“O Amante Duplo”: Thriller de François Ozon Surpreende Pelo Exagero

Da atual geração de diretores franceses, François Ozon é provavelmente o meu predileto. Eu particularmente sou apaixonado pela total destreza com a qual o cineasta consegue percorrer pelos mais diversos gêneros, fazendo com que em sua filmografia nenhum filme seja igual ao outro. Por este motivo, é sempre com muita expectativa que aguardo a uma nova obra do idealizador e dificilmente saio decepcionado. Com O Amante Duplo não foi diferente: neste thriller psicológico, Ozon transforma uma história banal (e digna de folhetim) em uma surpreendente trama repleta de suspense e erotismo.

Marine Vatch (que já foi protagonista de Ozon em Jovem e Bela) interpreta Chloé, uma mulher que procura a ajuda de um psicólogo, Paul (Jérémie Renier), para tratar das fortes dores que sente em seu ventre e que acredita ser de causa psicológica. Aos poucos, médico e paciente se aproximam e iniciam uma relação, que fica estremecida quando Chloé descobre um segredo do companheiro: Paul tem um irmão gêmeo, também psicólogo, mas com personalidade completamente oposta à sua. Cabe a Chloé agora achar a resposta para a pergunta: qual dos dois é o gêmeo dominante?

É certo dizer que o argumento de O Amante Duplo (que concorreu à Palma de Ouro em 2017) escorrega um tanto em seu mistério (principalmente em sua reta final, quando abraça de vez o suspense), já que, à medida que o filme avança, o enredo se torna mais confuso, carecendo um pouco de objetividade. François compensa essa deficiência, entretanto, com uma mise-en-scène  bastante firme e segura, com referências claras às obras de David Cronenberg e Brian de Palma – com relação a este último, Ozon se apropria até mesmo de um dos artifícios tradicionais de Brian, a tela dividida, para brincar com a questão do “duplo”. Na verdade, o “duplo” parece ser a grande proposta da película e é muito bem manuseado através da fotografia e direção de arte (como no intenso uso de espelhos nos ambientes, por exemplo, ou outros elementos visuais).

Somos surpreendidos, no entanto, com a extravagância de Ozon: propositalmente novelesco, O Amante Duplo é um filme que se assume como tal em muitos aspectos, seja na paleta cheia de cores, nas cenas carregadas de erotismo, nos inúmeros simbolismos, nas acentuadas diferenças entre os dois irmãos (algo quase como “gêmeo bom versus gêmeo mau”) ou, finalmente, no absurdo da trama. Felizmente, estes são itens que poderiam atrapalhar qualquer produção, mas a condução de Ozon (aliada às ótimas atuações do elenco e uma cinematografia caprichada) faz de O Amante Duplo um dos títulos mais interessantes do diretor, mesmo não sendo para todo tipo de público.

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“De Cabeça Erguida”: Drama Social com Catherine Deneuve

De Cabeça Erguida, novo filme de Emmanuelle Bercot, abriu a 68ª edição do Festival de Cannes, em maio deste ano. O longa foi a primeira produção de uma mulher a abrir o evento em 30 anos e, apesar de não ter provocado muito entusiasmo em sua exibição para a imprensa, trata-se de um projeto ambicioso que mistura documental e ficção, resultando um trabalho indispensável na filmografia de seus idealizadores.

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A trama acompanha a vida do jovem Malony, dos 6 aos 18 anos de idade. Com um histórico familiar totalmente desfavorável, Malony se torna um delinquente juvenil com temperamento desequilibrado, dividindo seu tempo entre pequenos crimes e internações em centros de correção e reformatórios, onde cumpre pena por seus atos. Mesmo assim, o adolescente recebe a ajuda de uma juíza e um professor, que lutam e se esforçam a todo custo para salvar o garoto e lhe dar uma nova chance.

Aliás, “chance” é a palavra que melhor se encaixaria na proposta de De Cabeça Erguida. O roteiro basicamente se estende sob as inúmeras tentativas da juíza e o tutor em ajudar o rapaz. Malony comete um delito, recebe uma punição e um novo ciclo se inicia – e isso acontece várias vezes ao longo do filme. Dessa forma, não existe nenhum clímax na história – mas sim pequenos episódios, todos praticamente com essa mesma estrutura.

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No entanto, é interessante notar que, ainda assim, o espectador não se sente entendiado diante da narrativa; pelo contrário: ele se sensibiliza com o protagonista, mesmo detestando seus atos. Talvez isso seja um reflexo direto da atuação competente do novato Rod Paradot, uma explosão de sentimentos em cena. Ele chora, xinga, sente raiva de tudo e todos, esbraveja, tem ataques de histeria – mas desperta a comoção do público, como se quem assistisse quisesse lhe estender a mão, pois sabe que ele realmente o precisa.

A personagem da juíza, no entanto, deixa um tanto a desejar. Interpretada pela musa francesa Catherine Deneuve, sua construção não me pareceu muito firme. Talvez essa lacuna no desenvolvimento dessa persona seja uma forma de manter um certo distanciamento entre ela e Malony – afinal, ela é uma juíza e tem de ser racional, não importam as circunstâncias. Por sua vez, Sara Forestier consegue dar bastante humanidade à mãe do garoto, uma viciada em drogas incapaz de cuidar dos filhos e que não tem a menor noção da realidade perigosa em que ele está inserido. É ela quem ajuda a pontuar na trama a vida destrutiva de Malony: o universo do menino é inteiramente perdido, devastado, sem perspectivas; ele é apenas um produto do seu meio.

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Apesar de ter momentos sombrios, o filme nos propicia sempre uma ponta de esperança – e o desfecho, a cena final em si, tem uma beleza e significado ímpares. Apesar de não ser impecável, De Cabeça Erguida proporciona uma visão crítica da criminalidade na juventude, ressaltando o papel dos educadores na transformação dessas vidas e sugerindo também a importância da família na construção da personalidade do indivíduo. De Cabeça Erguida chega aos cinemas como um filme capaz de gerar bons debates e fazer pensar – em suma, uma produção necessária que há anos não tínhamos.

Piratas do Caribe: Melhor Parar, Não?

Nenhum outro ator é capaz de causar tanto alvoroço nos lançamentos de seus filmes quanto Johnny Depp. Toda a estréia do ator é a mesma coisa: ingressos esgotados dias antes, filas gigantes, expectativa e ansiedade por parte dos fãs. E tudo isso se potencializa quando falamos dos filmes da bem sucedida franquia Piratas do Caribe, que chegou ontem (20) à sua quarta sequencia, com o pouco sugestivo título Piratas do Caribe – Navegando em Águas Misteriosas.

Pra sermos honestos, não há nada novo na história. O longa segue a mesma fórmula de sucesso que consagrou a saga: muita ação, lutas entre piratas, um pouco de mitologia, certa dose de romance e humor. Nada além disso. O único ponto que deve ser considerado é que o quarto filme da saga tem um roteiro bastante independente – o que permite que qualquer alienado que ainda não assistiu aos outros filmes da série entenda a história e se encante pelos personagens. Mas se em Piratas do Caribe – A Maldição do Peróla Negra, primeiro filme da sequencia, é possível se apaixonar de imediato pela história, o mesmo não aconteceria com Navegando em Águas Misteriosas se ele fosse o início da franquia.

Depp e Cruz em cenas do quarto "Piratas do Caribe": romance muito convencional pra Sparrow...

 

Apesar da fórmula já ser conhecida, o filme não é o melhor da série. Já de cara, aviso: Jack Sparrow não vai arrancar tantas risadas quanto nos filmes anteriores. Ele perdeu a graça? Não, até porque isso seria impossível. Mas percebe-se que desta vez o pirata está meio “engessado” – como se Johnny Depp não estivesse tão confortável com a personagem como nos filmes antigos. Depois, o roteiro é rápido – até mais do que os anteriores – , mas não há muita lógica na sequencia. A história poderia ser resumida assim: todo mundo quer a Fonte de Juventude. Mas os motivos não convencem: a mocinha da trama a quer pra salvar o pai; a Espanha a quer pra destrui-la e provar que a vida eterna só estaria nas mãos de Deus; e a Inglaterra a quer porque não quer perder pra Espanha.

Além desses pontos, merece ser mencionado aqui a péssima escolha em retirar Orlando Bloom e Keira Knightley da história. Se era pra ter um casal ruim, deixassem-os lá. Afinal, romance entre clérigo e sereia é, no mínimo, arriscado. E mesmo o romance entre Angélica e Sparrow foi cansativo: Jack ficava em cima do muro por conta do caráter duvidoso da filha do pirata Barba Negra – e, no fim, acabou por fazer o correto: abandonou-a (supostamente grávida) em uma praia deserta.

Religioso e sereia? Então...

 

Claro que alguns pontos no filme são dignos de elogios, a começar pela boa fotografia, que deixa muitos projetos grandes parecerem maquetes do colégio. Geoffrey Rush, mais uma vez, chama a atenção em cena toda vez que aparece com seu Capitão Barbossa (sarcástico, cínico, debochado – e divertidíssimo). Aliás, esse é um dos meus personagens preferidos de Geoffrey (concorrendo diretamente com o protagonista de Contos Proibidos do Marquês de Sade). Depois, vale a pena comentar a atuação de Dep que, não diferente das outras vezes, continua impagável – mesmo com as limitações acima mencionadas.

Geoffrey Rush, pra variar, em uma bela atuação.

 

Não, não há como negar: Sparrow é, indiscutivelmente, um dos personagens mais célebres da história. Poderia arriscar dizer que ele mesmo já virou uma lenda. E não é pra menos: Johnny Depp, mais uma vez, encarna o pirata, aqui dividido entre sua personalidade de pirata e seu amor pela bela Angélica (a suficiente Penelope Cruz, que não foi tudo isso que comentaram). Há até declaração de amor entre o casal (okay, confesso que achei essa sequencia meio piegas, mas enfim…) e a revelação surpreendente de que ela estaria grávida de um filho do pirata – o que aumenta as especulações sobre a história do próximo filme da série. Sim, haverá um quinto filme da série. Talvez até um sexto. Talvez até mais.

Cruz, Depp e McShine: apesar do bom elenco, "Piratas 4" não é o melhor filme da série.

 

Definitivamente, a sequencia Piratas do Caribe se reflete em um só fator: Jack Sparrow. Piratas do Caribe é Jack Sparrow – e Jack Sparrow é Johnny Depp. O próprio produtor do longa, Jerry Bruckheimer, já declarou que a saga só continua se Depp quiser. E Depp quer. O próprio Johnny (que ostenta o título de ator mais bem pago de Hollywood justamente por conta desta franquia) já disse que só irá parar de fazer Jack Sparrow quando o público se cansar – até porque este é, assumidamente, um dos personagens preferidos do ator. Mas será que o público vai se cansar de ver as aventuras de um dos personagens mais queridos nos últimos tempos? No Festival de Cannes, por exemplo, o filme foi recebido sem muito entusiasmo pela platéia.

Particularmente, eu já me cansei. Mas essa é uma questão pessoal. Apesar de reconhecer todos os méritos da saga, confesso que este não é o tipo de filme que me agrada. Mas a franquia Piratas do Caribe deu certo. Simples assim. São poucas as histórias que conseguem tamanho sucesso – tanto que a saga, ao que tudo indica, não tem previsão para acabar. A Disney consegue lucros fabulosos com Piratas do Caribe (leia-se: com Johnny Depp). Resta saber se a Disney terá fôlego pra encarar as próximas produções e criar histórias mais convincentes. E, claro, fôlego pra pagar o cachê de Depp…