a mãe Nina, uma judia polonesa que almejava um futuro brilhante para o filho.

Um dos erros comuns em cinebiografias que contemplam um período muito longo da trajetória de seu protagonista é que, na maior parte das vezes, a abordagem nunca é devidamente aprofundada, ficando muito superficial devido ao grande material que se quer mostrar. Felizmente, o roteiro do diretor Eric Barbier e sua parceira Marie Eynard consegue escapar desta armadilha ao resgatar situações cruciais para compreendermos as consequências da presença materna super protetora na vida do filho – inclusive psicológicas. A personalidade forte de Nina e o excesso de dedicação e afeto para com o unigênito o impulsionaram ao sucesso, é verdade, mas também marcaria para sempre a existência e a obra de Romain. Com certa comicidade, a relação dos dois chega quase aos delírios, apontando a dependência constante que um tinha sobre o outro.

Com uma ambientação de época impecável (não muito diferente de outros filmes do gênero), Promessa ao Amanhecer  traz também as incríveis performances de Charlotte Gainsbourg e Pierre Niney, em uma química invejável (em especial, é importante ressaltar o desenvolvimento de Pierre, que a cada dia se mostra um ator melhor e mais versátil). Ambos encontram as medidas certas de seus personagens, sem nunca ir além do que é realmente necessário (evitando que suas atuações caiam na cafonice, mesmo em cenas mais histriônicas). Em um determinado trecho, o filho recebe a visita da mãe no quartel e, mesmo entre os deboches dos amigos, Romain retribui o ato com um abraço. Este gesto e a revelação que temos posteriormente, já nos minutos finais da fita, nos dizem muito sobre o ligamento quase simbiótico que se estabelece entre estes dois seres que se amam – e isso transborda da tela para atingir o espectador. Promessa ao Amanhecer é um relato apaixonante sobre o amor materno e o quanto ele é capaz de nos marcar por toda a vida.

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“Frantz”: Mais Uma Obra Certeira do Competente François Ozon

Uma das características mais expressivas de François Ozon é sua capacidade de se utilizar das mais diversas alternativas para contar suas histórias. O cineasta transita por qualquer gênero, porém sempre em busca de seu estilo instigante, com uma certa dose de tensão e suspense que tornam seus filmes, no mínimo, agradáveis. Com isso, é muito comum ouvirmos por aí que Ozon é um diretor “confiável”, que mesmo em seus momentos menos inspirados erra pouco. Todavia, ao acertar, o realizador francês entrega obras interessantíssimas, como 8 Mulheres, Dentro da Casa e seu mais recente trabalho, Frantz.

Ambientado em uma pequena cidade alemã após a Primeira Guerra Mundial, Frantz narra inicialmente o luto de Anna (Paula Beer) pela perda de seu noivo, morto em uma batalha na França. Um dia, ao levar flores ao túmulo de seu amado, Anna percebe a presença de um jovem francês, Adrien (Pierre Niney), soldado que se apresenta como amigo de Frantz durante o período em que este esteve na capital francesa. No entanto, qual seria a real natureza entre o relacionamento de Frantz e Adrien?

A rivalidade entre Alemanha e França é o pano de fundo deste conto – e também é fundamental para o desenvolvimento da película. Adrien, como francês, se torna cada vez mais íntimo de Anna e da família de Frantz, estes alemães. Aos poucos, porém, as revelações (e algumas reviravoltas no roteiro) acabam modificando a relação inicial entre estes personagens – algo que Ozon consegue manipular muito bem, fazendo com que o espectador pense uma coisa quando mais a frente a situação tomará outro rumo.

Com um controle total de sua mise-en-scène, Ozon constrói sua trama adequadamente, com uma estética visual impecável que recria a época e é primordial para a imersão do público. Direção de arte e design de produção são responsáveis pelo contraste entre a fria e quieta cidadezinha alemã e a efervescência parisiana do início do século XX (que acentua, inclusive, o conflito de Anna com relação à sua terra natal). A fotografia em preto e branco remete, em um primeiro momento , às escolhas estéticas de Philippe Garrel (como em seus recentes O Ciúme ou À Sombra de Uma Mulher) ou ao visual de A Fita Branca, de Haneke. Entretanto, ousando quando comparado aos seus colegas de profissão, François ignora algumas regras de seu cinema mais “tradicional”, empregando alguns artifícios pontuais, como a mudança brusca de sua fotografia para o colorido (em alguns trechos, como se trouxesse um ar de nostalgia e esperança aos personagens) ou a sequência em que Frantz aparece vivo em um quadro na parede de um hotel. São recursos que surpreendem o espectador de início, mas que é justificável dentro das expectativas do realizador.

Frantz, apesar disso, é um dos filmes mais “formais” de Ozon. Sério, econômico e sutil, o longa acaba cansando em sua segunda metade, muito prejudicada pela extensão da fita. Ainda assim, dado sua rica cinematografia, Frantz é um trabalho de apreço, uma obra incisiva que trata sobre a culpa do indivíduo e a omissão da verdade, temas contemporâneos que promovem discussões necessárias.