O Último Suspiro

Após um terremoto, uma enorme neblina misteriosamente invade Paris, dizimando grande parte da população. Aqueles que moram nos prédios mais altos têm a chance de sobreviver, já que a névoa pára a certa altura, formando uma espécie de teto que toma conta da cidade. Tudo o que resta é esperar por uma solução que parece estar longe de chegar. Neste cenário caótico, o casal Mathieu (Romain Duris) e Anna (Olga Kurylenko) luta pela sobrevivência e a vida de sua filha Sarah, uma jovem que, devido a uma doença genética, fica constantemente confinada a uma câmera estéril.

Dirigido por Daniel Roby, O Último Suspiro  é um daqueles filmes de definição imprecisa. Devido sua narrativa um tanto peculiar, é difícil situa-lo como uma ficção cientifica, um thriller, um drama pós-apocalíptico, uma fantasia ou o que quer que seja. É uma produção bastante moderada, que passa longe de qualquer blockbuster norte-americano, mas que também sofre com uma ausência de profundidade que o impede de se destacar como outros títulos franceses contemporâneos, como o recente A Noite Devorou o Mundo. Assim, O Último Suspiro  não conseguir ir muito além. Apesar das visíveis tentativas em criar um clima de tensão, o roteiro apresenta soluções que pouco convencem – isto sem mencionar o didatismo do mesmo em inúmeras passagens. O que vemos na tela são heróis que muito tentam, mas pouco conseguem fazer efetivamente, em uma corrida contra o tempo que se mostra desestimulante. Ainda que seja uma obra cheia de boas intenções, O Último Suspiro  peca por ficar em cima do muro, sendo prejudicado até mesmo pela falta da megalomania tão comum a outros filmes do gênero.

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François Ozon Aposta na Diversidade e Autodescoberta do Indivíduo em “Uma Nova Amiga”

Claire e Laura se conheceram ainda no colégio e logo tornaram-se amigas. As duas cresceram inseparáveis, dividindo suas experiências da infância à idade adulta. Suas vidas tinham tudo para seguir seu curso normalmente até a morte prematura de Laura, após dar à luz a sua única filha. Devota à companheira, Claire se compromete firmemente a cuidar tanto da criança quanto de David, o viúvo – até o dia em que Claire é surpreendida com um fato completamente novo: David é flagrado vestindo as roupas da falecida. A situação é um tanto quanto “bizarra” – ou, pelo menos, inesperada. Mas aí vem a explicação: o rapaz sempre gostara de se vestir como mulher – e, segundo ele, sua própria esposa sabia de sua preferência, apesar de David ter aprisionado essa “personalidade” durante muito tempo para manter as conveniências do matrimônio. O problema é que com a morte de Claire, essa figura “feminina” interior agora quer se libertar.

01Uma Nova Amiga traz abertamente um tema que ainda é tabu: a questão de gênero. Confesso que fiquei surpreso com a trama (até mesmo porque o trailer pouco revela sobre a história) e logo me recordei de Laurence Anyways, de Xavier Dolan – longa de 2012 que também falava sobre o assunto. No entanto, a abordagem sobre gênero é o único ponto em comum com o filme do cineasta canadense, pois Uma Nova Amiga nos traz alguns elementos que nos remetem vagamente à obra do espanhol Pedro Almodóvar, especialmente na forma como Virgínia (a versão feminina de David) se desenvolve e, aos poucos, toma espaço, se tornando praticamente a personalidade dominante – tanto que chega um instante na fita em que Claire quase se convence de que o melhor meio de David lidar com o luto pela morte da esposa é através de Virgínia, assim como ela mesma, que encontra na nova amiga uma razão para sua existência abalada.

Com uma fotografia competente (cujas cores também nos transportam ao universo de Almodóvar) e uma boa cenografia, Uma Nova Amiga flerta de maneira bastante pontual com vários estilos, desde o drama intimista (como no irreparável prólogo, que apresenta todas as fases da amizade entre Claire e Laura), a comédia e também o suspense – principalmente nas sequências de sonhos eróticos de Claire). Além disso, a trilha sonora contribui muito para o desenvolvimento da narrativa, acentuando o tom dramático através de acordes de piano envolventes. Por sua vez, o elenco cumpre bem sua função: se Anaïs Demoustier é eficientemente sóbria na construção de Claire, Romain Duris é, no mínimo, excepcional, se entregando totalmente à personagem. Sua atuação é bastante expressiva, sobretudo no olhar do ator, capaz de trazer toda ternura tanto a David quanto a Virgínia.

É interessante analisar a capacidade de François Ozon em percorrer os mais diversos temas e gêneros com total desenvoltura. Um dos maiores expoentes do novo cinema francês e um dos mais ativos cineastas contemporâneos (com, no mínimo, uma produção por ano), sua obra não é unânime – o que é compreensível, haja visto o período entre seus projetos. Uma Nova Amiga, por exemplo, está longe de ser o momento mais inspirado do diretor, mas possui uma identidade marcante que o torna um título obrigatório na filmografia do artista. Apesar de faltar ousadia, Ozon não decepciona ao trazer à discussão um assunto ainda polêmico, mas tratando-o com muita delicadeza, valorizando a inocência da transformação de sua personagem principal. Uma Nova Amiga é um filme que celebra brilhantemente a diversidade – e, sobretudo, a autodescoberta do indivíduo.